Arquivo mensal: Abril 2009

Cathy Jordan, dos Dervish, em entrevista exclusiva

30.06.2000
Cathy Jordan, dos Dervish, em entrevista exclusiva ao PÚBLICO
A Cola Invisível Dos Génios

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Admiradores dos Bothy Band, os Dervish consideram-se sobreviventes. Apesar da energia que transmitem numa sala de concertos, garantem que poderiam tocar num “pub” dias a fio, sem se repetirem. Uma cola invisível mantém-los unidos há uma década. O PÚBLICO conversou com a vocalista Cathy Jordan.

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Com dez anos de vida e seis álbuns editados, os Dervish atingiram o topo, proeza que poucos grupos de música tradicional na Irlanda se podem orgulhar. Cathy Jordan explicou ao PÚBLICO as razões deste sucesso, fruto de um trabalho árduo e de uma fidelidade constante às raízes. O novo álbum “Midsummer’s Night” e mais uma actuação, a terceira, em Portugal, no âmbito do Festival Sete Sóis Sete Luas, fizeram aumentar ainda mais o cartel do grupo em Portugal.

FM – Antes de ser convidada para ser a vocalista dos Dervish, que relação tinha com a música?
Cathy Jordan – Canto desde miúda. Toda a gente na minha família canta, pai, mãe, irmãos e irmãs. Nasci numa quinta isolada, na Irlanda rural, e a única distracção que havia era música. Os vizinhos vinham a minha casa, traziam consigo os instrumentos, tocava-se e cantava-se durante toda a noite. A minha irmã estudava num colégio em Sligo e foi lá, numa sessão de música tradicional, que encontrei os músicos dos Dervish.
FM – Conhecia nessa altura os principais grupos irlandese dos anos 70, como o Planxty ou os Bothy Band? O seu estilo vocal lembra, por vezes, o de Triona Ní Dhomnaill, dos Bothy Band…
Cathy Jordan – Tomo isso como um cumprimento. Eu não diria que canto como ela mas admito que tanto os Dervish como muitas outras bandas irlandesas nunca teriam existido se os Bothy Band não tivessem existido. Eram génios que revolucionaram por completo os arranjos da música tradicional, introduzindo-lhes instrumentos como a guitarra, o bouzouki ou o mandocello.
FM – Quando uma das tendências actuais mais fortes é a produção de fusões de toda a espécie, os Dervish mantêm-se relativamente próximos da ortodoxia…
Cathy Jordan – Poderíamos tocar música tradicional irlandesa na atmosfera de um “pub” durante horas a fio, durante dias, e nunca repetir um tema. É o que gostamos de fazer e é o núcleo central do nosso trabalho. Não queremos mudar por mudar. Se a música é suficientemente boa num “pub” é porque é, de facto, boa. Tocamos os temas na sua forma mais tradicional, com o violino e o acordeão fiéis ao original. É ao nível do acompanhamento que adaptamos ou modificamos a estrutura dos acordes e dos ritmos.
FM – Essa tradição genuína continua viva na Irlanda?
Cathy Jordan – Com certeza. Viva e de boa saúde. Existem milhares de músicos na Irlanda que passam essa tradição de geração para geração.
FM – Continua a ouvir os velhos cantores?
Cathy Jordan – Absolutamente! São os professores. Um dos primeiros músicos irlandeses a gravar um disco, nos anos 20, era de Sligo, o violinista Michael Coleman. Todos os actuais músicos de Sligo olham para ele como um génio. A um nível técnico, nenhum outro músico conseguiu até hoje igualá-lo.
FM – Na sua primeira apresentação em Portugal, no Festival Intercéltico do Porto, actuaram ao lado dos Déanta. Eles desapareceram depois disso, enquanto os Dervish não pararam de crescer e de conquistar prestígio. A competição é de tal forma forte que os mais fracos ficam pelo caminho?
Cathy Jordan – Essa competição existe. Mas quando começámos, no início dos anos 90, havia apenas os Chieftains, os Altan existiam há cinco anos… Foi uma época sem qualquer “boom” da música irlandesa, ao contrário do que se verifica hoje. Não havia então uma competição forte mas também não havia grandes incentivos. Trabalhámos arduamente, tivemos que comprar o nosso próprio autocarro e formar a nossa própria editora. Foi um processo gradual. Quando chegámos a um degrau mais alto da escada começaram a aparecer uma quantidade de outras bandas que viram o que nós tínhamos feito e evitaram cometer os mesmos erros que nós cometemos. Essas bandas atingiram o mesmo nível que nós em menos tempo.
FM – Que erros foram esses?
Cathy Jordan – Bem, nos negócios, sobretudo nas relações com as editoras, na promoção e “marketing” dos discos. Quando começámos nenhuma editora se interessou por nós. Ninguém queria arriscar na música tradicional irlandesa. Hoje é diferente, as novas bandas têm facilidade em assinar contratos. As companhias pressionam-nas desde cedo a participar em festivais e a verdade é que ganham rapidamente bastante dinheiro. Nós estamos juntos há todo este tempo – ao fim de dez anos é preciso que haja uma cola invisível que permita a qualquer grupo sobreviver – e só agora começámos verdadeiramente a ter alguns lucros. Ao ponto de pensarmos financiar alguns projectos, como compormos música para uma mini-série de televisão, na Irlanda, e fazermos um vídeo sobre o grupo.

Do “pub” para o auditório

FM – Não é costume as bandas irlandesas durarem tanto tempo. A regra é os músicos saltarem de um projecto para outro…
Cathy Jordan – Sim, mas se já conseguimos chegar tão longe, achamos que é possível continuar. Seria interessante verificar quantas das bandas hoje em actividade conseguirão sobreviver nos próximos anos… algumas delas fantásticas, como os Danú ou os Lúnasa. Mas vai ser difícil. Se conseguirem ultrapassar os primeiros cinco anos e gravarem pelo menos três álbuns, então sim, talvez consigam… Mas há quem fique cego ao tocar para grandes audiências. Depois há as contas para pagar. Não chega ser-se bom músico, também é preciso tratar dos negócios. Os Bothy Band ou os Planxty não ganharam um “penny” enquanto existiram! Por outro lado, quando se assina por uma grande editora, surgem pressões, como aconteceu com os Altan.
FM – É possível uma banda como os Dervish sobreviver sem sair do circuito da Irlanda e entrar no circuito europeu?
Cathy Jordan – Não como uma banda. Pode fazer-se carreira mas apenas como músicos de sessões. Uma banda não tem qualquer hipótese. Nós podemos dar 150 concertos por ano e apenas dois ou três são na Irlanda. Embora haja hoje mais dinheiro na Irlanda do que havia antes, escasseiam as salas de concerto e há uma falta de interesse. Para a maioria das pessoas não faz sentido pagar para ver uma banda tocar numa sala de concertos se pode ouvir esta música de graça num “pub”. Não vêem a diferença entre o músico que toca à esquina da rua e a banda que actua num auditório – é tudo “deedle-didle-dee” [fonética aproximada…]. É uma pena, porque algumas dessas pessoas, que se “arriscaram” a pagar bilhete para nos ver actuar numa sala, ficaram espantadas e deliciadas com o poder e a energia, com algo a que nunca assistiram antes.
FM – “Midsummer’s Night” é um álbum “clássico”. Não a preocupa que o grande público, para quem a música irlandesa não passa de uma moda, possa perder o interesse pelo grupo, até porque os Dervish não condescendem em alterações radicais da sonoridade?
Cathy Jordan – “Midsummer’s Night” foi o primeiro álbum que gravámos com a formação actual de sete músicos, o que aumentou o leque de opções dos arranjos. As possibilidades tornaram-se infinitas. Temos uma base de dados com o nome de cerca de 15 mil fãs, de todo o mundo. É claro que as pessoas que compram os nossos álbuns è espera de ouvir rock abandonarão de imediato o grupo. Mas se o nosso objectivo principal fosse agradar às grandes audiências nunca teríamos optado por tocar música tradicional! É verdade que existe hoje uma moda mas nós já cá estávamos antes dela aparecer e tudo aponta para que continuemos depois de desaparecer.

Anja Garbarek – Balloon

16.07.1999
Anja Garbarek
Balloon (7)
RCA, distri. BMG

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LINK
pwd: ultimovicio

Não há que enganar, Anja é mesmo filha de Jan Garbarek, o saxofonista norueguês que começou pelo jazz, derivou para a “new age” e acabou por despejar o açucareiro nos insuspeitos Hilliard Ensemble. E se é verdade que filho de peixe sabe nadar isso não significa que nadem no mesmo estilo. Anja mostra neste seu álbum de estreia estar ao corrente de algumas correntes em voga, distribuindo a sua voz fora do vulgar por um classicismo inspirado em Mathilde Santing, um ambientalismo pastoril regado no jardim de Virginia Astley, a infantilidade simulada de uma Stina Nordensteem e o mesmo culto da originalidade, trabalhada em laboratório, de Björk. Se no tema inicial a voz de Anja sugere a segurança e o mistério de Mathilde Santing, logo a seguir, em “I.C.U”, a cantora norueguesa procede à desmontagem do hip-hop, colorindo-o com uma orquestra de cordas em pano de fundo e uma vocalização onde Anna Homler, Laura Anderson e um anjo de Boticelli se confundem. “Picking up pieces” e “The Cabinet” aliam a herança estética do hip-hop com um experimentalismo sem fronteiras. O primeiro é uma união de “loops”, barulho de máquinas e uma emissão de rádios em ondas-curtas, com Holger Czukay no horizonte. O segundo abre-se em claustros de murmúrios e reverba, lembrando uma banda como os Double-X-Project que volta a intrometer-se no mais jazzístico “She Collects (Stuff Like That)”. “Strange Noises” agradará aos adoradores de Meira Asher e “The Telescope Man Says” leva Virginia Astley num foguetão até uma estação espacial, na mesma órbita do tema final, “Balloon Moon”, lá muito no alto.

Whistlebinkies – Timber Timbre (conj.)

09.07.1999
World

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LINK (Anniversary)

Verdadeira instituição no seu país, os Whistlebinkies cumprem, pela enésima vez, o papel que já interiorizaram, os dos Chieftains da Escócia, com “Timber Timbre”, um álbum de nuances delicadas onde os sets de dança alternam com ambientes de introspecção, respectivamente personificados pela gaita-de-foles de Rab Wallace e a harpa de Judith Peacock, ao longo de onze temas irreprensivelmente executados e produzidos. Um dos focos de interesse de “Timber Timbre” é a voz de Judith Peacock, cuja frescura, num tema como “The Sailor’s Wife”, nos faz recuar ao prodigioso “Old Hag You Have Killed Me”, dos Bothy Band, e às vocalizações de fada de Triona Ní Dhomnaill. (Greentrax, distri. MC – Mundo da Canção, 8)

Outra das vozes da música tradicional britânica que continua a fazer história é a de Maddy Prior, cuja obra a solo deixou, finalmente, de se desenrolar em paralelo com a dos Steeleye Span, não participando já no último álbum do grupo, “Horkstow Grange”. “Ravenchild” reforça a tendência da cantora para assinar álbuns conceptuais, com a inclusão de duas “suites”, “With Napoleon in Russia” e, sobretudo, a mais longa “In the Company of Ravens”, ciclo de canções em torno da simbologia do corvo, onde é posto em evidência o ponto de maturação a que chegou a sua voz. Entre diversos momentos de excepção, destaca-se “Rigs of the Time”, um clássico, ao nível dos melhores temas se sempre interpretados pela cantora, que tanto evoca a solenidade da sua antiga parceira, June Tabor, como a classe pura de Martin Carthy, que, curiosamente, gravou um álbum com este nome. “In The Company of the Ravens” é uma história a várias vozes que vai da balada clássica acompanhada ao piano até ao tom Grace Slickiano de “Young Bloods”, passando pelo “prog folk” de “Rich Pickings” e a pausa “new age celtic” de “Dance on the Wind”. (Park, distri. Megamúsica, 8)

Kathryn Tickell tem o rosto, o corpo e a música mais sensuais da folk actual. Ainda para mais, desde “On Kielder Side”, só grava obras-primas, como “The Gathering” e “The Northumberland Collection”. “Debatable Lands” volta a fazer-nos babar de prazer. Confessamos a nossa fraqueza: não conseguimos resistir a esta mulher que toca gaita-de-foles e violino como uma deusa e que, recentemente, destroçou mais do que um coração (o nosso há muito que está reduzido a cacos) no festival Multimúsicas realizado em Lisboa. Que fazer quando a perícia e sensualidade de execução nas “Northumbrian Pipes” nos esmaga, o que acontece logo no tema de abertura, “the wedding / Because he was”? “Our Kate” (quem nos dera, suspiro…) provoca suores frios, tal a graça da melodia e a delicadeza com que Kathryn a executa. O violino é uma fonte de carícias, em “Road to the North / Hanging Bridge / All at Sea”, o mesmo acontecendo ainda no mesmo “set”, com a gaita-de-foles, antes de ser abruptamente despertada pelo acordeão de Julian Sutton. Não nos responsabilizamos pelos espasmos que as “pipes” possam causar, em “The magpie” e “Stories from Debatable Lands”, da mesma forma que achamos negativa toda e qualquer dependência que esta música possa provocar. O álbum termina com uma segunda versão de “Our Kate”, mais uma massagem erótica das “pipes”. Mas elea faz de propósito, ou quê? (Park, distri. Megamúsica, 9)

Eram umas moçoilas do campo, mas a fama transformou-as num grupo de profissionais da “world-music”. Falamos das norueguesas “Varttina”, que também actuaram no festival Multimúsicas, onde foram comparadas a Madonna e às Spice Girls, salvaguardadas as devidas distâncias, é claro. “Vihma” soa melhor que a sessão quasi-tecno de Lisboa, embora seja evidente que o quarteto vocal se está a afastar cada vez mais das raízes, ainda que as melodias mantenham o traço tradicional e o timbre das vozes conserve o típico “vibrato” rural. Entre a ânsia de fazer dançar a todo o custo e a simplicidade da maior parte dos arranjos, “Vihma” respira melhor em baladas como “Emoton”, “Uskottu ei Uupuvani” e “Aamu”. As concessões das Varttina podem desagradar a alguns – na verdade, apenas o tema final, “Vihmax (Vihma Remix)”, uma descarga redundante de “etno tecno”, descamba na facilidade sem contrapartidas – mas é impossível escapar à alegria que a sua música e as suas interpretações transmitem. Estas raparigas são fogo. (Ed e distri. BMG, 7).

Os La Bottine Souriante (nas fotos em cima) já actuaram duas vezes em Portugal, a última delas no festival Cantigas do Maio, no Seixal. Como as Varttina, também estes canadianos transbordam de alegria, quer ao nível do reportório quer da vivacidade das execuções. A diferença está em que, no seu caso, tudo soa mais espontâneo, como uma festa onde a música tradicional é a forma mais rápida para fazer as pessoas felizes. Em Rock & Reel”, versão actualizada e com nova distribuição do álbum do ano passado editado no Canadá com o selo Mille-Pattes, os “reels” do Quebeque rolam rolam como o de locomotiva, os jigs saltam como aguardente na garganta (“Ami de la boteille” é um verdadeiro hino a Baco), a secção de metais é um lança-chamas de “swing”, enquanto as canções francófonas exalam o charme que lhes confere o característico sotaque do Quebeque. Folia garantida! (Hemisphere, distri. EMI-VC, 8).