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Cristina Branco – Álbum de Fado Não Faço – Entrevista –

28.01.2005
Cristina Branco – Álbum de Fado Não Faço
“Ulisses” é o fruto de uma mulher inquieta que, álbum após álbum, vem procurando centrar-se no seu destino. Ou seja, como ela aqui diz, o fado pode esperar.

O fado ninguém sabe bem o que é. Anda toda a gente a ditar leis sem saber do que está a falar. O percurso dentro da música popular portuguesa tem raízes mais fortes.

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São viagens interiores, um percurso em várias direcções que levou Cristina Branco do fado para a canção popular urbana e, nesta, até à recriação de cantautores como Fausto, José Afonso, Vitorino e Joni Mitchell, e à interpretação das palavras de David Mourão-Ferreira, Camões, Júlio Pomar e Paul Éluard, entre outros.
Cristina Branco não procurou a unidade mas a liberdade, e é este o tema que atravessa cada uma das notas e canções de “Ulisses”, o seu mais recente álbum. Um disco de adequação a uma música mais “tranquila” que o fado mas também de “desconcertação”, de mergulho no caos e de procura de sentidos que o expliquem. A voz é cristalina, rica em “nuances”, mas o estado de espírito que presidiu à criação nem sempre foi o mais luminoso. “Ulisses” é o fruto de uma mulher inquieta que, álbum após álbum, vem procurando centrar-se no seu destino. Não há razões, apenas uma vontade e uma escolha de autores que não foi inocente. E um porto de abrigo, Ítaca, o seu filho, Martim. Ela diz: “Perdi-me tantas vezes neste caminho, foi tão difícil retomar o rumo, acreditar outra vez… erguer-me de novo depois de desistir… até chegar a Ulisses”. O fado pode esperar.

FM – Desta vez aconteceu mesmo o que já ameaçara. “Ulisses” é uma despedida do fado. Um passo demasiado arriscado?

Cristina Branco – Os passos são sempre arriscados, desde o primeiro disco. Nunca fui de cantar aquilo que os outros me aconselham a cantar. Canto apenas aquilo que me apetece. Não senti que estivesse a correr qualquer risco.

FM – O que lhe apeteceu, exactamente?

Cristina Branco – Cantar noutras línguas, as músicas de que gosto. Apeteceu-me ir à procura de outros caminhos, daí o piano…

FM – Houve quem dissesse que em cada disco seu é deixada uma pista para o seguinte…

Cristina Branco – Há pistas, mas não são postas lá deliberadamente. Em “Sensus” havia “O meu amor”, com contrabaixo, que já não tinha nada de fado. Mas se pensarmos apenas nesses termos, então o próximo disco será de música electrónica (risos)!…

FM – Está a pensar no tema que fecha o novo disco, “Fundos”, com aquela batida de “drum ‘n’ bass”?

Cristina Branco – Uma maluqueira! Fizemos som com esse tema, sobre aquela base. No fim, quando já tinha gravado todas as partes vocais, o Náná, o técnico de som, chamou-me e perguntou-me o que é que eu podia fazer com aquilo, qualquer coisa engraçada. Eu pus-me a fazer aqueles arabescos. Quando os franceses da Universal ouviram, gostaram e decidiram que ficaria para última faixa.

FM – Começou por ser “arrumada” no grupo das novas fadistas. Com este disco transitou para o de cantoras como a Amélia Muge ou a Filipa Pais. Tem consciência disso?

Cristina Branco – É um universo que tem amais a ver comigo. É uma música que me deixa mais tranquila do que o fado.

FM – Mais tranquila como?

Cristina Branco – É uma expressão muito minha. Dá-me tranquilidade, parece-me uma herança mais justa do que o fado. O fado ninguém nunca sabe muito bem o que é. Anda toda a gente aí a ditar leis sem saber do que está a falar. O percurso dentro da música popular portuguesa é muito mais seguro, com raízes mais fortes.

FM – Em “Ulisses” canta com um sotaque brasileiro, em castelhano, francês e inglês… Muitas línguas para um disco só…

Cristina Branco – São muitas línguas para uma miúda tão pequenina (risos). É uma viagem. O português do Brasil tem uma explicação [“Sonhei que estava em Portugal”] muito técnica. Cantei o poema em português sem sotaque e soava horrível, foneticamente. Tenho cantado sempre sem sotaque temas brasileiros mas neste caso não resultava. O castelhano foi usado em “Alfonsina y el mar”. Neste disco há espelhos, reflexos, dualidades. “Alfonsina” fala do suicídio e isso sim, tem a ver com o nosso fado, a história da saudade. É um tema lindo de morrer. Vocês críticos estão sempre a perguntar porquê, porque é que esta gaja lhe deu na tola para fazer isto! Há muitas coisas que não têm explicação racional. Se calhar queria uma resposta mais filosófica…

FM – O Paul Éluard?

Cristina Branco – “Liberté”. É um tema incontornável da língua francesa. Independentemente disso, o poema tem cores magníficas. Este álbum era suposto ser sobre a liberdade, nem sequer era para se chamar “Ulisses”. Pretendi fazer um disco sobre a liberdade. Mas algumas divergências com os franceses da editora fizeram que saísse assim. Eu estava no pós-parto, não me apetecia aturar aqueles gajos, “deixem-me em paz”, deixei estar… Mas o “Liberté” tem muito a ver comigo, tem também a ver com uma época do nosso país que foi extremamente vivida, à qual não pertenço mas felizmente tenho pais que me deixaram essa herança, que me explicaram bem qual o valor da liberdade. O álbum é controverso também porque me apeteceu contrariar aqueles senhores que queriam que fizesse um álbum de fado. Disse-lhes: “álbum de fado não faço!”.

FM – Houve muitas pressões nesse sentido?

Cristina Branco – Não houve pressões… mas eles achavam que era o momento indicado para gravar um álbum de fado, quando eu já tinha tudo preparado para fazer dois discos, um com autores estrangeiros, outro com portugueses. Seria talvez demasiado megalómano, mas já tinha tudo preparado, antes de ter o meu filho. Depois foi o caos, fiquei completamente perdida. E isso também está neste disco.

Desorientação – daí estas direcções todas?

Cristina Branco – Claro!

FM – Mas no estrangeiro, independentemente do nome da artista, não querem acima de tudo ouvir fado?

Cristina Branco – Pelo contrário. As pessoas que vêm aos meus concertos, vêm ouvir-me a mim. É claro que antes as coisas não funcionavam assim, o meu concerto era vendido como um concerto de fado. Hoje é a Cristina Branco e acabou. As pessoas que ainda associarem o meu nome ao fado estão enganadas.

FM – Ainda há as guitarras…

Cristina Branco – Sim, e essa ligação manter-se-á. A sonoridade da guitarra é muito importante para aquilo que faço.

FM – Há quem diga que a sensibilidade, a emoção com que canta em “Ulisses” é a mesma do fado, mas então…

Cristina Branco – … tudo seria fado! O que não é verdade. Houve mesmo quem dissesse que “A case of you”, da Joni Mitchell, era “fado urbano”!…

Cristina Branco – Chegámos, pois, à Joni Mitchell. Aqui o passo foi mesmo arriscado…

Cristina Branco – Tem um percurso semelhante ao meu, a vários níveis. Ela fala da vida como eu a interpreto. E há muitas particularidades na vida dela que se assemelham à minha. Por exemplo, estar sempre à margem da popularidade, ir sempre pelo caminho que acho ser o correcto. Conheço a Joni Mitchell desde pequenina. “A case of you” é uma das canções mais especiais dela. Toda a gente canta o “Both Sides Now” ou o “Black Crow”, mas “A case of you” tem a ver com o caos e a decadência.

FM – Porquê essa preocupação com o caos e a decadência?

Cristina Branco – Porque tenho que compreender, para continuar, para seguir em frente. Enquanto de vive dentro de uma bolha, no meio do caos, consegue-se sobreviver, deixando que as coisas aconteçam. A vida está bem. Mas fazer um disco como este obriga a entrar no caos e a tentar perceber, a tentar resolver algum caos interior. Entro dentro dos autores que canto…

FM – Vitorino, Fausto e José Afonso são três desses autores em que entrou.

Cristina Branco – A letra do Vitorino, de “Navio Triste”, foi escrita de propósito para este disco. “Porque me olhas assim” é uma das baladas de amor do Fausto, aquele seu outro lado, para mim o mais sedutor. É costume olharmos para o Fausto como um cantor de intervenção, com aquele ar muito “José Mário Branco”! Não é nada! É um génio que gosta de viver naquele caos, com um lado muito bonito.
O José Afonso é uma paixão. Quando há aqueles concertos de homenagem, onde estão presentes os meus cantores de eleição, vou sempre ouvi-los. As músicas do Zeca têm algo que já não acontece mais e não sei se voltará a acontecer, que é a simplicidade aliada a uma genialidade indescritível. “Redondo vocábulo” é, de novo, e assumidamente, sobre o caos, todas as imagens que passam por dentro cada vez que nos encontramos num momento de desespero.

FM – Depois há Camões, Vasco Graça-Moura, José Luís Gordo, Júlio Pomar, Mourão-Ferreira…

Cristina Branco – O Vasco Graça-Moura também escreveu de propósito o “Cristal”~para “Ulisses”, bem como José Luís Gordo, com o “Sete pedaços de vento”. Mourão-Ferreira é incontornável, tem que aparecer sempre. Aquilo que tem de simples, tem de genial, tudo o que está por detrás das palavras… Vou sempre descobrindo coisas novas. É o meu Ary dos Santos! O “Circe”, do Júlio Pomar, foi ele que me pediu para cantar uma coisa dele, na festa de lançamento de um livro, com a música feita em tempo “record”. O tema é o amor mais sensual, como é o de “Sensus”.

FM – E há “Gaivota”, o único fado de “Ulisses”…

Cristina Branco – Muito antes de me oferecer um disco da Amália, o meu avô, que gostava muito de ler e de música, mostrou-me esse poema e leu-mo. Quando o ouvi pela primeira vez cantado, já o meu avô tinha desaparecido, foi “chocante” sentir a ligação entre a música e as palavras como me tinham sido lidas.

FM – Entre todas estas viagens, há alguma direcção que se sobreponhas às outras?

Cristina Branco – É o meu disco mais pessoal, o disco das minhas vontades. Ao contrário dos outros, este não é inocente. Por muito confuso que seja, por mais confusão que cause às pessoas, sobretudo as que vão escrever sobre ele (risos), é mesmo assim, a minha desconcertação interior. Não sei se todos os poemas convergem para o mesmo centro ou se divergem para sentidos diferentes.

FM – É o primeiro disco seu editado no formato Super Áudio CD. Teve alguma influência nesta matéria?

Cristina Branco – Sim, apeteceu-me que as coisas soassem todas grandes. Som de filme. E as fotografias da capa pertencem todas à sessão de “Sensus”. Também me recusei a fazer fotografias. Convivo muito mal com a minha imagem. Odeio fazer televisão, tirar fotografias. Não gosto de me ver. E depois de ter o filho, estava zangada, não me apetecia fazer nada. Ainda pensei em pedir ao Júlio Pomar para me fazer uma capa, até porque uma parte da obra dele é dedicada ao Ulisses e às sereias, mas depois ambos concluímos que não era por ali, o formato é muito pequeno, não iria revelar nada da sua obra nem sobre mim.

FM – O nascimento do seu filho foi importante na génese de “Ulisses”?

Cristina Branco – Sim, enquanto nómada que sou, não há um sítio geográfico que eu defina como minha casa. A minha Ítaca é, definitivamente, o Martim, o meu filho.

Cristina Branco – A Exploradora Que Às Vezes Viaja Pelo Fado

25.03.2005
Cristina Branco – A Exploradora Que Às Vezes Viaja Pelo Fado

LINK (“Sensus”)

Chegou a causar polémica a questão de se saber se Cristina Branco é fadista, cantora de fado ou nem uma coisa nem outra mas simplesmente uma cantora que também gosta de cantar fados. O imbróglio iniciou-se com os primeiros discos, como “Post-Scriptum”, quando Cristina tinha sede exclusiva da sua carreira na Holanda. Era então uma “fadista” exilada que no seu próprio país era encarada com certa estranheza.
Os últimos trabalhos, porém, baralharam a questão. “Corpo Iluminado” e, sobretudo, “Sensus”, inspirado na poesia erótica, mostravam já uma voz e uma sensibilidade adultas que de modo algum se confinavam ao universo do fado. “Ulisses”, o novo álbum, que apresenta amanhã no S. Luiz, em Lisboa (esta semana, ainda, quinta-feira em Aveiro), consuma a ruptura. Apenas um fado, “gaivota”. Todo o restante alinhamento respeita um outro roteiro de referências que passam pela música popular urbana. Em “Ulisses” Cristina Branco recusa terminantemente o epíteto de “fadista”. Não é um álbum de fados nem de fado mas um alinhamento, cuja lógica secreta apenas a sua intérprete detém, que inclui as assinaturas de Fausto, Vitorino, José Afonso e… Joni Mitchell. Custódio Castelo, como é hábito, completa musicalmente a maior parte do disco, com a sua guitarra portuguesa e uma inspiração que vai buscar inspiração ao fado, a Paredes, à música árabe e a outras tradições algumas delas existentes apenas dentro da sua cabeça. Cristina Branco dá voz e alento a visões poéticas construídas com as palavras de Camões, Vasco Graça-Moura, José Luís gordo, Júlio Pomar, David Mourão-Ferreira e Paul Éluard.
Os velhos do Restelo ficam com os cabelos em pé, perante tanta e tamanha diversidade. A esses Cristina Branco faz ouvidos de mercador, prosseguindo um caminho que ela própria não sabe onde desembocará mas que forçosamente será da sua inteira e exclusiva responsabilidade. “Ulisses” é o disco das “vontades” e dos “desejos” da cantora, quase mimando os caprichos da mulher grávida, situação que viveu de facto e foi determinante na economia emotiva de “Ulisses”. “Ulisses” é o filho de uma cantora que não quer ver barreiras na linha de horizonte mas cujos pontos de exclamação são, ao mesmo tempo, pontos de interrogação. São vários os sentidos. Os sentidos que sentem, os sentidos que são setas, os sentidos que são dor. Os sentidos que também são línguas. Além do português, o sotaque brasileiro, o castelhano, o francês (na “Liberté” de Paul Éluard) e o inglês (em “A Case of You” de Joni Mitchell) são os idiomas usados em “Ulisses”, como ferramentas de um trabalho de exploração e descoberta. Poderiam parecer sinais de inquietação (e também são…) mas, mais do que sinais, são a carne e o espírito de canções provenientes de muitos mundos que Cristina Branco quer experimentar e transforma em verbos conjugados na primeira pessoa. Experiências alheias que se tornam suas. E no palco, a experiência amor e mais arriscada: a recusa de máscaras e a exposição nua no quadro da sua própria interioridade. Cristina Branco, por mais longe que a sua personalidade vá em busca de novas vivências, é sempre Cristina Branco. A exploradora. Que às vezes, quando o seu coração passa por lá, até canta o fado.

Cristina Branco
Sábado | 26
Lisboa | Teatro Municipal de S. Luiz
R. Antº Maria Cardoso, 38-58. Às 21h00. Tel.: 213257650. Bilhetes: €19,5 a €25,5. Na sala principal.
Quinta | 3
Aveiro | Teatro Aveirense
Pç. República. Às 21h30. Tel.: 234400920. Bilhetes: €17,5 (plateia); €15 (balcão)

Novas Fadas – Kátia | Ana Sofia | Cristina | Mafalda | Joana

20.07.2001
Novas Fadas
Kátia | Ana Sofia | Cristina | Mafalda | Joana
Cinco vozes fabulosas, cinco herdeiras de Amália que dela assimilaram a força interior e para além dela apresentam originalidade, e nuances de um brilho que é também mistério.

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A história começa há muitos anos atrás, perdendo-se na noite dos tempos. Mas veio Amália e ficou a perceber-se melhor o que era o fado – um astro de duas faces, noite e dia, que nela se confundiam num só rosto. Esfinge. O século XX foi o século de Amália. Havia Amália, a sua voz, os seus discos, os seus espectáculos, a sua presença ofuscante. Sobrava pouco para os restantes.
Com o desaparecimento físico de Amália Rodrigues, por coincidência ou por ditame do destino (o que vai dar ao mesmo), outras vozes femininas despontaram. Vozes fabulosas. Tão orgulhosas de si e da sua diferença como humildes no reconhecimento do que Amália representou na escolha que também elas fizeram, de seguir essa “estranha forma de vida”, bem como na sua afirmação como fadistas.
Escolhemos, para ilustrar o presente radioso do fado cantado no feminino, cinco nomes: Mafalda Arnauth, Cristina Branco, Kátia Guerreiro, Ana Sofia Varela, Joana Amendoeira. Outras há: Mariza, Teresa Tapadas, Maria Ana Bobone. Mas aquelas cinco possuem um toque e um brilho especiais. O toque na essência do fado e a versatilidade da alma que se incendeia a este toque.
Dez anos separam a mais velha, Cristina Branco (28 anos), da mais nova, Joana Amendoeira (18 anos). Mafalda Arnauth tem 26, Kátia Guerreiro, 25, Ana Sofia Varela, 24. Encontram-se em fases distintas. Cristina Branco, cuja carreira tem vindo a ser construída na Holanda, já leva cinco álbuns gravados, o último dos quais, “Corpo Iluminado”, é o primeiro com distribuição nacional, pela Universal. Custódio Castelo, guitarrista de notáveis recursos, tem sido o seu tutor artístico. José Fontes Rocha, Jorge Fernando, Joel Pina e Miguel Carvalhinho, guitarristas e violistas históricos, participam como convidados.
Mafalda Arnauth, uma das novas vozes apadrinhadas por João Braga, depois de um álbum de estreia, “Mafalda Arnauth”, há dois anos, com produção de João Gil, projecta-se a grande altura no novo “Esta Voz que me Atravessa”, ainda no selo EMI, com a produção da dupla Amélia Muge e José Martins. Kátia Guerreiro, em quem chegámos a ver uma sósia de Amália, no espectáculo de homenagem à diva que a deu a conhecer ao grande público, publicou o seu disco de estreia, “Fado Maior”, na Ocarina. Com Paulo Parreira, na guitarra portuguesa. Embora mais nova, Joana Amendoeira já tem dois discos na Espacial, “olhos Garotos”, de 1998, e “(Aquela Rua)”, do ano passado. Custódio Castelo toca guitarra no último. A produção pertence a Jorge Fernando. Ana Sofia Varela só lançará o seu álbum de estreia em Setembro, pela Popular. Para já, o CD-single de apresentação conta com a participação de músicos como Mário Pacheco, José Moz Carrapa e Zé Nabo.
Qualquer destes discos tem outra particularidade – uma apresentação notável, evidenciando o cuidado na apresentação de um modelo estético que enobreça o objecto musical. São rostos e corpos “iluminados”, parafraseando o título do álbum de Cristina Branco. Tão iluminados como as vozes a que pertencem.
Grandes vozes, belas imagens, compositores, poetas e músicos de nomeada.
Vão lançadas. Mas Amália continua a ser o lampião, na rua escura, que as ilumina.

Sem Fantasmas
Depois de Mara Abrantes (que cantou aos três anos), José Barata Moura, “as músicas dos desenhos animados”, Rui Veloso, Trovante e músicas tradicionais, do Norte, do Minho e da Beira, de onde os seus pais são naturais, Mafalda Arnauth cantou fado pela primeira vez antes de entrar para a faculdade. Não pela voz de Amália mas pela de Teresa Salgueiro, dos Madredeus, onde sentiu “aqueles requebros” do fado. Depois o “Cheira bem, cheira a Lisboa”, que cantava nas “festinhas”. Nunca pensou em abraçar o fado como carreira. Mesmo quando a sua interpretação de “Foi Deus”, no seu primeiro espectáculo “oficial”, no Teatro São Luiz, em Lisboa, juntamente com outras novas vozes que então despontavam sob o patrocínio de João Braga, se destacou como um dos momentos mais arrebatadores da noite. Mudou entretanto de atitude. Hoje interiorizou essa tal estranha forma de vida, “sem fantasmas”, mas também “sem ter tempo para férias, nem para jantares, nem para encontros com amigos”, porque o fado é uma prioridade.
Cantou, de Amália, “Fadista Louco”, “triste Sina”, tudo fados “que não eram muito comuns e que Amália tivesse privilegiado”. Mas também “Maria Lisboa” e, claro, “Foi Deus”. Nos espectáculos continua a cantar “Sabe-se Lá”. Reconhece: “Nenhuma de nós, aos vinte e poucos anos, pode pensar competir com um percurso de vida como o de Amália.”. Amália já cá não está. “As pessoas já não dizem: lá vem mais uma pessoa para a substituir”. “É preciso ter humildade e a noção das coisas”, diz Mafalda, para quem não há “testemunhos a passar”.
Além de Amália, Mafalda gosta de João Ferreira Rosa, Beatriz da Conceição, Maria da Nazaré, Mariana Alcoentro. Dos novos destaca Camané – “preenche o tal arrepio que é fundamental no fado”. Poetas: Manuel Alegre, David Mourão-Ferreira, Sophia de Mello Breyner…
E ela, Mafalda, que fadista sente ser? “Sanguínea”. “Quero transmitir às pessoas primeiro aquilo que sinto, depois aquilo que componho, e já aqui se perde algo, e a seguir aquilo que chega ao público, o que ele está a ouvir. Neste processo o que me dá mais agonia é tentar saber como vou fazer a minha alma chegar
às pessoas”. Mais agonia ou menos agonia, Mafalda Arnauth pode estar tranquila – a sua alma chega às pessoas.

Iluminações
Cristina Branco tem o “Corpo Iluminado”, título do seu mais recente álbum, depois de “Cristina Branco in Holland” (1997), “Murmúrios2 (1998), “Post-Scriptum” (1999) e “Cristina Branco Canta Slauerhoff”. Natural de Almeirim, foi na Holanda que a sua música começou por encontrar maior aceitação. Situação que o novo disco parece querer alterar.
Cantou fado pela primeira vez aos 22 anos, em Benfica do Ribatejo, numa festa de amigos. O “Ai Mouraria”, de Amália, que conhecera quatro anos antes, através do álbum “Rara e Inédita”. Estreou-se como profissional um ano depois, na Holanda, numa sala de Amsterdão “onde já tinham estado José Afonso, a Amélia Muge…”. Não canta em nenhuma casa de fados. “Nunca cantei”. De Amália, que “inventou tudo”, canta “quase todos os do Alain Oulman, sobretudo aqueles que são menos fado”. Existe uma explicação para este “menos fado”. É que Cristina Branco define-se como uma cantora “revolucionária”, e não como uma fadista, na acepção mais tipificada do termo. Resposta irónica a alguns Velhos do Restelo. “Há alguns anos, por altura do ‘Murmúrios’, acharam um crime dizer-se que eu era fadista. Se fadista é a pessoa que está na casa de fados, as toalhas aos quadradinhos, não tenho esse percurso… Houve quem dissesse que para se ser fadista era necessário ter-se nascido em Lisboa e cantar-se numa casa de fados…”
Dos novos aprecia Mariza, Amélia Muge, Kátia Guerreiro e Camané. Poetas: Pedro Homem de Melo e David Mourão-Ferreira. E as vozes de Sarah Vaughan e Billie Holiday.
Ainda Amália: “Já na fase da sua decadência, quando corria o boato de que ela não gostava de ouvir cantar mulheres, a sensação que isso me deixou foi de que se eu estivesse a começar nessa altura nem sei se conseguiria prosseguir. Quando se venera um ídolo, e ouvindo essas coisas, pensava que deveria haver alguma restrição…”.
Mas considera-se parte de um legado da grande fadista, com quem aprendeu “a contar histórias, que é o mais importante”. O traço fundamental do seu carácter como cantora é o romantismo.

Nada Foi Encenado
No hospital de Évora, onde exerce medicina, cura os males do corpo. Com a voz cura os males do espírito. Kátia Guerreiro, médica de profissão, canta o fado. Antes cantou num rancho folclórico dos Açores, onde interpretou pela primeira vez “Amar, amar”, com poema de Florbela Espanca, “que a Teresa Silva Carvalho cantava”, e no grupo “Os Charruas”, passando ainda pela Tuna Médica de Lisboa. Em Outubro do ano passado esteve no Coliseu dos Recreios, no espectáculo “uma Vela por Amália”.
Deu voz a dois fados, de Amália: “Amor de mel, amor de fel” e “Barco Negro”. Teresa Silva Carvalho, Maria Teresa de Noronha e Camané, e os poetas Camões, Sophia de Melo Breyner, Fernando Pessoa e “uma grande amiga”, Maria Luísa Baptista incluem-se na lista das suas preferências.
Nessa ocasião, no Coliseu, estarreceu pela voz e pela extraordinária semelhança física com a diva. Aceita as comparações, mas esclarece que “nada foi encenado”: “Em relação às minhas expressões, à minha forma de franzir as sobrancelhas, é a minha maneira de estar no palco, de cantar, quando sinto não estou a pensar no que estou a fazer, naquilo que as pessoas poderão estar a ver. Canto com o corpo inteiro, se há coincidências ou não… nunca andei a observar a Amália… sempre cantei assim… a única coisa que posso dizer é que sinto muito em mim a Amália quando estou a cantar…”
Define-se como “tradicionalista”: “No fado, não se pode mudar nada. O que é, é. Depois há variações…”. “Fado Maior”, o seu disco de estreia, mostra uma cantora “apaixonada” que canta “os amores ardentes e os desamores, as paixões e as desavenças, o desânimo, a luta, a solidão, a alegria”.

Um Mistério
Das cinco, apenas Ana Sofia Varela, natural de Santarém, ainda não lançou nenhum álbum. Mas não vai ser necessário esperar muito. “Ana Sofia Varela” sairá em Setembro. Para já a sua voz magnífica pode ser apreciada num single com dois temas, um deles, “Quem canta na minha voz”, com letra de João Monge e música de Rui Veloso. Presença regular no Clube do Fado, participou no espectáculo “Uma Vela Por Amália”. Canta desde criança. Começou por Amália e Nuno da Câmara Pereira, aprendendo cedo a “dobrar a voz”. A participação, há três anos, no espectáculo “De Sol a Lua” abriu-lhe as portas da profissionalização, depois de uma série de presenças no concurso Grandes Noites do Fado. É uma das vozes convidadas do álbum “A Guitarra e Outras Mulheres”, de António Chainho. Participou ainda numa das edições do Festival das Músicas e dos Portos. Gosta de Lucília do Carmo, Maria Teresa de Noronha, Teresa Silva Carvalho e, da nova geração, Kátia Guerreira, Camané, Joana Amendoeira. E de Amália, “demasiado grande” e aquela que lhe “abriu as portas”. “Gaivota”, “Barco Negro”, “Amor de Mel…” são alguns dos fados que continua a cantar, apesar de, recentemente, ter arriscado a escrita das suas próprias composições. O disco é a realização de “um dos seus sonhos mais fortes”. Embora considere que o fado não possa mudar muito – “o que muda são as interpretações” – na disputa teórica que se vai travando entre tradicionalistas e revolucionários, Ana Sofia Varela refugia-se, declarando-se “centrista”. “Tristeza”, “melancolia2 e “alegria” são os principais estados de alma que a levam a cantar. Não arrisca procurar mais fundo uma explicação para a música que a arrebata: “O fado é um mistério”.
Joana Amendoeira é a mais nova. Mas aos 18 anos, já gravou dois álbuns, “Olhos Garotos” e “(Aquela Rua)”. Começou a cantar aos 8, fados do Nuno da Câmara Pereira. Em casa ouvia Amália, João Braga, Carlos do Carmo… Cantou na Grande Noite do Fado e em “uma Vela por Amália”. A partir daí nunca mais parou. Amália alimenta-a de “emoções”. Dela canta de preferência “fados pouco conhecidos”. Lucília do Carmo, Maria Teresa de Noronha, Carlos do Carmo, Hermínia Silva e Camané “alimentam-na” igualmente. David Mourão-Ferreira e Pedro Homem de Mello voltam a ser citados como poetas predilectos. Nos seus discos Joana Amendoeira espera que as pessoas vejam que “não está a imitar ninguém” e “uma fadista que canta vários sentimentos, além da tristeza”. Aos 18 anos pode ser-se triste? Joana abre um sorriso largo, luminoso. Estava dada a resposta.