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Mafalda Arnauth – O Espírito Permanecerá (Entrevista)

12.10.2001
Mafalda Arnauth – O Espírito Permanecerá

LINK (“Encantamento” – 2003)

Entre o espectáculo de apresentação, apadrinhada por João Braga, e a edição do último, e segundo álbum, “Esta Voz que me Atravessa”, Mafalda Arnauth evoluiu de intérprete fenomenal de Amália para uma das mais poderosas e emotivas vozes femininas do fado. O espectáculo de amanhã, na Culturgest, Às 21h30, será o de mais uma consagração.
Nasceu em Lisboa, há 27 anos. Estava longe de pensar que faria do fado profissão. Mas isso foi no início de carreira, quando poucos conheciam o dom da sua voz. Hoje, com dois álbuns editados, o último dos quais considerado um dos grandes discos de música portuguesa deste ano, foi “arrastada” pela mais “estranha forma de vida” que se possa imaginar. Destino inevitável das divas.
Recentemente tornou-se a primeira artista portuguesa a ser representada internacionalmente pela Virgin, com o novo disco a ser editado neste selo na Bélgica, França e Espanha.
Será acompanhada na Culturgest por José Elmiro Nunes (guitarra portuguesa), José António Mendes (viola de fado), Rodrigo Serrão (contrabaixo) e, como convidado em dois temas, João Courinha (saxofone).

FM – O facto de agora fazer parte do catálogo da Virgin é um indício de um reconhecimento internacional?

Mafalda Arnauth – É uma situação sem precedentes. Além de que ter uma editora a apostar em mim lá fora é diferente do que ter de ir aos vários países apresentar-me a um número restrito de pessoas. É uma conquista fantástica.

FM – Ainda se lembra de quando afirmava que jamais lhe passaria pela cabeça viver do fado?

Mafalda Arnauth – (risos) Lembro-me! Ainda há dias recebi um telefonema de um colega de curso [Veterinária] a perguntar-me como é que eu ia fazer com os exames! Existe essa pressão, mas o fado é mais forte do que eu…

FM – Ainda seria possível voltar atrás?

Mafalda Arnauth – Jamais. O fado como “hobby” tornou-se impossível, com a carteira de trabalho que já tenho e que domina a minha vida para os próximos meses. Mas não gosto de pensar no futuro, se vou conseguir cá estar daqui a 50 anos e com tudo a correr sempre bem… É importante viver cada período de cada vez; depois, pelo caminho, acontece sempre qualquer coisa, até precisar de parar um pouco e respirar fundo. Mas o fado tornou-se a minha opção.

FM – Foi graças a si que as portas se abriram a fadistas da sua geração?

Mafalda Arnauth – O meu disco surgiu há dois anos, quando não havia um único disco de fado das pessoas da minha geração. A Cristina Branco já tinha editado alguns, mas só na Holanda. Agora, apareceu o disco da Kátia Guerreiro; surgirá, esperemos, o da Ana Sofia Varela. Sinto que se sou exemplo de algo, é da necessidade de ter uma identidade. Alguns dos projectos que vão surgindo fogem cada vez mais à cópia. Só pelas fotos do artigo que saiu há algum tempo no Y se percebe que todas as fadistas são diferentes e que todas elas andam à procura dessa identidade, independentemente de ser encontrada um “nova Amália”… Pretendemos fugir a isso. Até por respeito à própria Amália Rodrigues.

FM – O facto de ir actuar com mais frequência no estrangeiro, para pessoas que já conhecem o seu disco, vai alterar a estrutura dos seus espectáculos?

Mafalda Arnauth – Estou numa fase de fazer cada vez menos concessões. Mesmo em Portugal, a tendência é a de privilegiar a exposição de quem sou na e não a de receber muitas palmas. Isto implica que nos espectáculos faça apenas o que me apetece. Se estiver a cantar para um público que prefere marchas, sei que se cantar um espectáculo inteiro de marchas vou sentir que não estou a ser verdadeira.

FM – Os recentes acontecimentos no mundo, depois de 11 de Setembro, reflectiram-se na sua maneira de compor, de viver e de cantar?

Mafalda Arnauth – Uma das primeiras sensações que tive quando estava a olhar para a televisão foi de que estava a ver um filme. Levou tempo até interiorizar o que estava a acontecer. Há um mundo cá fora e um mundo dentro de nós. E dentro de nós haverá provavelmente muitas “twin towers” tão vulneráveis como aquelas. Preciso cada vez mais de paz interior, o que se torna cada vez mais difícil. Tudo o que aconteceu vai ter consequências e não sei se temos consciência disso. Os valores de sobrevivência podem ser postos em causa. As pessoas vão ter que pensar no que é mais importante: se a matéria (estamos cheios de medo que o planeta rebente de uma vez) ou se a própria espiritualidade do mundo, que está de rastos. Violência gera violência.

FM – Como é que encontra essa paz interior?

Mafalda Arnauth – Passa pela auto-estima e auto-estima não é considerarmo-nos a melhor pessoa do mundo, mas aceitarmo-nos e aos outros. O meu corpo é o lugar onde habita o meu espírito. Se amanhã desaparecer o meu espírito há-de permanecer. A paz vem daí.

Ana Moura – Aconteceu

29.10.2004
Ana Moura
À porta, à espera
Aconteceu é uma mais madura etapa. Mas o grande Fado ainda está à espera.

Ana Moura
Aconteceu
2xCD, ed. E distri. Universal.
6/10

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Ana Moura é mais uma das novas fadistas que vieram dar um rosto e uma voz novos ao fado. Ou melhor, mais do que apenas engrossar o lote, ela é “uma”. Uma voz diferente das outras, quente e sensual (alguns furos mais grave que a da generalidade das suas colegas) que agora se apresenta no seu segundo álbum, “Aconteceu”, depois de no ano passado ter gravado “Guarda-me a Vida na Mão”. Alguém com influência no além deve tê-la ouvido e atendido ao seu pedido. “Aconteceu” tem uma mão com vários trunfos, a começar pela voz, mais trabalhada e maturada, e a terminar num reportório bem escolhido e conduzido. O CD é duplo e divide-se em dois discos, o primeiro, “À porta do fado”, preenchido por fado musicado, o segundo, “Dentro de Casa”, dedicado ao fado tradicional. Ana Moura navega livremente no primeiro, sobre poemas de Sophia de Mello Breyner (“Através do teu coração”) ou Natália Correia (“Creio”) e música de Tozé Brito, Jorge Fernando, João Pedro Pais ou do “jazzman” italiano Arrigo Cappelletti, mas o seu coração dispara com o segundo, num fado da meia-noite, num fado corrido ou num fado Acácio.
Ana Moura não é – não quer ser? – fadista de grandes arrebatamentos ou dolorosos extremos. A sua voz e os eu canto preferem o embalo doce, o sussurro ao ouvido, os tempos médios que hipnotizam e fazem suavemente sobressair o sentido das palavras. (…a poesia/Não é só caligrafia/São coisas do sentimento”) canta em “Ao poeta perguntei”, de Alberto Janes. E, no mesmo poema: “Como a expressão e os jeitos/Que p’ra cantar/Se vão dando à voz”. Percebe-se que é uma intuitiva que se entrega à emoção e ao sentimento, sem resistências, e por isso com a naturalidade e a fluência de quem canta como respira. Ou com o rasto exótico que ficou dos tempos em que cantava música pop com o grupo Sexto Sentido, a infiltrar-se por entre as sílabas e as interjeições de “Amor de uma noite”, “Creio” e “Através do meu coração”.
No segundo CD o sentido interior muda e escurece. “Hoje tudo me entristece” mostra uma fadista a trabalhar a tragédia, mas ainda a rondar do lado de fora da dor, embora já com a imaginação e a cor do sangue. Fadista e não cantora de fados, a separação e opção são dela. “Passos na rua” dá a ver ornamentações de ave, a prometer voos mais altos. Há ainda “Dentro da tempestade” onde “há restos de verdade/A que a dor tirou sentido”, com a guitarra a golpear uma voz que se despede. “Aconteceu” mostra uma fadista a caminho. O que, para já, aconteceu, chega para nos acariciar e fazer acreditar num futuro promissor. Falta a solidão que torna único o fado de quem o canta.

Fado ou Fadistas?
Ana Moura nasceu em Santarém, há 24 anos. Ribatejana, como Cristina Branco. Também como Cristina Branco, a Holanda, onde se encontra em digressão, é ponto importante do seu roteiro de viagem. A transição do poprock para o fado foi rápida e passou por um convite de Maria da Fé para cantar no “Senhor Vinho”. Nessa altura o seu reportório e experiência eram curtos mas os amigos (Jorge Fernando, Manuel Martins, a própria Maria da Fé) ajudaram. Depois de em “Guarda-me a vida na mão” ter contado com uma composição de Pedro Ayres de Magalhães e a guitarra de Pedro Jóia, “Acontecendo” impôs-lhe a necessidade de gravar um CD inteiro só de fados tradicionais. Os fados musicados estão no outro disco porque algumas pessoas, já lhos tinham oferecido. Acabou por sair um disco duplo.
“Em estúdio senti que era difícil escolher. Achámos engraçado separar os dois géneros”. Uma das faixas de “à porta do fado”, “Através do meu coração”, leva um violoncelo, experiência instrumental única fora das normas. “Então no fado tradicional, nem sequer com contrabaixo toco, é só guitarra portuguesa, guitarra e baixo”.
“Novo fado” é expressão que para Ana Moura não tem razão de existir. Novos fadistas, sim. “Não faz sentido falar em ‘novo fado’. Assim como aconteceu com a geração da Amália, quando se dizia que ela também cantava novo fado, por causa dos poetas que cantou, também neste momento há letras de poetas que são intemporais, mas há outras que não podem ser cantadas por esta geração. O que de novo tentamos trazer ao fado é a interpretação e uma ou outra novidade ao nível dos arranjos musicais”.
Insiste em que um fado apenas faz sentido e pode ser cantado com o coração quando a letra é totalmente interiorizada. “Há coisas que eu sei que ainda não sinto”, reconhece com a sinceridade de quem assume que só agora a estrada se começou a revelar, “pode ser que daqui a uns anos…”. Os versos de Natália Correia, em “Creio” – “é como se fosse uma oração” – esses adora-os e canta-os como se fossem seus: “Creio em amores lunares/Com piano ao fundo/Creio nas lendas/Nas fadas, nos atlantes”. Não é oração fácil de rezar. E se ontem foi na pop que acreditava, hoje o fado apoderou-se de todo o seu espaço e roubou-lhe todo o seu tempo.
“O fado passou a fazer parte da minha vida”. Demorou quatro anos até essa assunção tomar conta dela a cem por cento. “Mudou por completo a minha vida, eu estava a estudar durante o dia, aguentei a escola durante um ano, entretanto passei a viver mais durante a noite que de dia e abandonei os estudos. A minha vida passou a ser literalmente fado”.
Estranha forma de vida, dirão alguns. Numa casa de fados ou numa casa de espectáculos. “É diferente, nas casas de fado há a proximidade das pessoas, é uma coisa muito íntima, de improviso, enquanto que nas salas é um espectáculo, com um alinhamento mais ou menos feito”. “Mais ou menos” porque o humor muda e Ana Moura só canta “o que lhe apetece”. “Se me apetecer cantar outra coisa, eu canto, altero”. Em qualquer dos casos, “o fado acontece”. Como uma coincidência. Aliás, a sua vida tem sido assim, a vida e a carreira, “feitas de coincidências”.
Como coincidentes são a voz com a imagem glamorosa do seu corpo como aparece retratado na capa e nas imagens de promoção, onde veste um decotado vestido vermelho sobre fundo verde de vegetação escura. Poderia passar por uma capa dos Roxy Music se Ana não explicasse o seu fundamento. “gosto muito do vermelho. O vermelho e preto são as minhas cores preferidas. O sítio das fotos foi o Palácio da Pena em Sintra, lugar que adoro”. Lugar ideal para se cantar o “astral mais puro”, dito nos versos de Natália Correia. O que mais irá acontecer a Ana Moura, só o fado o dirá.

Mafalda Arnauth Estreia-se A Solo

08.10.1999
Mafalda Arnauth Estreia-se A Solo
Não Foi Deus, Foi Ela Mesmo

Do grupo de jovens fadistas apadrinhados por João Braga, Mafalda Arnauth cedo demonstrou estar mais próxima da essência do fado. Na sua estreia discográfica a solo, porém, Mafalda Arnauth ignorou os clássicos do fado e fez um disco que é um roteiro da sua vida. Onde o fado, em definitivo, não está arrumado “na prateleira da desgraça”.

LINK (“Diário” – 2005)

Não há fados conhecidos de todos mas apenas originais compostos pela própria. Prova de auto-confiança da autora, “Mafalda Arnauth” torce um novelo que muitos adivinhavam ser a continuação de uma tradição que, desde Amália Rodrigues, não encontrara ainda representante à altura. Não era “ a nova Amália”, rótulo que, periodicamente, se tenta colar a qualquer fadista cuja voz suba mais alto do que as outras, porque Amália é única, mas quando a ouvíamos cantar o fado, sentíamos nela o mesmo fogo, a mesma dor sentida como destino.
Há quatro anos atrás, quando ainda integrava o grupo de jovens fadistas apadrinhados por João Braga, Mafalda Arnauth não pensava sequer em gravar um disco. “Não tinha maturidade”, confessa, “era tudo uma coisa nova que estava a acontecer, cantava meia dúzia de coisas que gostava mas não tinha ainda qualquer filosofia ou ideal”.
Quatro anos fizeram amadurecer o que então não passava de um hobby. João Braga lançou-a. Ela acabou por seguir o seu próprio caminho. “Foi uma coisa natural, essa emancipação, sou uma pessoa independente, com as minhas próprias ideias, embora ainda hoje aprenda com o João Braga, foi com ele que aprendi o gosto pelo poema”. Em paralelo com o canto, Mafalda continuou o curso de Veterinária: “falta-me uma cadeira para entrar no último ano”.
O disco, agora editado, iludiu algumas expectativas. Que foi feito de “Foi Deus?” Onde param os clássicos? “Nunca encarei a carreira de fadista como o objectivo primordial da minha vida, por isso preferi fazer uma coisa mais arriscada. É a minha história que eu conto, a minha realidade, quer as pessoas gostem ou não”. Admite que o disco poderia ter “o tal lado comercial” onde decerto caberia o tal fado de Amália que “seria um sucesso garantido”. Mafalda Arnauth não condescendeu, se o termo se pode aplicar no caso de um fado como “Foi Deus”. A cantora acaba por admitir, no entanto, que “foi um bocado a opção da editora, que já tinha um espólio enorme da Amália”. “Quase de certeza que, se gravasse um fado dela, a atenção acabaria por não recair na minha interpretação”. Mafalda Arnauth não põe, no entanto, de parte, a possibilidade de gravar um dia um álbum dos fados que a “marcaram”. Para já “isto”, os seus fados, são aquilo que mais gosta de cantar. “Tudo o resto continuo a cantar nos espectáculos, mas gravar é outra coisa”. Depois de permanecer algum tempo a cantar nas noites do Embuçado, Mafalda Arnauth afastou-se um pouco, guardando apenas uma noite por semana para esta casa de fado. “Estou com um horário mais complicado”, explica. É que as aulas não perdoam. “Depois da época dos exames poderei definir melhor os meus planos”.
João Gil foi escolhido para produtor de “Mafalda Arnauth”, um álbum que conta ainda com a composição e participação de Rui Veloso em “Vale a pena”. Em relação ao primeiro a fadista confessa que fez “uma coisa de que não estava à espera mas que resultou bem: gravar tudo na mesma sala, sem pistas separadas”. Entre os vários fados que Mafalda Arnauth compôs para o álbum, um deles, “De quem dá”, teve especial significado. “Foi feito no meio das gravações, com um gravador quando ia de carro para o estúdio. O disco está estruturado segundo uma espécie de ordem cronológica. Esse corresponde à fase ‘down’. A partir daí as coisas aclaram-se. A vida renova-se. A letra desse fado andava há tempos a bailar-me na cabeça, fala de uma forma de amor que raramente se canta no fado. Um amor bom”.
Em frente ergue-se o caminho do tal “novo fado” de que muito se fala. E que para Mafalda Arnauth “passa pela atitude”. “As pessoas estão todas a pegar nas músicas e nas letras e a fazer grandes mudanças. Mas as pessoas que cantam o fado não têm que ser boémios. A expressão ‘fadinho’ não me diz nada. Como em tudo na vida há mais do que um lado e o fado destina-se a cantar a vida, as emoções, com momentos bons e momentos maus. O que eu não aceito é que o ponham apenas na prateleira da desgraça”.