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Carlos Paredes – A Guitarra Que Venceu O Fado

07.03.2003

Carlos Paredes – A Guitarra Que Venceu O Fado

Se Amália foi o fado, Paredes é a sua transcendência. Amália foi a onda, nítida e exacta. Paredes, o mar revolto e uma ideia de liberdade que não se esgota no dizer. Disse-o mesmo assim – com a raiva e a ternura de quem se deu e coroou a solidão. A integral O Mundo Segundo Carlos Paredes, agora editada, é o testemunho vivo desse caminho.

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“Carlos Paredes era de uma dimensão muito difícil de definir. O Carlos vagueava no espaço: é um ser etéreo. Ele não estava cá, estava para além e acima de nós. Pairava no espaço. Quando o Carlinhos aparecia para tocar, era um deus”. É desta forma que Luiz Goes, um dos mestres do fado de Coimbra e dos primeiros músicos a privar com a arte de Paredes, define a personalidade musical e humana do autor de “Verdes Anos”, cuja obra integra acaba de ser compilada pela EMI-VC em forma de caixa, com o título “O Mundo Segundo Carlos Paredes, Integral, 1958-1993”.
O mundo segundo Carlos Paredes é um mundo que a todos fascina mas também um mundo cuja originalidade se torna difícil de enquadrar sob a lupa da análise mais fria. A música deste “ser etéreo” que, como dizia Goes, parecia pairar no espaço enquanto tocava, atinge-nos irremediavelmente na dimensão mais trágica do ser português, nesse ponto onde a mais despojada e apaixonada das solidões se sublima amorosamente pela Saudade.
Para além de Amália, Paredes foi, enquanto músico, o mais alto expoente desta interioridade, tornada beleza e arrebatamento absolutos nas cordas e na alma de uma guitarra portuguesa. Por estas razões, pelo valor documental e pelas não-razões, de ordem emocional, que cada um descobrirá dentro de si, “O Mundo Segundo Carlos Paredes” é, desde já, no capítulo das reedições, o acontecimento editorial do ano.
Apresentado sob a forma de livro forrado interiormente com 37 páginas explicativas, incluindo um texto de apresentação de Ruy Vieira Nery, compõe-se de oito CDs organizados por ordem cronológica, abrangendo a totalidade do material gravado por Paredes, disperso por EPs e álbuns lançados entre 1958 e 1993. 35 anos de carreira ao longo dos quais Paredes deixou vincada a sua arte, parca em quantidade (a sua obra é escassa, comparada por exemplo, com o acervo legado por Amália), mas absolutamente imbuída de uma intensidade inigualável na música deste século.

Nascer Do Dia

“Despertar”, título do CD de abertura, é composto por 26 temas, dos quais os primeiros quatro, os mais antigos gravados pelo guitarrista, correspondem ao EP “Fado de Coimbra”, do Dr. Augusto Camacho, excluindo-se obviamente as colaborações prévias de Paredes com o seu pai, Artur Paredes.
Descobre-se nesta introdução a nostalgia e o típico “rubato” coimbrões que marcariam, sem o esgotar, o estilo do guitarrista, vislumbrando-se desde logo sinais do seu virtuosismo. Entre os temas 5 e 8 deparamo-nos, cara a cara, com o génio musical presente no EP “Carlos Paredes”, de 1962.
Os desenvolvimentos melódicos, em forma de rapsódia, e, sobretudo, a sua exposição em termos técnicos, de imediato entraram em conflito com os dogmas ligados ao instrumento. Hugo Ribeiro, engenheiro de som presente em inúmeras gravações do mestre, ao ouvi-lo pela primeira vez numa sessão em casa de Amália, comentou: “Aquilo não tinha nada a ver com guitarra portuguesa. Ninguém tocava daquela maneira”. Não tocava, de facto. Quanto à guitarra portuguesa, tornou-se desde esse momento um instrumento nobre e arquétipo pelo qual todos os guitarristas das gerações posteriores se guiariam.
Outro EP, de 1964, apresenta “Guitarradas sob a Forma de Filme ‘Verdes Anos’”. Não era ainda o tema com o mesmo nome que se tornaria o cálice onde vamos beber a transcendência, mas as sementes, regadas, como no disco anterior, pela guitarra de Fernando Alvim, estavam já preparadas para fazer florescer uma música ainda mais sofisticada. “Frustração”, a faixa final, fere como um punhal, o derradeiro tom menor assombrando como a revelação do destino. Noite sem véus.
“Guitarra Portuguesa” (1967) constitui o álbum de estreia, através do qual o seu autor entrou em definitivo para a galeria dos imortais. Todos guardamos, no ouvido, no subconsciente ou no coração algumas destas melodias. “Dança” evidencia o lado mais enraizado na música tradicional de Paredes, enquanto “Fantasia” e “Pantomina” ilustram as suas ligações à música antiga, respectivamente da Renascença e da Idade Média. “Divertimento” sintetiza, entre a euforia e o sonho, o modo de construção melódica, rítmica e harmónica do músico. Muitas músicas numa música. Paredes e Alvim, genialmente irmanados no mesmo delírio, formam uma orquestra subliminar, actuante nos vários planos de escuta. “Romance Nº 1” e “Romance Nº 2” são harpa de luz e água. Paredes e Alvim, guitarras em dança sagrada. Precisamente no meio do alinhamento está “Verdes Anos”. E aqui, de tão próximos e tão misteriosamente e para sempre distante (não é isto, também, a Saudade?) resta-nos o silêncio e a entrega, mas também de uma solidão exposta com nudez quase cruel, se trata. Música em estado puro, verdadeiro “movimento perpétuo” do qual o executante se faz puro agente mediúnico. Aquele que recebe, dá e revela.
Alguns segredos técnicos ajudaram a criar esta obra-prima. Recorda Hugo Ribeiro: “O Paredes não custava nada gravar. A grande dificuldade era conseguir ouvir a guitarra através dos altifalantes e da aparelhagem como se estivesse a um metro de distância. Eu procurava ouvir a guitarra através do microfone do ‘ponto de vista’ dos meus ouvidos em relação ao instrumento. Acabei por arranjar uma solução: fui vendo onde ouvia bem a guitarra, o que já era muito longe de Paredes. E pus lá um microfone, um outro junto de Paredes, que estava desligado; e afastava dele ao máximo a viola do Fernando Alvim…”. Completam o “Despertar” três temas extraídos do LP “Coimbra de Ontem de Hoje” (1967) de Luiz Goes.

Água Corrente

“Na Corrente”, CD Nº 2, abre com o tema com o mesmo nome, registado em 1969 para o documentário televisivo de Augusto Cabrita mas publicado pela primeira vez em CD apenas em 1996. Nesta faixa Paredes tocou guitarra clássica improvisando em tempo real sobre as imagens projectadas. Um Paredes diferente, abstracto, por vezes quase ausente que desfalece para logo recuperar o fogo e o fôlego, umas vezes próximo do espírito da bossa-nova, outras num abandono triste ou na perplexidade de quem escutando fora de si, a si mesmo se escuta. O “mundo segundo Carlos Paredes” é Carlos Paredes. Em seu redor: paredes de água, paredes de diamante, paredes de cristal. Transparentes,. Inquebráveis. Doze minutos e meio de vida como ela é, ou seja, música: Movimento. Enigma. Tempo. “Na Corrente” é um título perfeito.
Por isso se cai aos trambolhões quando, sem aviso, a voz de José Carlos Ary dos Santos se faz ouvir lendo poemas medievais e contemporâneos, com Paredes a acompanhá-lo. O álbum chamava-se “Espiral Op. 70” (foi uma oferta de Natal da agência de publicidade Espiral, onde o poeta era um dos criativos…) e teve edição privada em 1969. Alguns solos (já na guitarra portuguesa) soam distantes. Ary declama “Meu amor, meu amor”, poema seu que Amália cantaria com música de Alain Oulman.
Vem a seguir uma raridade: “Meu País2 (1970), de parceria com a cantora e actriz Cecília de Melo, então companheira de Paredes. Seis tradicionais mais outros tantos originais do guitarrista, sobre poemas de Manuel Alegre, Mário Gonçalves e Carlos de Oliveira. A voz faz lembrar a de Cândida Branca-Flor nos tempos folk com a Banda do Casaco. Paredes ouve-a embevecido e dá-lhe o céu repintado da obra anterior. Mas céu, seja como for…
“Danças”, CD Nº 3, traz “Movimento Perpétuo”, de 1971. Um clássico. Ao lado dos inéditos, o LP incluía um par de temas compostos para a banda sonora de “Mudar de Vida”, de Paulo Rocha, com a participação de Tiago Velez, na flauta, o que confere à música uma sonoridade com ressonâncias “new age” na linha da música de Paul Horn. É o álbum em que a veia improvisadora de Paredes se sedimenta num estilo reconhecível, feito de reminiscências de frases antigas projectadas, paradoxalmente, de acordo com um desejo de superação e descoberta constantes.
“Quando entrámos para estúdio”, recorda Hugo Ribeiro, “o Paredes dizia sempre que íamos fazer experiências, nunca era para gravar. ‘Vamos ver, se calhar, talvez…’m dizia ele, e ficávamos sempre em suspenso, com a sessão adiada para o dia seguinte. O Paredes tocava por ali fora e no outro dia vinha ouvir. E depois dizia-me: ‘Oh Ribeiro, você tinha razão! Aquilo ficou bem!’. Ele entusiasmava-se a tocar. Aquela força anímica era fenomenal.
Há ainda “O Fantoche” (outra melodia entranhada nos ouvidos de todos) que sobrou destas sessões, e outras versões, de fado de Coimbra que, pela sua especificidade, foram editadas separadamente em “single”. Uma delas, “Balada de Coimbra”, com arranjo de Artur Paredes, foi responsável por um desentendimento entre pai e filho. Consta que Artur se terá insurgido contra o facto do filho gravar um arranjo seu sem tocar suficientemente bem… Os restantes seis temas fazem parte de um álbum encetado em 1973 mas apenas editado em 1996 na compilação de raridades “Na Corrente”. Carlos Paredes reformulara entretanto alguns destes temas para inclusão em trabalhos posteriores, “Concerto em Frankfurt” e “Espelho de Sons”, bem como para uma edição exclusiva alemã, “O Oiro e o Trigo2, feita sem o consentimento da editora Valentim de Carvalho, com quem tinha contrato, o que motivaria um corte de relações entre ambas as partes.

O Destino Nas Mãos

“As Mãos” reúne material de “É Preciso um País” (1974), com poemas e voz de Manuel Alegre, e “Que Nunca Mais” (1975), com Adriano Correia de Oliveira. No primeiro, Carlos Paredes socorre-se do “guitarrão2, uma guitarra portuguesa modificada que abrangia as escalas da guitarra clássica e da guitarra portuguesa normal. A revolução de Abril ainda fervia e os poemas de Manuel Alegre afirmavam-se em conformidade. Tempos de idealismo que o tempo não cumpriu. Paredes, com a sua proverbial generosidade e o empenhamento político, deu-se de corpo e alma a esta luta que também foi a sua mas da qual outros se aproveitaram Sigamos, para abreviar, que a guitarra de Paredes casava mal com um comício. A sua revolução era outra e foi essa que verdadeiramente modificou a música em Portugal.
Já o encontro, em dois temas, com Adriano Correia de Oliveira, seu “companheiro de estrada”, está mais próximo da corrente politizada da MPP do pós-25 de Abril, cima uma veia tradicional menos dependente da mensagem e do tom panfletário veiculada pelo tom declamatório de Alegre.
A gravação ao vivo de 1982, na Ópera de Frankfurt, que deu origem a “Concerto em Frankfurt” fecha o alinhamento de “As Mãos”. O concerto foi gravado sem o conhecimento de Paredes, para não o enervar, e nele encontramos um músico em que a tristeza (o desespero?) substituíra já a melancolia romântica e o poder de afirmação de “Guitarra Portuguesa”. É fado, realmente fado, a escuridão que escorria então da sua guitarra. Tocava já como se adivinhasse um desfecho trágico, numa luta titânica contra a tirania das notas, procurando esventrá-las, magoando-as porque elas o magoavam. Redimindo-as, afinal, num “lado de lá” que chega a ser aflitivo, nomeadamente nos seis cantos que compõem a “suite” “Seis Cantos Improvisados sobre a Cidade”, ficando o lado mais lírico reservado para as “Seis Guitarras sobre uma Fábula”.

Inventar a Solidão

Outra colaboração, desta feita com Carlos do Carmo, em “Fado Moliceiro”, para o álbum “Um Homem no País” (1983), abre o CD seguinte, genericamente intitulado “Improvisos”. Mas a “peça de resistência” é constituída pelos dois longos “diálogos” da guitarra de Paredes com o piano de António Victorino d’Almeida que formam “Invenções Livres” (1986). Desse encontro, surgido como consequência do interesse manifestado por Paredes em encontrar pontes com outras músicas, resultaram esporádicas confluências mas, acima de tudo, a evidência de duas visões divergentes da música. Paredes tocava voltado para dentro. Vitorino d’Almeida é um extrovertido. As cascatas de piano afogaram a guitarra, outras vezes teimosamente tentando chamar a atenção da guitarra para espaços comuns, procurando atrair, aproximar mas, por fim, resignando-se À hipotética aproximação de dois monólogos em vez da comunhão. Paredes exigia, sem querer, subserviência. Ou uma complementaridade como aquela que lhe era oferecida por Fernando Alvim. Para o maestro tal seria impensável. E a Paredes um só labirinto chegava.
Em “Asas” arruma-se o imprescindível “Espelho de Sons”, revisto e aumentado na primeira transição de LP para CD. Antologia de temas antigos retrabalhados, nela descobrimos o guitarrista na sua melhor forma, conquistando a música o domínio de si mesma nas suas mais ínfimas “nuances”. Paredes tornara-se senhor do seu destino enquanto músico. Sente-se a lucidez em cada frase, a visão e a sabedoria do que antes era intuição e mediunidade. Paredes ataca as notas, já mão para as fazer sangrar, mas para se afirmar como igual. Não toca “contra” mas “com”. A tragédia, de inevitável, é integrada num patamar de existência superior. Paredes ganhara “Asas sobre o Mundo” (dois inéditos acrescentados ao conceito original de “Espelho de Sons”, em edição exclusiva para a TAP) e é com elas que desce o pano sobre o sexto CD de “O Mundo Segundo Carlos Paredes”.

A Vida, Segundo a Segundo

É sabida a incompatibilidade de Paredes em dialogar com outros músicos, outras músicas. Mas nem por isso os outros músicos deixaram de tentar. Charlie Haden, nome histórico do contrabaixo no jazz, insistiu no acasalamento, propondo a descoberta a dois de novos caminhos. Tentativa de união que em 1990 foi editada em álbum, “Charlie Haden e Carlos Paredes”, no qual o contrabaixista cedeu ao guitarrista o maior espaço possível no alinhamento. Assim se inicia o CD número sete desta integral, “Diálogos”. De Haden, apenas o hino “Song for Che”. O resto, em temas como “Dança dos camponeses”, “Marionetas”, “Balada de Coimbra”, “Divertimento” ou o incontornável “Verdes anos”, saiu da pena e do transe de Paredes. Haden remete-se a um papel discreto. A improvisação, segundo Paredes, não segue os parâmetros do jazz. É caminho escuro, mas também cravejado de estrelas e cometas. Diante da guitarra ergue-se um espelho. Onde se reflecte o mundo, mas só à sua imagem. Três temas finais completam “Diálogos”, todos gravados na sessão realizada em 1992 no Coliseu de Lisboa com os Madredeus. Paredes interpreta só “Mudar de vida”, acompanhando o grupo de Teresa Salgueiro e Pedro Ayres Magalhães em “Canto de embalar” (com assinatura de Pedro Ayres e Paredes) e no original do grupo, “O navio”.
Faltava a viagem final, a que preenche o derradeiro CD, “Memórias”. Paredes, o músico, eternizou-se. Paredes, o homem, fraquejava ao fundo do túnel, desamparado, as mãos presas nas garras da doença. “Canção para Titi”, de 2000, sobrevive como testemunho pungente de uma arte que procurou – e conseguiu – redimir o mundo da dor. Foi preciso montar “takes”, colar frases e notas. Para erguer, no final, intacta, a estátua de um homem simples que quando tocava guitarra se transformava em mito. Entre o cataclismo de amor que é “Guitarra Portuguesa” e a “Valsa Diabólica” que é uma das múltiplas mágoas de “Titi”, a música de Paredes cresceu, como escreve João Lopes no posfácio da Integral, “uma pura identidade em construção: uma música carnal, quase animista, ao mesmo tempo que cerebral, pedagogicamente a enunciar a sua própria ideia de liberdade (…) uma arte de não abdicar das razões da solidão”.
Ao escutarmos e – melhor ainda, ouvirmos – “O Mundo Segundo Carlos Paredes” sentimo-nos mais sós e menos sós. Mas é essa a essência da Saudade. Saudade do que somos.

Argentina Santos – Prata da Casa (Entrevista)

25.04.2003

Argentina Santos – Prata da Casa

Aos 77 anos, Argentina Santos continua a incluir o fado na ementa da sua alma e do seu restaurante. Ainda arranjou tempo para gravar um novo álbum.

“Não tenhas medo da fama/D’Alfama mal afamada/Que a fama às vezes difama/Gente boa, gente honrada”. A quadra, escrita num azulejo incrustado na parede logo à entrada do “Parreirinha”, quase se poderia aplicar ao modo como Argentina Santos, voz e nome de prata, optou por gerir uma carreira que só recentemente, quando, em 1994, Carlos do Carmo a convidou para estar presente num espectáculo no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, começou de facto a acontecer. Dona Argentina preferiu dedicar-se por inteiro à sua casa e aos seus petiscos. O fado e a culinária estão-lhe no sangue e encara as duas como arte. Nenhuma delas mais valiosa do que a outra.
À hora de jantar, o Parreirinha enche-se lentamente de turistas. Argentina Santos está sentada, como sempre, à entrada, fazendo de anfitriã. Neste dia decide não cantar. Há ocasiões assim, em que o ambiente não se proporciona. É necessário que as pessoas estejam ali não só para ouvir cantar o fado mas que sejam capazes de o sentir da maneira mais profunda. Em vez dela, os estrangeiros podem ouvir Tina Santos. Aplaudem na mesma, à média luz, cumprindo o ritual. Argentina olha embevecida. A fadista que canta, as empregadas que servem à mesa, as cozinheiras fazem todas parte da sua família. Sente-se bem assim. Os espectáculos, como aqueles que deu no festival de Edinburgo, no Queen Elizabeth Hall em Londres, no Konzerthaus em Viena, no La Cité de la Musique, em Paris, numa digressão por Itália ou no Coliseu de Lisboa, e os discos, como o novo “Argentina Santos”, lançado na passada quarta-feira pela MVM, podem esperar. Afinal de contas não há fado melhor do que ser feliz.

FM – O novo disco demorou quanto tempo a gravar?

Argentina Santos – Poucochinho.Eu chegava e todos os fados saíram à primeira. Só num é que o Jorge Fernando me pediu para lá ir outra vez mudar uma coisinha. Mas nunca canto o mesmo fado da mesma maneira. Quando havia uma falha qualquer, ele pedia-me para gravar só aquele bocadinho. Não ensaiámos nem nada. Tenho aí fados que nunca antes cantei.

FM – Consegue cantar tão à vontade no estúdio como no Parreirinha?

Argentina Santos – Não é a mesma coisa mas, olhe, senti-me bem. Cantei os fados com menos meio tom, tinha a impressão de que não era capaz, mas ele achava que ficava mais bonito assim. Quando ouvi achei uma maravilha. Desde que a pessoa que está a tocar, toque, e eu comece a vê-lo sentir o fado… Ao ouvir um guitarrista, fico logo a conhecer a forma como reage, se gosta de acompanhar, se é fadista. Se o guitarrista não for fadista, a gente pode dar as voltas que quiser, que não vai lá…

FM – Preferiu manter-se fiel ao seu restaurante do que arriscar uma carreira como profissional. Porquê?

Argentina Santos – Tenho a minha casa. Estou cá há 54 anos, foi feita com sacrifício. É como ter uma filha e criá-la. Depois, nunca fui pessoa para andar por aí a dizer “eu estou aqui, também sei cantar…”. Mas quando vim para aqui o meu companheiro, para me deixar cantar, era um caso sério, sabe, aquelas coisas dos homens antigos… Morreu, voltei a casar, mas ainda ficou pior, então cantar lá fora, fazer espectáculos e ganhar dinheiro, escusava de pensar nisso. Mas morreu também e fiquei… solta, com mais oportunidades de cantar para as pessoas e elas de me ouvir. Aó, o Carlos do Carmo, uma pessoa que gostava de me ouvir, veio ter comigo e convidou-me para ir ao Coliseu. Mas fiquei assim, “vais não vais”, a tremer por todos os cantos, e acabei por dizer que sim.

FM – Quantas vezes canta por semana no restaurante?

Argentina Santos – Só quando vejo que há público que sabe. Quando vejo que não sentem, posso cantar dois ou três fados e muito obrigado, que vá cantar outra pessoa! Não canto marchas nem coisas com palmilhas, não é o meu género.

FM – Os restaurantes e casas de fado continuam a ser os melhores locais para se cantar o fado?

Argentina Santos – Acho que sim. Quem não entrar e cantar nas casas de fado não terá um público que saiba ouvir. E não me venham cá com essa coisa do fado vadio, o que eu chamo fado vadio é fado espontâneo, pessoas para quem cantar é um alívio. Acho que os novos devem começar por cantar nas casas de fado.

FM – Está a pensar na actual vaga de novas fadistas? Tem alguma preferida?

Argentina Santos – Sou amiga de todas elas, já cantei com todas, já fui ao estrangeiro com elas. Gosto de todas mas, e que me perdoem as outras, gosto mais da Ana Sofia Varela, é a mais fadista. Gosto muito da Mariza e da Mafalda [Arnauth], também, mas puxo mais para a Sofia. A Joaninha [Amendoeira] é uma menina doce que está a cantar melhor do que da primeira vez em que a ouvi, tem uma doçura e uma meiguice…

FM – Para se cantar bem o fado é preciso ter já experiência de vida, mais ou menos sofrida?

Argentina Santos – Sim, sim! Não concordo que um menino ou uma menina de 12 anos ande a cantar o “Povo que lavas no rio” ou “Passaste com ela à minha rua”, são coisas para pessoas adultas, não para crianças. Elas têm muito tempo para sofrer. Há quem cante o “Povo que lavas no rio” porque já sabe que vai receber aplausos, só que 50 por cento desses aplausos são pela D. Amália. Depois da morte da D. Amália pôs-se toda a gente a cantar coisas dela. Acho uma asneira. Um artista, ao fazer do fado profissão, deve procurar os poetas, aprender as letras e cantar dentro do seu estilo, não é pôr um disco a rodar e tirar dele todas as voltinhas. Para se ser fadista tem que se ter trabalho.

FM – Como Amália Rodrigues, tenciona cantar até que a voz lhe doa?

Argentina Santos – Tenho muita pena de estar a envelhecer e ter que deixar de cantar. Mas se continuar a ouvir cantar bom fado já fico muito contente. A D. Amália, o maior problema que teve nos últimos anos não foi a idade, foi a doença que lhe atacou a garganta. Mas ainda está por aparecer aquela que seja capaz de fazer o que ela fez. Além da voz linda, “estilou” coisas que hoje, quando a querem imitar, não estão a estilar, estão a gritar.

FM – No seu caso, uma das coisas que mais impressiona, é quando sobe aos agudos e parece voar como um pássaro…

Argentina Santos – E às vezes não vou mais além para não exagerar. Mas isso, graças a Deus, ainda consigo fazer.

FM – Sai-lhe sempre bem?

Argentina Santos – Não. Às vezes estou ali no meio da casa e digo assim: “só mais um fado que isto hoje nem a Amália! Desculpem mas isto hoje não está a sair como eu quero”. Não estou a sentir e ninguém me convence. Mas também é preciso ver que muitas vezes, nas casas ou nas festas, canta-se apenas um ou dois fados. Eu não, têm que me deixar cantar. Por vezes o primeiro fado não nos sai bem, a voz nem tempo tem para aquecer, depois no segundo já está melhor e é quando tem que se parar!

FM – Já deixou de participar em espectáculos por causa das suas obrigações no restaurante?

Argentina Santos – Às vezes, em ocasiões em que há muito que fazer. Mas quando vou cantar lá fora deixo tudo bem orientado, tenho empregadas já com 40 anos de casa. Mas não recomendo nada a ninguém, cada um sabe aquilo que tem a fazer.

FM – Ainda cozinha?

Argentina Santos – Quando os clientes me pedem, eu é que vou fazer o comer. Mas tive que deixar um bocadinho a cozinha por ter sido operada e já me custa estar muito tempo à frente do fogão.

FM – Cozinhar é uma arte?

Argentina Santos – Eu gosto tanto de fazer comer como de cantar. É igualzinho. Adoro estar aqui em casa e ouvir o cliente dizer-me que está bom. E tanto improviso no comer como no fado.

FM – Mas aí não tem ninguém a acompanhá-la à guitarra…

Argentina Santos – Quando muito posso pedir para me descascarem umas cebolas ou uns alhos mas o resto, quando me ponho em frente do fogão, é comigo. E posso garantir que aquilo que faço se pode comer (risos). Fazer o comer é uma coisa rica, um acto de amor.

Fado: Cristina Branco e Mafalda Arnauth

23.05.2003

Fado

São duas vozes capitais do novo fado. No mais recente álbum de Mafalda Arnauth, Encantamento, escutamos uma voz mais serena, alada e “cantabile” do que nos discos anteriores. Com “Sensus”, Cristina Branco avança mais um passo para fora do fado tradicional. Disco onde a poesia e a voz rivalizam em erotismo, tem a ousadia das coisas belas.

SER FADISTA É ENTREGAR-SE À VIDA

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Depois de “Mafalda Arnauth”, produzido por João Gil, e “Esta Voz que me Atravessa”, produzido por Amélia Muge, “Encantamento” tem auto-produção da fadista. O resultado é o seu melhor álbum de sempre. Pelos temas e pela voz. A fadista tomou quase tudo em mãos. “não quis deixar nada em mãos alheias, decido assumir toda a responsabilidade. A parceria maior que tenho neste disco é o Luís Oliveira, que se encarregou da direcção musical e dos arranjos. Neste disco as letras voltam a ser minhas… E a responsabilidade de algo que esteja menos bem é também minha. Digamos que a minha personalidade se tornou mais vincada. O disco resulta de um crescimento e de uma auto-descoberta tão grande que não seria justo pôr outras pessoas a assumirem a responsabilidade pelas minhas decisões”.
Responsabilidade que Arnauth assume como fruto de uma segurança que antes não se manifestara: “uma segurança que adveio do prazer que me deu. Sou uma mistura de racional e emocional, e o racional consegue fazer uma avaliação do trabalho. O emocional voltou a ter espaço para se expressar, coisa que no segundo disco não aconteceu, por cansaço e por estar a trabalhar com pessoas com muito mais experiência do que eu, o que gerou em mim um certo respeito”.
Algo mudou entretanto, como resultado desse processo de auto-descoberta. Mafalda centrou as atenções no corpo, forçou-o a disciplinar-se. Três factores contribuíram para essa mudança: “O primeiro factor vital foi a saúde. O templo onde tudo isto acontece, o meu corpo. Precisava de uma paragem no final de 2001, todo o trabalho de estrada tinha sido desgastante. O segundo factor foi ter deixado de fumar. De repente pude reencontrar a minha voz e redescobrir novas possibilidades em termos de interpretação. Quando tomamos conta do nosso corpo ficamos com muito mais força para tudo o que vem a seguir. Um terceiro factor foi ter voltado a compor”.

O Fado É Sereno

Desprende-se da audição de “Encantamento” uma sensação de serenidade. Sem rodeios: dos três álbuns já gravados pela fadista, “Encantamento” é aquele em que Mafalda canta melhor. Algo que nasce “da respiração, da tal história de ter acabado com o tabaco”. A fadista também teve aulas de canto, “de colocação de voz”, que a ajudaram, sobretudo a tranquilizar-se. “Não me formataram a voz mas deram-me saúde ao instrumento. Sinto que está muito bem. O sopro, a respiração é tão importante a falar como a cantar, o facto de eu conseguir fazer essa gestão do ar, põe naturalmente tudo no sítio, deixando outra margem para a inspiração. Antes era uma das minhas dificuldades. Só a insegurança, a ansiedade, só isso já aperta o ar. Quando não temos que nos preocupar com isso, a atenção passa imediatamente para outro lado”.
O trabalho de estúdio teve a sua quota-parte nestes resultados. Mafalda teve o estúdio totalmente à sua disposição. “O Luís Oliveira e o José António Pedro, que faz o som do disco, formam uma sociedade e têm os dois um estúdio que, além de ser muito caseiro, é topo de gama ao nível técnico. Os músicos tiveram dois meses para gravar, mais um para as misturas”. Sobrou tempo. Não houve pressões. “A editora teve alguma dificuldade em perceber como é que está tanto tempo a fazer um disco. Para a maior parte das pessoas é uma loucura, ter um estúdio só para nós”.
Preocupações que não são vulgares nos fadistas vulgares mas que Mafalda Arnauth considera essenciais. Funcionou uma filosofia de vida que passa pela aprendizagem constante. “Enquanto estudei Veterinária tive uma cadeira, de Toxicologia, que me abriu os olhos para o ser humano hoje e como era há 30 anos atrás. Em 30 anos, os nossos corpos deixaram de ser as forças da natureza que eram. Não digo que toda a gente seja assim, mas eu pago mais caro do que as outras pessoas. Apesar de ter um corpo forte, com personalidade, sinto que sou frágil. O ritmo da vida é hoje superior, o stress que apanhamos, a comida, tudo nos fragiliza. Tive que encontrar uma disciplina. É claro que há outras pessoas que continuam a ser forças da Natureza, por mais que façam as maiores desgraças”.
Há quem diga que quanto maiores são os excessos melhor se canta o fado. Para Mafalda, não. “Até há quem diga que eu, neste momento, tenho voz a mais…”, diz a sorrir. Como é isso? “Voz a mais, por se sentir menos esforço a cantar, sem aquela necessidade de sofrimento que ainda está um bocadinho inerente ao canto”. Em “encantamento” sente-se o prazer. Incluindo “o prazer que se pode tirar das próprias dificuldades”. “porque o percurso deste disco é extremamente doloroso, fruto do tal crescimento”, diz a fadista. “Tentei fazer algo feliz de um processo que foi doloroso”. Ser fadista é, então, uma “filosofia de vida”, uma “entrega à vida”. Filosofia que pratica, “embora não os mesmos núcleos nem nos mesmos ambientes” que fizeram o fado no passado. “Ser fadista é isso, é a pessoa que vive, que absorve uma quantidade de experiências e que as transporta para o canto. O que eu absorvo é que é diferente do que absorve a maior parte das pessoas. Continuo a sentir um canto melancólico. Hoje já consigo ver nas fadistas da minha geração as suas diferenças”. E vê-las assim: Cristina Branco, “cada vez mais uma fadista que se alimenta da poesia”, Mariza, a “fadista de faísca, de garra”, Mísia, “uma fadista cosmopolita”. Cada uma delas “a absorver várias áreas do mundo”.

Matar Saudades

Mafalda Arnauth continua a frequentar as casas de fado. Para “matar saudades”. Dá razão a Argentina Santos que ainda há pouco tempo dizia ao Público que é impossível aos novos fazer carreira sem passar pelas casas de fado. “Passei por lá e continuo a sentir a necessidade de ir, mas não no mesmo formato. Se já não vou com a mesma frequência é porque foi lá que aprendi, nem tudo coisas boas. Mas a minha natureza não se enquadra numa casa fechada. Argentina Santos tem o seu trono, o seu lugar de culto. Se um dia tiver a minha casa de fados, naturalmente que também terei que estar lá. Mas hoje prefiro ir cantar a uma casa de fado e sentir gozo do que estar lá uma noite inteira. Até porque nós, da nova geração, tornámo-nos umas “pequenas estrelas”. Numa casa de fado onde está alguém a cantar diariamente, com uma entrega total, não tenho coragem de chegar lá, e por ter algum estatuto, chegar, cantar cinco ou seis fados e ir para casa. Estaria a obrigar alguém, provavelmente muito mais cansado do que eu, a ter que cantar outra vez. É um respeito que continuo a ter”.

O Problema Dos Títulos

“Encantamento” termina com um “Fado Arnauth”. A própria não receia ser acusada de pretensiosismo e explica a razão de ser do título: “esse título existe porque estive dois ou três meses a tentar dar títulos às músicas o que, com a SPA [Sociedade Portuguesa de Autores], é impossível. Têm sempre registado um título igual! Por exemplo, tinha ‘Na palma da minha mão’, mas não dava, tentei cinco ou seis títulos, acabou por ter que ser ‘Da palma da minha mão’. O ‘Fado Arnauth’ foi “Feitiço’, o ‘Sem limite’ não pôde ser ‘Sem limites’, ‘Bendito fado’ teve que ficar ‘Bendito fado, bendita gente’, ‘É sempre cedo’ chamava-se ‘Acorda coração’… Impressionante. O “Fado Arnauth” foi um relâmpago, nascido da frustração.”
E “Encantamento”, foi também assim? “Esse foi um encantamento total. Um cantamento, encantamento que vem do canto. Um encantamento com a vida que passa. Porque é que, de repente, me sinto uma pessoa saudável? Há quem diga que o desapego à vida, um instinto anti-vida, é necessário. Eu penso precisamente o contrário, acho que este encantamento vem de cantar à vida, da superação do dia-a-dia. A minha vida será tanto mais rica quanto mais gostar até das coisas menos boas. Embora hoje este amor pela vida esteja algo ‘démodé’… Já esteve mais na moda ser-se feliz.”
Também a síndrome ‘Nova Amália’ esteve mais na moda. Hoje “as novas fadistas que estão a aparecer têm o cuidado de ter particularidades próprias, uma personalidade marcada”. Mafalda Arnauth até exagera um pouco, a ponto de continuar sem gravar um único fado de Amália. Lá virá o dia. “Hei-de fazer isso! Mas quando o fizer, não serão só fados dela. Será como uma prenda que darei a mim própria”.

“Encantamento” é composto por 14 temas, com música de Luís Oliveira e poemas de Mafalda Arnauth, à excepção de “As Fontes”, de Sophia de Mello Breyner, “Cavalo à Solta”, com letra de Fernando Tordo, e “No teu poema”, com versos de José Luís Tinoco. Acompanham a fadista José Elmiro Nunes (guitarra portuguesa), Luís Oliveira (guitarra clássica) e João Penedo (contrabaixo). Os convidados são João Ferreira Rosa, em “Da palma da minha mão”, e a cantora de jazz Mónica Ferraz, em “Ó voz da minha alma”.

EROS É BRANCO

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“Sensus” é um disco de poesia erótica de autores luso-brasileiros como Vinicius de Moraes, Chico Buarque, David Mourão-Ferreira, Pedro-Homem de Melo, Camões, Vasco Graça Moura, Maria Teresa Horta, Pedro Támen e Eugénio de Andrade. Com William Shakespeare a deitar também a sua pitada de sal a uma música em que Custódio Castelo se encarrega de dar sentido aos sons.
Tudo partiu de um poema de David Mourão-Ferreira que deu o nome ao álbum anterior de Cristina Branco, “Corpo Iluminado”. Mourão-Ferreira volta a estar presente, desta feita, com “Assim que te despes”. Assim Cristina Branco se despe de preconceitos. Fado dos sentidos. Fado-carne. Fado picante? Cristina garante que se sente, neste novo registo, “como peixe na água”.
A capa calhou ficar talvez um pouco sugestiva demais, provocando todo o tipo de associações. A cantora não tem culpa, ri-se com gosto e salta imediatamente para o cerne da questão: “Toda a gente pensa logo, poesia erótica e tal…”. É este “tal” que importa esclarecer. Tenham clama, é tudo científico: “inicialmente pretendi que fosse um documento sobre a sociedade portuguesa desde a época medieval até agora. Como é que os portugueses viam a sexualidade. Acabou por não ser, porque entretanto tropeçámos no Shakespeare, no Vinicius e no Chico…”. Apesar da vertente didáctica, Cristina assume que “Sensus” tem “uma linguagem mais ousada, embora sem cair no óbvio”, do que os álbuns anteriores.
Mas “Sensus” fala de sexualidade ou de erotismo? “Tem as duas coisas. Sem utilizar as palavras concretas”, como faz questão em frisar. “Pastoras da estrela”, um dos belíssimos temas de “Sensus”, composto por Miguel Carvalhinho, soa a música antiga, situando o fado nas noites trovadorescas de antanho. É pecado, clamariam as vozes censoras. É pecado sentir e tirar prazer da música. “Sensus” destila esse pecado e quem nos absolverá desta luxúria? “A abordagem musical do Custódio tem algo que bebe em tempos muito remotos”. A voz de Cristina faz o resto, lançando-nos no caminho da perdição.
Sem misericórdia pelos fracos, Cristina garante que “ainda pretende ir mais longe”. Na revolução do fado, bem entendido. E recorda que, nos primórdios, o “fado era cantado por prostitutas”, o que lhe conferia um carácter, digamos, não de pecado mortal, mas venial.
Quanto a Cristina Banco, o seu canto afasta-se cada vez mais das formas tradicionais do fado. “Porque não contar apenas uma história?”. As histórias de “Sensus” incluem um “Soneto de separação”, de Vinicius de Moraes, “O meu amor”, de Chico Buarque, “Ninfas”, de Camões, “Soneto destruído”, de Graça Moura, “As mãos e os frutos”, de Eugénio de Andrade e “O sabor de saber”, de Rui Branco. Histórias, afinal, de amor que uns dizem que vem antes e outros que vem depois. Cristina Branco destaca uma, “O meu amor”, uma espécie de “impressão digital”. Começa assim: “O meu amor/Tem um jeito manso que é só seu/E que me deixa louca/Quando me beija a boca/A minha pele fica toda arrepiada/E me beija com calma e fundo/Até minha alma se sentir beijada”.

Tocam em “Sensus” Custódio Castelo (guitarra clássica, baixo), Alexandre Silva (guitarra clássica), Fernando Maia (baixo), Miguel Carvalhinho (guitarra clássica), André Dequech (piano) e Ben Wolf (contrabaixo).