Arquivo da Categoria: Fado

Guerra Ao Vírus – Uma Gala De Artistas Portugueses Contra A Sida

Pop Rock

 

30 JANEIRO 1991

 

GUERRA AO VÍRUS Uma Gala de artistas portugueses contra a Sida

 

MARIA JOÃO

 

Cantora de jazz. Evoluiu do jazz tradicional para a improvisação e liberdade aprendidas com Bobby McFerrin. Trabalho mais no estrangeiro do que cá, onde quem devia apoiá-la, não apoia. Gravou com a pianista japonesa Aki Takasi um álbum que a crítica especializada internacional elegeu como dos melhores do ano. Em Outubro do ano passado reincidiu, em registo ao vivo, agora também acompanhada por Niels-Henning-Ørsted Pederson. Em Abril volta aos estúdios para gravar com uma banda portuguesa. Tenciona continuar a gravar por esse mundo fora. Um dia destes com Naná Vasconcelos ou um coro infantil. Quando canta, a expressão do rosto lembra a de Billie Holiday.

Maria João, como Billie, também canta com a alma. Aceitou o convite para participar na Gala por solidariedade e porque aproveita todas as ocasiões em que lhe pedem para cantar. No Coliseu, acompanham-na Carlos Bica e Bernardo Sassetti.

“Participo, primeiro por uma questão de solidariedade com as vítimas de uma doença que mata milhares de seres humanos, em todo o mundo. Depois, porque penso que este espectáculo vai ser importante para chamar a atenção das pessoas para esse facto, porque nós por cá somos muito distraídos em relação a essa doença. Pensamos que não nos atinge, que não é nada connosco. Precauções, nem pensar! Depois, porque gosto imenso de cantar, de maneiro que aproveito todas as oportunidades que surgem para o fazer, desde que haja uma sala boa, boas condições e boas pessoas a assistir.”

 

 

PAULO DE CARVALHO

 

Tem uma boa voz e uma certa propensão para o jazz, quando se concede certas liberdades vocais. Mas parece não querer arriscar, preferindo investir em terrenos mais seguros, capazes de lhe proporcionar êxitos populares como os “Meninos do Huambo”. Entrou em Festivais da Canção, mas já deve estar arrependido. Revelou-se surpreendentemente à vontade num disco inteiro a cantar fado.

“Tenho muito a ver com isto, embora não com esta organização, especificamente. Tinha planos para participar com outros amigos num outro espectáculo de solidariedade deste tipo que acabou por não se realizar. Em relação a este acabei por ser um bocado ultrapassado pelos acontecimentos. Não cheguei propriamente a ser convidado, mas sim a estar presente. Penso que desta vez não irei tocar ou cantar, mas apenas fazer apresentações. Se houver alguma participação, em termos de cantigas, certamente que será ao lado dos Trovante.”

 

 

AMÁLIA RODRIGUES

 

Com as quatro primeiras letras do seu nome se escreve a palavra alma. Alma portuguesa, perdida na eternidade do fado, da fatalidade tornada quase confortável. Amália é a voz da saudade que canta. Da nobreza e da tradição resistentes aos ventos gelados da modernidade. Voz correndo como um rio que nasce muito longe, cá dentro, desde antigamente.

Mulher vestida de negro com uma rosa rubra no coração. Lua que ilumina a noite lusitana. Viúva de Portugal. Ela diz ser apenas uma mulher normal. Quem somos nós para a contradizer.

“Fui convidada, mas não para cantar. Quero esclarecer isto, porque senão depois as pessoas pedem-me para o fazer… A primeira razão que me levou a participar nesta iniciativa é porque sou uma pessoa normal e por isso preocupo-me com as coisas horríveis que há no mundo. Acho que essa doença é uma doença horrível, feia, em muitos sentidos. Já fui cantar a Paris, convidada pela Line Renaud, numa gala que aí se realizou, também contra a sida, e agora volto a participar, não com prazer, pois não é por prazer que se participa numa causa destas, mas com muito boa vontade. Acho que as pessoas deviam realmente pensar nisto e comparecerem em massa também.”

 

 

HERMAN JOSÉ

 

O seu nome dispensa grandes apresentações. É o homem que em Portugal melhor sabe fazer rir. Alia a inteligência irónica e a sátira feroz a um apurado sentido do absurdo. Destrói e constrói os mecanismos e vícios dos nossos cérebros mal habituados.

Só o facto de gostar e, mais do que isso, compreender o sentido profundo do humor delirante dos Monty Python bastaria para fazermos dele um herói.

Na rádio é sempre brilhante. A televisão não sabe se há-de amá-lo ou odiá-lo. Tony Silva, Serafim Saudade, Estebes ou Maximiana é que são os portugueses reais. Os outros, os sérios, são caricaturas.

Sobre a Gala dos Artistas afirma que vai ter uma participação séria e discreta. Ou seja, não é para rir. O bom actor deve saber interpretar todos os papéis. Mesmo quando, como é o caso, não se trate de teatro.

“Os motivos que me levam a participar são por demais óbvios: porque é importantíssimo não adormecermos em relação a essa nova peste negra do nosso século. Dá-me a sensação que em Portugal vivemos todos num excessivo optimismo. Sinto isso pelas pessoas que me rodeiam. Sinto isso por uma certa contenção, pudor e medo com que muitas vezes os próprios órgãos de comunicação social se debruçam sobre o tema. É uma coisa que nos toca a todos de tão perto que é importante os artistas assumirem em Portugal o mesmo papel que têm assumido nos outros países – o de chamarem a tenção para um problema que está longe de ser resolvido e que nos pode afectar a todos. A minha participação no espectáculo, apenas como apresentador, vai ser discreta e portanto não vou (e se calhar porque também não me apetece) contar muitas anedotas nem ter muita piada, porque o tema não é propriamente aliciante, apesar de o espectáculo não pretender ser uma coisa triste, pesada e lamuriosa. Pelo contrário, é suposto ter optimismo, a começar pelo próprio cartaz, um desenho do Pomar que não é nem fatal nem fatídico, mas antes uma alusão ao próprio acto amoroso em si.”

 

 

RUI REININHO

 

Os rapazes dos GNR brincam com as palavras e com os sons. São homens temporariamente sós à procura da infância perdida. Tocam uma música colorida de palavras cruzadas, que fazem sentido doutra maneira. Parecem estar sempre a brincar, mas há quem os leve muito a sério e lhes condene as brincadeiras. A televisão, por exemplo, não deixou passar o vídeo da Maria, embora eles jurem a pés juntos tratar-se apenas de uma amiga. Alguns julgaram ver em “Dunas” alusões a práticas menos inocentes. Enfim, mesmo sem querer, os GNR esbarram constantemente nos temas proibidos. Ultimamente estão mais calmos (embora um antigo companheiro de armas esteja sempre a arranjar-lhes problemas) e Rui Reininho parece mesmo querer rivalizar com Bryan Ferry no papel de “crooner” cínico e bem falante. São dos melhores grupos de novo rock portugueses. Declaram que não se sentem responsabilizados pela existência do vírus.

“Porque é que a gente entra numa coisa dessas? Porque sei que nos dão mais atenção do que àquelas caras do costume, os políticos, etc… Não é que nos sintamos responsabilizados pela existência do vírus, mas se conseguirmos impedir que ele se propague… Há muita hipocrisia e mais uma vez, no caso das medidas ‘portugas’, acho que houve muitos erros, culpados pela propagação dessas histórias. Não há informação. O português acha que essas coisas acontecem sempre aos outros… por exemplo, nas farmácias, aqui há uns anos recusavam vender seringas e, ainda na semana passada, falávamos de um amigo meu que fazia quilómetros por noite, nomeadamente aqui no Porto, para as arranjar. As pessoas tinham atitudes morais desse género. Inibiam-se as pessoas na compra de preservativos, essa história toda… Acho que, nesse aspecto, podemos ‘dar um toque’, podemos falar nisso mais à vontade do que a dra. Maria Barroso, por exemplo, sem moralizar, como dizia o outro. Torna-se doloroso ver pessoas morrer por estupidez… É um pouco como aquela história de as vitaminas não serem comparticipadas… Toda a gente fala em prevenção, mas prevenção é coisa que não há, a única que há é a rodoviária e mesmo assim as pessoas morrem como tordos… A partir de aí é fácil ver o que acontece nas outras áreas… Vamos tocar talvez três canções, numa participação de dez ou quinze minutos. Uma delas será forçosamente ‘Morte ao Sol’.”

 

 

SÉRGIO GODINHO

 

Escritor de canções. Sobrevivente das histórias do nosso (des)contentamento. Vem de muitas lutas e algumas amizades construídas no caminho. Zeca Afonso, Brel, tropicalismo ou o rock anglo-saxónico são algumas das referências presentes na sua obra, mas que não chegam para a catalogar. Ainda bem. Não gostamos que chamem nomes a uma música que nos habituámos a fazer nossa.

Sérgio Godinho é dos que em Portugal melhor sabem contar e cantar uma vida e os seus sonhos, nos três minutos que dura uma canção. Minutos que são a própria vida. Quanto tempo dura a vida? O resto da nossa vida?

Recentemente esteve durante muitos dias, todos os dias, num auditório pequeno, para melhor nos contar as suas histórias, despojadas de tudo o que nos pudesse distrair. Depois gravou o disco. Escreve canções. Na Gala dos Artistas vai estar sozinho em palco, com a sua voz e uma guitarra acústica.

“Participo porque é um assunto importante que mexe mesmo connosco. Pediram-me que inventasse uma frase alusiva ao tema. Escolhi esta: ‘viver é a grande vingança do corpo’. O corpo vinga-se contra tudo o que lhe querem fazer sofrer. No espectáculo vou cantar duas canções, ainda não decidi quais, acompanhada só pela guitarra. Possivelmente tocarei ainda mais uma, integrado nos Trovante.”

 

 

LENA D’ÁGUA

 

Tem uma maneira engraçada de cantar e de se movimentar em palco. As pernas são bonitas, a cara também, as canções não ofendem. O pai foi um futebolista famoso. O irmão é um futebolista famoso. Ela é só famosa. Começou por ser “hippie”, nos tempos psicadélicos dos Beatnicks. Inesquecível um concerto, há muitos anos, em Sintra. Nos Salada de Frutas pediu para se olhar o “robot”. Muita gente olhou. Foi ficando cada vez mais doce e hoje, “sempre que o amor a quiser”, está pronta a acariciar com a voz. Voz que, em algumas canções (nunca ninguém reparou?) lembra a de uma rapariga inglesa chamada Sonja Kristina, vocalista de uns tais Curved Air.

As canções de Lena d’Água são tal qual o líquido vital: não ardem como bebidas fortes, mas refrescam e matam a sede.

“Aceitei o convite para participar como teria aceitado se se tratasse de uma gala para angariar fundos para as crianças deficientes mentais, para os estropiados da guerra, ou para quem quer que precisasse de ajuda e a pedisse. Da minha parte, sou sempre solidária.

Na minha actuação vou cantar, acompanhada pelo Pedro Osório, ao piano, ‘Não é Fácil o Amor’, do Janita Salomé. Quanto à outra canção ainda não ficou decidido qual será, talvez ‘Chanson Triste’, de um compositor do princípio do século.”



Carlos Paredes – A Guitarra Que Venceu O Fado

07.03.2003

Carlos Paredes – A Guitarra Que Venceu O Fado

Se Amália foi o fado, Paredes é a sua transcendência. Amália foi a onda, nítida e exacta. Paredes, o mar revolto e uma ideia de liberdade que não se esgota no dizer. Disse-o mesmo assim – com a raiva e a ternura de quem se deu e coroou a solidão. A integral O Mundo Segundo Carlos Paredes, agora editada, é o testemunho vivo desse caminho.

LINK

“Carlos Paredes era de uma dimensão muito difícil de definir. O Carlos vagueava no espaço: é um ser etéreo. Ele não estava cá, estava para além e acima de nós. Pairava no espaço. Quando o Carlinhos aparecia para tocar, era um deus”. É desta forma que Luiz Goes, um dos mestres do fado de Coimbra e dos primeiros músicos a privar com a arte de Paredes, define a personalidade musical e humana do autor de “Verdes Anos”, cuja obra integra acaba de ser compilada pela EMI-VC em forma de caixa, com o título “O Mundo Segundo Carlos Paredes, Integral, 1958-1993”.
O mundo segundo Carlos Paredes é um mundo que a todos fascina mas também um mundo cuja originalidade se torna difícil de enquadrar sob a lupa da análise mais fria. A música deste “ser etéreo” que, como dizia Goes, parecia pairar no espaço enquanto tocava, atinge-nos irremediavelmente na dimensão mais trágica do ser português, nesse ponto onde a mais despojada e apaixonada das solidões se sublima amorosamente pela Saudade.
Para além de Amália, Paredes foi, enquanto músico, o mais alto expoente desta interioridade, tornada beleza e arrebatamento absolutos nas cordas e na alma de uma guitarra portuguesa. Por estas razões, pelo valor documental e pelas não-razões, de ordem emocional, que cada um descobrirá dentro de si, “O Mundo Segundo Carlos Paredes” é, desde já, no capítulo das reedições, o acontecimento editorial do ano.
Apresentado sob a forma de livro forrado interiormente com 37 páginas explicativas, incluindo um texto de apresentação de Ruy Vieira Nery, compõe-se de oito CDs organizados por ordem cronológica, abrangendo a totalidade do material gravado por Paredes, disperso por EPs e álbuns lançados entre 1958 e 1993. 35 anos de carreira ao longo dos quais Paredes deixou vincada a sua arte, parca em quantidade (a sua obra é escassa, comparada por exemplo, com o acervo legado por Amália), mas absolutamente imbuída de uma intensidade inigualável na música deste século.

Nascer Do Dia

“Despertar”, título do CD de abertura, é composto por 26 temas, dos quais os primeiros quatro, os mais antigos gravados pelo guitarrista, correspondem ao EP “Fado de Coimbra”, do Dr. Augusto Camacho, excluindo-se obviamente as colaborações prévias de Paredes com o seu pai, Artur Paredes.
Descobre-se nesta introdução a nostalgia e o típico “rubato” coimbrões que marcariam, sem o esgotar, o estilo do guitarrista, vislumbrando-se desde logo sinais do seu virtuosismo. Entre os temas 5 e 8 deparamo-nos, cara a cara, com o génio musical presente no EP “Carlos Paredes”, de 1962.
Os desenvolvimentos melódicos, em forma de rapsódia, e, sobretudo, a sua exposição em termos técnicos, de imediato entraram em conflito com os dogmas ligados ao instrumento. Hugo Ribeiro, engenheiro de som presente em inúmeras gravações do mestre, ao ouvi-lo pela primeira vez numa sessão em casa de Amália, comentou: “Aquilo não tinha nada a ver com guitarra portuguesa. Ninguém tocava daquela maneira”. Não tocava, de facto. Quanto à guitarra portuguesa, tornou-se desde esse momento um instrumento nobre e arquétipo pelo qual todos os guitarristas das gerações posteriores se guiariam.
Outro EP, de 1964, apresenta “Guitarradas sob a Forma de Filme ‘Verdes Anos’”. Não era ainda o tema com o mesmo nome que se tornaria o cálice onde vamos beber a transcendência, mas as sementes, regadas, como no disco anterior, pela guitarra de Fernando Alvim, estavam já preparadas para fazer florescer uma música ainda mais sofisticada. “Frustração”, a faixa final, fere como um punhal, o derradeiro tom menor assombrando como a revelação do destino. Noite sem véus.
“Guitarra Portuguesa” (1967) constitui o álbum de estreia, através do qual o seu autor entrou em definitivo para a galeria dos imortais. Todos guardamos, no ouvido, no subconsciente ou no coração algumas destas melodias. “Dança” evidencia o lado mais enraizado na música tradicional de Paredes, enquanto “Fantasia” e “Pantomina” ilustram as suas ligações à música antiga, respectivamente da Renascença e da Idade Média. “Divertimento” sintetiza, entre a euforia e o sonho, o modo de construção melódica, rítmica e harmónica do músico. Muitas músicas numa música. Paredes e Alvim, genialmente irmanados no mesmo delírio, formam uma orquestra subliminar, actuante nos vários planos de escuta. “Romance Nº 1” e “Romance Nº 2” são harpa de luz e água. Paredes e Alvim, guitarras em dança sagrada. Precisamente no meio do alinhamento está “Verdes Anos”. E aqui, de tão próximos e tão misteriosamente e para sempre distante (não é isto, também, a Saudade?) resta-nos o silêncio e a entrega, mas também de uma solidão exposta com nudez quase cruel, se trata. Música em estado puro, verdadeiro “movimento perpétuo” do qual o executante se faz puro agente mediúnico. Aquele que recebe, dá e revela.
Alguns segredos técnicos ajudaram a criar esta obra-prima. Recorda Hugo Ribeiro: “O Paredes não custava nada gravar. A grande dificuldade era conseguir ouvir a guitarra através dos altifalantes e da aparelhagem como se estivesse a um metro de distância. Eu procurava ouvir a guitarra através do microfone do ‘ponto de vista’ dos meus ouvidos em relação ao instrumento. Acabei por arranjar uma solução: fui vendo onde ouvia bem a guitarra, o que já era muito longe de Paredes. E pus lá um microfone, um outro junto de Paredes, que estava desligado; e afastava dele ao máximo a viola do Fernando Alvim…”. Completam o “Despertar” três temas extraídos do LP “Coimbra de Ontem de Hoje” (1967) de Luiz Goes.

Água Corrente

“Na Corrente”, CD Nº 2, abre com o tema com o mesmo nome, registado em 1969 para o documentário televisivo de Augusto Cabrita mas publicado pela primeira vez em CD apenas em 1996. Nesta faixa Paredes tocou guitarra clássica improvisando em tempo real sobre as imagens projectadas. Um Paredes diferente, abstracto, por vezes quase ausente que desfalece para logo recuperar o fogo e o fôlego, umas vezes próximo do espírito da bossa-nova, outras num abandono triste ou na perplexidade de quem escutando fora de si, a si mesmo se escuta. O “mundo segundo Carlos Paredes” é Carlos Paredes. Em seu redor: paredes de água, paredes de diamante, paredes de cristal. Transparentes,. Inquebráveis. Doze minutos e meio de vida como ela é, ou seja, música: Movimento. Enigma. Tempo. “Na Corrente” é um título perfeito.
Por isso se cai aos trambolhões quando, sem aviso, a voz de José Carlos Ary dos Santos se faz ouvir lendo poemas medievais e contemporâneos, com Paredes a acompanhá-lo. O álbum chamava-se “Espiral Op. 70” (foi uma oferta de Natal da agência de publicidade Espiral, onde o poeta era um dos criativos…) e teve edição privada em 1969. Alguns solos (já na guitarra portuguesa) soam distantes. Ary declama “Meu amor, meu amor”, poema seu que Amália cantaria com música de Alain Oulman.
Vem a seguir uma raridade: “Meu País2 (1970), de parceria com a cantora e actriz Cecília de Melo, então companheira de Paredes. Seis tradicionais mais outros tantos originais do guitarrista, sobre poemas de Manuel Alegre, Mário Gonçalves e Carlos de Oliveira. A voz faz lembrar a de Cândida Branca-Flor nos tempos folk com a Banda do Casaco. Paredes ouve-a embevecido e dá-lhe o céu repintado da obra anterior. Mas céu, seja como for…
“Danças”, CD Nº 3, traz “Movimento Perpétuo”, de 1971. Um clássico. Ao lado dos inéditos, o LP incluía um par de temas compostos para a banda sonora de “Mudar de Vida”, de Paulo Rocha, com a participação de Tiago Velez, na flauta, o que confere à música uma sonoridade com ressonâncias “new age” na linha da música de Paul Horn. É o álbum em que a veia improvisadora de Paredes se sedimenta num estilo reconhecível, feito de reminiscências de frases antigas projectadas, paradoxalmente, de acordo com um desejo de superação e descoberta constantes.
“Quando entrámos para estúdio”, recorda Hugo Ribeiro, “o Paredes dizia sempre que íamos fazer experiências, nunca era para gravar. ‘Vamos ver, se calhar, talvez…’m dizia ele, e ficávamos sempre em suspenso, com a sessão adiada para o dia seguinte. O Paredes tocava por ali fora e no outro dia vinha ouvir. E depois dizia-me: ‘Oh Ribeiro, você tinha razão! Aquilo ficou bem!’. Ele entusiasmava-se a tocar. Aquela força anímica era fenomenal.
Há ainda “O Fantoche” (outra melodia entranhada nos ouvidos de todos) que sobrou destas sessões, e outras versões, de fado de Coimbra que, pela sua especificidade, foram editadas separadamente em “single”. Uma delas, “Balada de Coimbra”, com arranjo de Artur Paredes, foi responsável por um desentendimento entre pai e filho. Consta que Artur se terá insurgido contra o facto do filho gravar um arranjo seu sem tocar suficientemente bem… Os restantes seis temas fazem parte de um álbum encetado em 1973 mas apenas editado em 1996 na compilação de raridades “Na Corrente”. Carlos Paredes reformulara entretanto alguns destes temas para inclusão em trabalhos posteriores, “Concerto em Frankfurt” e “Espelho de Sons”, bem como para uma edição exclusiva alemã, “O Oiro e o Trigo2, feita sem o consentimento da editora Valentim de Carvalho, com quem tinha contrato, o que motivaria um corte de relações entre ambas as partes.

O Destino Nas Mãos

“As Mãos” reúne material de “É Preciso um País” (1974), com poemas e voz de Manuel Alegre, e “Que Nunca Mais” (1975), com Adriano Correia de Oliveira. No primeiro, Carlos Paredes socorre-se do “guitarrão2, uma guitarra portuguesa modificada que abrangia as escalas da guitarra clássica e da guitarra portuguesa normal. A revolução de Abril ainda fervia e os poemas de Manuel Alegre afirmavam-se em conformidade. Tempos de idealismo que o tempo não cumpriu. Paredes, com a sua proverbial generosidade e o empenhamento político, deu-se de corpo e alma a esta luta que também foi a sua mas da qual outros se aproveitaram Sigamos, para abreviar, que a guitarra de Paredes casava mal com um comício. A sua revolução era outra e foi essa que verdadeiramente modificou a música em Portugal.
Já o encontro, em dois temas, com Adriano Correia de Oliveira, seu “companheiro de estrada”, está mais próximo da corrente politizada da MPP do pós-25 de Abril, cima uma veia tradicional menos dependente da mensagem e do tom panfletário veiculada pelo tom declamatório de Alegre.
A gravação ao vivo de 1982, na Ópera de Frankfurt, que deu origem a “Concerto em Frankfurt” fecha o alinhamento de “As Mãos”. O concerto foi gravado sem o conhecimento de Paredes, para não o enervar, e nele encontramos um músico em que a tristeza (o desespero?) substituíra já a melancolia romântica e o poder de afirmação de “Guitarra Portuguesa”. É fado, realmente fado, a escuridão que escorria então da sua guitarra. Tocava já como se adivinhasse um desfecho trágico, numa luta titânica contra a tirania das notas, procurando esventrá-las, magoando-as porque elas o magoavam. Redimindo-as, afinal, num “lado de lá” que chega a ser aflitivo, nomeadamente nos seis cantos que compõem a “suite” “Seis Cantos Improvisados sobre a Cidade”, ficando o lado mais lírico reservado para as “Seis Guitarras sobre uma Fábula”.

Inventar a Solidão

Outra colaboração, desta feita com Carlos do Carmo, em “Fado Moliceiro”, para o álbum “Um Homem no País” (1983), abre o CD seguinte, genericamente intitulado “Improvisos”. Mas a “peça de resistência” é constituída pelos dois longos “diálogos” da guitarra de Paredes com o piano de António Victorino d’Almeida que formam “Invenções Livres” (1986). Desse encontro, surgido como consequência do interesse manifestado por Paredes em encontrar pontes com outras músicas, resultaram esporádicas confluências mas, acima de tudo, a evidência de duas visões divergentes da música. Paredes tocava voltado para dentro. Vitorino d’Almeida é um extrovertido. As cascatas de piano afogaram a guitarra, outras vezes teimosamente tentando chamar a atenção da guitarra para espaços comuns, procurando atrair, aproximar mas, por fim, resignando-se À hipotética aproximação de dois monólogos em vez da comunhão. Paredes exigia, sem querer, subserviência. Ou uma complementaridade como aquela que lhe era oferecida por Fernando Alvim. Para o maestro tal seria impensável. E a Paredes um só labirinto chegava.
Em “Asas” arruma-se o imprescindível “Espelho de Sons”, revisto e aumentado na primeira transição de LP para CD. Antologia de temas antigos retrabalhados, nela descobrimos o guitarrista na sua melhor forma, conquistando a música o domínio de si mesma nas suas mais ínfimas “nuances”. Paredes tornara-se senhor do seu destino enquanto músico. Sente-se a lucidez em cada frase, a visão e a sabedoria do que antes era intuição e mediunidade. Paredes ataca as notas, já mão para as fazer sangrar, mas para se afirmar como igual. Não toca “contra” mas “com”. A tragédia, de inevitável, é integrada num patamar de existência superior. Paredes ganhara “Asas sobre o Mundo” (dois inéditos acrescentados ao conceito original de “Espelho de Sons”, em edição exclusiva para a TAP) e é com elas que desce o pano sobre o sexto CD de “O Mundo Segundo Carlos Paredes”.

A Vida, Segundo a Segundo

É sabida a incompatibilidade de Paredes em dialogar com outros músicos, outras músicas. Mas nem por isso os outros músicos deixaram de tentar. Charlie Haden, nome histórico do contrabaixo no jazz, insistiu no acasalamento, propondo a descoberta a dois de novos caminhos. Tentativa de união que em 1990 foi editada em álbum, “Charlie Haden e Carlos Paredes”, no qual o contrabaixista cedeu ao guitarrista o maior espaço possível no alinhamento. Assim se inicia o CD número sete desta integral, “Diálogos”. De Haden, apenas o hino “Song for Che”. O resto, em temas como “Dança dos camponeses”, “Marionetas”, “Balada de Coimbra”, “Divertimento” ou o incontornável “Verdes anos”, saiu da pena e do transe de Paredes. Haden remete-se a um papel discreto. A improvisação, segundo Paredes, não segue os parâmetros do jazz. É caminho escuro, mas também cravejado de estrelas e cometas. Diante da guitarra ergue-se um espelho. Onde se reflecte o mundo, mas só à sua imagem. Três temas finais completam “Diálogos”, todos gravados na sessão realizada em 1992 no Coliseu de Lisboa com os Madredeus. Paredes interpreta só “Mudar de vida”, acompanhando o grupo de Teresa Salgueiro e Pedro Ayres Magalhães em “Canto de embalar” (com assinatura de Pedro Ayres e Paredes) e no original do grupo, “O navio”.
Faltava a viagem final, a que preenche o derradeiro CD, “Memórias”. Paredes, o músico, eternizou-se. Paredes, o homem, fraquejava ao fundo do túnel, desamparado, as mãos presas nas garras da doença. “Canção para Titi”, de 2000, sobrevive como testemunho pungente de uma arte que procurou – e conseguiu – redimir o mundo da dor. Foi preciso montar “takes”, colar frases e notas. Para erguer, no final, intacta, a estátua de um homem simples que quando tocava guitarra se transformava em mito. Entre o cataclismo de amor que é “Guitarra Portuguesa” e a “Valsa Diabólica” que é uma das múltiplas mágoas de “Titi”, a música de Paredes cresceu, como escreve João Lopes no posfácio da Integral, “uma pura identidade em construção: uma música carnal, quase animista, ao mesmo tempo que cerebral, pedagogicamente a enunciar a sua própria ideia de liberdade (…) uma arte de não abdicar das razões da solidão”.
Ao escutarmos e – melhor ainda, ouvirmos – “O Mundo Segundo Carlos Paredes” sentimo-nos mais sós e menos sós. Mas é essa a essência da Saudade. Saudade do que somos.

Argentina Santos – Prata da Casa (Entrevista)

25.04.2003

Argentina Santos – Prata da Casa

Aos 77 anos, Argentina Santos continua a incluir o fado na ementa da sua alma e do seu restaurante. Ainda arranjou tempo para gravar um novo álbum.

“Não tenhas medo da fama/D’Alfama mal afamada/Que a fama às vezes difama/Gente boa, gente honrada”. A quadra, escrita num azulejo incrustado na parede logo à entrada do “Parreirinha”, quase se poderia aplicar ao modo como Argentina Santos, voz e nome de prata, optou por gerir uma carreira que só recentemente, quando, em 1994, Carlos do Carmo a convidou para estar presente num espectáculo no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, começou de facto a acontecer. Dona Argentina preferiu dedicar-se por inteiro à sua casa e aos seus petiscos. O fado e a culinária estão-lhe no sangue e encara as duas como arte. Nenhuma delas mais valiosa do que a outra.
À hora de jantar, o Parreirinha enche-se lentamente de turistas. Argentina Santos está sentada, como sempre, à entrada, fazendo de anfitriã. Neste dia decide não cantar. Há ocasiões assim, em que o ambiente não se proporciona. É necessário que as pessoas estejam ali não só para ouvir cantar o fado mas que sejam capazes de o sentir da maneira mais profunda. Em vez dela, os estrangeiros podem ouvir Tina Santos. Aplaudem na mesma, à média luz, cumprindo o ritual. Argentina olha embevecida. A fadista que canta, as empregadas que servem à mesa, as cozinheiras fazem todas parte da sua família. Sente-se bem assim. Os espectáculos, como aqueles que deu no festival de Edinburgo, no Queen Elizabeth Hall em Londres, no Konzerthaus em Viena, no La Cité de la Musique, em Paris, numa digressão por Itália ou no Coliseu de Lisboa, e os discos, como o novo “Argentina Santos”, lançado na passada quarta-feira pela MVM, podem esperar. Afinal de contas não há fado melhor do que ser feliz.

FM – O novo disco demorou quanto tempo a gravar?

Argentina Santos – Poucochinho.Eu chegava e todos os fados saíram à primeira. Só num é que o Jorge Fernando me pediu para lá ir outra vez mudar uma coisinha. Mas nunca canto o mesmo fado da mesma maneira. Quando havia uma falha qualquer, ele pedia-me para gravar só aquele bocadinho. Não ensaiámos nem nada. Tenho aí fados que nunca antes cantei.

FM – Consegue cantar tão à vontade no estúdio como no Parreirinha?

Argentina Santos – Não é a mesma coisa mas, olhe, senti-me bem. Cantei os fados com menos meio tom, tinha a impressão de que não era capaz, mas ele achava que ficava mais bonito assim. Quando ouvi achei uma maravilha. Desde que a pessoa que está a tocar, toque, e eu comece a vê-lo sentir o fado… Ao ouvir um guitarrista, fico logo a conhecer a forma como reage, se gosta de acompanhar, se é fadista. Se o guitarrista não for fadista, a gente pode dar as voltas que quiser, que não vai lá…

FM – Preferiu manter-se fiel ao seu restaurante do que arriscar uma carreira como profissional. Porquê?

Argentina Santos – Tenho a minha casa. Estou cá há 54 anos, foi feita com sacrifício. É como ter uma filha e criá-la. Depois, nunca fui pessoa para andar por aí a dizer “eu estou aqui, também sei cantar…”. Mas quando vim para aqui o meu companheiro, para me deixar cantar, era um caso sério, sabe, aquelas coisas dos homens antigos… Morreu, voltei a casar, mas ainda ficou pior, então cantar lá fora, fazer espectáculos e ganhar dinheiro, escusava de pensar nisso. Mas morreu também e fiquei… solta, com mais oportunidades de cantar para as pessoas e elas de me ouvir. Aó, o Carlos do Carmo, uma pessoa que gostava de me ouvir, veio ter comigo e convidou-me para ir ao Coliseu. Mas fiquei assim, “vais não vais”, a tremer por todos os cantos, e acabei por dizer que sim.

FM – Quantas vezes canta por semana no restaurante?

Argentina Santos – Só quando vejo que há público que sabe. Quando vejo que não sentem, posso cantar dois ou três fados e muito obrigado, que vá cantar outra pessoa! Não canto marchas nem coisas com palmilhas, não é o meu género.

FM – Os restaurantes e casas de fado continuam a ser os melhores locais para se cantar o fado?

Argentina Santos – Acho que sim. Quem não entrar e cantar nas casas de fado não terá um público que saiba ouvir. E não me venham cá com essa coisa do fado vadio, o que eu chamo fado vadio é fado espontâneo, pessoas para quem cantar é um alívio. Acho que os novos devem começar por cantar nas casas de fado.

FM – Está a pensar na actual vaga de novas fadistas? Tem alguma preferida?

Argentina Santos – Sou amiga de todas elas, já cantei com todas, já fui ao estrangeiro com elas. Gosto de todas mas, e que me perdoem as outras, gosto mais da Ana Sofia Varela, é a mais fadista. Gosto muito da Mariza e da Mafalda [Arnauth], também, mas puxo mais para a Sofia. A Joaninha [Amendoeira] é uma menina doce que está a cantar melhor do que da primeira vez em que a ouvi, tem uma doçura e uma meiguice…

FM – Para se cantar bem o fado é preciso ter já experiência de vida, mais ou menos sofrida?

Argentina Santos – Sim, sim! Não concordo que um menino ou uma menina de 12 anos ande a cantar o “Povo que lavas no rio” ou “Passaste com ela à minha rua”, são coisas para pessoas adultas, não para crianças. Elas têm muito tempo para sofrer. Há quem cante o “Povo que lavas no rio” porque já sabe que vai receber aplausos, só que 50 por cento desses aplausos são pela D. Amália. Depois da morte da D. Amália pôs-se toda a gente a cantar coisas dela. Acho uma asneira. Um artista, ao fazer do fado profissão, deve procurar os poetas, aprender as letras e cantar dentro do seu estilo, não é pôr um disco a rodar e tirar dele todas as voltinhas. Para se ser fadista tem que se ter trabalho.

FM – Como Amália Rodrigues, tenciona cantar até que a voz lhe doa?

Argentina Santos – Tenho muita pena de estar a envelhecer e ter que deixar de cantar. Mas se continuar a ouvir cantar bom fado já fico muito contente. A D. Amália, o maior problema que teve nos últimos anos não foi a idade, foi a doença que lhe atacou a garganta. Mas ainda está por aparecer aquela que seja capaz de fazer o que ela fez. Além da voz linda, “estilou” coisas que hoje, quando a querem imitar, não estão a estilar, estão a gritar.

FM – No seu caso, uma das coisas que mais impressiona, é quando sobe aos agudos e parece voar como um pássaro…

Argentina Santos – E às vezes não vou mais além para não exagerar. Mas isso, graças a Deus, ainda consigo fazer.

FM – Sai-lhe sempre bem?

Argentina Santos – Não. Às vezes estou ali no meio da casa e digo assim: “só mais um fado que isto hoje nem a Amália! Desculpem mas isto hoje não está a sair como eu quero”. Não estou a sentir e ninguém me convence. Mas também é preciso ver que muitas vezes, nas casas ou nas festas, canta-se apenas um ou dois fados. Eu não, têm que me deixar cantar. Por vezes o primeiro fado não nos sai bem, a voz nem tempo tem para aquecer, depois no segundo já está melhor e é quando tem que se parar!

FM – Já deixou de participar em espectáculos por causa das suas obrigações no restaurante?

Argentina Santos – Às vezes, em ocasiões em que há muito que fazer. Mas quando vou cantar lá fora deixo tudo bem orientado, tenho empregadas já com 40 anos de casa. Mas não recomendo nada a ninguém, cada um sabe aquilo que tem a fazer.

FM – Ainda cozinha?

Argentina Santos – Quando os clientes me pedem, eu é que vou fazer o comer. Mas tive que deixar um bocadinho a cozinha por ter sido operada e já me custa estar muito tempo à frente do fogão.

FM – Cozinhar é uma arte?

Argentina Santos – Eu gosto tanto de fazer comer como de cantar. É igualzinho. Adoro estar aqui em casa e ouvir o cliente dizer-me que está bom. E tanto improviso no comer como no fado.

FM – Mas aí não tem ninguém a acompanhá-la à guitarra…

Argentina Santos – Quando muito posso pedir para me descascarem umas cebolas ou uns alhos mas o resto, quando me ponho em frente do fogão, é comigo. E posso garantir que aquilo que faço se pode comer (risos). Fazer o comer é uma coisa rica, um acto de amor.