Arquivo da Categoria: Críticas 2003

Phil Woods & His European Rhythm Machine – “At The Montreux Jazz Festival” + Julian ‘Cannonball’ Adderley – “Julian Cannonball Adderley” + The Sonny Stitt Quartet – “New York Jazz” + The Jimmy Giuffre 3 – “The Easy Way” + Gerry Mulligan / Johnny Hodges – “Gerry Mulligan Meets Johnny Hodges” + The John Klemmer Quartets – “Involvement” + Lee Konitz – “Motion” + Stan Getz – “Reflections” + Steve Kuhn / Gary McFarland – “The October Suite”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 6 Setembro 2003

Novo pacote de reedições em réplicas-miniatura dos vinilos originais, recupera algumas preciosidades do catálogo Verve. Objectos iconograficamente irresistíveis tanto para os melómanos como para os colecionadores. Como a máquina de Phil Woods, ideal para moer o juízo no Outono.


A máquina de ritmos dá pancada

PHIL WOODS & HIS EUROPEAN RHYTHM MACHINE
At the Montreux Jazz Festival
MGM
8 | 10

JULIAN ‘CANNONBALL’ ADDERLEY
Julian Cannonball Adderley
EmArcy
8 | 10

THE SONNY STITT QUARTET
New York Jazz
Verve
8 | 10

THE JIMMY GIUFFRE 3
The Easy Way
Verve
7 | 10

GERRY MULLIGAN/JOHNNY HODGES
Gerry Mulligan Meets Johnny Hodges
Verve
8 | 10

THE JOHN KLEMMER QUARTETS
Involvement
Cadet
6 | 10

LEE KONITZ
Motion
Verve
7 | 10

STAN GETZ
Reflections
Verve
6 | 10

STEVE KUHN/GARY McFARLAND
The October Suite
Impulse
7 | 10


Outros títulos disponíveis:
“This is Billy Mitchell” (BILLY MITCHELL), “Jim Hall Live” (JIM HALL), “Steel Guitar Jazz” (BUDDIE EMMONS), “Jazz Cello” (RAY BROWN), “Ask me now!” (PEE WEE RUSSELL), “Once upon a Time” (EARL HINES), “Afro-Harping” (DOROTHY ASHBY)

Todos distri. Universal

Olá amigos, a todos muito bom jazz. O fim do Verão traz jazz clássico, jazz de ouro, jazz em CD a imitar discos antigos em vinilo. Para os aficionados e para os colecionadores, o grupo editorial Verve lançou mais um extenso pacote de reedições cartonadas, apresentadas pela primeira vez no formato digital. A música que vem lá dentro vale quase toda ela a pena. E prepara-nos para improvisar o destino no Outono.
É o caso da música de Julian “Cannonball” Adderley, saxofonista alto de costela parkeriana e fabuloso melodista com os pés bem assentes no “blues”. No álbum de título homónimo gravado em 1955, primeiro para o selo EmArcy, o fraseado escorre como mel e o bop tomou calmantes. “Purple shades” e “Fallen feathers” conseguem ser tão comoventes como canções de amor. Nat Adderley, J.J. Johnson, Paul Chambers e Max Roach são alguns dos parceiros do tenorista neste álbum que canta do princípio ao fim.
Outro esteta da melodia, embora mais nervoso, Sonny Stitt entregou igualmente o alto aos desígnios do bop. O alto e o tenor. Em quarteto com a lenda Ray Brown, na bateria, Jimmy Jones, no piano, e Jo Jones, na bateria, gravou “New York Jazz” em 1956, disco de “boppar” com todas as letras onde o “blues”, claro, enche, sustenta e equilibra as ousadias da inspiração do momento. Ao contrário de Adderley, Stitt gosta de acelerar, mesmo nas curvas mais apertadas. O piano de Jimmy Jones e o balanço profundo de Brown (mas ouçam-no a correr sem tocar no chão, em “Twelfth street rag”…) chamam a atenção para as virtudes de segredar ao ouvido. “If I had you”, “Alone together” – Há sempre uma ocasião em que dizemos coisas como estas a alguém… A “Down Beat” limitou-se a afirmar que eram de “cortar a respiração”.
Um génio: Jimmy Giuffre. O senhor clarinete do som “West Coast”. A melodia fez-se luz. “The Easy Way”, sessão de 1959, tem como companheiros ideais ainda Ray Brown (“Ray’s time” entrega-lhe todo o poder para dirigir as conversações…) e Jim Hall, guitarrista dos céus sem nuvens. Álbum de planície, de estações amenas e de contemplações, estremece, embora sem chegar a ameaçar derrocada, quando o clarinete é trocado pelo saxofone tenor ou barítono. O cosmos só seria abalado mais tarde, em “Free Fall”. Entretanto o “swing”, no extremo da “coolness”, deslizava em “Off center”, a provar como muito do jazz moderno deve ao modo como Giuffre soube povoar os espaços vazios e a dinâmica dos silêncios. “Montage”, a prenunciar a matemática harmónica avançada de “Western Suite”, era já o futuro.
No mesmo ano, Gerry Mulligan contrapunha o seu saxofone barítono ao alto de Johnny Hodges. “Gerry Mulligan Meets Johnny Hodges” é uma conversa calorosa, travada mais em descontração do que em tensão. Em “What’s the rush” percebe-se como o “blues” é o coração de todas as baladas e por que razão o saxofone é, entre todos os instrumentos, o mais capaz (e verdadeiro) de chorar.
John Klemmer, saxofonista tenor, tem em “Involvement” (1967) tudo para impressionar os admiradores do jazz de fusão. Adepto de um som sintético, o saxofonista de Chicago optou pela eletrificação do instrumento na sequência do seu trabalho com a orquestra de Don Ellis. Porém, o que esta sonoridade tem de apelativo (som redondo, ausência de harmónicos “intrusos”) acaba por se esbater num discurso sem surpresas onde desaguam uma quantidade de fórmulas gastas no passado. A guitarra de Sam Thomas, próxima de uma sensibilidade rock, tenta dar ares de inovação mas é amiúde causa de irritação.
Expoentes, respetivamente do sax alto e tenor, Lee Konitz e Stan Getz são sinónimos do grande jazz bem modulado. De 1961, “Motion” apresenta o primeiro em trio com Elvin Jones, na bateria, e Sonny Dallas, no baixo. Getz entrou no estúdio dois anos mais tarde para gravar “Reflections”. “Motion” é um “tour de force” para saxofone apaixonado e apaixonante. Alteração de timbre, entre o doce e o ácido, ondulação firme, uma clareza que nada consegue (co)rromper, oferecem o prazer de seguir em direto as mudanças de sensibilidade e os jogos que esta trava com a cabeça.
“Reflections” sabe a licor. Em Getz, o Belo apodera-se dos sentidos. Mesmo que a Beleza tenha, como aqui, o manto barroco das orquestrações de Lalo Schiffrin e Claus Ogerman. Não chega a ser decorativo, embora o carimbo “Exotica” do “easy listening” (por falar nisto, experimentem deitar um ouvido ao cósmico e estonteante tema de abertura de “Afro-Harping”, de Dorothy Ashby, uma viagem espacial de harpa e theremin próxima das “Good vibrations” dos Beach Boys…) ronde os floreados do vibrafone, o sorriso das congas e cânticos que parecem ter servido de manual de ensinamento a Laetitia Sadier dos Stereolab. E terminar com uma versão pop lamechas de “Blowin’ in the Wind”, de Dylan, pode não ser boa política. “Reflections” insinua o jazz na música popular, termo que, diz o dicionário, significa “amado ou aprovado pelas pessoas”. Algo de que Getz nunca se pôde queixar. Pessoal da pop, não se acanhem e aproximem-se.
Se ainda não se afastaram, não percam a oportunidade de conhecer também a música de um jazzman que influenciou decisivamente algumas das experiências psicadélicas e de fusão da pop dos anos 60 e 70 (como Wolfgang Dauner, Gunter Hampel, Gordon Beck…): Phil Woods, extraordinário executante do saxofone alto, para muitos o maior depois de Parker. Gravado ao vivo no festival de Montreux de 1969, “At the Montreux Jazz Festival” apresenta a sua European Rhythm Machine ao mais alto nível, com uma secção rítmica formada por George Gruntz (piano), Henri Texier (baixo) e Daniel Humair (bateria). Free jazz, free rock, pós-bop progressivo, riffs incendiários, círculos e explosões, a máquina faz jus ao seu nome, “Ad infinitum” (um dos temas do disco, com assinatura de Carla Bley). “Riot”, de Herbie Hancock, é “free” para converter os céticos da liberdade. A máquina de ritmos dá pancada.
“The October Suite”, gravado em 1966, é já Outono. Notas que tombam e se enrolam como sentimentos separados do corpo. Gary McFarland compôs, orquestrou e dirigiu com o bónus de uma secção de madeiras e outra de cordas. Ao piano sentou-se Steve Kuhn, herdeiro espiritual de Bill Evans. Jazz de câmara, entre o lirismo e a abstração, a contemplação e a obsessão. Kuhn introduz dissonâncias no que parece poema sinfónico, espaços de inquietação entre as orquestrações cinematográficas de McFarland. “Traffic patterns” sai da redoma do idioma clássico revelando o melhor das capacidades de improvisação do pianista que em “Childhood dreams” rasga o tecido orquestral com uma lição de piano impressionista.

Cecil Taylor Ensemble – “The Light Of Corona” + Jane Ira Bloom – “Chasing Paint” + The Tony Oxley Alan Davie Duo – “The Tony Oxley Alan Davie Duo”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 26 Julho 2003


A música de Cecil Taylor, Tony Oxley e Jane Ira Bloom.

A idade das luzes

CECIL TAYLOR ENSEMBLE
The Light of Corona
FMP, distri. Multidisc
7 | 10

JANE IRA BLOOM
Chasing Paint
Arabesque, distri. Trem Azul
8 | 10

THE TONY OXLEY ALAN DAVIE DUO
The Tony Oxley Alan Davie Duo
A,L,L, distri. Multidisc
8 | 10



Cecil Taylor é um combatente, mas o piano tem sabido resistir-lhe. Revolucionário no sentido espiritual do termo, o mestre do “free jazz” evolui no sentido de uma música que vai muito além das noções tradicionais. Em “The Light of Corona”, registo ao vivo de 1996 de uma sessão no festival Total Music Meeting, em Berlim, a performance do ensemble é um ritual de forças postas em ação com a finalidade de transportar músicos e audiência para o centro de si próprios. Tudo é música, enquanto houver a absoluta coincidência entre a hierarquia do transcendental, a escuta individual e coletiva e a adequação (obediência?) do universal ao gesto particular. Cecil Taylor, o músico mas também o mimo, o poeta e o dançarino, lança o desafio. Michel Portal e o seu grupo, na sua primeira e mítica apresentação em Portugal, nos idos dos anos 80, num pequeno auditório situado no sopé da serra de Sintra, iniciaram o concerto arrastando uma cadeira pelo chão. Fez sentido. A música nasce de todos os lados, desde que a chamemos e lhe saibamos dar a forma e a direção certas. Cecil Taylor manipula a energia, usa a voz, o grito, o ruído e o informe. Martela o piano para lhe arrancar a verdade definitiva. Sigamo-lo custe o que custar, sob pena de, como disse na altura um crítico alemão, estacarmos perante os” limites do que é aceitável em música”. E se tudo é, repetimos, música, deixam de existir quaisquer limites. E ficamos livres, na condição de assumirmos a responsabilidade de acompanhar por dentro o processo de criação. “The Light of Corona” segue o mesmo processo que um cerimonial religioso tibetano. É como subir uma montanha. Ou não subir. E descobrir em todos os lugares a ordem do silêncio. Convirá, no entanto, meditar um pouco antes de iniciar a ascensão. Audição árdua.
A saxofonista soprano e manipuladora de “live electronics” Jane Ira Bloom, acompanhada por Fred Hersch (piano), Mark Dresser (contrabaixo) e Bobby Previte (bateria), a mesma formação de “The Red Quartets”, de 1999, transpõe para música o universo pictórico do pintor Jackson Pollock em “Chasing Paint”. A luz, neste caso, não se esconde mas brilha no lirismo de “The sweetest sounds”, reflectida nas “Many wonders” que recompensam quem se dispuser a viajar até ao término da “Alchemy”, onde uma “white light” se vislumbra enfim. Jazz sem amarras, filho da tradição mas pujante na tensão criativa, método único para se alcançar o progresso e manter viva a chama da criatividade. O anti-virtuosismo de Jane clama pela emoção. Sentimo-la intacta, quando o soprano afaga “The sweetest sounds”. Ou quando o piano de Hersh quase nos faz odiar a violência do de Taylor, em “Many wonders”.
Voltemos, porém, à refrega. Com data original de 1974 e 1975, “The Tony Oxley Alan Davie Duo” recupera registos ao vivo e de estúdio diversos. Oxley é um dos mais conceituados improvisadores da atualidade, autor do aclamado “The Baptised Traveller”, ainda nos anos 60. Música de procura e descoberta, cria e destrói núcleos temáticos de densidade e textura variada, com Oxley a desmultiplicar-se pela bateria, o violino, o “ring modulator” e outros artefactos eletrónicos enquanto Alan Davie tem a seu cargo o piano, saxofone sopranino, clarinete baixo, vibrafone, xilofone e “ring modulator”. O território é semelhante ao explorado por Cecil Taylor mas os métodos de investigação divergem. Aqui avança-se pelo puro prazer da descoberta dos corpos sonoros e não à custa do sacrifício e da ascese. São permitidas pausas e mistura de cores. Ouvem-se sinos no meio de um átrio abandonado. Máquinas com vida própria. Vozes alteradas eletronicamente. Timbres e estruturas dispostos por camadas no espaço. “Song for the serpent” exalta tudo o que o jazz inglês dos anos 60 e 70 tem de melhor – a liberdade que não dispensa a elegância, quase afetação, e a disciplina. Diálogo vivo.

Gianluigi Trovesi Ottetto – “Fugace” + Spring Heel Jack – “Live” + The Tradition Trio – “Tone” + Akosh S. Unit – “Vetek”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 19 Julho 2003

Trovesi, Spring Heel Jack, The Tradition Trio e Akosh S. Unit fazem-nos acreditar que a música de fusão pode não ser, afinal de contas, o epitáfio do jazz. Que nos perdoem os puristas, mas o futuro passa por aqui.


‘What have they done to the blues, ma?’

GIANLUIGI TROVESI OTTETTO
Fugace
ECM, distri. Dargil
9 | 10

SPRING HEEL JACK
Live
Thirsty Ear.
Distri. Trem Azul
10 | 10

THE TRADITION TRIO
Tone
FMP, distri. Multidisc
8 | 10

AKOSH S. UNIT
Vetek
Ed. e distri. Universal
9 | 10


O mundo musical de Gianluigi Trovesi nem sempre é o mundo do jazz, como já o haviam demonstrado álbuns anteriores deste poli-instrumentista natural de Bergamo, como “Les Hommes Armés” ou o espetacular menu de luxo para “big band”, “Dedalo”. Ou pelo menos, do jazz enquanto recapitulação, recriação e criação histórica que nasceu e, provavelmente, morrerá com os “blues”. E, no entanto, algo se move ainda, como se o “swing” fizesse afinal parte de toda a música onde bate um coração humano.
“Fugace” é, por si só, um mundo. A música de baile italiana do pós-guerra, reminiscências do boogie-woogie e do jazz de Dixieland, o swing de Benny Goodman, citações de Louis Armstrong, mas também Scarlati, Duffay e Bartok, mais eletrónica em intricados rendilhados, combinam-se numa síntese absolutamente original que se desfruta como a visão de um vasto e épico “western spaghetti” em Cinemascope e som Sensaround. Tal qual o caudal de uma imaginação rigorosamente conhecedora da história do jazz – de “New Orleans” ao “free” –, da música clássica e contemporânea, mas também das formas etnográficas da música árabe e africana, “Fugace” muda impercetivelmente de registo, fluindo como um fascinante caleidoscópio de sons que recriam o próprio movimento do universo. Depois, há neste disco algo que começa a cortar às fatias o fundamentalismo: Se “Minneapolis”, álbum novo de Michel Portal, inclui uma faixa de hip-hop, “Fugace” não lhe fica atrás e envereda pelo drum ‘n’ bass, em “Clumsy dancing of the fat bird” e pelo… rock, pesado em “Blues and West”, e progressivo, em “Siparietto II” (serão os Gryphon?). Trovesi faz com que tudo pareça apropriado e natural.
Quem já havia pregado um valente susto aos puristas do jazz foram os Spring Heel Jack, com “Amassed”, sobretudo pela projeção que este disco atingiu nos centros de difusão de música alternativa (o anterior, “Masses”, já lançara as sementes da revolução). Em “Live”, registo ao vivo no Corn Exchange, Brighton, em Janeiro deste ano, a dupla exilada do drum ‘n’ bass, John Coxon e Ashley Wales, reincide com o mesmo bando de “malfeitores” (Han Bennink, Evan Parker, William Parker, Matthew Shipp e J. Spaceman) em duas longas improvisações, respetivamente de 35 e 39 minutos, que projetam a música de “Amassed” numa verdadeira selva de criaturas mutantes. O que em “Amassed” surpreendia pelo lado estrutural explode aqui num espetacular “tour de force” de jazz multidimensional e orgânico onde a raiva, a inteligência e a inovação andam de mãos dadas. É como se a “free music” dos anos 60 decidisse que o futuro lhe volta a pertencer, pegando nas descobertas do passado, arrancando retalhos do Sun Ra galáctico e do Miles das fusões elétricas, para com elas encetar nova viagem, ainda mais rica e arriscada, com término num longo e majestoso “fade out”, marcha fúnebre pelo jazz. O que significa que os Spring Heel Jack voltam a reescrever a história.
Igualmente incontornável é “Tone”, dos The Tradition Trio, formado por três nomes paradigmáticos da música improvisada: o veterano Alan Silva (sintetizador, tocou com Ayler, Cecil Tayler, Sun Ra, Shepp, Globe Unity Orchestra, etc.), Johannes Bauer (trombone, estará em Portugal no festival Jazz em Agosto, com os Doppelmoppel) e Roger Turner (bateria e percussão). Gravado ao vivo no Free Music Festival de Antuérpia, em 2001, “Tone” desenrola-se ao longo de uma faixa única de 51 minutos (e ainda há quem se queixe do rock progressivo!…) que glosa o conceito “in the tradition” (“Tradition: the handing down of statements, beliefs, legends, customs, etc, from generation to generation, esp. by word of mouth or by pratice”). A construção de Babel dos Spring Heel Jack não anda longe, ainda que a dimensão “cósmica” esteja aqui mais condensada e subjugada aos códigos de alguma música improvisada de cariz eletrónico e tribal, como a dos pioneiros MEV (Musica Elettronica Viva). A aparente e prevalecente sensação de delírio que atravessa uma audição mais superficial não escamoteia o facto de estarmos perante um intenso trabalho de comunicação e criação coletiva que, em certos momentos, consegue ser exaltante, nomeadamente quando Silva enche as crateras vazias com oceanos de sons sintetizados dentro e sobre os quais o trombone de Bauer experimenta os limites do “free” e da música contemporânea, entre músicos referenciais como Albert Mangelsdorff, Paul Rutherford ou Vinko Glonbokar, divertindo-se a tentar escapar dos labirintos montados por Turner.
Ainda alucinados pelas emanações dos Spring Heel Jack e dos The Tradition Trio é já com naturalidade que aceitamos encarar de frente o réptil que nos olha, vindo das trevas, a cuspir sangue na capa de “Vetek”, terceiro e último capítulo de uma trilogia do saxofonista e multi-instrumentista húngaro Akosh Szelevényl, sucedendo aos anteriores “Kebelen” e “Lenne”.
Como solista, nos saxofones soprano e tenor e no clarinete de metal, Akosh insere-se sem desconforto na linhagem da escola francesa de Michel Portal e Louis Sclavis. A seu lado encontramos Joe Doherty (violino, saxofone alto e clarinete baixo), Bernard Malandain (baixo) e Philippe Foch (bateria, percussão, tablas), mais os convidados Nicolas Guillemet (saxofones alto e soprano) e Mokhtar Choumane (ney).
Assumindo como influências Archie Shepp, Albert Ayler, John Coltrane, Pharoah Sanders, Ornette Coleman, Don Cherry, Sun Ra e Charlie Haden (embora o músico húngaro faça também questão em nomear Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Frank Zappa, Prince e Krzystof Pendereczki), a música de “Vetek” descobre na confluência desta lista de nomes o gosto pelas músicas do mundo (não no sentido de exotismo folclórico com que habitualmente é conotado mas de acordo com a visão de uma síntese planetária construída sobre raízes comuns mas plurifacetada nas suas ramificações) em que o jazz – não se sabe ainda se inevitavelmente ou não – desemboca quando atinge e ultrapassa as fronteiras impostas pelos seus próprios cânones.
“Vetek” rasteja e amontoa tensões e clímaxes, profana os templos zen de Stephan Micus e Steve Shehan, acolhe o grito nas florestas cerimoniais de Boris Kovak (de “Ritual Nova”) para finalmente, num tema de antologia, “Patak”, rejubilar na tradição e espalhar a felicidade e o êxtase. O réptil cospe, afinal, uma flor.