07.05.1997
V Império
Mar de Folhas
ED. E DISTRI. MOVIEPLAY
A aposta é forte, em termos de promoção. O 5º Império (da música portuguesa, lê-se nas entrelinhas…) sai dia 5 de Maio (quinto do calendário). Três vezes cinco. A imagem e conceito subjacente são familiares. Portugal e a sua História, os mitos, a nostalgia, o mar, a saudade, o destino, os bravos feitos, enfim, o quadro de honra do nosso orgulho, já que o presente deixa muito a desejar (a este propósito, consulte-se a letra de “Ventos de história”, um verdadeiro manual compilado pelo senhor de La Palice).
Um quadro que começou a ser desenhado na música popular portuguesa pelos Heróis do Mar, prosseguiu com a Sétima Legião e culminou nos Madredeus. Mar que está a dar uvas, onde navegam a Ala dos Namorados, Paulo Bragança e Frei Fado d’el Rei. Curiosamente, os V Império cruzam toda esta imagética com um universo musical cujo apuramento se deve a Rodrigo Leão e Vox Ensemble. “mar de Folhas” segue fórmula idêntica, juntar tecnologia sofisticada com textos passadistas. Mas se Rodrigo Leão foge a seguir a via fácil da tal portucalidade aprendida, tantas vezes à pressa, camuflando os seus mitos pessoais no latim e numa atmosfera de missa universal, os V Império ligam a música a uma veia romântica nacional que mergulha as suas raízes num postal ilustrado de Sintra. Depois, enquanto o ex-Sétima Legião e madredeus recorre aos coros, o Império contra-ataca com naipes de instrumentistas clássicos.
Tudo é levado aos extremos da pompa e do enfeite, nesta aliança dos sintetizadores e “samplers” de João Gata e Rui Ricardo, com slistas como Aníbal Lima (violino), alexandra Mendes (violino e viola de arco), Paulo Teixeira (oboé e corne inglês) e João murcho (violoncelo) e a voz da cantora do grupo, Íris. por falar nela, temos que falar nos Madredeus. Ouça-se , por exemplo, um tema como “Sempre (em ruelas sem nome)”. O difícil é encontrar diferenças tanto ao nível da composição como entre cada entoação de Íris e as de Teresa Salgueiro. Um exercício, de resto, aplicável amuitas outras canções de “Mar de Folhas”.
O odor classicizante sente-se à distância. Nada é simples nem evidente. Exige-se solenidade e tragédia. As cordas afogam em mágoas cada nota gemida por Íris. Michael Nyman espreita, como não podia deixar de ser, em cada arremetida. Não custa aprender o truque e resulta sempre. “Décadas” é mesmo um decalque perfeito da música do compositor inglês. se algum dia for feita a versão portuguesa de “O Piano”, algo chamado, sei lá, “A Gaita de Amolador” ou “O Bombo”, os V Império estão prontos para assinar a banda-sonora.
“Mar de Folhas” é o exemplo acabado da exploração de um conceito gasto. Não traz nada de novo à música portuguesa, reduzindo-a, ainda por cima, a uma visão demagógica onde o culto das formas (tão gastas como o conceito) substitui o acto de criação. Um longo, longo bocejo onde as ideias estão mais mortas do que as próprias folhas. (2)







Ora muito bom dia.
Não sei porque carga de água, deverá ser o odor bafiento da História, recebi este url novamente, passados tantos anos. E, novamente, reli com muita atenção tudo o que está escrito. E sorri uma outra vez.
Seria engraçado perceber de onde saiu a Salgueiro para os Madredeus. Essa “estória” tem muita piada e até vem descrita no livro oficial sobre a banda. Mas o silêncio sempre foi o maior trunfo, enquanto banda. Nunca ninguém percebeu porque o projecto terminou abruptamente, mesmo quando Trent Raznor seria o putativo produtor do segundo album, nome que a banda declinou em função de outro. E que os JBK iriam tocar a maior parte da secção rítmica do “Esperanto” que está nuns MiniDiscs e DATs por aí. Bom, o que poderia, seria, ia…
Forte abraço nesses ossos.
Obrigado. 🙂
Abraço.