Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #172 – “Os elos da História”

#172 – “Os elos da História”

Os elos da História
Fernando Magalhães
Wed May 16 16:31:47 2001

A propósito da descoberta, por alguns elementos deste fórum (olá Taos!) das tais “pérolas com mais de 30 anos, fico satisfeito por verificar, acima de tudo, que é possível gostar-se verdadeiramente da música (alguma, claro, também se fizeram grandes porcarias…) dos anos 60 e 70, SEM PRECONCEITOS.
O que revela, além de bom-gosto, uma atitude aberta em relação a TODA a MÚSICA, e a CAPACIDADE DE DESTRINÇAR o que é bom do que é dispensável.
É isso que distingue o verdadeiro apreciador de música, para quem ela é parte integrante e vital da sua vida, daquele que se limita a consumir acriticamente os sons que a indústria ou as modas vão impondo.

Diz o Taos, e bem, que a descoberta dos KING CRIMSON, FAUST; GONG, etc etc etc não impede que continue a apreciar os gybe, SIGUR RóS, etc.
Nem poderia ser de outro modo.
O facto de se gostar de música feita há 30 anos não impede que se goste do que se faz hoje, de grupos ou artistas com a qualidade de uns DAT POLITICS, TO ROCOCO ROT, MOUSE ON MARS e uma infinidade de tantos outros nas áreas da electrónica, pop, rock, folk, dança, etc

O que defendo e continuarei a defender é que os melhores criadores, seja de que época forem, são os que TÊM MEMÓRIA e uma noção histórica da música.

Só é possível ser-se verdadeiramente novo, original e capaz de produzir obras com consistência e relevância artística (ena!) conhecendo o que foi feito antes.
Perspectivando o passado para a partir dele construir o presente e o futuro, seja através de releituras de actualização desse mesmo passado, seja através de um corte ou recusa em relação a ele. Só se pode romper/cortar com o que se conhece/ama/detesta.

Krautrock, Canterbury, Progressivo são DIRECTIVAS / PISTAS ESTÉTICAS / PONTOS DE REFERÊNCIA / até ALVOS A ABATER, para os anos 90 (como foram para os 80…) que permitem AVANÇAR, sem ser no vazio.

O que, quanto a mim – e sem querer iniciar nova polémica sobre o assunto – era (já não o é tanto!…  o que faltava a grande parte da produção de música de dança, sobretudo nas áreas mais “digitalizadas” da tecno, chamemos-lhe assim, baseadas numa cultura que tem mais a ver com uma atitude perante a vida (sem que haja aqui qualquer crítica implícita da minha parte) em que a música é APENAS mais um elemento, tantas vezes dispersivo ou meramente acessório, de vivências mais latas (discoteca, moda, consumo de drogas “normalizantes/sociabilizantes”, etc).

Claro que nada disto é linear. As direcções da música são múltiplas e a ORIENTAÇÃO através delas nem sempre é fácil.

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