Arquivo mensal: Maio 2023

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #185 – “Verd e Blu – Musicas a Dançar”

explicam por palavras. Sentem-se como se sente aquilo que temos por mais profundo: o divino.
Fernando Magalhães

Verd e Blu
Musicas a Dançar
Menestrèrs Gascons, distri. Etnia
Quando se fala na música tradicional da Gasconha surge de imediato o nome dos Perlinpinpin Folc. Nada mais natural e nada mais injusto para os Verd e Blu, os seus rivais mais próximos. Quando chegaram na mesma altura a Portugal “Téarèze”, dos Perlinpinpin Folc, e “Musica de Gasconha”, dos Verd e Blu (que voltou a ser reposto em “stock”), atribuímos a ambos a pontuação máxima. Trata-se de duas montanhas separadas com a mesma altitude, situadas na mesma cordilheira, erguidas uma em frente à outra em desafio.
“Musicas a Dançar”, curiosamente, afasta-se, ao nível dos arranjos, de “Musica da Gasconha”. Se o objectivo último continua a ser, para Jean Baudoin, Marie-Claude Hourdebaigt e Joan-Francés Tisnèr, “trazer uma nova estética” para a música tradicional da Gasconha, a forma escolhida para o fazer mudou. O som liquefez-se, perdeu rugosidades, espalhando-se pelos interstícios abertos no álbum anterior. As canções voam em levitação, numa ondulação encantatória a grande altitude. O que no primeiro álbum era metal transformou-se em madeira, o urro tornou-se sussurro, o bosque floresceu em jardim. As melodias são fluidos que fogem da razão a esconder-se na memória. A gaita-de-foles (“boha”), a sanfona (“sonsaina”), os pífaros e tamborins de corda flutuam sobre a superfície de um sintetizador-aquário, mudando de cor e forma a cada instante como os vidros de um caleidoscópio.
Em “Congós lanusquets”, os Verd e Blu fazem a vénia aos Planxty. “Mariana” é a voz de Marie-Claude filtrada na passagem pelo túnel dos mistérios da Disneylândia. “Quin te va l’aulhada” prova que a música antiga do futuro existe. Uma “Borregada” convida a perdermo-nos na dança. Em “Dimars”, o grupo veste a pele de uns Hedningarna mais ponderados, acertando o passo por uma espécie de “morris dancing” gascã. Mas o momento de maior assombro chega com “New’ scà”, no qual os Verd e Blu ultrapassam toda a concorrência e penetram em território virgem, em 3m50s de perder a respiração. Viagem alucinante que começa num cravo-computador à maneira de Morton Subotnik, segue com uma sanfona nos confins da galáxia e uma flauta em redor, a voz feminina a baralhar as onomatopeias de Meredith Monk, para acabar numa sarabanda de cordas e em estranhos mas nunca despropositados efeitos de estúdio. Nunca se fez nada assim.
“Musica de Gasconha” era o corpo e sangue da Gasconha. “Musicas a Dançar” é, na mesma região, o sonho. (9)
Fernando Magalhães

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #184 – “Para quem esteve em Setúbal”

Fernando Magalhães
Seg Set 22, 2003 1:25 pm
Para Quem Esteve Em Setúbal

… A lista de nomes que passei é a seguinte (mais ou menos por esta ordem):
KLAUS SCHULZE (“Cyborg”)
AGITATION FREE (“Malesch”)
MAGMA (“Magma”)
FAUST (“Faust” e “So Far”)
WALLENSTEIN (“Blitzkrieg”)
THE COSMIC JOKERS (“Sci-Fi Party” e “Planeten Sit-In”)
A-1 DUSSELDORF (“Fettleber”)
KRAFTWERK (“Ralf and Florian” e “Autobahn”)
SAND (“Golem”)
MOEBIUS & RENZIEHAUSEN (“Ersatz II”)
HARMONIA (“DeLuxe”)
CLUSTER (“Zuckerzeit”)
NEU! (“Neu!2” e “Neu!75”)
THOMAS DINGER (Für Mich”)
DER PLAN (“Die Letzte Rache”)
THOMAS BRINKMANN (“Rosa”)
GENERAL MAGIC (“Rechenkönig”)
SCHLAMMPEITZIGER (“Augenwischwaldmoppgeflöte”)
HOLOSUD (“Fijnewas Afpompen”)
CAN (“Future Days”)
KREIDLER (“Appearance In The Park”)
TO ROCOCO ROT (“The Amateur View”)
HOLGER HILLER (“Ein Bundel Faulnis In Der Grube”)
EINSTURZENDE NEUBAUTEN (“Berlin Babylon”)
BRAINTICKET (“Cottonwoodhill”)
JULIAN COPE (“Interpreter”)
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FM

Public Enemy – “Apocalypse 91… The Enemy Strikes Black”

Pop-Rock Quarta-Feira, 23.10.1991


PUBLIC ENEMY
Apocalypse 91… The Enemy Strikes Black
2xLP / CD Def Jam, distri. Sony Music



Em “One Million Bottlebags” Chuck D defende que os afro-americanos bebem álcool marado, restos da produção normal das companhias de brancos, de onde deriva o seu conselho de que, se os negros se querem embebedar, sempre é melhor consumir o mesmo que os brancos. É uma reelaboração da teoria da conspiração racial na qual assenta toda a discografia dos Public Enemy, mas, como esta faixa documenta, “Apocalypse 91” investe na variação de denunciar o demónio branco nos próprios hábitos de vida dos negros, do consumo de álcool à violência belicista. Os PE distanciam-se, assim, da delinquência provocatória e gratuita que os definiu, sobretudo até à saída do Prof. Griff, para se assumirem ainda e sempre de um ponto de vista racial, mas adulto e articulado, cerrando fileiras com a frente didáctica pacifista liderada por KRS-1. Daqui resulta o subalternizar do “disparate” de Flavor Flav, ,a supermacia doutrinária de Chuck D, mas também a maior austeridade musical da parte de Terminator X. Como antes sucedeu com os De La Soul ou os Gang Starr, é o regresso ao rap duro e puro ao longo de um duplo álbum onde a única manobra de diversão é a linha de baixo boogie em “By the time I get to Arizona”. A mudança do insulto para a doutrinação é um bom golpe de “marketing”, embora sem grande sumo iseológico – a teoria segregacionista copofónica, por exemplo, é delirante. Em contrapartida, o retorno à pureza do rap, depois de todo o avanço na frente do ecletismo, é de um aparato e solidez irrepreensíveis, nada se perdendo no peso da compusividade psicológica, da encenação do clima de terror que é a arte superior dos PE. No pior dos casos, “Apocalypse 91” vive da fricção entre a desejada sabedoria doutrinária e a intempérie ainda irracional que lhe serve de modo de expressão. O que, em qualquer caso, é capaz de ser um excelenete reflexo do dilema que atravessa a cultura afro-americana dos anos 90. (7)