Arquivo mensal: Janeiro 2019

Drew Gress – “Spin & Drift” + Pharoah Sanders – “Spirits” + François Bourassa Trio – “Live” + Lee Konitz & Martial Solal – “European Episode” + François Théberge 5 c/ Lee Konitz – “Music Of Konitz”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 12 Abril 2003

A selva de Sanders. O gozo de Dress. E grande jazz do Hexágono, de ontem e de hoje. Espirituoso ou espiritual.


Espíritos à solta

DREW GRESS
Spin & Drift
Premonition
8 | 10

PHAROAH SANDERS
Spirits
Meta
7 | 10

FRANÇOIS BOURASSA TRIO
Live
Effendi
10 | 10

LEE KONITZ & MARTIAL SOLAL
European Episode
CamJazz
9 | 10

FRANÇOIS THÉBERGE 5 c/LEE KONITZ
Music of Konitz
Effendi
6 | 10

Todos distri. Multidisc



Simbiose, com Drew Gress a trocar de papéis com o saxofonista Tim Berne, passando em “Spin & Drift” a assumir o papel de líder. Mas a cumplicidade entre ambos é tão grande que se torna irrelevante falar em liderança a propósito desta música em que a força do coletivo é superior à da soma das partes. Berne não é um saxofonista dramático, mas o timbre carnudo do seu alto permite colorir cada tema com os tons do folguedo. “Disappearing” é comunicação direta a quatro vozes entre o alto, o contrabaixo, o piano de Uri Caine e a bateria de Tom Rainey. Em “Torque”, o contrabaixista faz jus a um “swing” largo, Berne desce com agilidade às profundezas do barítono e Caine parece querer desmentir quem acusa o seu piano de frigidez. “It was after rain that the angel came”, outonal, reflete cambiantes de nostalgia nas notas do contrabaixo, com Caine resplandecente na sua faceta de recitalista clássico. A faixa exótica, e uma das mais belas do disco, chama-se “Aquamarine” e nela a “pedal steel guitar” de Gress escorre como um riacho pelo empedrado, com Caine a fazer tombar notas de chuva. Álbum belíssimo, forte sem gorduras, pujante sem gritar ao megafone, imaginativo sem cair no delírio.
“Spirits”, gravado ao vivo em 1998 em local não identificado, é o prolongamento lógico de toda a obra anterior de Pharoah Sanders, coltraniano coberto de missangas, cuja música viajou entre o “hard bop”, o “free”, a improvisação ascética e a música étnica. Os 19 minutos de abertura de “Sunrise” soltam os espíritos do mundo, em “drone” de ressonâncias indianas, com florescências de uma “mbira” africana, apontamentos de pequena percussão saídos da cornucópia de Adam Rudolph e o veterano Sanders a dividir-se entre a contemplação indolente no sax tenor e cânticos de chamamento. Organizado como um louvor à sabedoria “sufi ” e à intuição, “Spirits” oferece nesta longa prece introdutória mais do que um motivo de agrado aos apreciadores tanto do jazz como da “world music”. As restantes faixas oscilam entre o exotismo exuberante das percussões de Rudolph e Hamid Drake, o “free” do “quarto mundo”, como o saboroso piscar de olhos a Coltrane, “The thousand petalled lotus”, ou o “satori” de gongos e “overtone singing”, ecos da fauna e flora de uma selva tropical incrustada no cérebro. Flautas de bambu, tablas, batuques rituais, borboletas e flores canibais, “Spirits” une com as pontas de um arco-íris o passado ancestral a um futuro onírico, em que jazz e o folclore imaginário se entrelaçam, numa celebração exterior a qualquer noção de urbanidade como aquela que anima os Art Ensemble of Chicago. Um “Sunset” de fogo fecha como começou o ciclo do dia – “drone”, suspiros “aum” e os murmúrios da floresta. Pharoah Sanders encontrou o seu nirvana.
O disco da semana é o “Live”, do trio do pianista François Bourassa, registado em Toronto em Maio de 2001, com Guy Boisvert (contrabaixo), Yves Boisvert (bateria) e o convidado André Leroux, nos saxofones tenor e soprano e flauta. Bourassa é um fabuloso arquiteto e desenhador com uma fluência e imaginação inesgotáveis. O modo como constrói em crescendo “30 Octobre 85”, partindo de motivos simples para o recorte de frases cuja força e complexidade se concentram na recriação do “Big Bang”, em conjugação com o desempenho explosivo de Leroux, no tenor, constitui daqueles momentos raros de audição de música em que apetece gritar de excitação.
A contrastar, “W! U! W!” surge de seguida como um “pizzicato” de sombras e silêncios. Frases sintéticas, revelação de perspetivas oblíquas, que, uma vez iluminadas, adquirem a inevitabilidade das evidências. Como cidades construídas dentro de cidades, segundo uma infinidade de escalas sobrepostas. “Arico – Afab” confirma Bourassa como um pianista de exceção, capaz de equilibrar “clusters” tão vastos como o cosmos com miniaturas de ourives. Mão esquerda de mago negro, mão direita de pintor renascentista, Leroux brilha e inventa a cada momento, acrescentando novas ideias e soluções inusitadas ao terreno, já de si fértil, semeado pelo pianista. Uma paisagem impressionista, ”13”, e uma homenagem, em duas partes, ao pianista Herbie Nichols dão a conhecer o outro lado da moeda. Flauta e piano em diálogo intimista, com Leroux a utilizar, sem exibicionismos, um leque de técnicas e respirações ”extensivas” e Bourassa, uma vez mais, a operar prodígios. Tudo isto a transbordar de ”swing”, a oferecer um espetacular momento de bop (“Chambrette”) e, a culminar, um “medley” de 16 minutos ao redor de Monk (“Four in one”/“Round midnight”/“Epistrophy”/“Trinkle tinkle”) que entra diretamente para a galeria dos clássicos. Um dos discos do ano.
A música de Lee Konitz ocupa o centro das atenções, em dois discos registados em épocas diferentes. ”European Episiode” recupera em versão remasterizada uma sessão de 1968 com o pianista francês Martial Solal e dois compatriotas seus, Henri Texier (contrabaixo) e Daniel Humair (bateria), nomes de referência do jazz com origem no ”hexágono”. Uma colagem de ”standards”, com Konitz no alto eletrificado, ”Anthropology”, de Parker e Gillespie, um clássico do ”bop”, a balada ”Lover man” e o blues “Roman blues” têm a companhia de “Duet for saxophone and drums, and piano”, um “divertimento” em forma de improvisação “free” que pode servir de manual de aprendizagem. Criatividade e liberdade exigem ordem, seja de que natureza for. Konitz, Solal, Texier e Humair são professores de Direito. Descodificar o código de leis elaborado pelos quatro é um dos muitos aliciantes deste episódio europeu.
É um Konitz mais velho e cansado que escutamos a enriquecer com a sua participação um álbum que lhe é dedicado, “Music of Konitz”, pelo quinteto do saxofonista tenor francês François Théberge. Mestre e discípulos mantêm distâncias, neste encontro que ocorreu em 2002 no clube Duc des Lombards, em Paris. O encontro das autocitações do “bopper” com a reverência dos cinco franceses não faz faísca.



Clifford Jordan & John Gilmore – “Blowing In From Chicago” + Jimmy Smith – “House Party” + Jimmy Smith – “The Sermon!” + Lou Donaldson – “The Natural Soul” + The Horace Silver Quintet – “Finger Poppin’” + Donald Byrd – “Byrd In Hand” + Jackie Mclean – “Jackie’s Bag” + Freddie Hubbard – “Hub Cap”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 05 Abril 2003

Clifford Jordan & John Gilmore
Blowing In From Chicago
8 | 10

Jimmy Smith
House Party
7 | 10

Jimmy Smith
The Sermon!
8 | 10

Lou Donaldson
The Natural Soul
7 | 10

The Horace Silver Quintet
Finger Poppin’
8 | 10

Donald Byrd
Byrd In Hand
7 | 10

Jackie Mclean
Jackie’s Bag
8 | 10

Freddie Hubbard
Hub Cap
9 | 10

Todos Blue Note, Distri. Emi – Vc

O hard bop teve na Blue Note um lar e uma escola. Oito novas remasterizações com selo Rudy van Gelder mostram outras tantas nuances do movimento que voltou a pintar o jazz com a raiva e as tintas negras do blues.


‘Hard bop’, 1º escalão

Chicago, onde os “blues” são mais tórridos e John Coltrane descobriu “mais jovens saxofonistas tenor do que em qualquer outra parte do país”. Nos anos 50, dois destes jovens tenoristas eram Clifford Jordan e John Gilmore. O primeiro herdeiro de Lester Young e Ben Webster, o segundo notabilizado na Arkestra de Sun Ra. “Blowing in from Chicago” é uma demonstração “hot”, plena de “swing”, das muitas que, nesta época, fizeram da Blue Note um dos lares privilegiados do “hard bop”. Os dois tenores entrelaçam-se em “Bo-till”. O “blues” reina, nas lições de piano de Horace Silver e nos mini-solos de Art Blakey, mestres absolutos do “hard”.
O “blues” do organista Jimmy Smith desliza de maneira diferente. Jimmy Smith integra na sua música a “soul”, o “rhythm’n’blues” e um lado “lounge” difícil de separar da sonoridade típica do Hammond. Duas sessões, a 25 de Agosto de 1957 e 25 de Fevereiro do ano seguinte, juntaram-se para dar origem aos álbuns “House Party” e “The Sermon!”. “House Party” inclui dois temas de Charlie Parker e inspirados desempenhos, no alto, de um dos seus discípulos, Lou Donaldson, deslumbrante na balada “Lover man”. “Just friends”, nas suas duas longas versões de 15 minutos dão azo a um entusiasmo “funky”, com o organista a fazer dançar e suar a sua mão direita e Lee Morgan a swingar na trompete num solo em que é visível o seu timbre “brilhante” e uma gama mais vasta de soluções harmónicas e melódicas que as evidenciadas pelo alto de Donaldson.
“The Sermon” soa a “jam” tocada no céu, com todos os participantes possuídos pelo “groove”. Soa mais descontraído e “cool” que “House Party”, como no título-tema. 20 min. de ondulação inalterável que quase recorda, respeitando a devida distância, as sessões de hipnose funk dos Can em “Future Days”. “J.O.S.” é easy listening na densidade (o Hammond parece pairar sobre as nuvens), tempo mais acelerado, cortado por um imaginativo solo de George Coleman, no alto. E que ninguém se assuste se ouvir Jimmy Smith a apitar pelo meio, marcando a duração dos solos, nem se choque se Lee Morgan fingir que não ouviu as buzinadelas insistentes e continuar a fazer o seu solo…
Mais “blues” e mais Lou Donaldson, em “The Natural Soul” (1962), pretexto para este saxofonista revisitar com mestria as escalas e “clichés” da matéria-prima do jazz. Ainda a devoção sem pecado do “gospel” e do “funk”. Tommy Turrentine, na trompete, mostra competência sem rasgos. John Patton é um organista mais linear e mais “pesado” que Smith, mas surpreende “dissonando” e fracionando o “bop” em “Sow belly blues”. Grant Green desenha na guitarra os “blues” com a distanciação do asceta e a nitidez que são seu timbre.
“Finger Poppin’” (1959) é um tratado de “hard bop” com assinatura de Horace Silver. Por vezes próximo de Monk, nomeadamente nos métodos de composição mas também no modo como parece querer abrir ao meio o piano até arrancar todos os segredos do seu ventre (ouça-se, a este propósito, “Juicy Lucy” ou as lentas e magistrais investigações involutivas, “Sweet stuff” e “You happened my way”). Blue Mitchell (trompete) e Junior Cook (sax tenor) “bopam” com agilidade horizontal. Silver sobe e desce. O que, no jazz, é bastante mais arriscado.
Donald Byrd é um dos trompetistas mais erráticos da história do jazz, tecnicamente competente, fluente quanto baste, mas sem uma verdadeira voz interior. Mesmo no ano do fogo de 1959, quando lançou um “Fuego” mal ateado e neste “Byrd in Hand”, agora reeditado, se pôs a falar de “Witchcraft” e “Devil whip”. Um dos temas, porém, redime o disco, “Here am I”, salvo por um daqueles motivos mágicos em que o jazz é fértil. Salvo pelo piano de Walter Davis Jr. e o saxofone barítono de Pepper Adams (volta a estar imparável em “Clarion calls”) aliados nesta síncope rítmica que fornece a senha para a volúpia.
“Jackie’s Bag”, de Jackie McLean (sessões compreendidas entre 1959 e 1960), constitui mais um motivo para andar na montanha-russa. Parkeriano na síntese da frase, metálico, agudo e acutilante no timbre, rude por vezes na transposição do discurso interior para o exterior, Jackie McLean entrou com o seu sax alto pelas ousadias do “free”, como de resto se pode comprovar pelas derradeiras frases de “Quadrangle”, de recorte ornettiano. Em “Isle of Java” encontramos o McLean quintessencial: obsessivo, flirtando tanto tempo quanto o necessário com a matemática harmónica do tema até pôr a nu todas as suas virtualidades.
A finalizar este périplo pelo “hard”, deparamo-nos com uma obra maior, por outra das suas figuras-chave, o trompetista Freddie Hubbard, tecnicista de um bom gosto e cultura irrepreensíveis, que no ano anterior a “Hub Cap” (1961) estivera presente no “Free Jazz” de Ornette Coleman e que, quatro anos mais tarde, integraria o grupo de eleitos que John Coltrane levou consigo, não se sabe se para o Paraíso ou para o Inferno, em “Ascension”. “Hub Cap” é um clássico, transcendente nos arranjos, nas variações contrapontísticas de “Cry me not”, de Randy Weston, no “swing” sensual de “Luana”, na perfeita articulação de um coletivo em que um Cedar Walton imperial, no piano, Julian Priester, no trombone, e Jimmy Heath, no saxofone tenor, levados ao colo por Philly Joe Jones, na bateria, e Larry Ridley, no contrabaixo, encontraram o plano ideal de compreensão e articulação, quase telepática, entre as ideias expostas na composição e a sua concretização instrumental.
Todas as reedições, com selo “The Rudy Van Gelder Edition”, além de temas extra, foram recuperadas em remasterizações de 24 bits e incluem novas notas informativas.



Albert Ayler – “Nuits De La Fondation Maeght” + Aercine – “Aercine” + Geir Lysne Listening Ensemble – “Korall” + Orchestre National De Jazz – “Charmediterranéen” + Toshinori Kondo – “Nerve Tripper” + Misha Mengelberg & ICP Orchestra + “Japon Japon”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 29 Março 2003

Uns oram. Outros caminham sobre uma camada de gelo fino. Alguns riem. No meio de tantos palcos que o jazz continua a montar, só os verdadeiros criadores, com um esgar de dor ou um riso rasgado, se mantêm de pé.


Espíritos que sofrem, espíritos que riem

ALBERT AYLER
Nuits de la Fondation Maeght
Water, distri. Trem Azul
7 | 10

AERCINE
Aercine
Drimala, distri. Trem Azul
6 | 10

GEIR LYSNE LISTENING ENSEMBLE
Korall
Act, distri. Dargil
6 | 10

ORCHESTRE NATIONAL DE JAZZ
Charmediterranéen
ECM, distri. Dargil
8 | 10

TOSHINORI KONDO
Nerve Tripper
DIW, distri. Trem Azul
7 | 10

MISHA MENGELBERG & ICP ORCHESTRA
Japon Japon
DIW, distri. Trem Azul
8 | 10



Espírito e carne, uma inquietação crescente, Deus constantemente a escapar-se por entre as notas do seu saxofone. Albert Ayler, asceta e erotólogo do “free jazz”, morreu, como a sua música, rodeado de mistério. As duas sessões realizadas na Fundação Maeght (iniciativa de Aime Maeght, comerciante de arte e adepto da “new thing”), em St. Paul de Vence, França, a 25 e 27 de Julho de 1970, constituem os derradeiros testemunhos gravados do saxofonista, que quatro meses mais tarde viria a falecer em circunstâncias pouco claras (suicídio ou assassínio?) e uma demonstração cabal do paradoxo que esteve colado à sua música. “Nuits de la Fondation Maeght” tem como fundamento o “gospel”, o jazz de New Orleans, as marchas e hinos que na origem sustentaram os negros americanos na sua demanda de uma casa no céu. Ayler sobe a pulso a escada de Jacob, com uma persistência e ingenuidade que alguns viram como exteriorização de uma personalidade “naïf”, nos antípodas, por exemplo, do misticismo mais intelectualizado de um dos seus mais brilhantes discípulos, David S. Ware.
A “Spiritual Unity” que uniu a sua alma numa das obras-primas incontestadas do jazz dispersa-se neste disco por uma interrogação quase infantil, feita de frases-orações e gritos modelados segundo a aceção de que a música deverá ser o veículo de salvação e de cura de uma humanidade doente. “Truth is marching in” é puro Ayler em ardente ascensão com citações diretas do “gospel”, “Spirits” um alucinado conciliábulo com o além e “Music is the healing force of the universe” inclui um daqueles “slogans” vocais (por Mary Parks) que Sun Ra costumava utilizar no anúncio da vinda de uma nova idade cósmica, mas “Holy family” deita o altar por terra num “espiritual” de pacotilha ritmicamente arreigado a um compasso sem saída.
No jazz contemporâneo, os “blues”, enquanto substância aglutinadora desta linguagem musical contextualizada à luz da sua evolução histórica, permanecem em muitos casos apenas como horizonte virtual. Com base numa premissa enunciada pelo trompetista português Sei Miguel, citada na capa — “O jazz é uma música transidiomática com uma vocação cósmica cujas origens, relativamente misteriosas, residem na explosão de diversas músicas tradicionais, ‘deportadas’ e, a seguir, magnetizadas pelos ‘blues’” —, o grupo plurinacional Aercine, formado Harvey Sorgen
(bateria), Steve Rust (baixo, Michael Jefry Stevens (piano), Mark Feldman (violino) e Herb Robertson (trompete) pratica a livre improvisação, mas uma improvisação regida por leis, por mais ou menos camufladas que elas estejam. Na vida, como na música, o acaso não existe.
Subentende-se em “Aercine” a citação folclórica, o desenvolvimento “free”, mas também uma rigorosa disciplina na gestão da economia instrumental do coletivo. Mark Feldman e Herb Robertson protagonizam a maior parte das emergências solistas num álbum que, dadas a riqueza das matérias conceptuais disponíveis, poderia ter ido mais longe. A visão da liberdade pode ser a pior das prisões.
Geir Lysne, compositor e maestro norueguês, líder da Listening Ensemble, não tem essas preocupações. Em “Korall” o exotismo de uma música inspirada nas tradições folclóricas sobrepõe-se ao desejo manifestado de substanciar uma “visão aural de um ‘som nórdico’ para grande orquestra”. Anda-se de braço dado com o jazz rock, o jazz latino, as mil e uma noites árabes, o “scat” abrasileirado, algum jazz de câmara. Mas, apesar de ser atirada ao ar uma fórmula como “Middle age-punk-archaic, late Miles Davis with hints of trip-hop” (entende-se a menção ao Miles fusionista na faixa “Djambo”), não se vislumbra em “Korall” nem a dimensão onírica do “étnico” Jan Garbarek, nem o génio desse tal “nordic sound” plurifacetado e em formato grande orquestra que se manifesta em obras de Edward Vesala como “Nan Madol”, “Lumi”, “Ode to the Death of Jazz” ou “Invisible Storm”. Quem apreciar jazz bem colorido encontrará, porém, uma caixa inteira de lápis com que se entreter.


Operação de charme

Outra orquestra grande, a ilustre Orchestre National de Jazz francesa, prossegue o seu percurso, jamais linear, pelo jazz sem fronteiras, desta feita sob a direção do italiano Paolo Damiani e com a participação dos convidados Anouar Brahem, no alaúde árabe, e Gianluigi Trovesi, no clarinete “piccolo” e saxofone alto. O título “Charmediterranéen” diz muito do teor feérico e festivo desta música em que a cor é usada não com meros fins decorativos, mas como elemento constituinte de um quadro infinitamente mais complexo, inteligente e sedutor que o boneco garatujado pelo músico norueguês.
Sente-se uma liderança forte, a organização de sentidos, a gestão de uma arquitetura mutável, mas sustentada por uma inequívoca unidade e na posse da mesma integridade e sentido de humor do “Dedalo” de Trovesi. Os foguetes lançados pelos naipes de metais contrastam com os momentos de intimismo proporcionados pelo “ud” de Brahem. Cinematográfico e muito trovesiano é ainda o desenvolvimento das várias “Sequenzas”, algumas delas imbuídas do espírito do rock progressivo (outro tema, “Estramadure”, chega a soar aos… Gentle Giant) deste “charme mediterrânico” que mantém os sentidos permanentemente alerta e em deleite, numa notável demonstração de que o termo “fusão” é muito mais do que a simples soma de partes.
O trompetista japonês Toshinori Kondo desde os já longínquos discos gravados com o projeto Ima que vem fincando os dentes num som modernaço, inchado de “groove” e programações eletrónicas. O novo “Nerve Tripper” não foge à regra, numa aliança entre a nevrose de John Zorn, o “funk” digital, programações automáticas e preocupações “new age” expressas tanto em títulos como “Dream vibrates with space”, “Attaining the esoteric life” e “Eternal quest”, como nas sonoridades “space jazz” . Miles Davis é o culpado, claro, por ter descoberto os segredos da eletricidade em “Bitches Brew” e nos subterrâneos sagrados de “Agartha”. Mas Kondo não é Miles, embora “Insane moon moves innocent man” também possa ser comparado ao “quarto mundo” de Jon Hassell sob o efeito de estimulantes. “Nerve Tripper” foi criado unicamente com a trompete elétrica e as programações do japonês e os gira-discos de DJ Sahib. Um programa de computador não faria melhor, passe a ironia, porque Toshinori Kondo, apesar de tudo, consegue conferir um rosto humano e pessoal à sua música.
Toshinori fazia parte da ICP (Instant Composers Pool) Orchestra quando esta formação liderada pelo pianista holandês Misha Mengelberg gravou o álbum “Japon Japon”, registado ao vivo neste país em 1982. Integrando referências de topo da música improvisada europeia, como Han Bennink, Peter Brotzmann e Michael Moore, “Japon Japon” é um “pastiche” de jazz-comédia, jazz–recriação e jazz-trocadilho. Música de circo, ambientes Nino Rota, jogos de melodias populares ou familiares ao ouvido, “passedobles”, “habaneras” e “foxtrot” são pervertidos por divergências, desvios, dissonâncias e súbitos golpes de rins e golpes de génio por este grupo de iconoclastas de boa índole. Cita-se um punhado de notas do “Für Elise” de Beethoven, os músicos ladram (literalmente, em “Carnaval”) ou produzem um silvo insistente durante largos minutos só para azucrinar o juízo da assistência, mas esta reage ao longo de todo o concerto de forma entusiástica, alternando o aplauso com gargalhadas que permitem avaliar a comicidade, não só musical, mas visual, desta “performance” em que o humor é pedra-de-toque de solos desconcertantes. Motivo de saudável loucura que devolve ao jazz o seu lado mais “nonsense” e libertino.