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Nina Simone – “Nina Simone (1933-2003)” / “A indomável” / “Nina Simone, rainha da música negra” (artigo de opinião / obituário)

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quarta-feira, 23 Abril 2003


Nina Simone (1933-2003)

A indomável




Nina Simone, rainha da música negra

Sacerdotisa da “soul” e do “gospel”, cantora de jazz, intérprete de Brel, Nina Simone foi acima de tudo uma voz do tamanho do mundo que lutou contra os preconceitos. Musicais e raciais. Encontrou-se a si própria a sós com um piano. Morreu na segunda-feira

Amada e odiada. Quase sempre incompreendida. Nina Simone esteve sempre à margem de onde queriam que estivesse. E quando a encontravam, mudava de lugar. O jazz olhou-a de soslaio. A pop condescendeu em aceitá-la. Não foi nem uma cantora de jazz nem uma cantora pop. Foi uma cantora. Morreu na segunda-feira, aos 70 anos, em casa, em Carry-le-Rouet, nos arredores de Marselha, e o corpo vai ser cremado na sexta-feira, no cemitério de Saint-Pierre, na mesma cidade.
“Se tiver que ser chamada alguma coisa” – escreveu na autobiografia “I Put a Spell on You”, de 1991 – “que seja cantora folk, porque houve mais folk e blues do que jazz na minha música”.
“I put a spell on you”, também a emblemática canção de Screamin’ Jay Hawkins, e que integrou no seu reportório, define na perfeição a sua atitude perante a música e os que a ouviam. Folk era gospel na sua indomável voz de contralto de vagabunda entre o céu e o inferno. E gospel é “God” e “spell”, Deus e feitiço.
Nina Simone lançou um feitiço, uma maldição. Impacientava-se e exigia dos outros o que muitas vezes não exigia de si. Uma entrevista mal conduzida, um ruído entre a assistência, eram suficientes para a exasperar. Como consequência, e de acordo com o efeito de retorno que é uma das principais leis da magia, foi paga na mesma moeda: a sua música leva, por sua vez, alguns ouvintes ao desespero.
Houve, sem dúvida, cedências e falhas na gestão da sua carreira. De gosto e de coerência. Que se perdoam. Nina Simone era uma força da Natureza, um grito gutural num momento, uma oração rezada em segredo, no outro. É difícil descobrir o centro do ciclone, o ponto onde o orgulho e a revolta, a visão e o caos, o grito e o silêncio nela se reconciliaram em obra de arte. Mas ele existe e assombranos e essa obra tem nome: “Nina Simone and the Piano!”, álbum de 1969, reeditado pela primeira vez em CD, em versão remasterizada, pela RCA, no ano passado, e considerado pela crítica de jazz nacional como uma das reedições do ano.
“Nina Simone and the Piano!” apresenta a cantora e compositora no formato mais despojado e intenso que é possível desejar. Voz e piano, energia e disciplina, por uma vez unem-se com a finalidade de nos fazer estremecer. É um álbum de gospel e de blues, de périplos solitários, de ascese e queda. Para alguns soará como o seu álbum mais incompreensível, porque absolutamente criado no interior de uma espécie de universo paralelo onde as emoções e o instinto se casam segundo uma lógica indecifrável pela razão. Mas esse é precisamente o caminho que não se deve seguir para dar com a música de Nina Simone. Pelo contrário, se nos abandonarmos ao vento (“Wild is the Wind” é o título de um dos seus álbuns), à água e ao fogo, à tempestade e à bonança, aí sim, encontraremos o sentido mágico em que todas as partes se juntam para revelar a imagem do Todo. Uma das canções do álbum, “Everyone’s gone to the moon”, é “crooning” astral, rito de passagem de alguém eternamente em trânsito, de uma sociedade injusta e desumanizada – que Nina sempre condenou – para um mundo ideal onde se diz que vivem os poetas.
Nina, a nómada, que viajou na música como pela vida, deixando os EUA em 1973, falida e divorciada, para habitar na Libéria, Barbados, Suíça, Holanda, Inglaterra e França, onde se estabeleceu há oito anos, vindo aí a morrer. Nina, a “jazz singer” que o jazz esteve perto de condenar ao degredo. A ela que, numa entrevista, confessara: “Foi sempre meu propósito permanecer afastada de quaisquer categorias – é a minha liberdade. Porém, liberdade é, para mim, a própria definição do jazz, por isso não posso afirmar que não sou uma cantora de jazz.”
Noutra canção de “Nina Simone and Piano!”, “Who am I?”, de Leonard Bernstein, é mostrada outra faceta, a do seu próprio espanto frente ao espelho, mas também a transcendência. “Acreditas na encarnação? Já aqui estiveste? Tiveste essa experiência? Então deverás questionar todas as verdades conhecidas…” Foi o que ela fez.

Jovem, prendada e negra
Eunice Kathleen Waymon (o seu verdadeiro nome) nasceu em Tryon, Carolina do Norte, há 70 anos. Filha de músicos, estudou órgão e piano na prestigiada Juilliard School, de Nova Iorque, encetando a sua carreira como pianista em 1954, num bar-churrascaria de Atlantic City, ao mesmo tempo que assumia o nome artístico por que ficou conhecida, Nina Simone, para não ser descoberta pela mãe.
Entre dois churrascos e uma escala de piano, pediram-lhe, ou forçaram-na, a cantar. Nina cantou como se fosse Billie Holiday. Ou, por outras palavras, como se cantar fosse uma forma de sobrevivência. Já nessa altura havia quem, entretido a deglutir um bife, não se deixasse tocar. Nina vingava-se, carregando, ao piano, nas notas do classicismo, compondo a figura paradoxal de um piano de fraque a dançar com uma voz de guerreira-amazona.
Em 1957 assinou o seu primeiro contrato discográfico, com o selo Bethlehem, conseguindo o primeiro “hit” com “I loves you, Porgy”, um tema de Gershwin extraído do musical ”Porgy and Bess”, dispersando a partir daí a sua extensa discografia (demasiado extensa e pouco criteriosa, bradam os porta-vozes do cepticismo) pela Colpix, Charly, Roulette, Philips, Verve, Mercury, Canyon, Carrere, Accord e RCA, entre outras editoras. “Nina Simone and her Friends” (1957), “The Amazing Nina Simone” (1959), “Pastel Blues” (1965), “I Put a Spell on you” (1965), “Nina Simone Sings the Blues” 1966), “Wild is the Wind” (1966), “Silk and Soul” (1967), “High Priestess of Soul” (1966), “Emergency Ward!” (1973), “Baltimore” (1978), “Live at Ronnie Scott’s” (1984) e “A Single Woman” (1993, o disco que marcou a sua reentrada no mercado norte-americano) são exemplos de uma coleção infindável de registos nos quais se inclui uma percentagem elevada de gravações ao vivo. Nina Simone actuou em Portugal, no Casino do Estoril, em Setembro de 1987.

Cantora de protesto
Tudo cabia nesta voz que levou talvez longe de mais o seu poder mas que deixou marcas em Aretha Franklin, Roberta Flack, Laura Nyro, Dee Dee Bridgewater, Rickie Lee Jones, Norah Jones e, surpreendentemente, Beth Gibbons, vocalista dos Portishead. De onde se depreende que a ”soul” girava com mais intensidade. Chamaram-lhe, aliás, “the high priestess of soul” (como o álbum), a suma sacerdotisa
da “soul”.
Gospel, blues, jazz, pop, cabaré foram atravessados pela sua voz sem fronteiras. E a canção de protesto, fruto de uma aguda consciência social e política, que veiculou em canções como “Mississipi goddamn”, composta em resposta ao assassínio de Medgar Evers, um advogado defensor dos direitos civis da população negra, o manifesto feminista “Four women”, “Why the king of love is dead”, inspirada no assassínio de Martin Luther King Jr. e “To be young, gifted and black”, de Simone e Weldon Irvine Jr., posteriormente interpretada por Aretha Franklin e eregida hino do “black pride” norte-americano. Posição que terá levado algumas vozes críticas, como as do jornalista nova-iorquino Whitney Balliett, a afirmar que Nina se tornara “mais interessada na mensagem das suas canções do que na maneira de as cantar”. Hollie West, do “Washington Post”, preferiu chamar-lhe a representante da “indomabilidade humana”. Há cerca de cinco anos, interrogada sobre o estado do racismo nos EUA, Nina Simone declarou simplesmente: “Pior do que nunca!”
Nina Simone cantou George e Ira Gershwin, Richard Rodgers, Billie Holiday, Duke Ellington, Weill/Brecht (“Pirate Jenny”, enquanto reflexão amarga da experiência das populações negras africanas e americanas), Jacques Brel (há quem prefira a sua versão de “Ne me quitte pas” ao original), Bob Dylan, Leonard Cohen (“Suzanne”), Bee Gees (“To love somebody”), George Harrison (“My sweet Lord”) e um tema do musical ”Hair”, “Aint’t got no – I got life”.
Cantou como se o mundo fosse acabar num minuto e se recompusesse no seguinte. De certa forma foi isso que aconteceu quando uma das suas canções mais antigas, “My baby just cares for me”, foi usada em 1987 num anúncio de televisão do perfume Chanel e se tornou um êxito.
Em “Nina Simone and the Piano!” alberga-se ainda uma canção, “The desperate ones”, cujos versos poderiam servir de epitáfio: “The desperate ones, they walk without a sound, the desperate ones”. Os desesperados caminham sem um ruído, os desesperados. Nina Simone disfarçou tal facto, cantando com quanta força tinha.

DISCOS PARA RECORDAR NINA SIMONE
“My baby just cares for me”
“Don’t explain”

Escolho duas canções, duas interpretações fabulosas, “My baby just cares for me” e “Don’t explain”. Ao ouvi-las, penso no legado de Billie Holliday, de Sarah Vaughan, sinto uma grande afinidade com o meu universo. Sendo Nina Simone uma cantora tão versátil, nesses dois temas consegue estar muito próxima do jazz.
Bernardo Moreira, contrabaixista

“Nina’s Choice”
É uma cantora que opta por cantar a partir do coração, da alma, de dentro. Isso dá-lhe um carisma e verdade que passa através de tudo o que ela canta. E cantar é isso. É-me difícil eleger um disco. Opto por escolher um pelo título, um álbum que se chama “Nina’s Choice”, porque se a escolha é dela certamente é soberba.
Anamar, cantora e atriz

“Nina Simone and Piano!”
Qualquer tema cantado em inglês, desde que tenha o tempo lento em que ela era genial. Qualquer disco em que ela também toque piano. Todos vão escolher a interpretação de “Ne
me quitte pas”, de Jacques Brel, uma obra genial cantada com o sotaque americano/francês. Como os grandes autores que são intérpretes, nunca ninguém cantou ou cantará como ela esta canção de Brel.
José Duarte, crítico de jazz

“In Concert/I Put a Spell on You”
“The Very Best of Nina Simone/Sugar in My Bowl”

Não escolho tanto discos, mas antes canções. “Feeling good” foi a primeira música que descobri da Nina Simone. Ouvi primeiro a versão dos Mighty Bop e depois cheguei à da Nina Simone, é do CD “In Concert/I Put a Spell on You”. Fiquei completamente apaixonada. Já fiz três desfiles com músicas dela, as outras duas são “Mr. Bojangles” e “My father/dialog”, do disco “The Very Best of Nina Simone/Sugar in My Bowl”.
Maria Gambina, criadora de moda

“I loves you Porgy”
A canção que melhor recordo é “I loves you Porgy”. Das muitas versões que existem do “Porgy & Bess”, a maior de todas é a dela. É de uma negritude, uma declaração de raça absolutamente tocante, maravilhosa. Como cantora foi uma referência, tinha uma voz magnificamente grave, muito emotiva. Mas as duas experiências que tive com ela em festivais foram horrorosas – era uma pessoa insuportável.
Maria João, cantora

“Feeling good”
“Feeling good” foi uma canção de Nina Simone que escolhi para o [filme] “Jaime”. Havia mais canções previstas, mas esta foi a única que ficou. Eu tinha visto a imagem final com essa canção, o tom e a letra adequavam-se, havia uma ambiguidade na voz, alguém a convencer-se que é feliz. Era uma grande voz, inconfundível.”
António-Pedro de Vasconcelos, cineasta

“The Blues”
A arte de Nina Simone é ausente de complacência. A sua maneira de cantar leva-nos ao fundo da emoção, ao coração da vida. A sua representação do mundo está na sua obra e é isso que a torna única e universal.
Mísia, fadista

Rubén González – “Morreu O Pianista De ‘Buena Vista Social Club’ – Aos 84 Anos” (obituário / artigo de opinião)

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quarta-feira, 10 Dezembro 2003
obituário


Morreu o pianista de “Buena Vista Social Club”

AOS 84 ANOS

Rubén González, pianista cubano que o álbum e documentário “Buena Vista Social Club” popularizaram, morreu anteontem. Os hotéis e cabarés de Havana ficaram mais vazios



Rubén González fotografado em Abril deste ano em Havana

“Um cruzamento entre Thelonious Monk e o Gato Félix” foi como Ry Cooder descreveu Rubén Gonzaléz, lendário pianista cubano que anteontem morreu na sua casa, em Santiago de Cuba, aos 84 anos. Depois do desaparecimento, em Julho, de Compay Segundo, aos 95 anos, a música cubana perde num curto espaço de tempo dois dos seus principais embaixadores, representantes de uma época de ouro em que o cha cha cha e os guarachas eram ouvidos todas as noites nos bares dos principais hotéis e bares de Havana.
Ry Cooder, guitarrista americano a quem se deve a autoria da banda sonora de “Paris-Texas”, de Wim Wenders, e produtor do álbum “Buena Vista Social Club” (principal passaporte da música cubana para o resto do mundo), transposto para cinema pelo realizador alemão, considerou ainda Gonzaléz como “o maior solista de piano” que alguma vez conheceu. Misto de inovação e tradição, jazz e a euforia dos ritmos latinos. Mestre do “son”. Monk e o Gato Félix, na comparação feliz de Ry Cooder.
Ibrahim Ferrer e Omara Portuondo, dois dos participantes de “Buena Vista Social Club”, prestaram ontem homenagem ao seu antigo companheiro, recolhendo-se diante da urna, coberta por uma bandeira de Cuba, antes do corpo do pianista ir a enterrar, ao final do dia, no cemitério de Colon, em Havana.
Rubén Gonzaléz nasceu em Abril de 1919, em Santa Clara. Entrou cedo para a música (iniciou os estudos de piano aos 7 anos) mas teve que esperar pela velhice até a fama lhe bater à porta. Quis ser médico de dia e pianista de noite. Abdicou do dia, optando pelos remédios da noite. Aos 22 anos, tornou-se músico profissional, após estudos clássicos no Conservatório de Cienfuego.
Ao longo dos anos 40, Rubén Gonzaléz percorreu os “halls” de hotéis como o Hotel Inglaterra ou o cabaré Tropicana, numa época em que o talento era tão importante como o trabalho árduo e os músicos funcionavam como variantes de “barmen”, com a função de criar bom ambiente entre os hóspedes ou simples visitantes que bebericavam mojitos e daiquiris. “Música de hotel”, “cocktail jazz” ou “piano bar”, termos que hoje voltam a estar em voga na sua versão revivalista.
Gonzaléz foi, no entanto, mais longe, fazendo questão de que o seu piano, um misto de jazz cubano e inovação, mais do que simples instrumento de acompanhamento, se afirmasse como instrumento solista, embora sem abdicar da forte componente rítmica que caracteriza a música latino-americana.
Fora dos bares de hotéis Gonzaléz brilhou nas várias orquestras e grupos em que participou, como a Orquestra Paulina, o Conjunto Camayo, Los Hermanos, ao lado de músicos como Raul Planas, Mongo Santamaria e Arsénio Rodriguez, com quem gravou o seu primeiro disco. Viajou pelo Panamá e pela Argentina onde tocou com músicos de tango e, já nos anos 60, entrou para a orquestra de Enrique Jorrin, considerado o criador do cha cha cha, aí permanecendo 25 anos, até à morte do seu líder. A meio da década de 80, porém, quando já assumia as funções de chefe da orquestra, a artrite levou Rubén Gonzaléz a retirar-se.
Foi preciso esperar até 1996 para o seu nome voltar a ser falado, ao entrar para os Afro-Cuban All Stars, com os quais gravou, no ano seguinte, o álbum “A Todo Cuba le Gusta”. Chegara o tempo do resto do mundo começar a reparar na música cubana. Todos os olhares e ouvidos se voltaram em 1998 para o Novo Testamento da música cubana, “Buena Vista Social Club”, com participantes do calibre de Ibrahim Ferrer, Omara Portuondo, Compay Segundo, Eliades Ochoa e, claro, Rubén Gonzaléz, convidado a participar por Nick Gold, dono da editora World Circuit, a mesma de Ry Cooder.
Rubén Gonzaléz sonhava no seu universo pessoal. O afastamento por doença levara a que nessa época não tivesse piano, obrigando-o a utilizar o existente no estúdio. Mas diz quem o viu que os seus olhos irradiavam felicidade quando, todas as manhãs, esperava em frente ao edifício que as portas se abrissem.
Na sequência desse disco, aclamado pelo público e pela crítica e vencedor de um Grammy, Gold convenceu de imediato o pianista a gravar aquele que seria o seu primeiro trabalho a solo em nome próprio, “Introducing Rubén Gonzaléz”. A gravação durou dois dias. Gonzaléz tinha nessa altura 78 anos e só então se tornou uma estrela.
A esse disco de estreia seguiram-se “Indestructible” (ed. Egrem, 1998) e “Chanchullo” (Nonesuch, 2000). Pelo meio, em 1999, a World Circuit reeditou a seminal sessão de “cuban descarga” (a “jam session” cubana) de 1979, do projecto Estrellas de Areito, a nata do jazz cubano, personificada por solistas como Arturo Sandoval e Paquito D’Rivera. Ainda uma colaboração com Raul Planas e a sua orquestra. Em todos eles Gonzaléz revela a sua mestria e personalidade no “son” que funde o jazz com os ritmos latinos.

Shegundo Galarza – “Morreu Shegundo Galarza, Rei Da Música De Salão” (artigo de opinião / obituário)

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domingo, 05 Janeiro 2003

Morreu Shegundo Galarza, rei da música de salão

O piano de Shegundo Galarza deixou de tocar a música agradável que animou os serões televisivos dos anos 60. A música ligeira portuguesa ficou mais pobre


Shegundo Galarza gravou mais de 200 programas para a RTP e deixou gravados 52 LP


O maestro e pianista Segundo Ramón Galarza Araco faleceu ontem em Lisboa, aos 78 anos, vítima de doença prolongada. Galarza, basco, “nacionalista mas não separatista”, natural de Segura, na província de Guipúzoa, a cerca de 40 quilómetros de San Sebastian, ficou conhecido em Portugal como Shegundo Galarza por influência dos jornalistas portugueses.
Aos 18 anos conquistou o primeiro prémio do Concurso de Piano para a Juventude. Recebeu do antigo Presidente da República, Mário Soares, o Grau de Comendador da Ordem de Mérito. O seu filho, Ramon, já nascido em Portugal, é um dos nomes conhecidos da nova geração de músicos nacionais, não só como baterista mas também como produtor discográfico.
Admirador de Maria João Pires, Shegundo fez o Conservatório de Bilbau — piano, harmonia e composição — e dizia que a agilidade que tinha ficou a dever-se a “andar milhares de quilómetros e ter jogado muita pelota basca”. Gostava de se apresentar como um “basco de boa cepa” e, ao fim de cinco décadas de carreira em Portugal, nunca perdeu o sotaque de origem nem conseguia falar fluentemente português.
Tornou-se uma figura emblemática da chamada “música de salão”, hoje de novo na moda e eufemisticamente designada de “easy listening”. As notas do seu piano foram tão discretas como a sua vida, embora tivesse privado de perto com a sociedade portuguesa, em particular “as pessoas da alta elite”, as quais, dizia, “dançam muito mal”.
Classificava o público português de tímido e reservado e contava que quando se estreou em Portugal, no Natal de 1948, no Casino Estoril, a sua principal preocupação era saber se as pessoas tinham gostado ou não da sua música.
Tocou Cole Porter para os “senhores da noite” na Costa do Sol daquele tempo: o rei deposto Umberto de Itália, o ex-rei Carol da Roménia, o conde de Barcelona, o conde de Paris e o arquiduque da Áustria, entre outros. Durante algum tempo, foi professor da infanta Margarida de Espanha, irmã do rei Juan Carlos. Durante 20 anos, até 1975, tocou todas as noites no restaurante Mónaco.
Shegundo Galarza foi solista, maestro, arranjador, compositor, gravou mais de 200 programas para a RTP e deixou gravados 52 LP, em piano solo ou com acompanhamento de orquestra. Entre os seus trabalhos para televisões estrangeiras, destaca-se a sua participação nos espetáculos de Edmund Ross e Xavier Cugat.
Criou a banda sonora de algumas longas-metragens, entre as quais “Fado Maldito”, com Amália Rodrigues, e de centenas de documentários. Trabalhou com Max, Tony de Matos, Madalena Iglésias, Simone de Oliveira, João Maria Tudela, António Calvário, Lara Li e José Cid, entre outros.
Em 1981, acompanhou Carlos Paião (também já falecido) no Festival da Eurovisão em Dublin, como diretor de orquestra da canção “Play back”. Em 1996, Maria de Lurdes Carvalho organizou, com Cidália Meireles, uma compilação em que o pianista basco tocava “Lisboa Antiga” e “Aldeia da Roupa Branca”.
A sua primeira atuação na televisão portuguesa aconteceu no ano do seu aparecimento em Portugal, em 1957, quando tocou piano num programa de José Atalaya. Um outro programa, só seu, que teve na RTP chamava-se “Shegundo Galarza e os seus Violinos” e foi para o ar até 1966.
Dizia o maestro: “Durava 20, 25 minutos. Era só música, não tinha palavras, passava à hora de jantar. As pessoas estavam a jantar e a ouvir, era muito agradável.”