Arquivo da Categoria: Cinema

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #133 – “Spider desilusão do ano (FM)”

#133 – “Spider desilusão do ano (FM)”

Fernando Magalhães
23.09.2002 180606
Terminado o filme, não queria acreditar: “É só isto?”, apeteceu-me perguntar. Onde está o cinema de Cronenberg? Onde está o CINEMA?

“Spider” é quase um documentário sobre a esquizofrenia. Sem ponta de emoção. Sem inteligência. Preguiçoso.

Falta-lhe profundidade, segundas leituras, é tudo demasiado óbvio e evidente. Freud em versão escoa primária. O Ralph Fiennes arrasta os pés ao longo de todo o filme e arrasta-se numa interpretação sem chama.

O “argumento” é aquilo e “aquilo” é pouco, esgotando-se num jogo sem trunfos. O tipo é louco, pronto, se matou ou não a mãe, é indiferente. E então?
Há recordações, a fraca metáfora da teia e até uma inconcebível aparição de uma enguia nojenta aproveitada dos adereços de “ExistenZ” e metida ali à força, como que a lembrar-nos que o filme tem a assinatura de Cronenberg.

Bah!

FM

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #92 – “Mulholland Drive (FM)”

#92 – “Mulholland Drive (FM)”

Fernando Magalhães
28.03.2002 140225
O filme é de uma lógica terrífica.

Trata-se da mais virulenta e mortífera análise (crítica?) a cinema, e em particular a Hollywood, que alguma vez vi, apenas com paralelo em “Barton Fink”, dos irmãos Cohen.

lembrem-se da 1ª e da última imagem: fantasmas. Os anjos de Los Angeles são espectros que a cidade cria e dos quais se alimenta.

O filme, entre outras “histórias”, conta a transformação de uma pretendente a estrela de cinema em fantasma.
Chega a Hollywood repleta de sonhos (toda a sequência inicial apresenta a “perfeição” da “middle class” americana muito querida de Lynch.

O cinema devora o espírito, ao transformar a vida em imagem.
O ator é vampirizado pelas suas próprias alucinações. Toda a cena do Club del silêncio” é sintomática… “não existe banda, não existe música. Basta imaginá-los para eles aparecerem. Está tudo GRAVADO NA FITA!”

Toda a primeira parte é uma alucinação da tal loura pretendente a atriz. Há o que ela gostaria que tivesse acontecido, e o que aconteceu “realmente”.

Na cena final do jantar. A morena para a loura: É uma atrizeca secundária, DEIXEI-A ENTRAR EM ALGUNS DOS MEUS FILMES!”

Aqui a coisa fia mais fino. Esquizofrenia. Manipulação. Ela, a loura (e nós, pelo cinema…) somos sugados para dentro da alucinação de outrem. Passando a ser personagens do sonho de outrem.

“Mulholland drive” é a estrada (mais o atalho, o “caminho secreto”) que leva à loucura.

Cena da câmara com o velho na cadeira de rodas. Cena recorrente no cinema de Lynch.
Trata-se do interior de uma…câmara de filmar. O velho é o prisma, que inverte a luz, da mesma maneira que o cinema inverte a realidade.
Repararam que além do velho estão lá outras duas personagens? Uma delas fala lá para dentro ATRVÉS DE UMA PORTA DE VIDRO – a lente.

O “monstro” é parecido com o cadáver da morena, notaram?

O medo, indutor de todos os pesadelos.

O mais pavoroso de tudo é que, ao invés de “Uma História Simples” (em que há uma lógica linear, de A para B), é que “Mulholland Drive” é um ciclo fechado.

Alguém sonha alguém que irá sonhar o autor do sonho. Pescadinha de rabo na boca. A esquizofrenia é isto. A mente como um quarto fechado, sem portas de saída para o “mundo real”.

Há muito mais coisas, mas agora vou ter que almoçar.

Até já e evitem falar de sexo

FM

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #56 – “Ainda O Senhor dos Anéis (FM)”

#56 – “Ainda O Senhor dos Anéis (FM)”

Fernando Magalhães
26.12.2001 150350

Já vi o filme três vezes (sessão para a imprensa, ante-estreia e sessão com a família):

Não é, concordo, um grande filme, longe disso. Valerá, na minha opinião, um 7/10.
Agora, estão de facto espantosos os cenários e as personagens. Como fanático da trilogia (que li, até á data, duas vezes) achei impressionante a forma como o Peter Jackson consegiui transpor para o filme as paisagens, locais e personagens do livro. Moria, Rivendell, Lothlórien, a fabulosa composição dramática de Ian McKellen/Gandalf, parecem ter saído directamente da imagiação do leitor (pelo menos, da minha…) para o ecrã.
A partir de agora, sempre que voltarmos a ler “Lord of the Rings”, é provável que Frodo, Gimli, Legolas, Sam Gamgee, etc, passem a aparecer na nossa cabeça com os rosto do filme.

Agora, o que filme não tem, nem poderia ter, é toda a fabulosa riqueza de pormenores do livro, já para não falar no próprio e inconfundível estilo literário de Tolkien (o humor, a ironia, a ternura…).
O episódio de Tom Bombadil foi obliterado (percebe-se porquê. Não tem propriamente acção, sendo antes uma das muitas efabulações filosóficas que estão espalhadas por “LOR”) mas a perda maior do livro para o filme, será a inexistência (no filme) da dimensão “tempo”, da “distãncia”.

“LOR” tem um tempo (ou tempos…) próprio. A narrativa não é nunca linear. Depois, há as narrativas secundárias, que tanto podem ser a descrição de uma típica refeição hobbitiana, como uma anedota ou um cântico élfico. Mundos dentro de mundos.

E o segredo maior da escrita de Tolkien: A forma como consegue transmitir com uma intensidade quase sobrenatural, os sentimentos humanos (e não só…). Um épico, no sentido mais nobre do termo.

Peter Jackson, esse, fez o que pôde, e até não se saiu nada mal da tarefa…

saudações

FM