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Gianluigi Trovesi & Big Band + Danilo Perez Trio + Jorge Lima Barreto & Eddie Prévost + Martial Solal + Orchestre National de Jazz + Matt Wilson Quartet – “Trovesi e Orchestre National de Jazz em Guimarães FESTIVAL DE HOJE A 22 DE NOVEMBRO” (concertos / festivais / jazz / antevisão / guimarães jazz

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quinta-feira, 13 Novembro 2003


Trovesi e Orchestre National de Jazz em Guimarães

FESTIVAL DE HOJE A 22 DE NOVEMBRO

Gianluigi Trovesi a dirigir uma “big band” e jazz francês dominam as atenções do primeiro fim-de-semana do Guimarães Jazz. Os mesmos artistas atuam também em Lisboa


Martial Solal, herdeiro estilístico das lendas do piano, toca no sábado em Guimarães


Grande, enorme, em termos de qualidade, a programação da edição do Guimarães Jazz 2003 que hoje se inicia com um concerto de uma “big band” dirigida pelo italiano Gianluigi Trovesi. Este é apenas um dos nomes importantes do jazz contemporâneo que passarão pelo festival, parte dos quais darão igualmente concertos em Lisboa, integrados na programação da Culturgest, como é o caso de Trovesi que atuará amanhã no Grande Auditório desta instituição.
Além de Trovesi, o Guimarães Jazz apresenta, amanhã, o trio do pianista Danilo Perez, seguindo-se, no sábado, de tarde, Jorge Lima Barreto em duo com Eddie Prévost e, à noite, Martial Solal, em piano solo, e a Orchestre National de France, com direção de Claude Barthélemy. Solal e a orquestra francesa tocam em Lisboa a 16, no mesmo dia em que em Guimarães actua o quarteto de Matt Wilson.
Na próxima semana, de 20 a 22, a lista de nomes do festival vimaranense é ainda mais empolgante: Anthony Braxton Quartet, Randy Weston Trio e Bobby Hutcherson Quartet.

A visão de um estratega

Trovesi dirigirá um coletivo misto que coloca lado a lado os portugueses Bernardo Moreira, Tomás Pimentel e Jorge Reis, entre outros, e solistas de nomeada da “new music” europeia como Markus Stockhausen, Nathalie Lorriers, Nguyên Lê, François Corneloup, Henry Lowther e Christophe Schweizer. Para interpretar um jazz não menos misto, composto de citações múltiplas a outras músicas, que o autor de “Les Hommes Armes”, “Dédalo” (a dirigir a WDR Big Band) e “Fugace” recria e unifica com a visão de um verdadeiro estratega.
Para sossegar os espíritos das emoções em “cinemascope” (a música de Trovesi possui essa dimensão cinematográfica) e devolvê-los às delícias do formato pequeno, amanhã tocará o trio do pianista, natural do Panamá, Danilo Perez (com Adam Cruz, na bateria, e Ben Street, no contrabaixo), cuja veia monkiana se alia ao melhor jazz de raiz sul-americana (naturalmente, Perez fez parte da banda de Dizzy Gillespie, com quem gravou, em 1989, um álbum ao vivo no Royal Festival Hall, com a nata do jazz tropical: Arturo Sandoval, Cláudio Roditi, Paquito D’Rivera, Airto Moreira e Flora Purim).
O jazz francês tem dia grande, no sábado, a exemplificar duas gerações e conceções díspares do jazz. O veterano Martial Solal, nascido há 76 anos na Argélia, parceiro de Django Reinhardt, Sidney Bechet, Don Byas, Stan Getz Art Farmer e Lee Konitz, é herdeiro estilístico de lendas do piano como Art Tatum, Erroll Garner, Thelonius Monk, Bud Powell e Oscar Peterson. Viajou da tradição de Duke Ellington a trabalhos “da frente” com Joachim Kuhn, Paul Motian e Daniel Humair.
Nos antípodas de Solal, a Orchestre National de Jazz, com formação e direção variável, propõe, como a banda de Trovesi, embora com menor elasticidade e humor, uma música híbrida que percorre, em jogo corrido, os “mardi gras” de New Orleans, rituais etno (a atual formação integra um combo dentro do combo – a chamada “orquestra gamelão” indonésia, constituída por uma miríade de instrumentos de percussão) e “excrescências” da música eletro-acústica contemporânea, como se pode consultar em aventuras discográficas como “Merci, Merci, Merci” e “Charmediterranéen”.
De tarde, Jorge Lima Barreto, dos Telectu, atuará com o percussionista Eddie Prévost, membro fundador da formação seminal de música improvisada AMM, sobre diaporama do artista plástico António Palolo.
Matt Wilson, o imprevisível e imaginativo baterista que recentemente integrou o grupo de Ted Nash no Seixal, apresenta no dia 16 o seu próprio quarteto, composto por Andrew D’Angelo (saxofone alto, clarinete baixo), Jeff Lederer (saxofones tenor e soprano, clarinete) e Yosuke Inoue (contrabaixo).

Gianluigi Trovesi & Big Band
GUIMARÃES Auditório da Universidade do Minho. Tel.: 253408061. Hoje, às 22h. Bilhetes: 10 euros (livre trânsito para o festival inteiro: 50 euros)
LISBOA Grande Auditório da Culturgest. Tel.: 217905155. Amanhã, às 21h30. Bilhetes: 18 euros
Danilo Perez Trio
GUIMARÃES Auditório da Universidade do Minho. Dia 14, às 22h.
Jorge Lima Barreto & Eddie Prévost
GUIMARÃES Paço dos Duques de Bragança. Dia 15, às 17h. Entrada livre.
Martial Solal + Orchestre National de Jazz
GUIMARÃES Auditório da Universidade do Minho. Dia 15, às 22h.
LISBOA Grande Auditório da Culturgest. Dia 16, às 21h30. Bilhetes: 20 euros
Matt Wilson Quartet
GUIMARÃES Paço dos Duques de Bragança. Dia 16, às 17h. Entrada livre.

Ted Nash Quintet + The Schulldogs + Andrew Hill Sextet – “O “Louco” No Alto Do Monte” (concertos / festivais / jazz / seixal jazz 2003)

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terça-feira, 4 Novembro 2003


O “louco” no alto do monte

TED NASH QUINTET
(5ª feira, 2º “set”)

THE SCHULLDOGS
(6ª feira, “set” único)

ANDREW HILL SEXTET
(sábado, 1º e 2º “sets”)
SEIXAL Auditório Municipal do Fórum Cultural
Assistência média: salas cheias



Jazz contemporâneo, mais ou menos vanguardista, preencheu o programa dos três últimos dias do Seixal Jazz 2003. Boa música, quase toda. “Boa” é adjetivo valioso nos dias que correm. Já lá vão os tempos em que tocar e ser jazz era uma questão de vida ou de morte. Hoje toca-se bem mas é raro encontrar-se o genuíno espírito de aventura, a entrega sem calculismo, o tudo ou nada que transforma a vida de quem faz e de quem ouve.
Passou-se isto na quinta-feira, com o quinteto de Ted Nash. Jazz com todas as letras, faltou-lhe a labareda que queima. No segundo “set”, Nash, esguio de estilo e na figura a fazer lembrar John Lurie, percorreu de alto a baixo as escalas e as gamas expressivas do tenor, bem mais selvagem do que na elegante produção do seu mais recente registo discográfico, “Still Evolved”, conseguindo fazer esquecer a presença da pauta, ainda que longe de atingir a fronteira além da qual o desconhecido encara o músico de frente.
Na secção rítmica brincou-se e de que maneira. Matt Wilson (um sósia de Miguel Esteves Cardoso) revelou ser baterista “gourmet” dos pequenos sons e dos ritmos hipnóticos. Cada tambor, cada prato, cada parte de metal, madeira ou pele, foi percutido com um sentido agudo da acentuação e das variações de timbre. Acompanhando cada inflexão com o esgar facial apropriado, Wilson foi simples nos compassos mas requintado no toque, fazendo um solo em trote de cavalo, longo, progressivo, com a baqueta esquerda a tamborilar na parte de fora do tambor, como uma espora. De uma atenção extrema ao menor estímulo, de si próprio e dos outros, combinou de forma perfeita com o contrabaixo de Ben Allison.
Confissão: Nunca nos perdemos de amores por álbuns deste músico como “Peace Pipe” (demasiado verniz…) mas ao vivo o senhor é outra coisa. Uma máquina, como se costuma dizer. Autêntico dançarino, alternou pulsações sanguíneas com uma leveza e precisão notáveis, com “swing” para dar e vender. Talvez o maior defeito de um concerto formalmente sem mácula fosse precisamente tanta leveza, tanta elegância, numa demonstração de talento e “savoir faire” que, honra seja feita aos músicos, esteve, porém, longe do mero exibicionismo.
Com os Schulldogs, dos irmãos George e Ed, respetivamente baterista e contrabaixista, que atuaram em “set” único na sexta-feira, foi sempre a malhar. Na falta do motor harmónico que é o piano, o som cru e, por vezes, abrasivo, do quarteto pautou-se pela nevrose dos sopros, já que os dois manos da secção rítmica mostraram ser pouco mais do que pedreiros competentes. Soprou Rich Perry, mais próximo da tradição. Soprou o menosprezado Herb Robertson (autor de álbuns magníficos dos anos 80 como “X-Cerpts” e “Shades of Bud Powell”), invariavelmente em alta velocidade, na zona vermelha dos agudos e do paroxismo. Uma sova de pós-free, pós-jazz, pós-ouvidos ficarem a zunir.
Sábado, no encerramento do Seixal Jazz 2003, um grande músico e um grande concerto. Andrew Hill, em sexteto a evocar a grandeza de “Point of Departure” (como notou o apresentador em voz “off”) levou ao festival jazz daquele que (ainda) faz falta: tradicional mas pujante de energia e criatividade, a exigir de cada músico o impulso individual, sim, mas em perfeita consonância com a arquitetura do coletivo.
Bem ancorados numa secção rítmica composta por um John Hebert de ferro, no contrabaixo, e por um Nasheet Waits, na bateria, bem mais disciplinado do que no trio de Jason Moran, os dois saxofonistas (Greg Tardy no tenor, Jason Yard – substituto de última hora de Marty Ehrlich – no alto e no soprano), deram livre curso à improvisação, correndo em passada larga entre e sobre o “free-bop” e o “free free”, gritando, respirando com a alma inteira, trazendo à memória os “safaris” de Pharoah Sanders à caça de luz.
Hill foi o maestro discreto, Monkiano no “touching”, no gosto pelas dissonâncias e na articulação dos silêncios cheios. Tocando seco, abdicou do pedal de ressonância para se concentrar no essencial de cada frase melódica. A cabeça é que, aos 66 anos, deu mostras de estar já um bocadinho mais para lá do que para cá. Apresentou os músicos uma mão cheia de vezes e cortou a “onda” quando parecia que algo mais poderia acontecer… “The fool on the hill”?… São poucos os que enfrentam os ventos que sopram no cume dos montes.

Andrew Hill + Liam Noble Trio – “Andrew Hill no Seixal, Liam Noble no Porto” (antevisão / concertos / jazz / seixal jazz 2003 / festival de jazz do porto)

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sábado, 1 Novembro 2003


Andrew Hill no Seixal, Liam Noble no Porto


Andrew Hill entrou no jazz pela mão de Earl Hines


Dois pianistas de gerações e sensibilidades diferentes atuam hoje à noite em Portugal. Andrew Hill, a fechar o Seixal Jazz 2003. Liam Noble, no Festival de Jazz do Porto (1ª parte pelo quinteto de Pedro Guedes). O primeiro faz já parte da História, com lugar no panteão. O segundo prossegue uma linhagem nobre de pianistas ingleses como John Taylor, Gordon Beck, Keith Tippett, Mike Westbrook ou Michael Gibbs. Embora a sua “britishness”, ao contrário de qualquer um dos nomes citados, deixe algo a desejar…
Hill, 66 anos, natural de Chicago, entrou no jazz pela mão de Earl Hines, tocou com Charlie Parker, Coleman Hawkins, Miles Davis, Johnny Griffin, Joe Henderson, Hank Mobley, Lee Konitz, Roland Kirk… Mas foi depois de conhecer Alfred Lyons, fundador da Blue Note, nos anos 60, que a sua música ganhou uma dimensão tal que hoje todos reconhecem o seu álbum gravado para este selo em 1964, “Point of Departure” – com Kenny Dorham, um sublime Eric Dolphy, Joe Henderson, Richard Davis e Tony Williams – como uma das obras-primas do jazz.
Exótico, imbuído de uma negritude profunda, a arte pianística de Andrew Hill recebeu a influência de Bud Powell e Thelonious Monk, ao mesmo tempo impregnada da tradição rítmica do bop e de um sentido inato de experimentação. Entre as suas várias obras disponíveis em Portugal, contam-se, como de audição urgente, além de “Point of Departure” (reeditada e remasterizada para as “The Rudy Van Gelder Editions”, da Blue Note), “Passing Ships” (1969, acabada de reeditar em remasterização de 24 bits para as “Connoisseur Series”, também da Blue Note), com Joe Farrell, Woody Shaw, Dizzy Reece, Julian Priester, Bob Northern, Howard Johnson, Ron Carter e Lenny White, “But not Farwell” (Blue Note, 1990), com Greg Osby e Robin Eubanks, e “A Beautiful Day” (Palmetto, 2002) considerado um dos melhores discos de jazz do ano passado, em formato de “big band”, com Marty Ehrlich.
No Seixal, Andrew Hill apresenta-se em sexteto com Ron Horton (trompete), Marty Ehrlich (saxofones alto e soprano, clarinete), Greg Tardy (saxofones tenor e soprano), John Hebert (contrabaixo) e Nasheet Waits (bateria).
Liam Noble teve a bênção de John Taylor e acompanhou Kenny Wheeler e o desalinhado Lol Coxill. Além de um álbum de piano solo, “Close Your Eyes”, o seu novo trabalho, “In the Time”, apresenta-o na companhia do grupo que esta noite atuará no Porto, em cuja formação se destaca a presença do saxofonista Stan Sulzmann. Um particular conceito estilístico, mais próximo das heterodoxias em tons de “film noir” americano do que da escola inglesa, levou o crítico da revista “The Jazz Review” a comparar o seu autor a Wayne Horvitz e a considerar que “é o mais perto que um compositor britânico chegou à vívida anti-ortodoxia da cena ‘downtown’ nova-iorquina”.

Andrew Hill
SEIXAL Auditório Municipal do Fórum Cultural.
Tel.: 212276500.
Às 21h30 e 23h30. Bilhetes a 10 euros.

Liam Noble Group
PORTO Teatro Rivoli (Grande Auditório).
Tel.: 223392201.
Às 22h. Bilhetes a 15 e 20 euros.