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Vandermak 5 – “Airports Or Light” + Vandermak 5 – “Free Jazz Classics”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 07 Junho 2003

Ken Vandermark recria clásicos do free e ilumina a pista de aterragem do aeroporto do jazz. No selo português Clean Feed as novas aeronaves funcionam a bateria.


Partidas e chegadas

VANDENMARK 5
Airports for Light
2xCD Atavistic
9 | 10
Free Jazz Classics
2xCD Atavistic
8 | 10
distri. Ananana


Ken Vandermark é um músico notável e um dos expoentes da nova geração de saxofonistas. Como todos os grandes músicos, com força, uma voz própria e “afinada” e um conhecimento profundo do passado, só assim se tornando lícito romper e inovar sobre esse mesmo passado. Parentescos espirituais? Evan Parker, Braxton, Dolphy… Mas sempre com o rosto de Vandermark, inventor portentoso, vendaval de ideias e de energia. “Airports for Light” (2002), assinado pelo coletivo Vandermark 5 – Jeb Bishop (trombone), Jim Daisy (bateria), Kent Kessler (baixo), Dave Rempis (saxofones) –, compõe-se de nove dedicatórias. A Gerhard Richter, John Cassavetes, Fredrik Ljungkvist, Rahsan Roland Kirk, Budd Johnson, Jean Tinguely, Curtis Mayfield, Otis Redding e Sonny Rollins. Um segundo CD tem a preenchê-lo unicamente temas de Sonny Rollins.
O som sabe e cheira a Chicago, onde Vandermark se estabeleceu e tem feito escola nos últimos anos. Junta em doses exatas o esquematismo hermético-matemático de Braxton, o fluxo sanguíneo de Parker, o palimpsesto de discursos sobrepostos de Dolphy. Mas Vandermark confronta-nos com um poder que é só seu, impulsionando o grupo para uma música cheia, como que criada por uma “big band” inteira. Sobranceiros, os três sopros interligam-se num constante maquinismo produtor de soluções musicais que a cada momento surpreendem. Entre o “bas fond” do pós-jazz de Chicago, o “blues” em figurações cubistas, o “hard bop” futurista e o “free” mais solitário e estratosférico (“Initials” é um solo ou uma explosão nuclear?), Ken Vandermark faz o que quer, com o desplante dos génios. Uma locomotiva, uma fortaleza voadora, um coro de reatores, um combate de boxe, um jardim de flores canibais são imagens a que a luz dá forma. Difícil é, depois de a receber, deixá-la de novo levantar voo do aeroporto. Luz que de outra forma se derrama sobre o disco com temas de Rollins. Anotam-se as diferenças em relação ao autor de “Freedom Suite”: a velocidade de pensamento, o timbre, o fraseado e a colocação são adaptados mais do que recriados por Vandermark, capaz, no entanto de fazer ressaltar o que de excitante permeia clássicos como “East Broadway rundown”, “Alfi e” e a já citada “Freedom Suite”, aqui retomada através de um excerto.
Teoricamente mais ambiciosa é a obra gravada pelo mesmo grupo em 2001, o duplo “Free Jazz Classics, Vol. 1&2” preenchido por versões de temas de Ornette Coleman, Anthony Braxton, Cecil Taylor, Joe McPhee, Sun Ra, Eric Dolphy, Lester Bowie, Archie Shepp, Carla Bley, Frank Wright, Jimmy Giuffre, Julius Hemphill e Don Cherry. Admira-se a coragem necessária para arriscar tal empreendimento, mais ainda por se tratar de uma gravação ao vivo. Os nomes escolhidos são (talvez à exceção de Frank Wright…) avatares, não só do “free jazz”, como da música improvisada e do jazz contemporâneo em geral. Qualquer deles genial, tirando Wright e, vá lá, Lester Bowie… Percorrer de uma assentada caminhos, tão brilhantes como árduos, como estes, ou é pretensão megalómana ou de alguém com absoluta confiança nas suas capacidades, incluindo as de camaleão. O tal conhecimento de que falávamos no início é exigido aqui de uma maneira quase violenta mas Vandermark e os seus companheiros entregam-se à tarefa sem medo e, sobretudo, sem preconceitos. A música, como seria de esperar, move-se dentro de parâmetros mais balizados que os de “Airports for Light”, o que não deixa de ser paradoxal num disco de “free jazz”. Mas, e será esta a maior lição a tirar de “Free Jazz Classics”, o que Vandermark põe em relevo é precisamente uma escrita (daí os “clássicos”) do “free” que, amiúde, sai obscurecida pela vertente expressionista do “género”, não sendo então, inocente, a escolha destes músicos, e não outros, que além de portentosos executantes foram ou são grandes compositores. “Free Jazz classics” é grande jazz de ginásio.

Ravi Coltrane – “Mad 6” + Roy Haynes – “Love Letters” + Clark Terry & Max Roach – “Friendship” + Eddie Henderson – “So What”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 31 Maio 2003


Sessões novas à moda antiga

RAVI COLTRANE
Mad 6
8 | 10

ROY HAYNES
Love Letters
7 | 10

CLARK TERRY & MAX ROACH
Friendship
7 | 10

EDDIE HENDERSON
So What
7 | 10

Todos ed. Eighty-Eights, distri. Sony Music


O jazz tradicional, servido por grandes músicos, encontrou guarida na nova editora Eighty-Eights. Mas é raro viajar-se para longe em velocidade de cruzeiro.

A Eighty-Eights é uma editora nova feita à moda antiga. Criada pelo veterano produtor japonês Yasohachi (“88”, em japonês) Itoh, segue o velho costume de convidar músicos topo de gama para sessões em tempo real no estúdio, sem “overdubs” nem truques técnicos de qualquer espécie. Neste caso, todas efetuadas nos estúdios Avatar, em Nova Iorque, na Primavera do ano passado.
Ravi Coltrane, filho de John Coltrane, foi o primeiro convidado. Sem a loucura santa do pai, mas já com sólidas bases nos saxofones soprano e tenor, Ravi apoia-se em “Mad 6” em dois mestres: o pai, que recria em “26-2” e “Fifth house”, e Thelonious Monk, em “’Round midnight” e “Ask me now”, mais um tema de Mingus, “Self portrait in three colors” e outro de Jimmy Heath, “Ginger bread boy”, ficando o resto das composições à sua responsabilidade. A doçura e a agilidade do sax soprano impõem-se no tema de Heath, algures entre o “hard bop” e o “jazz rock”, servido pelo funk do baixo de James Genus e as marcações rítmicas do piano de George Colligan e a bateria de Andy Milne. Mas é nas composições assinadas em nome próprio que Ravi se mostra magnífico, como em “Avignon”, de “riffing” portentoso, ou “The mad 6”, onde o seu tenor consegue aproximar-se do universo de geometrias esotéricas de Coltrane sénior, sendo, ao invés, de um lirismo enternecedor no tema de Mingus.
“Hard bop”, “swing”, ritmos afro e latinos, com material de Irving Berlin, Mongo Santamaria, Horace Silver, Victor Young, Johnny Mercer e Benny Goodman, foram cair, em “Love Letters”, nas mãos imaculadas de um coletivo liderado pelo lendário baterista, Roy Haynes (tocou com Lester Young, Charlie Parker, Bud Powell, Miles Davis, Stan Getz, Thelonious Monk, Chick Corea, Art Pepper, John Coltrane e Eric Dolphy), do qual fazem parte Kenny Barron (piano), Dave Holland (baixo), Christian McBride (baixo), Joshua Redman (saxofone tenor) e John Scofield (guitarra). Redman abre o livro em “Qué pasa” e Barron folheia-o em “How deep is the ocean”, num álbum que para alguns ouvidos poderá depender em demasia do imutável e, por vezes, entorpecente, timbre da guitarra de John Scofield. Escusado será dizer que as interpretações, o bom gosto e o nível técnico estão acima de qualquer suspeita. Faltará, porém, a estas “Cartas de Amor” a chispa do arrebatamento e da paixão. Até porque, como disse alguém, “o amor platónico, como todos os tónicos, é bom para abrir o apetite”.
Clark Terry e Max Roach encontraram-se para um louvor à amizade, em “Friendship”. São homens com convicções fortes mas de conversas diferentes. Enquanto o trompetista sorri satisfeito deleitando-se com o traço e a clareza das melodias, executadas com timbre de veludo e fraseado contido (mas que em “When I fall in love” encontram curiosos ângulos de expressão num solo absoluto que é um dos melhores momentos do disco), Roach, “o baterista” — trave-mestra de um quadrado formado por Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Miles Davis e Charles Mingus —, faz questão em mostrar que a sua bateria continua tão criativa e inquieta como sempre. Em “Friendship”, são deliciosas as incursões das baquetas na parte mais tensa das peles, arrancando-lhes sonoridades metalizadas ou então fazendo-as vibrar em refrações que cortam o ar, ora tapando ora destapando as cintilações dos címbalos. Entre os temas que não foram escritos pelos dois líderes, encontram-se “Let’s cool one”, de Monk, “I remember Clifford”, de Benny Golson, “When I fall in love”, de Victor Young e “The nearness of you”, de Hoagy Carmichael. Don Friedman, companheiro por diversas ocasiões de Jimmy Giuffre, Herbie Mann, Ornette Coleman e Charles Lloyd, faz do piano o ponto de equilíbrio harmónico entre a trompete e a bateria. Jazz para saborear em segurança.
Talvez seja esta, de resto, a pecha principal deste novo catálogo que agora se apresenta. Não há quem se atreva a espreitar para lá do conhecido, arrisque tropeçar para se levantar mais à frente num chão selvagem, faça questão, já não dizemos em surpreender mas, pelo menos, em sobressaltar. Assim volta a acontecer no quarto objeto da coleção, “So What”, do trompetista Eddie Henderson, também ele seguro a “standards” como “’Round midnight” e “On green dolphin street” (de Ned Washington/Bronislaw Kaper) e “Someday my prince will come (Frank Churchill/Larry Morey), bem como “Well, you needn’t”, de Monk e “So what” e “All blues”, de Miles Davis. Mas será talvez nos dois temas de Wayne Shorter, “Prince of darkness” e “Footprints”, que a trompete de Henderson encontra mais motivos de gozo, potenciado pelos intricados jogos rítmicos de David Kikoski (piano), Ed Howard (baixo) e Victor Lewis (bateria, instrumento a cargo de Billy Hart na outra metade do disco). E se o trompetista se consagra na música de um saxofonista, o mesmo se pode dizer do tenorista Bob Berg em relação à música de um trompetista, Miles Davis, em “So what”, onde demonstra ser o músico de ideias mais avançadas de todo o coletivo.
Lançada em velocidade de cruzeiro, a Eighty-Eights deixa para já um testemunho vigoroso de que o jazz tradicional permanece como esteio necessário e porto de abrigo em alturas de maior desorientação. Lá mais para a frente se ficará a saber se haverá lugar para quem se disponha a ir mais longe e seja capaz de criar dentro do selo uma dinâmica alternativa.