Do país basco são conhecidos internacionalmente os Oskorri, hoje uma instituição da folk europeia, e o “virtuose” da “trikitixa” (acordeão) Kepa Junkera, que recentemente colaborou com os Chieftains e Júlio Pereira. Junkera é aqui o parceiro de Ibon Koteron, num álbum que pretende recuperar o “alboka”, clarinete duplo do País Basco – criando para ele um reportório actual -, e, em simultâneo, homenagear alguns dos mestres antigos, os “albokeros”, em particular a figura de Léon Bilbao. Bilbao foi, ele próprio, um revolucionário do “alboka”, na recusa em o reduzir a mero instrumento de pastores, contrariando ainda aqueles que negavam a possibilidade de o tocar recorrendo à técnica do sopor contínuo. Em “Loenen Orroak” é visível este esforço de modernização, tanto ao nível da produção como da orientação estética de um projecto que se insere inequivocamente numa corrente de folk sofisticada e ultra-arranjada com extensões nos diversos países da tradição celta. Não faltam ao “albokero” Ibon Koteron motivos de sobra e contextos instrumentais para fazer evoluir o som estridente do “alboka” sobre tapetes harmónicos que usam e abusam da sanfona, gaita-de-foles (incluindo as “uillean pipes” irlandesas), percussões árabes (por Luís Delgado, de todas as fusões) e, claro, a “trikitixa” inquieta de Junkera. (8)
The Residents
Not Available (9)
The Third Reich ’n’ Roll (8)
Duck Stab/Buster & Glen (8)
Fingerprince (8)
Eskimo (9)
EURO-RALPH, IMPORT. SYMBIOSE
Anteriormente disponível na Torso, a discografia dos anos 70 dos Residents volta aos escaparates, agora pela subsidiária europeia da Ralph, em formato “digipak” e com considerável melhoria de som. Não foi contemplada a estreia oficial do grupo, a sátira aos Beatles, “Meet the Residents”, mas, em compensação, uma das obras-primas do grupo, “Not Available”, passou a ter um som decente, uma vez que a anterior versão em compacto da Torso era simplesmente vergonhosa, abafada e sem graves (fenómeno idêntico ao de outros dois compactos com trabalhos seminais, que adulteram completamente o som de origem, “Tago Mago” dos Can e “Unrest” dos Henry Cow. Não há maneira de resolver o problema?).
“Not Available” é a odisseia trágica-marítima dos Residents que devia obedecer, mas não obedeceu, à teoria da obscuridade, ou seja, só deveria ser editado quando já ninguém se lembrasse da sua existência. Gravado em 1974, acabou por ver a luz do dia em 1978. É algo de único na pop dos anos 70, entre um desenho animado para adultos autistas e um cântico de marinheiros de um navio-fantasma seduzidos por Edweena, rainha dos pesadelos.
“The Third Reich ‘n’ Roll”, de 1976, com duas sequências “célebres”, “Swastikas on the Parade” e “Hitler was a vegetarian”, apresenta um alinhamento paranóico de “hits” dos anos 60, como existiam nas mentes retorcidas dos Residents. A culminar o massacre, uma versão comatosa de “Hey Jude”, dos Beatles, é o desrespeito total pela obra dos “fabulous four” e uma apologia à disformidade. Os Beatles não se queixaram, mas a pop sofreu um rude golpe na sua reputação. Mesmo que poucos tivessem reparado.
“Duck Stab/Buster & Glen”, de 1978, surge numa edição com dois CD de três polegadas, respeitando assim a separação entre os dois projectos, contrariando, deste modo, a da Torso, onde “Buster & Glen” aparece como um apêndice de “Duck Stab”. Aqui a electrónica solta-se de forma mais convencional e as canções poderiam mesmo entrar para o top de vendas da quinta dimensão, como “The electrocutioner”.
No ano seguinte, 1979, surge “Fingerprince”, música para bailado de onde se destaca a “suite” “Six Things to a Cycle”. A edição inclui o três polegadas “Babyfingers”, com a sequência de temas original, ao contrário da edição da Torso, onde os temas aparecem intercalados no resto do álbum e deixam de fora “Monstrous intro”.
“Eskimo”, ainda de 1979, sobe de novo a fasquia à altura das obras capitais. Sobre um ruído insistente de vento os Residents apresentam a sua tese de antropologia patológica da vida e costumes dos esquimós. Um trabalho no qual qualquer semelhança com a realidade não é pura coincidência, tão arrepiante como as regiões geladas em que se inspira. Dos homens com feitio de globo ocular e cartola saíram ainda “digipaks” da colectânea “Our Finest Flowers” e a colecção de remisturas de um dos temas-ícone dos Residents, “Kaw-liga”: “The Poor Kaw-Liga Pain”.
ALI FARKA TOURE & RY COODER
Talking Timbuktu (7)
World Circuit, import. Contraverso
RY COODER & V. M. BHATT
A Meeting by the River (8)
Water Lily Acoustics, import. Contraverso
RY COODER
Geronimo (6)
Columbia, distri. Sony Music
Não se dá por ele mas ele está, no lugar certo com os músicos certos. Ry Cooder deixou para já dois álbuns de que poucos falam mas que ficarão para sempre registados na grande enciclopédia da melhor música popular americana: “Chicken Skin Music” e “Jazz”. Tornado figura pública sobretudo após a sua colaboração como autor da banda sonora de “Paris Texas”, o filme de grandes espaços de Wim Wenders, Ry Cooder partiu à descoberta das músicas tradicionais do mundo (“Gosto do itinerário musical que sigo actualmente, Quero ter a possibilidade de reagir a estímulos variados sem ter que arrastar atrás toda a parafernália do rock & roll”, dizia numa entrevista recente à revista “Top”), sem contudo descurar uma aliança antiga com outro cineasta, Walter Hil.
“Talking Timbuktu” é, para todos os efeitos, o novo disco do guitarrista maliniano Ali Farka Toure. Com produção e participação instrumental de Cooder, resultante da admiração recíproca de longa data entre os dois guitarristas. Além de Ry Cooder, o disco conta com a colaboração da dupla de percussionistas – os Asco – habituais de Farka Toure, juntamente com o guitarrista e violinista de blues Clarence Brown, John Patitucci (baixista de Chick Corea) e o baterista Jim Keltner.
Sem a urgência dos magistrais “The River” e “The Source”, o novo álbum, cujo título se refere à região do Mali onde Toure vive, mantém uma ligação menos conflituosa com os sons tradicionais africanos. Farka Toure canta nos dialectos “peul”, “bambara”, “songhai” e “tamasheck” o quotidiano das populações rurais do Mali, apelando para a preservação dos valores ancestrais, atitude que no tema final, “Keito”, se prolonga num autêntico libelo político antimilitarista a favor da unidade de todos os povos africanos.
Cooder mantém ao longo do álbum uma postura discreta ao nível de contraponto melódico e enriquecimento dos timbres. Com uma “slide guitar” ou uma guitarra de brinquedo, uma “mbira” ou uma “tamboura”, o californiano acrescenta pequenos pormenores à execução de blues minimalistas do africano. Blues que surgem de forma declarada em “Amandrai” e “Ai du”, entre o tradicionalismo assumido de um par de temas que dispensam a presença dos ocidentais – nos quais Toure recorre a um instrumento de arco, o “njarka” –, o compromisso entre dois continentes na maioria dos temas e a cadência de “reggae” do último, “Diaraby”. Morno.
“A Meeting by the River” é, muito mais que “Timbuktu”, um verdadeiro encontro. Neste caso entre a música indiana de Vishwa Mohan Bhatt e o estilo híbrido de Ry Cooder e, em particular, entre a guitarra “bottleneck” e a “Mohan vina” inventada pelo indiano (uma espécie de “slide guitar” adaptada, sem qualquer semelhança com a “vina” tradicional), apoiadas por Sukhwinder Singh Namdhani, nas tablas, e pelo filho do americano, Joachim Cooder, no “dumbek”.
Quatro longos temas de ressonâncias cristalinas, dos quais os dois primeiros dão ênfase à música indiana, enquanto no terceiro se manifesta a mistura de blues e “tex-mex” cara a Ry Cooder, e no último a sonoridade cálida da música havaiana de “Isa lei” se enleiam num estranho ramo que ata um sonho de Donovan com o fantasma de Lili Marlene.
Finalmente, em “Geronimo”, Cooder reata o seu trabalho de composição das bandas sonoras para filmes de Walter Hill, como já o havia feito, aliás, no mesmo ano de 1993, em “Trespass”. Neste caso a biografia do famoso chefe dos índios apaches justificou a chamada de nomes famosos mas o resultado, embora não se enquadre na categoria da chamada “música de filmes” (sinónimo de música que não se aguenta sem a imagens), também não é susceptível de provocar grandes entusiasmos. Há de tudo: flautadas étnicas de um índio genuíno, R. Carlos Nakai (costuma andar associado a músicos da new age e gravou nessa onda um álbum chamado “Desert Dance”), orquestrações e direcção de orquestra de Van Dyke Parks que dão um cheirinho de John Philip-Sousa, vozes multifónicas de Tuva pelos Hoon-Hoorto, cânticos índios, o “bouzouki” e bandolim meio à toa da David Lindley (o mesmo que viajou com Henry Kaiser pelas músicas de Madagáscar nos dois volumes de “A World out of Time”), um solo de guitarra “à maneira” do compositor ou um dueto de acordeões. Destaque, entre os temas “étnicos” e os “orquestrais eruditos”, para “Cibecue”, reminiscente dos electro-ritualismos de Jorge Reyes e Steve Roach, o baile anacrónico dirigido por Parks em “The governor’s ball”, um belo solo de violoncelo assinado por Larry Corbett em “Wayfaring stranger”, um tema com vagas ressonâncias de música irlandesa, e “I have seen my power”, onde as vozes rituais de Tuva e dos índios americanos se juntam à flauta de Nakai e ao “I-bream” (mas que raio de instrumento é este, que Cooder utiliza em quase todas as faixas?) para criar um manto de sombras e mistério. Infelizmente a maior parte de “Geronimo” dispersa-se por arranjos pesadões que, acreditamos, devem fazer todo o sentido no filme.