Arquivo da Categoria: Críticas 2003

Dave Holland Quintet – “Extended Play” + Miroslav Vitous – “Universal Syncopations” + Art Ensemble Of Chicago – “Tribute To Lester” + The George Burt / Raymond MacDonald Quartet c/ Lol Coxhill – “Coxhill Street” + Frances-Marie Uitti & Jonathan Harvey – “Imaginings”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 25 Outubro 2003

Holland e Vitous. Contrabaixistas a ditar as regras do jogo do jazz. O inglês dispõe dos melhores trunfos.


Contra baixos não há argumentos

DAVE HOLLAND QUINTET
Extended Play
ECM, distri. Dargil
9 | 10

MIROSLAV VITOUS
Universal Syncopations
ECM, distri. Dargil
7 | 10

ART ENSEMBLE OF CHICAGO
Tribute to Lester
ECM, distri. Dargil
8 | 10

THE GEORGE BURT/RAYMOND MacDONALD QUARTET c/LOL COXHILL
Coxhill Street
FMR, distri. Sonoridades
7 | 10

FRANCES-MARIE UITTI & JONATHAN HARVEY
Imaginings
Sargasso, distri. Sonoridades
7 | 10



Nos últimos tempos o homem não tem feito outra coisa a não ser reciclar a sua própria música e a do quarteto que o tem acompanhado desde 1997. Mas dado que o seu nome é Dave Holland, perdoa-se, aceita-se e até se agradece. “Extended Play” é uma obra monumental em dois CDs, gravado há dois anos no mítico Birdland de Nova Iorque. As peças, na maioria extraídas de “Prime Directive” e “Point of View”, têm uma duração tal que só a simples menção dos tempos gastaria a totalidade do espaço disponível nesta página. Mas mais do que tempo, a música esbanja qualidade.
A máquina cardíaca do líder deu a cada músico espaço para respirar e dizer longamente. Diz Holland que para explorer em larga escala novas formulas para temas antigos, fazendo delas “veículo para a intuição e a imaginação”.
Potter mostra-se imparável em “The Balance” e “High wire”, solando “free”. Nelson prova ser um dos grandes vibrafonistas actuais, sem nunca abusar do pedal de reverberação, preferindo a clareza e a fluência do ritmo aos registos mais ambientais. O solo de marimba em “Jugglers parade” é funky, progressivo, misterioso, hipnótico. Fãs dos Can, há um mundo de jazz, mesmo ao lado, à vossa espera! Quando Holland faz a sua entrada e o trombone de Eubanks se alarga num manifesto feito de subtileza mas também de súbitas guinadas para a faixa de rodagem da experimentação, o swing rola numa montanha-russa.
“Claressence”, de “Dream of the Elders”, abre o segundo CD numa nota mais “cool”, com Nelson a chegar-se aos timbres de cristal de Milt Jackson, nos Modern Jazz Quartet. Potter volta a mostrar até que ponto compareceu a esta sessão em estado de graça. O seu diálogo com o trombone de Eubanks é de fazer dançar um moribundo. Holland, o mestre, deixa a sua assinatura lavrada a fogo em “Metamorphos”, imprimindo-lhe um balanço e equilíbrio sobrenaturais. Abusando ou não da reciclagem, Holland acertou uma vez mais na “mouche”. “Extended Play” ostenta a novidade e a incandescência do princípio do mundo. E, porque não, do princípio do jazz. Contra tais factos, contra o seu baixo, não há argumentos.
Outro contrabaixista, porventura menos conhecido, mas de não menores méritos, é Miroslav Vitous, checoslovaco de nascimento, antigo “sideman” de
Miles Davis, membro fundador dos Weather Report e autor de um magnífico “Journey’s End”, ao lado de John Surman e John Taylor. Em “Universal Syncopations” rodeou-se de um quartet de “figurões”: Jan Garbarek, Chick Corea, John McLaughlin e Jack DeJohnette. A capa mostra uma coreografi a de nuvens e quando os discos da ECM utilizam fotos de coreografias de nuvens já se sabe que som se há-de esperar. Mais ainda se Jan Garbarek estiver presente na sessão, pois também se sabe que cores esperar deste saxofonista que progressivamente foi atafulhando o timbre do seu saxophone com flores e mel (quando toca a adocicar, Manfred Eicher não perdoa – é a perdição dos diabéticos do jazz).
Pois bem, o Garbarek destas “síncopes universais” arrepiou caminho até às antigas e mais espinhosas encruzilhadas de “Dis”. Voltou a curvar nas esquinas. Corea domina o “som ECM” como se tomasse uma chávena de chá e Vitous aproveita para se mostrar como o contrabaixista ginasticado e, se a ocasião o justifica, nevrótico que é. Entre todos os participantes, é o menos conformista, num programa que junta uma “floresta de bambu, uma “flor do sol”, “Miro bop” (o quintet acorda! Vitous e DeJohnette sacodem Corea e Garbarek bopa), “Beethoven” e “ondas brasileiras”. Tudo bonito, tudo certo, tudo extraordinariamente bem tocado. Sem riscos. A secção rítmica solta, no entanto, as amarras…
“Tribute to Lester” é uma homenagem ao trompetista Lester Bowie, falecido em 1999, pelos seus antigos companheiros no Art Ensemble of Chicago. Bowie era o tipo dos óculos e da bata que punha ordem na selva e orientava os rituais pela bússola do jazz, dos gritos “free” ao “mardi gras” de Nova Orleães. A justa homenagem que Roscoe Mitchell, Malachi Favors e Don Moye lhe prestam funcionou como o despertar de uma longa letargia. O habitual clamor de gongos e sonoridades exóticas ficou mais focado, embora seja lícito questionar se o solo de flauta barroca, de Roscoe Mitchell, em “Suite for Lester”, é ou não apenas mais uma das múltiplas “boutades” extrajazz que os AEC por norma incluem nas suas “performances”. De resto, há a usual componente sul-africana, “free” do melhor (“As clear as the sun”, com Mitchell a uivar de dor nos agudos) e uma nova versão de “Tutankhamun”, onde o solo de saxofone baixo de Mitchell poderia servir de sarcófago para a música do homenageado. Mas é na improvisação coletiva final, “He speaks to me often in dreams”, celebrada nos píncaros de uma montanha no Tibete, que os espíritos e os silêncios falam aos homens.
Espírito é o que não falta a Lol Coxhill, saxofonista e lunático. Com Coxill é sempre Natal. Os jazzados da cabeça que escarafuncham noutras paragens escancaram um sorriso tão largo como o do gato das histórias de Alice só de imaginarem o desempenho delirante deste saxofonista na obra-prima do rock progressivo excêntrico dos anos 70, “Shooting at the Moon”, de Kevin Ayers. Lol Coxhill poderia ser o chapeleiro maluco. “Ear of the Beholder” (com uma impensável formação composta por Burton Greene, Jasper Van’t Hoff, Pierre Courbois e David Bedford) é outro álbum do saxofonista careca que os puristas do jazz menosprezam e os loucos do Progressivo veneram.
Coxhill aparece em “Coxill Street” a convite do guitarrista George Burt e do saxofonista alto e soprano, Raymond MacDonald. Música improvisada, bruta, enformada pelas angulosidades da guitarra, que Coxill aproveita para levar o saxophone soprano à histeria e recorrer às técnicas de multifonia que tão bem domina. Toca-se com a convicção dos iluminados, encarcerados num mundo fechado sobre si mesmo, porém fascinante para quem ousar abrir a porta e dar de caras com a loucura. O chapeleiro louco está nas suas sete quintas, claro.
Ainda no campo da improvisação limítrofe, “Imaginings”, de Frances-Marie Uitti, no violoncelo, e Jonathan Harvey, nos sintetizadores, desenvolve-se no sentido do impressionismo . “Exploração de timbres” e emprego de técnicas extensivas fazem parte do léxico destes dois executantes com larga experiência na música eletroacústica (Harvey trabalhou no IRCAM, a convite de Boulez), indicativos dos parâmetros que subjazem à criação de “Imaginings” – painel de sons fantasmagóricos, electrónica residual, drones e ocasionais ruturas num “continuum” elaborado a partir de diversas linhas de tensão/clivagem sustentadas pelos dois músicos. O que é que o jazz tem que ver com tudo isto? Nada! Mas em que outro espaço poderíamos escrever sobre este disco?…

Albert Ayler – “Music Is The Healing Force Of The Universe” + Albert Ayler – “The Copenhagen Tapes” + Burton Greene Quartet – “Burton Greene Quartet” + The Vanguard Jazz Orchestra – “Can I Persuade You?” + Enrico Rava – “Full Of Life” + Stan Getz – “Bossas and Ballads: The Lost Sessions”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 18 Outubro 2003

Ayler conviveu com os espíritos com a naturalidade de uma criança. Nele, o “free” é a vibração que arde e cura.


O santo pecador

ALBERT AYLER
Music is the Healing Force of the Universe
Verve, distri. Universal
8 | 10

ALBERT AYLER
The Copenhagen Tapes
Ayler, distri. Multidisc
8 | 10

BURTON GREENE QUARTET
Burton Greene Quartet
ESP, distri. Trem Azul
7 | 10

THE VANGUARD JAZZ ORCHESTRA
Can I Persuade you?
Planet Arts, distri. Trem Azul
7 | 10

ENRICO RAVA
Full of Life
Camjazz, distri. Multidisc
8 | 10

STAN GETZ
Bossas and Ballads: the Lost Sessions
Verve, distri. Universal
8 | 10

Em jazz, quando calha veicular a mensagem do misticismo, nada melhor do que pôr uma voz feminina a apregoar a boa nova. Sun Ra, por exemplo, tinha a sua própria profetisa. Albert Ayler encontrou a sua em Mary Maria (o nome não poderia ser mais apropriado), para anunciar que “vida é música”, “música é amor”, etc., ou que a unidade espiritual é um bem necessário. Máximas que fazem todo o sentido. Mas não cá em baixo. Não para os que se deixam morrer, adormecer ou desistir. Um raio. E tudo se ilumina. A “música do universo” e a “música que cura” dispensam as palavras para exercerem todo o seu poder, quando o saxofone tenor de Albert Ayler entra em diálogo com as forças do cosmos, sejam elas do céu ou do inferno. “Music is the Healing Force of the Universe”, agora disponível em capa de cartão, réplica do vinil original, é música para se subir por ela. Ou descer, caso se escorregue. “Free jazz” em gravação de 1960, com Bobby Few ao piano, Henry Vestine na guitarra, Bill Folwell no baixo elétrico, Stafford James no contrabaixo, e Muhammad Ali na bateria. Ayler esvazia-se, usando o grito para atingir o silêncio, Few lança uma chuva de pedras, Ali enrola os despojos em folhas de metal. As melodias não passam de esboços logo abandonados para se partir em viagem de descoberta. Viagens do som (no início de “Masonic inborn, part 1” Ayler toca uma gaita-de-foles escocesa, descartando-a de quaisquer conotações “folk”) e do espírito, sinónimo de fogo. Em “A man is like a tree”, sente-se a religiosidade que preside à combustão de cada nota e se “Oh! Love of life” é redundante no seu propósito, a voz infantile de “Island harvest”, bem como o júbilo dionisíaco do tenor, são a confirmação de que se Ayler tocou na Verdade é porque esta apenas se dá a conhecer, nua, aos puros de coração. Isto é, às crianças. Nota à parte: será que Laurie Anderson ouviu Mary Maria a cantar neste tema, como inspiração para um dos temas de “Big Science”? Ouçam e adivinhem qual! A cura termina com um fabuloso “blues”, em conversa de labaredas a três entre o saxofone, a guitarra e o piano. Além dele, a paz.
Ainda Ayler, desta feita numa gravação ao vivo de 1964, no Club Montmartre de Copenhaga. Mais “Spirits”, “Vibrations” e “Saints” mas aqui na companhia de verdadeiros santos e espíritos irmãos, nas pessoas de Gary Peacock (contrabaixo) e Sunny Murray (bateria), ambos presentes, três meses antes, na obra-prima “Spiritual Unity”. Quem sentir difi culdades em penetrar na mina (Ayler despedaçava a rocha para fazer sobressair o diamante) poderá meditar nas palavras do crítico Daniel Caux, a propósito de Murray e dos jogos da apanhada e das escondidas, entre o tempo e o “swing”: “o ‘swing’ for a de um tempo regular poderia parecer uma contradição mas vale a pena ter em conta que os aspetos rítmicos do jazz nunca foram uma questão de imposição de uma grelha metronómica mas, pelo contrário, de o tornar ‘vivo’ através de uma ligação dialéctica entre tensão e relaxamento, rigor e liberdade”. Ritmo passaria a ser então, mais do que um vector matemático, uma “vibração”. Ayler e os seus companheiros desfazem o compass e as notas. Ou, como se diz nas notas de capa, arrancam a pintura da parede. O que se esconde por detrás são os mistérios da alegria e da dor.


Livres de estilo

Continuam a resistir ao vendaval de liberdade (nalguns casos, libertinagem…) que assolou o jazz nos anos 60? Complementem a dupla sessão com Ayler com a não menos radical estalada de “free” desferida em 1966 pelo pianist Burton Greene, na companhia, entre outros, de Marion Brown (saxofone alto) e Henry Grimes (contrabaixo). Greene fundou, com Steve Lacy, o Free Form Improvisation Ensemble, tocou com Sam Rivers, Gato Barbieri, Paul Bley, John Tchicai, William Breker e Han Bennink, e derivou, na década seguinte, para experiências que passaram pela reavaliação de Bartok e da música medieval. Mas nos “sixties” tratava-se de demolir o já feito para construir o novo, fosse este o que fosse. “Clusters” infindáveis, fraccionamentos, deflagrações, avalanches, explorações nas cordas do piano. Com tempo para uma caçada a criaturas mais subtis no ritual da selva impressionista, “Ballade II”. Onde Greene desce às camadas mais baixas do espectro sonoro, agitando o magma até fazer saltar demónios.
Limpar a lama e o medo é o que importa agora. Entremos, pois, de cara e espírito lavados, no campo aberto da Vanguard Jazz Orchestra, formação criada em 1966 por Thad Jones e Mel Lewis, atualmente composta por quatro secções lideradas, respetivamente, por Earl Gardner (trompetes), John Mosca (trombones), Dick Oatts (saxofones) e Jim McNeely (piano, secção rítmica). Além de temas de Jimmy Giuffre, Bob Mintzer, Wayne Shorter e Duke Ellington, “Can’t Persuade You?” apresenta um par de temas de Juliane Beth Cavadini (1956-1988), a quem o disco é dedicado, cujos traços musicais primam por uma melancholia não muito diferente da que faz sonhar Carla Bley. Quanto à orquestra, é uma âncora a segurar a vanguarda. Esta, obviamente, avança muito à sua frente.
Sigamos, pois, até Itália para encontramos o trompetista Enrico Rava (por sinal, parceiro de Carla no monumental “Escalator Over the Hill”), numa gravação do ano passado, “Full of Life”, em quarteto com Javier Girotto (saxes soprano e barítono), Fabrizio Sferra (bateria) e Ares Tavolazzi (contrabaixo), músico de que alguns se recordarão da banda de jazz-rock Area. “Full of Life” vive da descontração, dos “midtempos” e de baladas que fazem justiça ao que a compositora e orquestradora Maria Schneider declarou sobre a generalidade dos “jazzmen” italianos: “Tocam com despreocupação [‘abandon’].” Ao ouvi-los em “The Surrey with the fringe on top” parece, de facto, que o jazz é uma coisa fácil, brincadeira de crianças, tão natural como respirar. Quanto à trompete de Rava, respira como uns pulmões impregnados pela fragrância de pinheiros. E como swingam, em “Miss Mg”, cheios de vida! E “abandon”…
Para descontrair ainda mais, uma prenda para os incondicionais do “cool” e de um dos seus expoentes, Stan Getz, mestre do “abandon” e da elegância. “Bossa and Ballads: the Lost Sessions” (com Kenny Barron, no piano, George Mraz, no contrabaixo, e Victor Lewis, na bateria) reúne material de sessões de 1989 destinadas à estreia do saxofonista para a editora A&M, porém sem edição até à data. Poder-se-ia falar, a propósito de Getz, no triunfo do estilo e do tratamento. É verdade mas não é toda a verdade. Há nos seus trinados e na profundidade sedosa do timbre do seu tenor uma ternura triste e uma saudade que são, afinal, idêntico apanágio da bossa nova. Apenas faltará a estas “sessões perdidas” o sangue e o sal proporcionados pela voz de João Gilberto que, na mítica gravação de 1963, deixara o saxofonista marcado para sempre.

NOTA: Por lapso, há duas semanas, ficou por referir que os álbuns “Hot Fives & Sevens” de Louis Armstrong têm distribuição Sony Music.

Louis Armstrong – “The Complete Hot Five & Hot Seven Recordings, Volumes 1, 2 & 3”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 4 Outubro 2003

Com “Satchmo” e as suas formações do final dos anos 20, Hot Five e Hot Seven, o jazz entrou na sua idade adulta.


What a wonderful new world

LOUIS ARMSTRONG
The Complete Hot Five & Hot Seven Recordings, Volumes 1, 2 & 3
10 | 10



Nos anos 20, na época em que o jazz era apenas “música de pretos”, Louis Armstrong limpou a má consciência da população americana branca, cujo racismo confinara o jazz, logo à nascença, ao gueto das músicas folclóricas, mais ou menos “exóticas”. A música de “Satchmo”, se não aboliu inteiramente os preconceitos, obrigou pelo menos a que todos reparassem nela.
De New Orleans, cidade-berço de “Satchmo”, para Chicago, onde ele e outros jazzmen representativos do jazz de New Orleans se instalaram para melhor fazer passar a sua mensagem de afirmação, por enquanto sobretudo estética, mas também por motivos económicos, Armstrong lançou as raízes do jazz clássico. A emancipação chegaria mais tarde.
Depois de passagens pela Creole Jazz Band, de King Oliver e da “big band” de Fletcher Henderson, onde permaneceu durante 13 anos, Louis integrou, a partir de 1925, pequenas formações, as Hot Five e Hot Seven, que, num período de quatro anos, entre 1925 e 1929, gravaram para o selo Okeh uma série de sessões que entrariam para a história.
O presente pacote de reedições, remasterizadas e enriquecidas com um extenso rol de notas informativas, agrupa as sessões nos volumes 1 (Novembro de 1925 a Novembro de 1926), 2 (Novembro de 1926 a Dezembro de 1927) e 3 (Dezembro de 1927 a Dezembro de 1929) destas gravações, ficando, para já, de fora, um tomo-extra que abrange sessões que vão até Abril de 1930.
A seu lado “Satchmo” tinha duas lenas do jazz de New Orleans, o trombonista Edward “Kid” Ory (que já o contratara para tocar corneta, ainda antes de entrar para o grupo de King Oliver. Ory seria entretanto substituído por John Thomas) e o clarinetista Johnny Dodds.
Os Hot Five e Hot Seven trouxeram para o jazz o balanço do “swing”, lançando-o à cara da população branca, que aproveitou para dançar, imune por enquanto à carga ideológica que só mais tarde, com o advento do be-bop, outros músicos negros usariam como força motriz (os anos 30 seriam ainda os do “entertainment”, através do triunfo das “big bands”). “Satchmo” representava o humor e a alegria, o virtuosismo ao serviço de uma atitude onde o júbilo era uma constante, com “scat” vocal a pontuar fraseados na corneta, em que a criatividade e a arquitetura harmónica se conjugavam para afirmar a definitiva implantação do “blues” como alicerce sem o qual o jazz, daí para a frente, não poderia evoluir.
O som de “New Orleans” (o banjo de Johnny St. Cyr estava longe de se remeter a um papel secundário) revolvia-se ainda num otimismo “naїf”, mas temas como “You’re next”, com a introdução classizante do piano de Lil Hardin (mulher do trompetista), apontavam já para novos horizontes.
No volume 2, o som clarifica-se e a música ganha novos cambiantes. “Potato head blues” solta em definitivo “Satchmo” enquanto solista, através de uma “performance” onde o swing mostra como tudo se joga, não só no “drive”, como na sábia gestão dos intervalos. O “blues” impõe-se e “Satchmo” cultiva como ninguém o “vibrato” (“Wild man blues”, “Melancholy”), restituindo-lhe uma dignidade que os prazeres ingénuos do jazz de “New Orleans” não deixavam antever.
Earl Hines entra no último período, quando os arranjos prenunciam já a necessidade de uma formação instrumental mais vasta e a consequente formação da “big band”. Com Hines (cuja interação com o trompetista/cornetista alguns comparam a Bud Powell, na transposição para piano das revoluções de Charlie Parker), os Hot Five alargam o seu espaço de intervenção.
Quando Armstrong canta “Monday date” entra-se finalmente no território familiar daquele “wonderful world” que todos conhecem e a América transformou em espetáculo, pal mão do seu melhor embaixador. Com Louis Armstrong o jazz afirmou-se além-fronteiras e partiu à consquista do mundo.