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Os melhores álbuns de 1999

24.12.1999
Os melhores álbuns de 1999

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Pop Rock
1
Mr. Bungle
California
Warner Bros., distri. Warner Music
“California” dos Mr. Bungle é a bíblia maldita da pop do final deste mundo e do princípio de outro. E Mike Patton o profeta e porta-voz (e que voz!) do espectáculo total. “California” ouve-se – ou será melhor dizer sente-se? – como uma vertigem. Há neste álbum, como já havia, embora numa escala menos convulsiva, no anterior “Disco Volante”, uma vontade de abraçar o universo inteiro da pop, de espremer as suas potencialidades, de corromper e estimular as suas múltiplas linguagens. Que os Mr. Bungle tenham operado o milagre a bordo de um foguetão e, mesmo assim, conseguindo escalpelizar e reconverter cada detalhe da história da pop dos últimos 32 anos (começando por 1967…) é algo de espantoso e digno de colocar “California” na lista, não só na lista dos melhores discos deste ano, como nos melhores da década.
“California” não mistura nem cola nada, atenção, como fizeram no passado Zappa, John Zorn ou os Negativland, antes sintetiza uma multiplicidade de imaginários e escolas musicais. São várias histórias, assumidas e assimiladas por inteiro, aquelas que os Mr. Bungle ensinam com o descaramento de agitadores profissionais, o nonsense de sátiros iluminados e a precisão de geómetras.
Os fantasmas dos Beatles, Beach Boys, Kim Fowley, Residents, Bowie, Sparks, Queen, Gong, Frank Zappa, Zorn, Clint Ruin, Phil Spector, Lalo Schiffrin, Presley, Yello, Zombies, surf music, easy listening, cha cha cha, folk cigano, flamenco, doo-wop, música árabe, baile musette, jazz, electrónica, contemporânea, sucedem-se a nulam-se numa sequência estonteante em que cada nota, cada palavra, cada melodia e cada conceito convergem na arte maior que consiste em transformar o tempo na transcendência e as referências que a memória retém em algo de novo nunca antes imaginado. Claro que Patton e os seus sequazes observarão de longe, com um sorriso, o circo de monstros e fantasias que eles próprios criaram. Criada a obra, cabe-nos a nós colonizá-la.
“California” perturba e desatina como um poltergeist. Queima como um vulcão. Encanta como uma caixa-de-música. Diverte como uma feira. Aterroriza como um palhaço alienígena com cara de mau. Faz-nos sentir perdidos à procura de palavras que definam o indefinível. Em última análise, aprisiona-nos na vontade de ouvir uma e outra e outra vez até passarmos a fazer parte definitivamente de um mundo sem fronteiras onde, como num desenho animado (a obra-prima “Fantasia”, de Walt Disney, será o melhor exemplo…), tudo, mas rigorosamente tudo, pode acontecer.
Como escrevemos no nosso primeiro e deslumbrado contacto com este álbum, “California” é o fantasma-clown do “Smile” que Brian Wilson jamais se atreveu a sonhar e a ironia mais lúcida e deslumbrante desde que os Mothers of Invention afirmaram que “We’re only in it for the Money”. Não se sabe que droga é que os Mr. Bungle tomaram nem isso interessa, mas “California” vai com certeza crescer na próxima década como um cogumelo destinado a fazer alucinar as gerações futuras.

24.12.1999
1999 – Tops Individuais
1 – Mr. Bungle “California”
2 – Meira Asher – “Spears into Hooks”
3 – Mouse on Mats “Niun Niggung”
4 – To Rococo Rot “The Amateur View”
5 – Tone Rec “Coucy-Pack”
6 – Fridge “Eph”
7 – Olivia Tremor Control “Black Foliage, Animation Music, Vol. 1”
8 – XTC “Apple Venus, Vol. 1”
9 – Richard Thompson “Mock Tudor”
10 – Tom Waits “Mule Variations”
11 – Trans AM “Futureworld”
12 – Pansonic “A”
13 – Edward Ka-Spel “The Blue Room”
14 – Holosud “Fijnewas Afpompen”
15 – Labradford “E Luxo So”
Do “melting pot” efervescente dos Mr. Bungle ao silêncio apaziguador dos Labradford, passando pelo diabolismo de Meira Asher e a energia em bruto dos Pansonic, 1999 mergulhou nos abismos. Colorido pelo psicadelismo de Edward Ka-Spel ou a Pop animada dos Olivia Tremor Control. E ao lado da dança digital dos Mouse on Mars ainda há quem respire classicismo. Com o optimismo dos XTC ou o pessimismo de Richard Thompson, a Pop insiste em querer aprisionar a eternidade numa canção. Enquanto o rock continua a ser pós.

Opinar Do Leitor

12.03.1999
Opinar Do Leitor
O Sons não é uma capela fundamentalista. Convidamos os leitores a participarem e meterem também a sua colherada. Publicamos opiniões, argumentos, teorias e doutrinas com a música por cenário. Desde que tenham consistência, um mínimo de pertinência e não se resuma ao palavrão e ao insulto.

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Caro Fernando Magalhães
(…)
Escrevo-lhe como amante/coleccionador de música conotada com o krautrock dos anos 70 (entre outros tipos), para além de ser seu admirador enquanto crítico.
Assim, gostaria que me informasse, caso possível, como adquirir discos de bandas mais desconhecidas, como por exemplo Emtidi, Hoelderlin, ExMagma, Xhol, etc., que não consigo encontrar em Portugal.
Já possuo uma discografia razoável dos grupos mais conhecidos, como os Neu!, La Dusseldorf, Can, T. Dream, Klaus Schulze e os Ash Ra Temple. Mas não consigo encontrar nada dos menos conhecidos, pelo que me lembrei de solicitar a sua ajuda.
Já agora gostaria que me dissesse como adquirir literatura (enciclopédias, etc.) sobre o mesmo tema e atrevia-me a sugerir que escrevesse ou traduzisse um livro dentro da temática em causa, embora isso possa ser um bocado utópico face ao nosso mercado e panorama editorial. Sinto, no entanto, uma grande deficiência neste campo musical. (…) Termino com uma palavra de incentivo ao seu meritório e excelente trabalho de crítica e divulgação das sonoridades mais originais e menos comerciais que tem vindo a desenvolver.
Luis Filipe Alves Jerónimo, Amora
P.S.1 – Não se fique com a ideia que sou fanático apenas do krautrock-70’s. Aprecio também muito o pós-rock (os vários ramos – americano, inglês, alemão…), o progressivo (70’s outra vez), as novas estéticas “dance” menos dançantes, electro, art zoyd, etc.

A melhor maneira de encontrar e adquirir alguns dos discos que refere e, em geral, de toda a discografia “krautrock”, é através do contacto directo com as editoras especializadas em reedições desta corrente musical. As melhores (ou com mais discos em catálogo) são a Spalax francesa (10, Rue de Feuillantines, 75005, Paris, France), onde pode encontrar álbuns de três dos grupos que refere, Emtidi, Holderlin e Xhol, e a Repertoire alemã (Allerhorst 17, 22459 Hamburg, Germany e http://www.repertorie-records.com). Esta última tem apostado recentemente na reedição de alguns dos exemplares mais obscuros do rock alemão, que podem ser comprados directamente através da Milestone Mailorder, com a mesma morada.
Em termos de bibliografia geral sobre o tema, existem as enciclopédias “The Crack in the Cosmic Egg – Encyclopedia of Krautrock, Kosmische Musik & Other Progressive, Experimental & Electronica Musics from Germany”, de Steven e Alan Freeman (Ed. Audion Publications, contám bibliografias e discografias completas de praticamente todos os nomes – dos mais importantes aos absolutamente desconhecidos – do “krautrock”) e “Cosmic Dreams at Play – A Guide to Germa Progressive and Electronic Music”, de Dag Erik Asbjornsen (Ed. Borderline Productions, menos exaustiva). “Krautrocksampler: One Haed’s Guide to the Great Kosmische Musik – 1968 Onwards”, de Julian Cope (Ed. Head Heritage), reflectindo mais os gostos pessoais do autor, vale sobretudo pelo entretenimento que constitui a sua leitura, para além de acrescentar alguns dos factos mais insólitos e curiosidades históricas dos principais nomes (para Cope) do “krautrock”: Amon Düül II, Ash Ra Tempel, Can, Cluster/Harmonia, Cosmic Jokers, Faust, Guru Guru, Klaus Schulze, Kraftwerk, Neu/La Düsseldorf, Popol Vuh, Tangerine Dream e Whithüser & Westrupp). No suplemento POPROCK de 7 de Maio de 1997 pode ainda encontrar um dossier de três páginas sobre o assunto. Obrigado pelas palavras de encorajamento.
Fernando Magalhães

Balanço 1999 – Música Portuguesa: E Depois De Amália?

24.12.1999
World
Balanço 1999
Música Portuguesa
E Depois De Amália?
Morreu Amália, o fado ganhou novos rostos e novas vozes. Dulce Pontes, Mafalda Arnauth, Sofia Varela e Cristina Branco fizeram nascer ramos diferentes a partir da raiz comum. Na folk, o compasso de espera foi interrompido por um grupo de veteranos que recuperou de forma brilhante romances tradicionais.

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No ano da morte de Amália o fado acabou por estar no centro das atenções no capítulo das músicas ligadas à tradição. Mesmo antes do desaparecimento da maior voz de sempre do fado, na ânsia de se descobrir uma sucessora, lançaram-se “slogans” e catalogações despropositadas que, por muito lisonjeiras que sejam, acabam sempre por se tornar limitativas, quando não inibidoras dos artistas visados. Do grupo das nomeadas “herdeiras” ou “sucessoras” de Amália destacaram-se Dulce Pontes e Mafalda Arnauth. Ambas senhoras de grandes vozes, apostaram em caminho divergentes. A primeira, já com um percurso assinalável na música popular portuguesa, enveredou no seu último trabalho, “O Primeiro Canto”, pela via da world music, rodeando-se de estrelas internacionais e experimentando vocalmente registos que parecem estar-lhe destinados desde o início e onde o fado parece, cada vez mais, fixar-se unicamente como referencial de uma autenticidade que permanece umbilicalmente ligado à cantora. Já Mafalda Arnauth – cuja espiritualidade e modo como interioriza o fado a aproximam verdadeiramente do que de mais profundo habitava em Amália – baralhou por completo as expectativas, assinando um álbum de estreia preenchido na íntegra com originais da sua autoria, quando se esperaria, porventura, a menor dose de risco que implicaria um disco de versões. Na sala de espera, perfilam-se outras jovens vozes femininas das quais o fado poderá esperar num futuro próximo feitos de vulto, com Sofia Varela e Cristina Branco (estria com “Murmúrios”) na dianteira. Já Maria Ana Bobone, trazida para o fado pelo braço de João Braga, distancia-se gradualmente deste género de música, à medida que se vão sucedendo as incursões discográficas (este ano, “Senhora da Lapa”, para uma editora estrangeira) numa espécie de música de câmara, sem dúvida de ressonâncias fadistas, mas definitivamente voltada para um ambientalismo de rosto new age. Mísia manteve-se à distância com a pós-modernidade das suas “Paixões Diagonais”.
Da área da folk esperar-se-ia mais quantidade editorial. Escassearam os trabalhos de fôlego. E, se o campo da fusão esteve bem servido – por mais polémicos que tivessem sido os resultados – pelos novos álbuns dos Sétima Legião (“Sexto Sentido”) e João Aguardela, com o segundo volume do seu projecto Megafone, os mesmos não fizeram esquecer a ausência da continuação das obras encetadas pelos Vai de Roda, Realejo e Gaiteiros de Lisboa. Descontando as semidesilusões de João Afonso, com o “Barco Voador”, e dos Quadrilha, com “Quarto Crescente”, acabou por ser a “velha guarda” constituída por Amélia Muge (também activa no grupo galego Camerata Meiga), Brigada Victor Jara (autores do prodígio que foi terem revelado Lena D’Agua como cantora folk promissora), Sérgio Godinho e os já mencionados Gaiteiros de Lisboa e João Afonso a salvar a honra do convento, com o excelente naipe de versões originais de romances tradicionais contido em “Novas Vos Trago”. Acontecimento à margem de todas as pressões do final de século foi a reedição em caixa de cinco CD da mítica “Música Regional Portuguesa”, recolhida e compilada por Michel Giacometti e Fernando Lopes Graça.