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Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #7 – “Muito Grave!”

#7 – “Muito Grave!”

Fernando Magalhães
11.09.2001 180629
Para além da tragédia factual de tudo o que está a acontecer nos EUA, o meu receio prende-se com algumas das possíveis consequências deste(s) atentados que classifico como verdadeiramente apocalípticos.

A pior de todas elas será se Israel decidir pôr em prática aquilo que há muito anunciam: “Podemos acabar com o terrorismo internacional em cinco dias!”. Implica tal operação ataques generalizados a todo o mundo árabe. Destruição maciça.

Mas se este cenário já é aterrador, pior se tornará com as hipotéticas (?) retaliações da Rússia, se tal acontecer.

Aí sim, não é de prever nada de bom…

Rezemos para que o ser humano, sobretudo aqueles que detém o poder, tenham ainda um resto de inteligência e, sobretudo, ainda, um coração, que impeça o Fim. Que será, não tenho dúvidas, da Humanidade tal como a conhecemos.

Do que não restam dúvidas é que, sejam quais forem as consequências a curto prazo do que está a acontecer, nada será igual daqui para a frente na história do mundo.

É difícil, nesta altura, interiorizar isto, tal a dimensão do que está a acontecer.

saudações de desilusão e tristeza mas também de alguma esperança que alguém possa ACORDAR, com tudo isto

Fernando Magalhães

Beautiful People – “If 60’s Were 90’s”

pop rock >> quarta-feira >> 19.05.1993


Beautiful People
If 60’s Were 90’s
CD Castle, distri. Megamúsica



Esqueça-se a capa, o título, o nome da banda e o “lettering” (deliberadamente?) pirosos. Com “If 60’s were 90’s”, os Beautiful People fizeram o novo disco de Jimi Hendrix. Confusos? É caso para tal. A ideia desta banda desconhecida nem sequer é muito original, mas resultou. Para os Beautiful People, o final dos anos 80, o “acid houde”, as festas e as roupas coloridas não passaram de uma réplica dos anos 60 e do psicadelismo. E Jimi Hendrix é o seu ídolo. Ocorreu-lhes então samplar a guitarra e as vozes do mestre, dos temas mais conhecidos e algums raridades, acrescentar-lhes uma batida electrónica, mais um baixo e umas guitarras, e arranjar títulos novos para as canções. Que acabam por soar de facto a novas canções do guitarrista negro, imaginando que este as faria assim se fosse vivo nos anos 90. Um gráfico assinala as “pilhagens” efectuadas caso a caso, entre as quais se contam a gravação de uma festa, com Frank Zappa metido no meio dos convidados, a cantar “Lucy in the sky with diamonds”, e apresentações de concertos ao vivo, num jogo de espelhos que, não sem alguma surpresa, funciona em termos de coerência e ainda por cima tem piada. O próprio Hendrix escrevera, premonitoriamente, um tema intitulado “If 6 was 9”. Os Beautiful People limitaram-se a agarrar a “deixa”. (6)

John Surman – “Free And Equal” + John Taylor, Marc Johnson, Joey Baron – “Rosslyn” + Tord Gustavsen Trio – “Changing Places” + Christian Wallumred Ensemble – “Sofienberg Variations”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 21 Junho 2003

A liberdade e a igualdade entre os homens, segundo John Surman, estendem-se ao jazz que se faz hoje na Europa. Da Inglaterra à Escandinávia, mudam-se os sons e troca-se de lugares.


O inglês romântico

JOHN SURMAN
Free and Equal
8 | 10

JOHN TAYLOR, MARC JOHNSON, JOEY BARON
Rosslyn
8 | 10

TORD GUSTAVSEN TRIO
Changing Places
7 | 10

CHRISTIAN WALLUMRED ENSEMBLE
Sofienberg Variations
7 | 10

Todos ECM, distri. Dargil



Começou por ser um dos avatares do novo jazz inglês dos anos 60/70, como elemento dos revolucionáros Trio e, a solo, assinando clássicos como “How Many Clouds Can you See?”, “Tales of the Algonquin” e “Westering Home” (fusão pioneira com ambiências célticas). A entrada para a ECM assinalou o início de um percurso que fazia a síntese entre a escola minimalista, a eletrónica e o jazz ambiental, numa série extensa de obras entre as quais se incluem “Upon Reflection”, “The Amazing Adventures of Simon Simon”, “Such Winters of Memory”, “Witholding Pattern”, “Private City” e “Road to St. Ives”.
Coincidindo com o abandono do sintetizador, instrumento que de início funcionou como principal elemento estruturador das sequências repetitivas mas que, progressivamente, se veio a revelar limitador de um discurso mais amplo, Surman encetou um percurso de regresso a um jazz, se não mais standardizado, pelo menos adequado a formatos instrumentais mais clássicos, fase de que é exemplar o álbum “Adventure Playground”, já dos anos 90.
Através da criação do coletivo The Brass Project (com John Warren) assiste-se a uma consequente ênfase numa escrita mais vasta, para big band, de que “Proverbs and Songs” e “Coruscating” tinham constituído já magnífica amostra. O novo “Free and Equal”, inspirado na Declaração dos Direitos Humanos, decretada pelas Nações Unidas em 1948, e gravado ao vivo no Queen Elizabeth Hall, em Londres, no concerto de abertura do Festival de Meltdown (de que Robert Wyatt foi o programador), reúne Surman (nos habituais saxofones soprano e barítono e clarinete baixo), Jack DeJohnette (bateria e piano) e a orquestra de metais London Brass, reatando-se deste modo uma colaboração entre estes dois músicos que remontava, no contexto da música de câmara, a um trabalho conjunto com os Balanescu Quartet.
“Free and Equal” alterna sequências instrumentais majestosas – por vezes timbricamente próximas das conceções de Carla Bley e Michael Mantler (“Groundwork”, “Sea change”), também de Michael Gibbs, ou completamente imbuídas do espírito do barroco e do pré-barroco (sendo que o reportório da London Brass tem em Gabrielli um dos seus compositores emblemáticos), como “Back and Forth”, onde também afloram as frases melódicas e o romantismo característicos de Surman, bem como o espírito de um Michael Nyman, em qualquer caso em sintonia com uma inequívoca “britishness” – e secções improvisadas. O equilíbrio ou, parafraseando o título, a liberdade e igualdade de direitos, entre ambas as vertentes é perfeito. Da escrita e texturas de banda larga com os diálogos mais soltos entre os dois solistas. Entre Surman, o melodista inesgotável (“Debased line” não é uma linha, é uma estrela), e DeJohnette, o “cantor” de ritmos. Notável.
Recolhamo-nos agora ao mais clássico dos clássicos formatos do jazz, o trio piano/contrabaixo/bateria, com John Taylor (piano), Marc Johnson (contrabaixo, o homem dos Bass Desires), Joey Baron (bateria, Mr. Downtown), em “Rosslyn”. Companheiro de Surman nos anos de descoberta e aventura da “free music” inglesa, no fantástico “Pause, and Think again”, fundador dos Azimuth, Taylor possui a introspeção de Paul Bley, a intuição melódica de Jarrett e uma parte da alma moldada por Bill Evans. “Rosslyn” oferece, em conformidade, o tom contemplativo e a nostalgia mas também a firmeza. E o impressionismo em desenho “new age” (não é um disco da Windham Hill mas quase parece…), no dulcíssimo título-tema.
Periodicamente o jazz escandinavo marca presença na ECM, desta feita ainda sob a égide do trio piano/contrabaixo/bateria, respetivamente às ordens de Tord Gustavsen, Harald Johnsen e Jarle Vespestad. “Changing Places” reforça a tecla Bill Evans de “Rosslyn”. São jardins e salões abandonados no fim das férias de Verão. Lembranças gravadas na areia que a maré apaga. O tempo e paixões esvaídas no eco de palavras imprecisas. Fica-se em silêncio, a escutar “Changing Places”, em lugares que geralmente associamos a canções.
Outra das marcas inconfundíveis da editora de Manfred Eicher, evidenciada sobretudo ao longo da última década, é uma abordagem classizante, mais ou menos regada por elementos étnicos, estética que, vinda destas latitudes, teve em Jan Garbarek e Edward Vesala os precursores. As “Sofienberg Variations” do Christian Wallumred Ensemble – Christian Wallumred (piano e “harmonium”), Nils Økland (violino, “hardanger fiddle”), Arve Henriksen (trompete) e Per Oddvar Johansen (bateria), com o convidado Trygve Seim (saxofone tenor) – representam a variante mais académica e sisuda do género, sem a luminosidade de um Terje Rypdal nem o humor de um Vesala, o que pode significar algum aborrecimento. Formalmente interessantes, falta fulgor a estas sarabandas, “small pictures” e uma “liturgia” com algo de messiaenico… Está certo que deve haver respeito quando se reza e estas “Sofienberg Variations” até conseguem fazer-nos ajoelhar quando o seu ofício verdadeiramente se aproxima do arrepio do Sagrado, como em “Psalm”, algures já no território sacro de uns Hilliard Ensemble. Mas manter a concentração e a elevação não significa esquecer o deslumbramento, o espanto e o riso que o contacto com transcendência também provoca. Aspeto em que estas variações variam pouco.