Deep Forest – “Deep Forest Lançam ‘Boheme’ Com A Voz De Márta Sebestyen – ‘É Estúpido Pensar Que Se Pode Preservar Uma Cultura Bloqueando-a'” (entrevista)

pop rock >> quarta-feira >> 31.05.1995


Deep Forest Lançam “Boheme” Com A Voz De Márta Sebestyen
“É Estúpido Pensar Que Se Pode Preservar Uma Cultura Bloqueando-a”



Com “Boheme”, o duo francês Deep Forest volta a apostar numa fórmula que está a render dividendos: vozes étnicas “vestidas” e arranjadas por computador. Michel Sanchez e Eric Mouquet traziam a Índia na mochila quando descobriram a voz da cantora húngara Márta Sebestyen. Eric Mouquet, em entrevista ao PÚBLICO, explicou, entre outas coisas, que a estreia ao vivo do grupo terá cantores reais ao lado de cantores virtuais.
PÚBLICO – Como é que descobriram a música dos Balcãs e, em particular, de Márta Sebestyen?
ERIC MOUQUET – A ideia inicial para este segundo disco era usarmos vozes da Índia. Aconteceu que entretanto descobrimos a voz de Márta Sebestyen numa colectânea de música da Transilvânia. Uma das músicas que ela canta neste disco [“Istenem, istenem”] tornar-se-ia “Marta’s song”. A sensação foi incrível, semelhante à que tivemos quando ouvimos pelaprimeira vez “Sweet Lullaby”, algo que nos deu arrepios. Decidimos então partir para escutar um pouco melhor as músicas do Leste. Estive há alguns anos na Checoslováquia e Michel já tinha trabalhado num barco que fazia a travessia do Mediterrâneo, com passagem pela Jugoslávia. Mas foi Márta que nos fez optar por fazer um disco onde a maior parte das vozes vem do Leste.
P. – No caso de Márta, no tema “Bulgarian melody”, foi a primeira vez que trabalharam com uma voz em tempo real?
R. – No início dos Deep Forest, em 1991, não tínhamos possibilidade de fazer nós próprios as gravações. Não tínhamos viajado o suficiente para recolher música para um álbum completo. Fomos buscar o material de que necessitávamos às gravações dos musicólogos, capazes de andar em viagem uns trinta anos, em exploração, reunindo documentos sonoros excepcionais. Se fizéssemos o mesmo, isso significaria que teríamos igualmente de andar pelo menos cinco ou seis anos em viagem através do mundo. Com o segundo álbum começámos a viajar. Fomos ao Candá gravar vozes “innui” e à Austrália recolher sons dos aborígenes. Também temos alguns sons da América do Sul ainda por utilizar.
P. – Hoje toda a gente fala de world music, é quase uma moda…
R. – Não estou certo de que se trate apenas de uma moda, embora seja muito utilizada pela música “avant gard” ou pela música para publicidade. Mas além disso creio que há uma necessidade real do público e dos músicos de tentar escutar e tocar coisas diferentes. O que é extraordinário é que não são só os europeus que estão a recuperar os cânticos tradicionais e a fazer música com eles, mas também os músicos tradicionais que sentem o desejo de fazer música com instrumentos e culturas diferentes. Não há um sentido único.
P. – No caso dos Deep Forest não será um pouco a exploração de uma fórmula, mais do que uma estética?
R. – Neste disco procurámos uma evolução. O primeiro disco era muito rítmico, com cânticos africanos utilizados como sequenciadores de ritmo. O segundo álbum é mais uma construção de melodias, de canções. Os ambientes e os instrumentos são bastante diferentes. Usámos acordeão, piano “cymbalon”…
P. – Mas um dos objectivos do grupo continua a ser fazer música de dança?
R. – Não forçosamente. Se quiséssemos fazer música de dança, faríamos de outra maneira. O problema que os DJ das discotecas têm com a nossa música é ser demasiado lenta. Para poderem passar os Deep Forest têm de fazer remisturas em tempos mais acelerados. Mas no disco não pretendemos fazer música de dança, house ou ambiental… Há quem mencione influências da jungle music oriunda de Inglaterra, feita em 140 b. p. m. [batidas por minuto], por termos uma canção no disco com a mesma batida. As vozes decerto perderiam a sua emoção se fossem forçadas ou encaixadas a martelo num estilo determinado.
P. – Não existe o perigo de essas mesmas vozes se vulgarizarem?
R. – É uma música que não passa muito na rádio mas vende bastantes discos, porque o público gosta. Os programadores dizem que não tem um formato para a rádio. O perigo da normalização vem de outro lado, do rock, por exemplo.
P. – Há algum tipo de mensagem política na vossa música, uma vez que ela junta e altera sons de culturas e sistemas sociais diversos?
R. – É verdade que a mensagem política, mesmo sem querer fazer política, está implícita, quando se vive numa sociedade como a nossa. O que aconteceu recentemente em França, nas últimas eleições, com a subida da Frente Nacional, dos sentimenso nacionalistas e fascistas – de resto, à semelhança do que se passa um pouco por toda a Europa -, é exactamente o contrário do que tentamos fazer. Ouvimos Le Pen dizer: “A França para os franceses” e “A África para os africanos” ou “Portugal para os portugueses”, mas a realidade actual não é essa. A realidade é que tudo se mistura. A História de França é uma sucessão de invasões, guerras, tudo o que lhe conferiu a sua identidade e a sua riqueza. É estúpido pensar que se pode preservar uma cultura bloqueando-a, fechando-a ao exterior. Através da nossa música, procuramos demonstrar que não existem fronteiras, utilizando ingredientes do mundo inteiro.
P. – Apesar dessas misturas, não acha um pouco bizarro “Marta’s song” ter sido incluída na banda sonora de um filme como “Prêt à Porter”?
R. – Quando soubemos que Robert Altman procurava uma música dos Deep Forest para o seu filme – o que nos lisonjeou bastante, porque é um excelente realizador -, marcámos um encontro em Nova Iorque para lhe mostrar uma maqueta com o som do novo álbum. Mal ouviu “Marta’s song” exclamou que era aquela mesmo que queria. Dissemos-lhe que era um pouco delicado, até porque iria ser o novo single, mas ele insistiu tanto que não pudemos recusar.
P. – Pode adiantar pormenores sobre a estreia ao vivo do grupo?
R. – Optámos por trabalhar com dois criadores de Montreal que adoptaram um sistema que permite usar imagens virtuais em palco, criar personagens virtuais, com hologramas. Esses hologramas serão activados pela música nos teclados, o que significa poder improvisar ao mesmo tempo com os sons e com as imagens. Numa primeira fase, como a tecnologia é muitíssimo cara, faremos um espectáculo de apenas 20 minutos, onde iremos misturar cantores reais, Márta Sebestyen, por exemplo, com cantores virtuais. O “show” será filmado em cassete vídeo e passado para a Internet, o que permitirá a qualquer pessoa ligada à rede assistir em casa. Estamos à espera de algum patrocinador interessado em financiar um espectáculo maior, de duas horas.

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