Arquivo mensal: Março 2019

Don Cherry – “‘Mu’ First Part” + Sonny Sharrock – “Monkey-Pockie-Boo” + Frank Lowe – “Black Beings” + Henry Grimes Trio – “The Call”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 12 Julho 2003

O “free” foi grito, libertação, revolta. Mas também descoberta, encontro e ousadia. Civilizações antigas, criaturas negras e invocações povoam a obra de Cherry, Sharrock, Lowe e Grimes, agora em quatro reedições.

A civilização dos anti-civilizados

Don Cherry
“Mu” First Part
Sunspots
7 | 10

Sonny Sharrock
Monkey-Pockie-Boo
Sunspots
7 | 10

Frank Lowe
Black Beings
ESP
7 | 10

Henry Grimes Trio
The Call
ESP
8 | 10
Todos distri. Trem Azul



“’Mu’ First Part” inaugurou, em 1969, o catálogo da editora francesa Byg, preferencialmente voltada para o “free jazz”, série que continua a ser objeto de sucessivas reedições remasterizadas e em formato de miniaturas em cartão, agora sob a designação Sunspots. É seu autor o trompetista e multi-instrumentista Don Cherry, falecido em 1995, ex-colaborador de Ornette Coleman e viajante infatigável dos locais e folclores planetários.
Em “’Mu’ First Part” – dueto com o baterista Ed Blackwell, associação que prosseguiria em álbuns como “El Corazon” ou no coletivo Old and New Dreams – a música segue todo um programa de intenções e associações simbólicas explicitadas em forma de expressões como “The silent life”, “Vibrations”, “Harmony”, “Abstract sound” ou, ainda mais representativos do espírito da época, que Cherry assimilou como ninguém, “Love” e “Wisdom”. Títulos como “Total vibration”, “Sun of the East” ou “Terrestrial beings” sugerem ligações, não descabidas, ao “outer space” de Sun Ra, com a diferença de que enquanto o “teclista de Saturno” viajava pelos confins da galáxia, Cherry mergulha a sua música nas raízes africanas, nos rituais mágicos da terra (não por acaso, aparece como símbolo gráfico, não um astro, mas uma árvore) e numa visão panteísta do jazz. Ed Blackwell alterna um discurso mais livre com repetitivismos, fragmentos de batuque e guizos de “griot”, enquanto o trompetista introduz no formulário “free” acentos de flauta étnica, podendo o trompete divagar por notas mais “espanholadas” sem cair na redundância. Álbum representativo de um tempo de descobertas e recusas mas também de convergências, entre o jazz e a música do mundo, real ou mitológico, como a antiga civilização de Mu.
Ainda na Sunspots, ressurge um disco há longo tempo ausente do mercado, “Monkey – Pockie – Boo” (1970), do guitarrista Sonny Sharrock, com Linda Sharrock (voz), Beb Guérin (baixo) e Jacques Thollot (bateria). Sonoridades marcada por “drones” e saturações tímbricas levadas ao limite, gritos e lamentos de verdadeiro “gestalt” vocal (especialidade na qual a mulher do guitarrista se mostra particularmente convincente, compondo uma versão “naif” de Diamanda Galas) impressionam quer pela crueza quer pela violência, podendo os 17 minutos de “27th day” ser experiência difícil de ultrapassar. O massacre prossegue em “Soon” para se resolver no título-tema sob a forma de cântico ritual. Tudo se organizaria anos mais tarde em “Guitar”, onde os “blues”, apesar da capa de “noise” envolvente, mostrariam estar afinal presentes na guitarra de Sharrock. Da sua mulher, Linda, desconhece-se se terá ou não recebido assistência médica após tão inflamado desempenho.
Em nome de John Coltrane, “In Trane’s name”, é como o saxofonista tenor Frank Lowe dá início a mais um périplo de “screaming” pelas regiões, não tão isentas de margens como isso, do “free”, aqui com data de 1973 e o título “Black Beings”. Como Coltrane, este embora no sentido da ascese, Lowe é um saxofonista do paroxismo, da exploração intensiva dos registos extremos do instrumento e da emoção. Pode apontar-se a esta música em que cada nota pega fogo, a ignorância do pequeno detalhe que se revela no silêncio ou da “nuance” interior. Frank Lowe é o animal que literalmente ruge no tenor, karateka do jazz com liberdade de tomar a forma da criatura que melhor se adequa ao seu gesto. Joseph Jarman, dos Art Ensemble of Chicago (nos saxofones alto e soprano), William Parker (contrabaixo), Rashid Sinan (bateria) e “The Wizard” (violino) são os outros participantes desta obra emblemática de uma atitude bem expressa na dedicatória “aos músicos que tocam e oferecem toda sua fé e poder”.
Henry Grimes põe toda a sua fé e poder na forma como toca contrabaixo em “The Call”, em trio com Perry Robinson (clarinete) e Tom Price (bateria). “Você nunca ouviu sons como estes na sua vida”, arrisca o “slogan” da capa desta edição de 1965 e a verdade é que, neste caso, o “free” não se esgota no disparo na horizontal mas numa verticalidade e exploração de alto risco pelos meandros da escuta interior que dispensam conotações com “estilo” ou “género”. “A chamada” faz-se aos demónios e anjos primordiais, de acordo com uma dinâmica de pesquisa que recusa fórmulas e sinalizações estáticas. E se Grimes tem a segurança de quem escora a escavação é Robinson quem extrai da rocha os minerais mais valiosos. Há obstáculos a vencer para quem os queira acompanhar na invocação. E o perigo de queda no abismo.

Peter Brötzmann – “Live At Nefertiti” + Peter Brötzmann – “Aoyama Crows” + Anthony Braxton – “This Time…” + Anthony Braxton – “Four Compositions (GTM) 2000”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 5 Julho 2003

Peter Brötzmann lança chamas. Anthony Braxton usa régua e compasso. Qualquer deles representa o lado mais incandescente da “free music” atual.


Quando eles tocam as pessoas ouvem

Peter Brötzmann
Live at Nefertiti
Ayler, distri. Multidisc
8 | 10

Peter Brötzmann
Aoyama Crows
FMP, distri. Multidisc
9 | 10

Anthony Braxton
This Time…
Sunspots, distri. Trem Azul
8 | 10

Anthony Braxton
Four Compositions (GTM) 2000
Delmark, distri. Multidisc
8 | 10



Imagine o leitor/auditor que o sentam confortavelmente numa poltrona instalada na penumbra de um túnel, para ouvir jazz, com um cachimbo ao lado pronto para umas baforadas e umas pantufas fofas para calçar. De súbito sente uma ventania varrer-lhe o corpo e o espírito, cai da poltrona e verifica que o túnel é, afinal, o interior de uma turbina. O vendaval é de som e provém de um saxofone. No redemoinho de ar ainda apanha com uma aresta de cartão na testa (o contacto com o jazz pode ser doloroso). Apenas tem tempo de agarrar na capa do digipak e de ler um nome: Peter Brötzmann. Assim avisado, sorri e compreende. Amarra a poltrona ao chão, senta-se de novo e absorve com prazer a torrente sonora que brota do tenor deste músico alemão que levou a linguagem do “free” ao paroxismo da respiração e do fogo.
Com mais calma lê o título: “Live at Nefertiti”. Foi gravado no clube sueco com este nome, em 1999, em improvisação total com o baixo elétrico do dinamarquês Peter Friis Nielsen e a bateria do sueco Peeter Uuskyla (ex-sideman de Cecil Taylor), ambos pertencentes ao grupo Biigi Vinkeloe Trio, repetindo a formação de “Noise of Wings”. O jorro do saxofone, do clarinete e do taragato é imparável, o timbre do tenor emana centelhas de Albert Ayler (“Nidhog 4” é absolutamente ayleriano) e, a suportar a onda, o baixo do dinamarquês revela-se surpreendentemente fluido e macio, a par de uma bateria em constante trabalho solista. Assim, leitor, não oponha resistência, deleite-se na corrente, soletre as notas e entre em sintonia com o fôlego de modo a sentir a adrenalina de conduzir um Fórmula 1.
“Ayoama Crows”, com os Die Like Dog Quartet – William Parker (contrabaixo), Toshinori Kondo (trompete, eletrónica) e Hamid Drake (bateria) – em bora igualmente abrasivo da parte do autor de “Machine Gun”, revela porém uma abordagem diferente do coletivo, com o trompetista japonês a entrar em diálogos contrapontísticos de alta velocidade e Parker e Drake a dominarem e a dividirem o tempo com outra complexidade. Kondo confere mesmo ao som do “ensemble”, registado ao vivo também em 1999, no “Total Music Meeting” de Berlim, as tonalidades “funk” que lhe são características, evocando por vezes uma outra banda de Brötzmann, os Last Exit. A evocação de Albert Ayler encontra-se uma vez mais patente neste trabalho de extensas composições, verdadeiro mural de jazz cubista representativo do melhor que a “free music” atual tem para oferecer.
Anthony Braxton oferece outro tipo de violência. A do desconhecido. Em mais um pacote de miniaturas da Sunspots, o saxofonista ressurge numa gravação de 1970, “This Time…”, com Leo Smith (trompete, sirenes, buzinas, etc), Leroy Jenkins (violino, viola, flauta, órgão, etc) – os três tocam juntos, mais a eletrónica de Richard Teitelbaum, no fabuloso “Silence/Time Zones” – e Steve McCall (bateria, darbouka, percussões). Braxton toca a habitual parafernália de sopros mas também uma “sound machine” e sinos. Entre a música concreta e o ritual xamânico dos Art Ensemble of Chicago (tudo o que emite som provoca música), “Composition nº1” é uma demonstração do “free” na sua vertente mais multidirecional, criando uma infinidade de espaços e arquiteturas, etnografias urbanas desenhadas com tubos, fios, ferragens, ventoinhas, cornetas, martelo e pregos, agulhas e tintas de todas as cores, umas vezes bem, outras mal misturadas. Já as “Small Compositions”, numeradas de 1 a 5, mostram o lado mais conceptual, “extático” e “geométrico” do músico de Chicago.
Um salto de 33 anos leva-nos até “Four Compositions (GTM) 2000”, números 242 a 245, versão em quarteto do original de 1969, “For Alto”, para saxofone alto solo, com Kevin Uehlinger (piano, melódica), Keith Witty (baixo com arco) e Noam Scahtaz (percussão), enquanto Braxton se socorre da gama de saxofones que vai do soprano ao contrabaixo. Fria, em comparação com “This Time…” ou com a combustão de Peter Brötzmann, esta “Ghost Trance Music”, como o compositor lhe chama, está próxima de algum jazz de câmara representado pela editora Recommended, indo facilmente ao encontro do gosto dos que apreciam bandas como os Henry Cow (de “Western Culture”), Univers Zero ou Motor Totemist Guild. Em qualquer caso confirmando, como dizia o outro, que “quando Anthony Braxton toca, as pessoas ouvem”.