Dave Burrell – “Echo” + Sunny Murray – “Sunshine” + Steve Lacy – “Moon” + Anthony Braxton – “Volume 15”

(público >> mil-folhas >> jazz >> crítica de discos)
sábado, 22 Fevereiro 2003


Dave Burrell
Echo
7 | 10

Sunny Murray
Sunshine
8 | 10

Steve Lacy
Moon
8 | 10

Anthony Braxton
Volume 15
8 | 10

Todos Sunspots, distri. Trem Azul

Queimaduras solares


Experiência-limite deste teclista cuja aprendizagem decorreu entre o conservatório e os guetos do Harlem, “Echo” reúne um septeto com Clifford Thornton (cornet), Grachan Moncur III (trombone), Arthur Jones (sax alto), Archie Shepp (sax tenor), Alan Silva (contrabaixo) e Sunny Murray (bateria). Dois únicos temas. “Echo” é a exploração obsessiva de duas notas, manipuladas e massacradas até que delas resulte, segundo Burrell, um estado de apaziguamento e autodescoberta. “Peace” usa materiais e escalas de vários folclores planetários explanados segundo a politonalidade, “como trampolim para a serenidade”. Há algo de infantil e primordial na forma como Burrell percorre as escalas do piano, qual aluno em exercícios de aprendizagem. Pura ilusão. É de uma desaprendizagem que se trata. Para Burrell, como para Cecil Taylor, o piano é um “inimigo” que é preciso vencer. Se o prémio é ou não a paz, é já outra questão.
Sunny Murray é o baterista arquetípico do “free jazz”. Companheiro de sessões de Cecil Taylor e Albert Ayler, tem a seu lado em “Sunshine” Lester Bowie (trompete), Arthur Jones e Roscoe Mitchell (sax alto), Kenneth Terroade (sax tenor), Dave Burrell (piano) e Malachi Favors (contrabaixo), mais Archie Shepp (sax tenor) e Alan Silva (contrabaixo) como convidados. Murray trabalha a dinâmica e os contrastes do elemento percussivo, alternando estados de transe (alguns dirão alienação) com acessos de fúria. Em “Real”, vagas de címbalos criam o efeito de uma “drone” selvagem que serve ao saxofone do jamaicano Terroade para esvaziar toda a sua energia num interminável delírio, à boa maneira do “free”, em particular de Albert Ayler. Aliança do sol e do solo.
Lua. Loucura. Ainda aqui, porém, convém ter cuidado com as aparências. Steve Lacy, um dos grandes nomes da história do jazz, “free” e adiante, é adepto da disciplina e da ciência. No seu caso faz menos sentido falar de “delírio” do que do desmantelamento sistemático dos dogmas do “bop” ou mesmo do período anterior correspondente ao jazz de New Orleans (escute-se, a propósito, a introdução de “Hit” e os esqueletos internos de “Note” e, sobretudo de “Laugh”, recordando — pelo absurdo, bem entendido, mas a tónica está lá — como o seu sax soprano deriva em linha direta do de Sidney Bechet). “The Breath” indica uma das direções que a música de Lacy seguiria nos anos 70, salientando formas de improvisação menos disponíveis para a estética do grito. Curiosas as semelhanças — neste álbum em que Lacy se rodeia de um naipe de músicos italianos e do baterista francês Jacques Tholo — das interjeições vocais que pautam alguns momentos de “Moon” com as canções-“slogan” dos Cassiber.
Além do matemático Lacy, há Braxton, o geómetra. O verdadeiro “título” deste álbum é um gráfico, ou função, visualização platónica (pitagórica) da música que dispensa a verbalização, salvaguardando assim possíveis atitudes de escuta menos atentas ao essencial: o som, enquanto “ratio” vibracional. Ênfase na matéria e na proporção que em “Volume 15” encontra correspondência na profusão de timbres e modificações modais. Além de Braxton (nos saxofones alto e soprano, clarinete, clarinete contrabaixo, flauta, “sound machine”, carrilhão, etc.), participam Leo Smith (trompete, fliscórnio, trompas, sirene, etc.), Leroy Jenkins (violino, viola, flauta, harmónica, órgão, etc.) e Steve McCall (bateria, darbouka, percussões). “Volume 15” aproxima-se ora da música concreta contemporânea ora de um registo falsamente etno e ingénuo (“Simple like”, de Leroy Jenkins) que para certos ouvidos poderá soar… psicadélico. O título-tema, único com a assinatura de Braxton, sintetiza ambas as vertentes, juntando abstracionismo e ritual, ruído e rigor, lascívia tímbrica (quase magnetismo animal, o violino de Jenkins) e, em última análise, uma consciência aguda da importância do coletivo enquanto aglutinador de pulsões contraditórias.



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