{"id":9678,"date":"2022-05-13T04:36:32","date_gmt":"2022-05-13T11:36:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=9678"},"modified":"2022-05-13T04:36:32","modified_gmt":"2022-05-13T11:36:32","slug":"rolling-stones-os-rolling-stones-tocaram-em-alvalade-para-cerca-de-60-mil-pessoas-o-imperio-da-ilusao-concertos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2022\/05\/13\/rolling-stones-os-rolling-stones-tocaram-em-alvalade-para-cerca-de-60-mil-pessoas-o-imperio-da-ilusao-concertos\/","title":{"rendered":"Rolling Stones &#8211; &#8220;Os Rolling Stones Tocaram Em Alvalade Para Cerca De 60 Mil Pessoas &#8211; O Imp\u00e9rio Da Ilus\u00e3o&#8221; (concertos)"},"content":{"rendered":"<p>P\u00daBLICO TER\u00c7A-FEIRA, 12 JUNHO 1990 >> Cultura<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>Os Rolling Stones tocaram em Alvalade para cerca de 60 mil pessoas<\/p>\n<p>O imp\u00e9rio da ilus\u00e3o<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n<strong>Os Rolling Stones tocaram em Alvalade para cerca de 60.000 pessoas, cada uma vivendo \u00e0 sua maneira a recria\u00e7\u00e3o fantasm\u00e1tica do mito que j\u00e1 foi outrora banda em carne e osso. Tudo se tornou sup\u00e9rfluo menos o poder finalmente dizer: \u201cEu vi os Rolling Stones.\u201d<\/strong><\/p>\n<p><center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/RollingStones1-300x226.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"226\" class=\"alignnone size-medium wp-image-9679\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/RollingStones1-300x226.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/RollingStones1-100x75.jpg 100w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/RollingStones1.jpg 590w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/RollingStones2-300x236.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"236\" class=\"alignnone size-medium wp-image-9680\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/RollingStones2-300x236.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/RollingStones2-100x79.jpg 100w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/05\/RollingStones2.jpg 590w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><br \/>\n<\/center><\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 250;\ngoogle_ad_height = 250;\ngoogle_ad_format = \"250x250_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>Mas ser\u00e1 que vimos realmente? Creio bem que sonh\u00e1mos. Sobre um palco constru\u00eddo numa escala que de humana nada tinha, cinco figurinhas min\u00fasculas movimentavam-se de um lado para o outro enquadradas por outras tantas que nem cara tinham. Era a perspetiva poss\u00edvel c\u00e1 de tr\u00e1s. Mas ningu\u00e9m parecia importar-se. Do ministro ao \u201cfreak\u201d cambaleante vinham todos em busca de uma miragem. Cada um viu o que quis. Os Stones s\u00e3o hoje em dia uma imensa m\u00e1quina gerindo na perfei\u00e7\u00e3o os fantasmas, ilus\u00f5es e, porque n\u00e3o diz\u00ea-lo, as frustra\u00e7\u00f5es de pelo menos duas gera\u00e7\u00f5es. Diferentes para cada caso mas mediaticamente normalizados. Neste aspeto, o concerto portugu\u00eas foi um acontecimento \u00fanico. Sociologicamente falando, que a m\u00fasica era afinal o que menos importava. Uma terceira perspetiva incide no aspeto t\u00e9cnico do espet\u00e1culo. E aqui o \u00fanico adjetivo poss\u00edvel \u00e9 \u2013 \u201cprodigioso\u201d. Vamos ent\u00e3o por partes.<\/p>\n<p><strong>T\u00e9cnica<\/strong><\/p>\n<p>\tPerfeita. Ningu\u00e9m se pode queixar. Do princ\u00edpio ao fim assistimos a uma sucess\u00e3o de prod\u00edgios visuais sincronizados ao d\u00e9cimo de segundo por computador. Durante mais de duas horas nada se repetiu, tudo se transformou, juntando \u00e0 ilus\u00e3o central que \u00e9 a pr\u00f3pria banda, as alucina\u00e7\u00f5es el\u00e9tricas metodicamente fabricadas de molde a induzir ao transe e \u00e0 total recetividade da mensagem os muitos milhares de pagantes que vieram para ver sobretudo a materializa\u00e7\u00e3o dos seus pr\u00f3prios sonhos. A imensa m\u00e1quina cumpriu integralmente essa fun\u00e7\u00e3o. A descomunal estrutura em forma de navio foi o suporte fe\u00e9rico onde se desenrolaram mil e uma hist\u00f3rias de cor e luz. \u00c0 ilumina\u00e7\u00e3o do palco propriamente dito sobrepunha-se a presen\u00e7a avassaladora do gigante exterior. Em termos luminot\u00e9cnicos assinalem-se dois momentos inesquec\u00edveis: a cria\u00e7\u00e3o de um inferno pulsantemente vermelho em \u201cSympathy For The Devil\u201d; e a demencial cad\u00eancia alucinat\u00f3ria de &#8220;Jumpin\u2019 Jack Flash\u201d. Oportunidade tamb\u00e9m de brilhar tamb\u00e9m para os (outros) bonecos, insufl\u00e1veis. Duas matronas sensuais tornadas quase l\u00fabricas pelos movimentos que o vento, malandro, lhes imprimia e rid\u00edculas pelo pormenor oportunista (mas h\u00e1 algo de n\u00e3o-oportunista nisto tudo?) de a p\u00f4r a dar toques em bolas de futebol (\u201cHonky Tonk Women\u201d) e umas feras de mand\u00edbulas agu\u00e7adas, umas das quais chegou mesmo a devorar o cantor (\u201cStreet Fighting Man\u201d). Ambos os truques resultaram divertidos. Os Rolling Stones reduzidos a figurantes de fancaria numa imensa tenda de milagres. O p\u00fablico adorou. T\u00e9cnica ainda de manipula\u00e7\u00e3o de massas. \u201cTerminada\u201d a atua\u00e7\u00e3o, os m\u00fasicos retiram-se sabendo de antem\u00e3o que a assist\u00eancia vai querer mais. Regressam com \u201c(I Can\u2019t Get No) Satisfaction\u201d. Genial. As explos\u00f5es e fogo-de-artif\u00edcio finais atuando servem de escape de liberta\u00e7\u00e3o para as \u00faltimas energias de um p\u00fablico embasbacado e artificialmente satisfeito.<\/p>\n<p><strong>M\u00fasica<\/strong><\/p>\n<p>\tHouve quem lhe prestasse aten\u00e7\u00e3o. Sobretudo os mais velhos, atentos e tensos sempre \u00e0 espera de apanhar os m\u00fasicos em falso, nas notas ou na trai\u00e7\u00e3o \u00e0 ideologia. Desistiram logo de in\u00edcio. Desde h\u00e1 muito que os Stones s\u00e3o traidores declarados. O que os cinco m\u00fasicos (mais os metais, os samplers, o coro) fazem \u00e9 aviar uma receita, de ingredientes sabiamente misturados, que sirva ao mesmo tempo de panaceia para a nostalgia mal curada dos quarent\u00f5es hippies travestidos de yuppies e para a agressividade \u201cseven-Up\u201d dos putos ainda n\u00e3o nascidos no tempo em que Mick Jagger e os restantes Stones faziam a vida negra ao \u201cestablishment\u201d. Curiosamente foram as can\u00e7\u00f5es de tem\u00e1tica digamos mais dura, como \u201cSympathy For The Devil\u201d ou \u201cBrown Sugar\u201d que mais entusiasmaram a camada \u201cstraight\u201d do p\u00fablico que nelas projetou as suas imposs\u00edveis \u00e2nsias de transgress\u00e3o. Quanto aos putos vibraram com tudo. \u201cRuby Tuesday\u201d ou temas do recente \u201cSteel Wheels\u201d s\u00e3o tudo a mesma coisa, desde que d\u00ea, como deu, para curtir. Matam-se dois coelhos de uma s\u00f3 cajadada. Recauchuta-se o passado, embrulha-se nos discos novos, pinta-se o objeto com cores psicad\u00e9licas (\u201cPaint It Black\u201d \u2013 n\u00e3o \u2013 que \u00e9 muito depressivo), ata-se com fitas \u201cfunky\u201d e o presente est\u00e1 pronto, n\u00e3o para oferecer, que a vida n\u00e3o est\u00e1 para brincadeiras, mas para vender, que os Stones n\u00e3o andam c\u00e1 para outra coisa. Ao todo foram mais de vinte temas tocados sem interrup\u00e7\u00e3o, correspondendo \u00e0s v\u00e1rias fases da banda e que serviram indiscriminadamente de pretexto para os mais novos dan\u00e7arem, pularem ou simplesmente tombarem na alcatifa do est\u00e1dio, por for\u00e7a da energia destilada por Jagger sobre o palco (ele at\u00e9 correu mais de setenta metros de ponta a ponta do estrado) ou talvez (quem sabe?) devido \u00e0 ingest\u00e3o de, em m\u00e9dia, cinco litros de cerveja por cabe\u00e7a num curto espa\u00e7o de tempo. Em suma, os Stones s\u00e3o outros. Como \u00e9 que a m\u00fasica poderia permanecer a mesma? Os puristas, os saudosos, os ing\u00e9nuos, os de Maio de 68, que foram aos milhares a Alvalade em busca do passado, sa\u00edram desiludidos, perdidos num mundo que se esqueceu ser afinal ainda o seu. Ou ent\u00e3o mergulharam de cabe\u00e7a na ilus\u00e3o a at\u00e9 acenderam o isqueiro, como se fosse poss\u00edvel ignorar que o tempo passa e os \u201cseus\u201d Stones j\u00e1 n\u00e3o existem. Mas isso \u00e9 j\u00e1 um tema de&#8230;<\/p>\n<p><strong>&#8230;Sociologia<\/strong><\/p>\n<p>\tNeste aspeto o espet\u00e1culo dos Rolling Stones em Portugal fez as del\u00edcias do observador descomprometido. Delicioso, realmente, observar fam\u00edlias inteiras adiando durante duas horas o irresol\u00favel e tradicional conflito de gera\u00e7\u00f5es. Pais e filhos enganados por uma imposs\u00edvel m\u00e9dia entre os dois extremos de tr\u00eas d\u00e9cadas em que os Rolling Stones funcionaram como catalizadores, reais ou \u201cclonados\u201d pelos \u201cmedia\u201d, de atitudes, culturas e modas em constante e acelerada muta\u00e7\u00e3o. Por outro lado, a banda funciona tamb\u00e9m no registo oposto, isto \u00e9, ao atravessar, mais ou menos inc\u00f3lume, esses 30 anos de Hist\u00f3ria, simboliza a perman\u00eancia no centro da voragem, a seguran\u00e7a no meio da vertigem do final de s\u00e9culo. Emblemas de rebeldia e inconformismo, nos prim\u00f3rdios, os Stones s\u00e3o atualmente deposit\u00e1rios de valores, se n\u00e3o conservadores, pelo menos conotados com uma \u00e9poca irrepet\u00edvel. A transgress\u00e3o e a hipocrisia bem comportada funcionam simultaneamente e na mesma can\u00e7\u00e3o. Durante a presta\u00e7\u00e3o de \u201cBrown Sugar\u201d os putos veem nela a apologia da hero\u00edna ou ent\u00e3o julgam que, por serem hoje vegetarianos, Mick Jagger e Keith Richards defendem as virtudes do consumo de a\u00e7\u00facar amarelo. Keith Richards, \u201cjunkie\u201d arrependido, come\u00e7a por estar solitariamente arredado num dos extremos do palco. Mick corre ao seu encontro e tr\u00e1-lo de volta para o conv\u00edvio das mentes s\u00e3s em corpo s\u00e3o, vestindo a pele do salvador. Para uns isto \u00e9 espet\u00e1culo. Para outros \u00e9 confrangedor assistir ao pat\u00e9tico de uma banda que faz da mentira o motor da sua sobreviv\u00eancia.<br \/>\n\tApagadas as luzes, a \u00faltima imagem fixada na retina \u00e9 a dos cinco Rolling Stones, abra\u00e7ados e iluminados apenas por um foco de luz branca. Imagem a um tempo terr\u00edvel e sublime em que o real se confunde com a ilus\u00e3o.<br \/>\n\t\u201cIt\u2019s Only Rock\u2019n\u2019Roll, But I Like It\u201d \u2013 Mick Jagger.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>P\u00daBLICO TER\u00c7A-FEIRA, 12 JUNHO 1990 >> Cultura Os Rolling Stones tocaram em Alvalade para cerca de 60 mil pessoas O imp\u00e9rio da ilus\u00e3o Os Rolling Stones tocaram em Alvalade para cerca de 60.000 pessoas, cada uma vivendo \u00e0 sua maneira a recria\u00e7\u00e3o fantasm\u00e1tica do mito que j\u00e1 foi outrora banda em carne e osso. 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