{"id":9606,"date":"2022-04-12T04:22:28","date_gmt":"2022-04-12T11:22:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=9606"},"modified":"2022-04-12T04:22:38","modified_gmt":"2022-04-12T11:22:38","slug":"lou-reed-e-john-cale-songs-for-drella-a-fiction","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2022\/04\/12\/lou-reed-e-john-cale-songs-for-drella-a-fiction\/","title":{"rendered":"Lou Reed E John Cale &#8211; &#8220;Songs For Drella \u2013 A Fiction&#8221;"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 234;\ngoogle_ad_height = 60;\ngoogle_ad_format = \"234x60_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>P\u00daBLICO QUARTA-FEIRA, 2 MAIO 1990 >> Videodiscos >> Pop<\/p>\n<p><strong>FIC\u00c7\u00d5ES<br \/>\n<center><br \/>\nLOU REED E JOHN CALE<br \/>\nSongs For Drella \u2013 A Fiction<br \/>\nLP, Warner Bros, import. WEA<\/center><\/strong><\/p>\n<p><center><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/drella-230x300.jpg\" alt=\"\" width=\"230\" height=\"300\" class=\"alignnone size-medium wp-image-9607\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/drella-230x300.jpg 230w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/drella-77x100.jpg 77w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/drella.jpg 349w\" sizes=\"auto, (max-width: 230px) 100vw, 230px\" \/><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>\tAndy Warhol, a quem este disco \u00e9 dedicado, \u00e9 Drella, jun\u00e7\u00e3o de Dr\u00e1cula e Cinderella, na mesma pessoa. Warhol, j\u00e1 se sabe, \u00e9 um mito, refer\u00eancia obrigat\u00f3ria de uma certa cultura, outrora \u201cunderground\u201d, americana, e, mais especificamente, nova-iorquina. Personagem vamp\u00edrica de modas, estilos e esc\u00e2ndalos de uma cidade fotografada em r\u00e1pidos \u201cpolaroids\u201d, no seu aspeto mais artificial e decadente. Isto, claro, se n\u00e3o quisermos considerar Nova Iorque como o s\u00edmbolo m\u00e1ximo do artificialismo e da decad\u00eancia, a realidade feita imagem.<br \/>\n\tWarhol compreendeu isto mesmo, ao transformar uma lata de sopa ou a estrela Monroe em simples imagens, repetidas \u201cad infinitum\u201d, em m\u00faltiplas variantes, a apar\u00eancia sempre se sobrepondo ao sentido essencial \u2013 ou, dito de outro modo, reduzindo a ess\u00eancia \u00e0 imagem exterior e fotogr\u00e1fica que adquire, por este processo, um sentido aut\u00f3nomo do ente que lhe deu origem. Simples objeto de consumo dom\u00e9stico (a lata de sopa) ou gente de carne e osso (Marilyn), s\u00e3o, afinal, exemplos paradigm\u00e1ticos de uma mesma atitude redutora do real a imagens de marca, r\u00e9plicas que, paradoxalmente, se elevam, por for\u00e7a da repeti\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o sucessivas, \u00e0 superior condi\u00e7\u00e3o de mitos.<br \/>\n\tWarhol executou a sua obra de arte suprema ao aplicar a si mesmo o m\u00e9todo, \u00e0 custa de uma constante e criteriosamente controlada sobrexposi\u00e7\u00e3o, diante dos mecanismos transformadores dos \u201cmedia\u201d. Se foi \u201cCinderella\u201d, como personagem emblem\u00e1tica da passividade, foi-o, decerto conscientemente e de forma calculista. Warhol vampirizou-se a si pr\u00f3prio, atrav\u00e9s dos outros, sabendo como se constr\u00f3i o mito a partir do vazio. \u201cMy life is disappearing from View\u201d? \u2013 tanto melhor, diria Drella.<br \/>\n\tSedimentada a ilus\u00e3o, o processo inverteu-se. John Cale e Lou Reed, partindo da imagem m\u00edtica do artista, procuram, neste disco biogr\u00e1fico, atingir atrav\u00e9s de uma simplicidade de meios id\u00eantica \u00e0 dos Velvet numa primeira fase, o \u00e2mago, a pessoa real \u201cescondida\u201d atr\u00e1s da personagem. Para descobrirem, por fim, que, por baixo da m\u00e1scara, existe sempre outra m\u00e1scara, num infinito jogo de espelhos.<br \/>\n\tCale e Reed, desde o in\u00edcio de carreira, com os Velvet Underground, procuraram sempre as vias opostas \u00e0s do sonho, tentando permanecer apegados a uma certa materialidade do real, avan\u00e7ando contra todos os pressupostos est\u00e9ticos da \u00e9poca. Nos anos em que se cantava ainda as alucina\u00e7\u00f5es coloridas do LSD, Lou Reed esperava \u00e0 esquina pelo seu \u201cdealer\u201d e erigia a hero\u00edna como verdadeira \u201cesposa\u201d, \u00fanica capaz de facultar a vis\u00e3o aut\u00eantica, brutal e a negro e branco, da realidade concreta da rua e, por extens\u00e3o, da Am\u00e9rica destitu\u00edda da ilus\u00e3o de todos os sonhos.<br \/>\n\tTalvez n\u00e3o se tenha compreendido ainda a import\u00e2ncia crucial, na obra de Lou Reed, do duplo \u201cMetal Machine Music\u201d, das poucas tentativas, na arte do nosso s\u00e9culo, de ultrapassar a forma est\u00e9tica, para chegar \u00e0 nudez absoluta da aboli\u00e7\u00e3o de todos os sentidos. A realidade \u00e9, deste ponto de vista, o que est\u00e1 para al\u00e9m da arte. Se h\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o a tirar de \u201cSongs For Drella\u201d, \u00e9 o fracasso a que est\u00e3o condenadas tais tentativas. Os dois expoentes dos Velvet s\u00e3o (ou t\u00eam sido) ent\u00e3o, precisamente o oposto de Warhol, procurando, no cerne da ilus\u00e3o, a imposs\u00edvel sa\u00edda para o que julgam existir para al\u00e9m dela. Reconheceram finalmente, ap\u00f3s largos anos apostados em permanecer \u201cgente real\u201d que \u2013 pelo simples facto de terem escolhido a m\u00fasica e a f\u00e1brica de sonhos que \u00e9 a pop \u2013 todos os esfor\u00e7os nesse sentido resultaram afinal nos mitos em que tamb\u00e9m eles se transformaram.<br \/>\n\tVisto desta maneira, \u201cSongs For Drella\u201d \u00e9 uma homenagem, na ace\u00e7\u00e3o mais profunda do termo, rendi\u00e7\u00e3o incondicional \u00e0 vis\u00e3o warholiana, compreendendo-se agora melhor o verdadeiro significado do \u201cA Fiction\u201d (Warhol, a fic\u00e7\u00e3o em pessoa) aposto no t\u00edtulo. Passados 24 anos, os Velvet Underground regressam, com a mesma for\u00e7a e invertendo o sentido inicial. Suprema ironia, desist\u00eancia apote\u00f3tica ou manifesto definitivo da arte como suprema forma de ilus\u00e3o, cabe a cada um decidir, consoante a perspetiva.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>P\u00daBLICO QUARTA-FEIRA, 2 MAIO 1990 >> Videodiscos >> Pop FIC\u00c7\u00d5ES LOU REED E JOHN CALE Songs For Drella \u2013 A Fiction LP, Warner Bros, import. WEA Andy Warhol, a quem este disco \u00e9 dedicado, \u00e9 Drella, jun\u00e7\u00e3o de Dr\u00e1cula e Cinderella, na mesma pessoa. 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