{"id":9168,"date":"2021-09-16T08:50:10","date_gmt":"2021-09-16T15:50:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=9168"},"modified":"2021-09-16T08:50:10","modified_gmt":"2021-09-16T15:50:10","slug":"leo-ferre-leo-ferre-morre-aos-77-anos-amor-anarquia-obituario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2021\/09\/16\/leo-ferre-leo-ferre-morre-aos-77-anos-amor-anarquia-obituario\/","title":{"rendered":"L\u00e9o Ferr\u00e9 &#8211; &#8220;L\u00e9o Ferr\u00e9 Morre Aos 77 Anos &#8211; Amor-Anarquia&#8221; (obitu\u00e1rio)"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 468;\ngoogle_ad_height = 60;\ngoogle_ad_format = \"468x60_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>cultura >> domingo, 18.07.1993<\/p>\n<p><strong>OBITU\u00c1RIO<\/strong><br \/>\n<center><br \/>\n<strong>L\u00e9o Ferr\u00e9 Morre Aos 77 Anos<br \/>\nAmor-Anarquia<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n<strong>\u201cNo meu enterro n\u00e3o quero ver mais ningu\u00e9m sen\u00e3o mortos\u201d, disse uma vez em desafio. Ontem, no dia do seu funeral, talvez a sua vontade n\u00e3o tenha sido respeitada. Pol\u00e9mico e indom\u00e1vel, L\u00e9o Ferr\u00e9, aos 77 anos de idade, partiu por fim para o \u201cmundo perdido\u201d de amor-anarquia que sempre cantou.<\/strong><\/p>\n<p><center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=9169\" rel=\"attachment wp-att-9169\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/leoFerre.jpg\" alt=\"\" width=\"618\" height=\"472\" class=\"aligncenter size-full wp-image-9169\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/leoFerre.jpg 618w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/leoFerre-300x229.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/leoFerre-100x76.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 618px) 100vw, 618px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>Poeta, m\u00fasico e anarquista, L\u00e9o Ferr\u00e9 incarnou a revolta do indiv\u00edduo contra os poderes institu\u00eddos. As suas armas foram o amor e a anarquia, rosas com espeinhos de dizer a liberdade. Sonho de um \u201cporta-voz de umk mundo perdido\u201d, como se autodefinia.<br \/>\nL\u00e9o Ferr\u00e9 nasceu em 1916, no Principado de M\u00f3naco. Come\u00e7ou a sonhar desde muito cedo. Aos quatro anos dirigia orquestras imagin\u00e1rias. A primeira das quais, o mar. Quando j\u00e1 se fingia de adulto, em 1954, dirigiu a \u00d3pera de Monte Carlo, numa \u201cSymphonie Interrompue\u201d da sua autoria, e uma adapta\u00e7\u00e3o musical de Baudelaire. \u201cLe Chanson du Mal Aim\u00e9\u201d. Cerca de 20 anos mais tarde, em 1975, voltou a vestir o fraque de maestro na direc\u00e7\u00e3o do \u201cConcerto pour la Main Gauche\u201d, de Maurice Ravel, no Pal\u00e1cio dos Congressos de Paris.<br \/>\nNos tempos de juventude, estudou Direito. Um paradoxo para quem, como Ferr\u00e9s regras. Da, na e para a poesia. Depois fez as malas e partiu para Paris \u2013 a \u201cParis canaille\u201d de uma das suas can\u00e7\u00f5es \u2013 para os cabar\u00e9s de Saint German-des-Pr\u00e8s, onde a vida ent\u00e3o merecia ser vivida. Aos poucos, foi descobrindo que o amor, melhor dizendo, a paix\u00e3o, \u00e9 insepar\u00e1vel da morte. E que as palavras podem ser uma maneira de a vencer. \u201cN\u00e3o sou violento na vida, sou violento nas palavras\u201d, disse, porque \u201ca poesia n\u00e3o se faz com panfletos, faz-se com as goelas bem abertas e com os verbos habituais, de prefer\u00eancia activos\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u201cAmor Louco\u201d<\/strong><\/p>\n<p>L\u00e9o Ferr\u00e9 escolheu cantar as palavras que minavam o senso-comum, o sono, a mediocridade e a subservi\u00eancia. Sonhou alto can\u00e7\u00f5es que abriram as portas e janelas da loucura e do \u201camor louco\u201d \u2013 segundo a express\u00e3o de Breton \u2013 dos poetas surrealistas: Aragon, Apollinaire, Eluard e Val\u00e9ry. E dos simbolistas Rimbaud, Verlaine e Baudelaire.<br \/>\nJacques Pr\u00e9vert entusiasmou-se com as suas can\u00e7\u00f5es. Andr\u00e9 Breton n\u00e3o lhe perdoou a publica\u00e7\u00e3o de \u201cPo\u00e8tes, vos papiers\u201d. Ferr\u00e9, libert\u00e1rio do sonho, solit\u00e1rio e solid\u00e1rio, sem defesas contra a vida, tinha a vis\u00e3o pura de uma crian\u00e7a e a inquietude de um adolescente a morder-lhe o esp\u00edrito. O presidente franc\u00eas Fran\u00e7ois Mitterrand, para quem a morte do cantor significou \u201ca perda de um dos criadores que levaram a can\u00e7\u00e3o ao mais alto n\u00edvel de exig\u00eancia e qualidade\u201d viu no poeta-cantor \u201calgu\u00e9m que incarnava uma tradi\u00e7\u00e3o que, desde a Idade M\u00e9dia, procurou unir a poesia e a m\u00fasica, a liga\u00e7\u00e3o da arte com o amor pelo povo\u201d. Jack Lang, ex-ministro franc\u00eas da Cultura, declarou por seu lado que L\u00e9o Ferr\u00e9 simbolizou a \u201cmem\u00f3ria das revoltas\u201d, foi o \u201cpoeta das esperan\u00e7as\u201d dos franceses e que jamais ser\u00e1 \u201crecuperado pelos poderosos deste mundo\u201d.<br \/>\nMas se ap\u00f3s a sua morte os poderosos se apressaram a ver nele o filho dilecto da doce Fran\u00e7a republicana, foram igualmente os poderosos \u2013 neste caso a sua editora de discos \u2013 que nos anos 60 lhe censuraram a can\u00e7\u00e3o \u201cMon g\u00e9n\u00e9ral\u201d, porque h\u00e1 coisas onde n\u00e3o se toca\u2026 Era inc\u00f3modo este homem que se vestia de negro, cantava as \u201cFlores do Mal\u201d de Baudelaire, reivindicava de igual modo a esperan\u00e7a e a solid\u00e3o. E que, numa das suas can\u00e7\u00f5es mais conhecidas \u2013 \u201cNi Dieu, ni ma\u00eetre\u201d \u2013 proclamava n\u00e3o ter \u201cnem Deus [\u201cO que eu digo \u00e9 que temos de nos libertar da ideia de Deus, da falsa ideia de Deus, de que os outros se servem para oprimir o pr\u00f3ximo! N\u00e3o h\u00e1 pol\u00edcia melhor do que as religi\u00f5es\u201d], nem mestre\u201d [\u201ca posi\u00e7\u00e3o de Bakunine \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica: \u00e9 a do assassino, do bandido. N\u00f3s somos bandidos e, se isto for considerado um sacril\u00e9gio, estou de acordo!\u201d.<\/p>\n<p><strong>O Anarquista De Mercedes<\/strong><\/p>\n<p>L\u00e9o Ferr\u00e9 que actuou na Federa\u00e7\u00e3o Anarquista e cujas can\u00e7\u00f5es \u2013 \u201cLa Gr\u00e8ve\u201d, \u201cAmour anarchie\u201d, \u201cL\u2019\u00e9t\u00e9 68\u201d \u2013 os estudantes revoltosos agitaram como bandeira no Maio de 68 e que mais tarde, lhe exigiram \u201cm\u00fasica gratuita\u201d, acusando-o de \u201canarquista de Rolls Royce\u201d. A ele, que sempre preferiu o Mercedes. Yves Montand telefonou-lhe, certa vez, para lhe chamar \u201cfascista vermelho\u201d.<br \/>\nO mesmo L\u00e9o Ferr\u00e9, pol\u00e9mico, incatalog\u00e1vel e indom\u00e1vel, que exigia um pre\u00e7o baixo para os bilhetes dos seus concertos, mas que declarava em tom de provoca\u00e7\u00e3o: \u201cTenho dinheiro, \u00e9 verdade. E depois? Vou ter de descer \u00e0 rua para o distribuir? Porque sou um anarquista? Uma coisa n\u00e3o tem nada a ver com a outra e qualquer dia tudo isso h\u00e1-de ser explicado.\u201d<br \/>\nUma das suas can\u00e7\u00f5es tinha por t\u00edtulo \u201co anarquista de luxo\u201d.<br \/>\nVivendo em contram\u00e3o L\u00e9o Ferr\u00e9 adoptou nos anos 70 a linguagem do rock progressivo, numa colabora\u00e7\u00e3o com o grupo Zoo, e elogiou publicamente um \u201cclip\u201d de Mick Jagger, partindo depois para o seu retiro em It\u00e1lia, em Castellina, onde viveu durante os \u00faltimos 25 anos, na companhia da mulher, italiana, e dos seus tr\u00eas filhos. E onde morreu no passado dia 14, v\u00edtima de doen\u00e7a prolongada.<br \/>\nNa d\u00e9cada de 80 actuou no Teatro Libert\u00e1rio de Paris e gravou os \u00e1lbuns \u201cLoubards\u201d, \u201cOn n\u2019est pas S\u00e9rieux quando on a Dix-Sept Ans\u201d e \u201cLes Vieux Copains\u201d, este \u00faltimo j\u00e1 de 1990. Ferr\u00e9 actuou por diversas vezes em Portugal, depois do 25 de Abril, cantando em \u201cA mon Enterrement\u201d que no seu enterro n\u00e3o queria \u201cver mais ningu\u00e9m sen\u00e3o mortos\u201d. Preparava o espect\u00e1culo de consagra\u00e7\u00e3o que nunca teve, no Grand Rex, quando a morte o levou.<br \/>\nNuma ocasi\u00e3o, em palco, L\u00e9o Ferr\u00e9 contou que recebeu uma chamada telef\u00f3nica e uma voz lhe disse: \u201cAl\u00f4, sou a morte, gosto bastante do que voc\u00ea faz.\u201d Resposta do cantor: \u201cEu tamb\u00e9m!\u201d<\/p>\n<p><strong>CAIXA<br \/>\n15 Quilos De Poesia<\/strong><br \/>\nQuando a magia do verbo se une \u00e0 poesia do tra\u00e7o e das cores, a arte torna-se uma emo\u00e7\u00e3o fora do comum. \u00c9 o que sucede com a excepcional colec\u00e7\u00e3o que um pequeno editor decidiu consagrar \u00e0 poesia de L\u00e9o Ferr\u00e9.<br \/>\nDirigida por Andr\u00e9 Philippe, a Gr\u00e9sivaudan publicou a poesia do cantor em cinco volumes, cada um deles ilustrado por dez litografias em p\u00e1gina dupla e desenhos originais do pintor Jacques Pecnard, pesando o conjunto 15 quilos.<br \/>\nEsta obra po\u00e9ticfa engendrou uma obra-prima da bibliofilia. L\u00e9o Ferr\u00e9 aplicara-se no trabalho de impress\u00e3o, colaborando na pagina\u00e7\u00e3o, escolhendo, inclusive, o tipo de letra, o Baskerville. Antes, por\u00e9m, o editor ter\u00e1 precisado de seis anos para convencer Fer\u00e9 a publicar os seus poemas.<br \/>\nDepois, forma mais tr\u00eas anos de trabalho. Mas Andr\u00e9 Philippe estava longe de ser um novato, tendo j\u00e1 editado Andr\u00e9 Gide, Jean Giono, Guy de Maupassant, Jules Renard, Edmond Rostand, Paul Val\u00e9ry, Georges Brassens e Jacques Brel. Fundou a Gr\u00e9sivaudan em 1968, ap\u00f3s ter descoberto o universo dos livros, que come\u00e7ou por vender porta a porta.<br \/>\nQuanto ao pintor Jacques Pecnard, trabalhou para as maiores editoras (Flammarion, Larousse) e durante vinte anos colaborou no \u201cFrance Soir\u201d. Galardoado, em 1971, com o Grande Pr\u00e9mio dos Ilustradores de imprensa, tem exposto n\u00e3o s\u00f3 em Paris, como nos Estados Unidos e Jap\u00e3o.<br \/>\nEm Mar\u00e7o de 1984, a Ulmeiro editou em Portugal a obra \u201cL\u00e9o Ferr\u00e9\u201d, com uma primeira tiragem de 5200 exemplares. A selec\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o de poemas e can\u00e7\u00f5es foram de Luiza Neto Jorge, enquanto a coordena\u00e7\u00e3o e a tradu\u00e7\u00e3o de outros textos pertenceram a Manuel Jo\u00e3o Gomes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>cultura >> domingo, 18.07.1993 OBITU\u00c1RIO L\u00e9o Ferr\u00e9 Morre Aos 77 Anos Amor-Anarquia \u201cNo meu enterro n\u00e3o quero ver mais ningu\u00e9m sen\u00e3o mortos\u201d, disse uma vez em desafio. Ontem, no dia do seu funeral, talvez a sua vontade n\u00e3o tenha sido respeitada. Pol\u00e9mico e indom\u00e1vel, L\u00e9o Ferr\u00e9, aos 77 anos de idade, partiu por fim para [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1018,138,882,1724,44,9,68],"tags":[883],"class_list":["post-9168","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos-1993","category-cantautor","category-chanson-francaise","category-obituario","category-pop","category-singer-songwriter","category-world","tag-leo-ferre"],"views":1102,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9168","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9168"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9168\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9170,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9168\/revisions\/9170"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9168"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9168"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9168"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}