{"id":8737,"date":"2021-02-19T04:45:31","date_gmt":"2021-02-19T11:45:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=8737"},"modified":"2021-02-19T04:45:47","modified_gmt":"2021-02-19T11:45:47","slug":"maria-joao-teresa-salgueiro-e-filipa-pais-tres-cantoras-debatem-musica-portuguesa-no-feminino-cantos-da-alma-sentida-entrevista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2021\/02\/19\/maria-joao-teresa-salgueiro-e-filipa-pais-tres-cantoras-debatem-musica-portuguesa-no-feminino-cantos-da-alma-sentida-entrevista\/","title":{"rendered":"Maria Jo\u00e3o, Teresa Salgueiro e Filipa Pais &#8211; &#8220;Tr\u00eas Cantoras Debatem M\u00fasica Portuguesa No Feminino &#8211; Cantos Da Alma Sentida&#8221; (entrevista)"},"content":{"rendered":"<p>pop rock >> quarta-feira, 03.02.1993<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>Tr\u00eas Cantoras Debatem M\u00fasica Portuguesa No Feminino<br \/>\nCANTOS DA ALMA SENTIDA<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=8738\" rel=\"attachment wp-att-8738\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/1-2.jpg\" alt=\"\" width=\"611\" height=\"425\" class=\"aligncenter size-full wp-image-8738\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/1-2.jpg 611w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/1-2-300x209.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/1-2-100x70.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 611px) 100vw, 611px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><br \/>\nReunimos o trio de ouro das vozes portuguesas. Para Maria Jo\u00e3o, Teresa Salgueiro e Filipa Pais, o prazer de se saberem c\u00famplices juntou-as quase imediatamente nos cantos que encheram os corredores do P\u00daBLICO. Em jeito de antecipa\u00e7\u00e3o de um projecto antigo de Filipa Pais e Teresa Salgueiro, baseado nos temas populares recolhidos por Michel Giacometti. Maria Jo\u00e3o, por seu lado, vai continuar a cantar pelo mundo fora com m\u00fasicos de excep\u00e7\u00e3o: Aki Takase, Lauren Newton, Marilyn Mazur e Bobo Stensson. Alheias ao tempo e ao lugar, quando finalmente, se sentaram para falar das coisas que bordam a sua m\u00fasica, as horas anteriores j\u00e1 tinham acendido a chama. Entre a descoberta de dificuldades e entregas comuns, afirmaram-se int\u00e9rpretes rodeadas de excelentes profissionais e defenderam a dignidade da m\u00fasica que lhes sai da alma e das v\u00edsceras. Entre a diversidade das suas imagens e personalidades, a felicidade de estar em palco arrebata-as para l\u00e1 da ind\u00fastria e dos seus contos imorais. Vozes de corpo inteiro partilhadas com quem as ouve, esquecidas da pequenez de um pa\u00eds provinciano.<br \/>\nNo final deste encontro de raparigas, entre a promessa de um jantar e a troca de grava\u00e7\u00f5es de temas queridos, Maria Jo\u00e3o, Teresa Salgueiro e Filipa Pais tinham afirmado com emo\u00e7\u00e3o a inten\u00e7\u00e3o de abrir caminhos. \u00c9 isso que anima os seus cantos. Soltos, instintivos, cristalinos e interiores. Porque de cantoras e mulheres de alma \u00e0 superf\u00edcie.<\/p>\n<p>Maria Jo\u00e3o, Teresa Salgueiro e Filipa Pais contaram ao P\u00daBLICO segredos, riscos e estratagemas. E algumas fraquezas. Falaram de si e dos homens. Do que \u00e9 ser mulher e cantora em Portugal, um pa\u00eds provinciano, reconheceram, onde \u201cfica tudo uma coisa caseira\u201d. E onde nem tudo \u00e9 o que parece.<br \/>\n<strong>P\u00daBLICO \u2013 Em Portugal, na m\u00fasica popular, h\u00e1 poucas compositoras. O homem comp\u00f5e e a mulher interpreta?<\/strong><br \/>\nFILIPA PAIS \u2013 A mim, neste momento, apetece-me mais interpretar que mostrar as minhas coisas. N\u00e3o me sinto ainda pronta para mostr\u00e1-las\u2026 Os homens se calhar s\u00e3o mais libertos\u2026<br \/>\nMARIA JO\u00c3O \u2013 \u00c9 mais uma quest\u00e3o de pessoas, de sensibilidades. H\u00e1 mulheres muito brutas e homens muito sens\u00edveis. Eu componho quando estou a cantar. Quando improviso estou no fundo a compor. Agora, pegar num tema desde o princ\u00edpio da composi\u00e7\u00e3o, acho um disparate. Como estou rodeada de m\u00fasicos excepcionais, tudo o que eu possa compor ser\u00e1 sempre inferior ao que eles podem fazer e fazem excelentemente. Muitas vezes os temas nem sequer s\u00e3o para mim mas eu agarro neles e \u201croubo-os\u201d\u2026<br \/>\n<center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=8739\" rel=\"attachment wp-att-8739\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/2-3.jpg\" alt=\"\" width=\"454\" height=\"769\" class=\"aligncenter size-full wp-image-8739\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/2-3.jpg 454w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/2-3-177x300.jpg 177w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/2-3-59x100.jpg 59w\" sizes=\"auto, (max-width: 454px) 100vw, 454px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><br \/>\nTERESA SALGUEIRO \u2013 \u00c9 isso. E talvez venhamos todas a compor nos tempos mais pr\u00f3ximos. Era uma coisa que eu gostava de fazer. N\u00e3o sei \u00e9 quando\u2026<br \/>\nM. J. \u2013 Os meus \u00eddolos s\u00e3o tr\u00eas mulheres que nunca foram compositoras \u2013 a Maria Callas, a Maria Teresa de Noronha e a Elis Regina, que s\u00e3o apenas int\u00e9rpretes.<br \/>\n<strong>P. \u2013 As instrumentistas tamb\u00e9m se contam pelos dedos\u2026 Uma quest\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o? De comodismo?<\/strong><br \/>\nF. P. \u2013 Penso que \u00e9 uma quest\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o. Eu vejo agora, que estou no Conservat\u00f3rio, que h\u00e1 imensas raparigas com boas vozes, com vontade, mas que n\u00e3o arriscam, est\u00e3o sempre \u00e0 espera de qualquer coisa\u2026<br \/>\nM. J. \u2013 A voz \u00e9 um instrumento como outro qualquer. Eu n\u00e3o toco piano, pois n\u00e3o, mas toco cordas vocais.<br \/>\nF. P. \u2013 Leva-se para todo o lado\u2026<br \/>\nT. S. \u2013 O pior \u00e9 que enquanto num piano afinado se toca um \u201cmi\u201d e sai um \u201cmi\u201d, n\u00f3s, se estivermos cansadas, queremos cantar o \u201cmi\u201d e \u00e0s vezes sai um \u201cr\u00e9\u201d sustenido\u2026<br \/>\n<strong>P. \u2013 Em Portugal as grandes vozes pertencem a mulheres?<\/strong><br \/>\nT. S. \u2013 Existe uma tradi\u00e7\u00e3o de m\u00fasica portuguesa cantada por mulheres. Muitos mais do que por homens. Embora haja o caso do Alentejo, dos fadistas de Coimbra\u2026<br \/>\nM. J. \u2013 Acho que sim, vozes femininas \u00e9 que \u00e9! [Risos.] Em Portugal h\u00e1 mais boas vozes femininas do que masculinas. N\u00e3o no conceito que normalmente ou\u00e7o dizer \u2013 \u201co fulano tem um vozeir\u00e3o, uma extens\u00e3o enorme e n\u00e3o sei qu\u00ea\u201d. Por exemplo, o Carlos do Carmo, que \u00e9 um excelente cantor, tem uma extens\u00e3o pequenina, mas diz tudo, est\u00e1 l\u00e1 tudo\u2026<br \/>\n<strong>P. \u2013 Haver\u00e1 da parte da mulher uma identifica\u00e7\u00e3o mais f\u00e1cil entre a voz e o corpo? Ser\u00e1 a voz o instrumento ideal feminino?<\/strong><br \/>\nT. S. \u2013 Isso acontece em qualquer cantor, penso eu. O que conta \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o que se consegue dar \u00e0s palavras, aos sons, seja ao que for. A alma com que se entrega ao que est\u00e1 a fazer.<br \/>\nM. J. \u2013 Olha, o Marco Paulo tem uma excelente voz\u2026<br \/>\nF. P. \u2013 Dentro do estilo \u00e9 o maior!<br \/>\nM. J. \u2013 Um cantor tem que ser como um atleta, tem que estar preparado. \u00c9 o corpo todo que n\u00f3s usamos como se fosse um instrumento.<\/p>\n<p><strong>Aquecimentos<\/strong><\/p>\n<p><strong>P. \u2013 Voc\u00eas desde que chegaram ao jornal n\u00e3o pararam de cantar, como se fosse a coisa mais natural do mundo. \u00c9 dif\u00edcil imaginar cantores homens a fazerem o mesmo\u2026<\/strong><br \/>\nF. P. \u2013 Talvez nos envolvamos mais\u2026<br \/>\n<center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=8740\" rel=\"attachment wp-att-8740\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/3-2.jpg\" alt=\"\" width=\"434\" height=\"781\" class=\"aligncenter size-full wp-image-8740\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/3-2.jpg 434w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/3-2-167x300.jpg 167w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/3-2-56x100.jpg 56w\" sizes=\"auto, (max-width: 434px) 100vw, 434px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><br \/>\nM. J. \u2013 Uma vez perguntei a Lauren Newton (com quem ando a trabalhar) como \u00e9 que ela aquecia a voz. Ela procede de maneira diferente da habitual. J\u00e1 a Jay Calyton faz o aquecimento de uma forma tradicional. Depois quis saber como \u00e9 que faz o Bobby McFerrin. A Lauren respondeu-me: Ele n\u00e3o aquece, est\u00e1 sempre a cantar, o dia todo!\u201d E \u00e9 o gajo que faz aquelas acrobacias todas\u2026 Est\u00e1 sempre quente!<br \/>\nT. S. \u2013 Embora o masculino e o feminino tenham diferentes sensibilidades.<br \/>\nP. \u2013 As mulheres entregam-se mais? H\u00e1 maior interioriza\u00e7\u00e3o no canto?<br \/>\nM. J. \u2013 Se calhar n\u00f3s temos mais cuidado com o instrumento\u2026 Ou ser\u00e1 porque somos umas tagarelas? [Risos]. Porque gostamos de abrir a boca e dizer coisas?<\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 250;\ngoogle_ad_height = 250;\ngoogle_ad_format = \"250x250_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><strong>Pernas Ao L\u00e9u E Os Man\u00e9is De Bigode<\/strong><\/p>\n<p><strong>P. \u2013 Em palco voc\u00eas s\u00e3o cantoras mas tamb\u00e9m mulheres. Ser\u00e1 poss\u00edvel existir uma Madonna \u00e0 portuguesa?<\/strong><br \/>\nM. J. \u2013 Eu acho a Madonna altamente, uma excelente profissional, curto imenso o que ela anda a fazer.<br \/>\nF. P. \u2013 Ningu\u00e9m a critica, ela d\u00e1 a volta\u2026<br \/>\n<strong>P. \u2013 N\u00e3o responderam \u00e0 quest\u00e3o\u2026<\/strong><br \/>\nT. S. \u2013 A Madonna \u00e9 mesmo Estados Unidos.<br \/>\nM. J. \u2013 \u00c9, os Estados Unidos funcionam muito nessa base, do produto, da encena\u00e7\u00e3o, do que se v\u00ea e do que se diz.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Mas ela liga de forma expl\u00edcita a sexualidade e a voz. \u00c9 poss\u00edvel fazer o mesmo em Portugal?<\/strong><br \/>\nM. J. \u2013 Mas c\u00e1 h\u00e1 cantoras que tamb\u00e9m fazem isso. Normalmente cantoras mais ligadas \u00e0 \u00e1rea do nacional-can\u00e7onetismo que andam sempre impecavelmente de perna ao l\u00e9u, maminhas bem feitinhas, todas a mostrarem-se\u2026 \u00c9 a tal componente sexual. A C\u00e2ndida Branca-Flor, a Alexandra\u2026 Se repararmos bem, elas t\u00eam um cuidado extremo com o que vestem, como se apresentam, mini-saias n\u00e3o sei qu\u00ea. Muito mais do que n\u00f3s.<br \/>\nT. S. \u2013 Eu nunca seria capaz de cantar de mini-saia.<br \/>\n<strong>P. \u2013 De voc\u00eas as tr\u00eas, a Maria Jo\u00e3o parece ser quem mais assume essa componente\u2026<\/strong><br \/>\nF. P. \u2013 Perfeitamente! Tu \u00e9s m ais liberta.<br \/>\nM. J. \u2013 Eu? Eu? [Risos]. \u00c0s vezes n\u00e3o \u00e9 nada bonito de se ver \u2013 fa\u00e7o caretas\u2026<br \/>\nF. P. \u2013 Mas isso \u00e9 que \u00e9 bonito.<br \/>\nM. J. \u2013 Muitas vezes a gente v\u00ea na televis\u00e3o o malfadado \u201cplayback\u201d, e as pessoas depois notam. O leigo, que est\u00e1 em casa, diz: \u201cAh, aquela est\u00e1 t\u00e3o bonita, t\u00e3o agrad\u00e1vel de se ver!\u201d Depois vem um concerto ao vivo e \u00e9 terr\u00edvel, a pessoa torce-se, tem as veias salientes\u2026<br \/>\nT. S. \u2013 Quando canto determinadas coisas sinto-me diferente, mais \u201csexy\u201d, mais triste, mais contida, mais atrevida, conforme a m\u00fasica.<br \/>\n<strong>P. &#8211; \u2026 A Teresa tem uma imagem discreta, mais s\u00f3bria\u2026<\/strong><br \/>\nT. S. \u2013 Mais quietinha!&#8230; Mas tem a ver com o tipo de m\u00fasica e com a personalidade.<br \/>\nM. J. \u2013 Mas aquilo que eu fa\u00e7o n\u00e3o \u00e9 de prop\u00f3sito. Estou l\u00e1 e \u00e9 assim que sai. Sinto uma felicidade t\u00e3o grande por estar em palco\u2026<br \/>\n<strong>P. \u2013 Quando est\u00e3o em palco, t\u00eam consci\u00eancia dos olhares que recaem sobre voc\u00eas? Dos olhares masculinos, por exemplo?<\/strong><br \/>\nM. J. \u2013 Masculinos e femininos, aten\u00e7\u00e3o! Mas eu nunca olho para o p\u00fablico. Imagina que est\u00e1s a cantar uma coisa incr\u00edvel e olhas para um Manuel \u00e0 tua frente que se est\u00e1 a assoar\u2026 [Risos]<br \/>\nF. P. \u2013 Eu prefiro nem olhar para um Manuel de bigode! [Risos.]<br \/>\nT. S. \u2013 N\u00e3o estou a pensar se aquele est\u00e1 a olhar para mim, a reparar na minha cintura\u2026 Mas penso se s\u00e3o homens ou mulheres que me est\u00e3o a ver.<br \/>\nF. P. \u2013 \u00c9 uma massa enorme e assustadora\u2026<br \/>\nM. J. &#8211; \u2026 Que nos d\u00e1 uma press\u00e3o e uma felicidade imensas!<br \/>\nF. P. \u2013 Eu estou ali no meio daqueles quatro irm\u00e3os Salom\u00e9, dos Lua Extravagante, de bigode (risos). S\u00e3o uns companheiros fant\u00e1sticos e meus amigos. Mas \u00e9 evidente que sinto qualquer coisa quando entro em palco.<br \/>\nM. J. \u2013 No vosso espect\u00e1culo da Aula Magna levaram bastantes assobios (risos).<br \/>\nF. P. \u2013 Eu ouvi.<\/p>\n<p><strong>Contos Imorais<\/strong><\/p>\n<p><strong>P. \u2013 Quem as ouvir falar, assim amigas diria que n\u00e3o existe qualquer rivalidade entre quem trabalha neste ramo. \u00c9 mesmo assim, n\u00e3o h\u00e1 competi\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nT. S. \u2013 Cada vez mais as pessoas se querem juntar para aprender umas com as outras.<br \/>\nM. J. \u2013 \u00c9 saud\u00e1vel. N\u00e3o h\u00e1 competi\u00e7\u00e3o, \u00e9 na boa. Fulana est\u00e1 a cantar e pensa \u201cN\u00e3o sou ningu\u00e9m se n\u00e3o cantar como ela canta.\u201d Mas rivalidade, rivalidade, acho que n\u00e3o existe.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Dentro da ind\u00fastria, quais s\u00e3o os v\u00edcios e virtudes?<\/strong><br \/>\nF. P. \u2013 Virtudes, a exist\u00eancia de bons compositores e grandes ideias. E est\u00e3o a criar-se condi\u00e7\u00f5es para que as pessoas possam trabalhar cada vez melhor.<br \/>\nM. J. \u2013 V\u00edcios, de venda e de mercado. Acho que a ind\u00fastria est\u00e1 viciada em certos padr\u00f5es de comprar, vender e promover, o que acaba por condicionar os m\u00fasicos e os cantores. Embora no meu caso as coisas sempre tenham sido mais f\u00e1ceis, justamente por ser mulher.<br \/>\nF. P. \u2013 \u00c0s vezes \u00e9 complicado, porque\u2026 n\u00e3o sei se quero dizer isto\u2026<br \/>\nM. J, T. S. e P\u00daBLICO \u2013 Diz l\u00e1!<br \/>\nF. P. \u2013 \u00c0s vezes h\u00e1 coisas que acontecem mais facilmente se\u2026<br \/>\n<strong>P. \u2013 Como? Propostas, digamos, de \u00edndole n\u00e3o propriamente art\u00edstica?<\/strong><br \/>\nF. P. \u2013 Por exemplo. H\u00e1 coisas que parecem tomar um caminho porreiro at\u00e9 certa altura, a amizade e n\u00e3o sei que mais, at\u00e9 que chega um momento em que afinal \u00e9 mais qualquer coisa. Se tu dizes que n\u00e3o, deixam-te cair.<br \/>\nM. J. \u2013 Nesses casos tamb\u00e9m n\u00e3o interessa. Se algu\u00e9m te quer usar para fazer n\u00e3o sei qu\u00ea, esse algu\u00e9m tamb\u00e9m n\u00e3o te vai servir para mais nada.<br \/>\n<strong>P. \u2013 N\u00e3o chegando a casos t\u00e3o extremos, poder\u00e1 dar-se o caso de a ind\u00fastria pensar em primeiro lugar numa imagem apelativa que possa vender \u2013 e menos na m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nF. P. \u2013 Evidentemente que pensam logo nisso.<br \/>\nT. S. \u2013 A mim n\u00e3o me passa pela cabe\u00e7a.<br \/>\nM. J. \u2013 Ai \u00e9, pensam n\u00e3o sei qu\u00ea? Fixe! Vou aproveitar-me disso. Se algu\u00e9m acha que me pode vender porque sou mulher, por uma imagem, n\u00e3o me vai p\u00f4r as m\u00e3os em cima de certeza absoluta, se eu n\u00e3o quiser. Ent\u00e3o vou aproveitar-me dessa ingenuidade para poder fazer as minhas coisas. Se uma pessoa olha para n\u00f3s e diz: \u201cVou comer esta querida\u201d (risos), eu s\u00f3 tenho \u00e9 que lhe dar a volta. Se, por exemplo, um produtor me disser: \u201cVou promover esta mas quero algo em troca\u201d, eu, na troca, n\u00e3o lhe vou dar coisa nenhuma. Se calhar n\u00e3o devia estar a dizer isto.<br \/>\nF. P. \u2013 Acho que \u00e9 uma quest\u00e3o de tacto. Se apostarem em mim, n\u00e3o vou dar nada em troca que n\u00e3o seja o meu trabalho. As coisas depois avan\u00e7am ou n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Primeiro Passa-se A Roupa A Ferro<\/strong><\/p>\n<p><strong>P. \u2013 Em Portugal assiste-se presentemente ao fen\u00f3meno da reciclagem musical \u2013 pessoas que j\u00e1 andam nisto h\u00e1 muito e se juntam para formar novos agrupamentos. \u00c9 poss\u00edvel acontecer um equivalente feminino?<\/strong><br \/>\nM. J. \u2013 Era bom as pessoas juntarem-se. L\u00e1 vou eu ter que falar nos Resist\u00eancia, dos quais n\u00e3o gosto nada. Penso que \u00e9 uma forma inteligente de sobreviv\u00eancia, de sobreviv\u00eancia a um alto n\u00edvel, pois aquilo vende imenso. Mas h\u00e1 outras hip\u00f3teses das pessoas se juntarem. Por exemplo, aquilo que n\u00f3s fizemos [espect\u00e1culo de Maria Jo\u00e3o com Lena d\u2019\u00c1gua, Xana, Teresa Salgueiro e Anabela Duarte realizado em Novembro de 1991, no Teatro S\u00e3o Luiz, integrado nos Festivais de Lisboa]. Foi diferente \u2013 um encontro por prazer.<br \/>\nF. P. \u2013 H\u00e1 um projecto meu com a Teresa, mas n\u00e3o quero falar antes de as coisas acontecerem.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Conseguem conciliar a vossa carreira, cheia de \u201ctimings\u201d e digress\u00f5es, com a vida familiar?<\/strong><br \/>\nM. J. \u2013 Tenho uma criancinha, um rapaz quase com tr\u00eas anos, e \u00e9 muito dif\u00edcil para mim estar longe dele. E ele come\u00e7a tamb\u00e9m a sentir a minha falta. Passada uma semana fora fico doente de tristeza, come\u00e7o a embirrar com toda a gente, sou mal educada, chego mais atrasada que o costume\u2026<br \/>\nT. S. \u2013 Atrasada? Tu tamb\u00e9m?&#8230;<br \/>\nM. J. \u2013 Uuii!&#8230;<br \/>\nT. S. \u2013 Ah, que al\u00edvio\u2026<br \/>\nF. P. \u2013 Eu estou a melhorar.<br \/>\n<center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=8741\" rel=\"attachment wp-att-8741\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/4-2.jpg\" alt=\"\" width=\"356\" height=\"606\" class=\"aligncenter size-full wp-image-8741\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/4-2.jpg 356w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/4-2-176x300.jpg 176w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/4-2-59x100.jpg 59w\" sizes=\"auto, (max-width: 356px) 100vw, 356px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><br \/>\nM. J. \u2013 Mas a gente n\u00e3o chega atrasada por falta de respeito. Eles [os m\u00fasicos] quando chegam tarde \u00e9 porque ficaram sentados na cama a ver televis\u00e3o (risos). Sei que \u00e9 assim porque tive essa experi\u00eancia na minha \u00faltima \u201ctourn\u00e9e\u201d. Eles, coitados, j\u00e1 est\u00e3o mais que escaldados com os meus atrasos, de maneira que eu chegava a horas, num esfor\u00e7o sobrehumano, e acabava por ficar \u00e0 espera que eles viessem. E eles, naquela: \u201cEla deve estar atrasada.\u201d<br \/>\n<strong>P. \u2013 O atraso sistem\u00e1tico \u00e9 o arqu\u00e9tipo feminino desconhecido?&#8230;<\/strong><br \/>\nM. J. \u2013 N\u00f3s temos mais coisas para fazer do que os homens. Os homens fazem a barba, tomam banho  j\u00e1 est\u00e1. N\u00f3s tomamos o banhinho, secamos o cabelo, que \u00e9 comprido, pintamos os olhos, estamos quase a sair e pensamos: \u201cSer\u00e1 que estamos bem, ser\u00e1 que vou vestir isto ou n\u00e3o vou\u201d\u2026<br \/>\nF. P. \u2013 A mim o que me acontece \u00e9 que arranjo sempre qualquer coisa \u2013 n\u00e3o gosto de sair de casa e deixar a cama por fazer. O homem est\u00e1-se nas tintas.<br \/>\nM. J. \u2013 Eles chegam aos concertos, fazem o ensaio de som, depois v\u00e3o para o quarto, vestem-se em cinco minutos e est\u00e3o prontos. Enquanto n\u00f3s, eu pelo menos, deixamos a roupa na cama, dobrada e passada a ferro com um ferrinho min\u00fasculo, o que d\u00e1 umas dores nas costas atrozes, numa posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o de todo ideal para quem vai cantar a seguir. Depois, lavar a cabe\u00e7a, as pinturas\u2026 \u00c9 um \u201cstress\u201d enorme (risos).<br \/>\nF. P. \u2013 Eu come\u00e7o sempre a preparar-me umas duas horas antes\u2026<br \/>\nT. S. \u2013 Tamb\u00e9m eu.<br \/>\nM. J. \u2013 Nem tenho tempo para comer.<br \/>\nF. P. \u2013 Normalmente eles v\u00e3o jantar enquanto eu me vou pintar. At\u00e9 porque cantar com a barriga cheia\u2026 Eles tamb\u00e9m n\u00e3o gostam.<br \/>\nM. J. \u2013 As pessoas pensam que os cantores, os m\u00fasicos, levam uma vida altamente, v\u00e3o curtir, v\u00e3o ver o pa\u00eds \u2013 \u201crica vida, rica vida!\u201d<br \/>\nF. P. \u2013 Mas \u00e9 deitar cedo e cedo erguer!<\/p>\n<p><strong>As Luzes<\/strong><\/p>\n<p><strong>P. \u2013 Afinal sempre d\u00e3o uma import\u00e2ncia decisiva \u00e0 imagem\u2026<\/strong><br \/>\nT. S. \u2013 Evidentemente. Arranjo-me e pinto-me para me sentir bem.<br \/>\nF. P. \u2013 Nos tempos que correm, a imagem \u00e9 cada vez mais importante. Por altura do 25 de Abril, em 74, lembro-me que as pessoas cantavam como se fosse uma luta. Hoje isso est\u00e1 um bocado morto. As pessoas agora querem \u00e9 luzes, grande espect\u00e1culo.<br \/>\nM. J. \u2013 Num concerto estamos em frente das pessoas e temos que nos sentir bem connosco pr\u00f3prios.<br \/>\nT. S. \u2013 \u00c9 uma esp\u00e9cie de m\u00e1scara que resulta para eu estar \u00e0 vontade em frente a uma multid\u00e3o que est\u00e1 a olhar para mim, e que n\u00e3o possa dizer mal dos sapatos ou achar o penteado esquisito\u2026<br \/>\n<strong>P. \u2013 Nesse aspecto, as cantoras portuguesas tamb\u00e9m n\u00e3o primam pela ousadia\u2026<\/strong><br \/>\nF. P. \u2013 N\u00e3o concordo. A Xana, por exemplo, n\u00e3o tem uma imagem cl\u00e1ssica.<br \/>\nM. J. \u2013 A Anabela Duarte \u00e9 bastante extravagante.<br \/>\n<strong>P. \u2013 O neg\u00f3cio, e n\u00e3o s\u00f3, da m\u00fasica em Portugal poderia comportar excessos do tipo dos cometidos por Sinead O\u2019Connor?<\/strong><br \/>\nF. P. \u2013 Se for uma coisa que fa\u00e7a sentido\u2026<br \/>\nM. J. \u2013 O que \u00e9 isso de excesso?<br \/>\n<strong>P. \u2013 No sentido de provoca\u00e7\u00e3o. L\u00e1 fora h\u00e1 uma mediatiza\u00e7\u00e3o e assimila\u00e7\u00e3o por parte da ind\u00fastria. Mas num pa\u00eds de brandos costumes como \u00e9 o nosso?&#8230;<\/strong><br \/>\nM. J. \u2013 Se aparecesse c\u00e1 uma mulher assim, na prov\u00edncia chacinavam-na! Quanto \u00e0 ind\u00fastria, \u00e9 Lisboa e Porto e pouco mais.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Somos um pa\u00eds de provincianos?<\/strong><br \/>\nF. P., M. J. e T. S. \u2013 (em coro) \u2013 Acho que sim!<br \/>\nM. J. \u2013 Somos um pa\u00eds pequeno, conhecemo-nos todos uns aos outros. Conhecemos os cr\u00edticos, eles conhecem mais n\u00e3o sei quem, fica tudo uma coisa caseira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>pop rock >> quarta-feira, 03.02.1993 Tr\u00eas Cantoras Debatem M\u00fasica Portuguesa No Feminino CANTOS DA ALMA SENTIDA Reunimos o trio de ouro das vozes portuguesas. Para Maria Jo\u00e3o, Teresa Salgueiro e Filipa Pais, o prazer de se saberem c\u00famplices juntou-as quase imediatamente nos cantos que encheram os corredores do P\u00daBLICO. 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