{"id":8539,"date":"2020-11-20T11:08:19","date_gmt":"2020-11-20T18:08:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=8539"},"modified":"2020-11-20T11:08:19","modified_gmt":"2020-11-20T18:08:19","slug":"setima-legiao-fogo-que-arde-sem-se-ver-artigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2020\/11\/20\/setima-legiao-fogo-que-arde-sem-se-ver-artigo\/","title":{"rendered":"S\u00e9tima Legi\u00e3o &#8211; &#8220;Fogo Que Arde Sem Se Ver&#8221; (artigo)"},"content":{"rendered":"<p>Pop Rock >> Quarta-Feira, 04.11.1992<\/p>\n<p><strong>FOGO QUE ARDE SEM SE VER<\/strong><\/p>\n<p><strong>Quem brinca com o fogo queima-se, costuma-se dizer. Os S\u00e9tima Legi\u00e3o tiveram o atrevimento. \u201cO Fogo\u201d, quarto \u00e1lbum da sua discografia, acabado de editar, n\u00e3o faz contudo justi\u00e7a ao t\u00edtulo. Se o fogo \u00e9 s\u00edmbolo de mudan\u00e7a, n\u00e3o foi por causa disso que os S\u00e9tima Legi\u00e3o se afastaram da linha que sempre caracterizou a sua m\u00fasica: um misto do Portugal m\u00edtico e de sons urbanos. M\u00fasica do mundo. \u00c9 uma tristeza que n\u00e3o se sabe de onde vem.<\/strong><\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 234;\ngoogle_ad_height = 60;\ngoogle_ad_format = \"234x60_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=8540\" rel=\"attachment wp-att-8540\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/setima.jpg\" alt=\"\" width=\"625\" height=\"434\" class=\"aligncenter size-full wp-image-8540\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/setima.jpg 625w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/setima-300x208.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/setima-624x433.jpg 624w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/setima-100x69.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 625px) 100vw, 625px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>Ricardo Camacho, co-produtor e teclista, e Pedro Oliveira, vocalista, puseram as m\u00e3os no fogo, nas chamas frias de um disco que sugere tons fun\u00e9reos, marcando o ponto de encontro entre a festa e a morte. Mudan\u00e7a, \u201ca heran\u00e7a de mudar\u201d de que fala a letra de uma can\u00e7\u00e3o dos S\u00e9tima Legi\u00e3o, a existir neste \u00e1lbum, n\u00e3o \u00e9 muito percept\u00edvel, a n\u00e3o ser talvez no t\u00edtulo. \u201cDepois dos tr\u00eas \u00e1lbuns anteriores, \u2018A Um Deus Desconhecido\u2019, \u2018Mar de Outubro\u2019 e \u2018De Um Tempo Ausente\u2019, quando se encontra um t\u00edtulo com apenas uma palavra, \u00e9 \u00f3bvio que est\u00e1 impl\u00edcita uma inten\u00e7\u00e3o de mudar\u201d \u2013 diz Ricardo Camacho, para quem \u201cessa inten\u00e7\u00e3o encontra correspond\u00eancia no conte\u00fado do disco\u201d.<br \/>\nMas a que n\u00edvel se localiza tal mudan\u00e7a? Ricardo Camacho brinca: \u201cEstivemos para colocar um carimbo a dizer \u2018este disco n\u00e3o cont\u00e9m a palavra mar\u2019. \u201c Percebe-se a inten\u00e7\u00e3o. Os S\u00e9tima Legi\u00e3o nunca foram nem pretendem ser her\u00f3is do mar portugu\u00eas. Se algo mudou, foram \u201cprocessos de trabalho e aproxima\u00e7\u00f5es de composi\u00e7\u00e3o\u201d. Camacho d\u00e1 exemplos: \u201cNo \u00e1lbum anterior [\u2018De Um Tempo Ausente\u2019] n\u00e3o se ouve uma \u00fanica bateria, \u00e9 tudo programado. Neste, seguimos uma aproxima\u00e7\u00e3o totalmente diferente, embora tenhamos utilizado \u2018samplers\u2019 e composto sobre \u2018loops\u2019, deix\u00e1mos ficar apenas o trabalho posterior efectuado sobre as primeiras grava\u00e7\u00f5es, que foram apagadas.\u201d<\/p>\n<p><strong>Recusar O \u00d3bvio<\/strong><\/p>\n<p>Em \u201cO Fogo\u201d, s\u00e3o evidentes os elementos conot\u00e1veis com a \u201cworld music\u201d, na linha do que j\u00e1 acontecera nos \u00e1lbuns anteriores, s\u00f3 que, desta vez, projectados para a frente das misturas. Ricardo Camacho, numa alus\u00e3o ao tema \u201cA Voz do Deserto\u201d, \u00e1rabe sem disfarces, afirma n\u00e3o ter problemas em trabalhar, como \u00e9 o caso, \u201cem f\u00f3rmulas fora da sonoridade habitual\u201d dos S\u00e9tima Legi\u00e3o. Na altura em que o tema foi composto, h\u00e1 dois anos, o termo \u201cworld music\u201d mal come\u00e7ara o seu assalto em for\u00e7a aos \u201cmedia\u201d. Agora a excep\u00e7\u00e3o tornou-se a regra: \u201cIrritou-me ouvir o Jah Wobble ou a Anne Dudley com o Jaz Coleman a fazerem coisas semelhantes.\u201d<br \/>\nO importante \u00e9, acima de tudo, para os S\u00e9tima Legi\u00e3o, \u201cnunca fazer nada que seja completamente \u00f3bvio\u201d. Segundo Ricardo Camacho, a banda \u201cnunca teve uma letra que fosse totalmente expl\u00edcita ou m\u00fasica que revelasse uma influ\u00eancia maiorit\u00e1ria\u201d. \u201cOdeio o expl\u00edcito!\u201d, diz o produtor e teclista.<br \/>\nH\u00e1 quem veja o som dos S\u00e9tima Legi\u00e3o subjugado \u00e0 vontade omnipotente do produtor. O pr\u00f3prio reconhece que \u201cexiste um som Ricardo Camacho de tal forma vincado e viciado\u201d que, ao fim de dez anos, houve, aqui sim, necessidade de mudan\u00e7a: \u201cCheg\u00e1mos \u00e0 conclus\u00e3o de que, se quer\u00edamos mudar m\u00e9todos de trabalho, n\u00e3o poderia ser s\u00f3 eu o produtor [\u2018O Fogo\u2019 \u00e9 co-produzido por Am\u00e2ndio Bastos], teria de haver uma influ\u00eancia externa.\u201d<br \/>\nResultaram desta op\u00e7\u00e3o situa\u00e7\u00f5es engra\u00e7adfas. \u201cUma coisa que \u00e9 not\u00f3ria no disco \u00e9 o erro, erros t\u00e9cnicos. H\u00e1 pormenores que, do ponto de vista t\u00e9cnico, est\u00e3o errados, por exemplo, as guitarras est\u00e3o nalguns casos obviamente desafinadas.\u201d<br \/>\n\u201cEm circunst\u00e2ncias normais\u201d, continua Ricardo Camacho, \u201ca primeira tend\u00eancia seria dizer \u2018p\u00e1ra, desgrava e vamos fazer outra vez\u2019. Mas depois fui for\u00e7ado a confrontar-me com a situa\u00e7\u00e3o e a perguntar-me: \u2018OK, isto n\u00e3o est\u00e1 inteiramente correcto, mas soa mal?\u2019 Fui obrigado a reconhecer que n\u00e3o.\u201d<br \/>\nBrian Eno ficaria contente se ouvisse o m\u00fasico portugu\u00eas. \u201cO Eno era mais radical, honra lhe seja feita. Ele comp\u00f5e a partir do erro, coisa que n\u00f3s, ali\u00e1s, tamb\u00e9m j\u00e1 fizemos.\u201d Quando? \u201c\u00c0s vezes estamos a tentar uma coisa qualquer e acontece uma daquelas grandes broncas que afinal acabam por soar extraordinariamente bem e que obrigam a abandonar tudo e a seguir noutra direc\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p><strong>As Piores Vozes Do Mundo<\/strong><\/p>\n<p>\u00c0 m\u00fasica portuguesa tradicional, que desde \u201cA Um Deus Desconhecido\u201d as pessoas se habituaram a associar aos S\u00e9tima Legi\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 dada grande import\u00e2ncia, pelo menos \u201ca priori\u201d. \u201cTem que ver com a utiliza\u00e7\u00e3o da gaita-de-foles. Mas, se em vez de uma gaita-de-foles tiv\u00e9ssemos usado outros instrumento qualquer, sei l\u00e1, um clarinete, se calhar ter\u00edamos feito uma aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00fasica dos Balc\u00e3s\u2026\u201d Neste aspecto, como em quase tudo, a banda diz-se \u201cintuitiva\u201d e \u201cinstintiva\u201d, recusando-se a ser considerada como uma banda cerebral, de est\u00fadio.<br \/>\nN\u00e3o tanto, pelo menos, como os Guns\u2019n\u2019Roses que, segundo Camacho, \u00e9 um grupo \u201cmuito mais cerebral. O alvo era o n\u00famero um do \u2018top\u2019 americano. \u00c2pontaram e acertaram em cheio\u201d. No caso dos S\u00e9tima Legi\u00e3o, \u00e9 mais uma quest\u00e3o de \u201crigor\u201d e a \u201cnecessidade de racionalizar os poucos meios\u201d dispon\u00edveis \u2013 \u201cem 22 dias de est\u00fadio [tantos quantos demoraram a gravar \u2018O Fogo\u2019}, a disciplina tem de ser grande\u201d.<br \/>\nAs vocaliza\u00e7\u00f5es s\u00e3o, para alguns, um dos pontos fracos dos S\u00e9tima Legi\u00e3o. Para Pedro Oliveira, o principal visado, \u201c\u00e9 uma hist\u00f3ria antiga\u201d. Segundo ele, a banda sempre \u201caproveitou a voz como mais umj instrumento, com a mesma import\u00e2ncia da gaita-de-foles ou das teclas\u201d. Assume que os S\u00e9tima Legi\u00e3o nunca tiveram \u201cuma imagem forte de vocalista, mesmo ao vivo\u201d.<br \/>\nRicardo Camacho n\u00e3o v\u00ea nisso qualquer problema: \u201cNo nosso primeiro \u00e1lbum, a voz era um dos elementos mais emblem\u00e1ticos. O disco apareceu na ressaca do rock portugu\u00eas, numa \u00e9poca de recess\u00e3o, era uma voz que n\u00e3o gritava, uma voz contra a corrente.\u201d Avan\u00e7a na teoria: \u201cat\u00e9 ouvi dizer que a Teresa Maiuko tem a melhor voz de Portugal. A Dulce tamb\u00e9m. Provavelmente t\u00eam\u2026 Tecnicamente irrepreens\u00edveis\u2026 Mas ser\u00e1 isso o mais importante?\u201d Claro que n\u00e3o. \u201cO Lou Reed tem a pior voz do mundo. O Bob Dylan \u2018idem\u2019. Suzanne Veja n\u00e3o tem voz, ela pr\u00f3pria a define como um \u2018useful instrument\u2019.\u201d<\/p>\n<p><strong>Privil\u00e9gios<\/strong><\/p>\n<p>Os S\u00e9tima Legi\u00e3o, \u00e9 for\u00e7oso reconhec\u00ea-lo, s\u00e3o um grupo dif\u00edcil de catalogar. Eles n\u00e3o renegam as influ\u00eancias, que s\u00e3o v\u00e1rias, mas procuram seguir em frente sem qualquer tipo de press\u00f5es. De resto, acreditam que \u00e9 dif\u00edcil ser-se completamente original. Nem isso \u00e9 para para eles de primordial import\u00e2ncia. Acreditam que \u201ca cultura portuguesa leva com todas as influ\u00eancias mais uma em cima\u201d.<br \/>\nApesar do embate, continuam a achar que a m\u00fasica portuguesa sobreviveu como \u201centidade pr\u00f3pria\u201d. O teclista \u00e9 mesmo de opini\u00e3o que \u201ca m\u00fasica portuguesa nunca andou tanto nas ruas da amargura como durante os 40 e tal anos em que esteve confinada ao \u201cghetto\u201d do nacionalismo provinciano\u201d.<br \/>\nBanda pouco dada aos prazeres das actua\u00e7\u00f5es ao vivo, os S\u00e9tima Legi\u00e3o preparam-se para levar \u201cO Fogo\u201d \u00c0s diversas regi\u00f5es do pa\u00eds numa digress\u00e3o de promo\u00e7\u00e3o ao \u00e1lbum. Mas evitam o excesso de concertos, numa atitude que contrasta com a de muitos grupos nacionais. Ricardo Camacho vai ao ponto de se recusar \u201cterminantemente a fazer concertos quando n\u00e3o h\u00e1 \u201cnada de novo para apresentar\u201d. Tocar por tocar \u00e9, segundo ele, \u201cuma atitude desonesta \u2013 fazer o mesmo concerto dutante anos \u00e9 arrastar-se pelos palcos do pa\u00eds a requentar m\u00fasicas que toda a gente conhece\u201d.<br \/>\nNeste aspecto, os S\u00e9tima Legi\u00e3o podem considerar-se um grupo privilegiado. \u201cFelizmente, temos condi\u00e7\u00f5es que a maioria das bandas portuguesas n\u00e3o tem\u201d, reconhece Pedro Oliveira, \u201ce desde o princ\u00edpio definimos que a nossa sobreviv\u00eancia nunca iria depender do grupo.\u201d Os S\u00e9tima Legi\u00e3o, grupo elitista? \u201cN\u00e3o. As eleites socio-econ\u00f3micas, em Portugal, ouvem J\u00falio Igl\u00e9sias\u2026\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pop Rock >> Quarta-Feira, 04.11.1992 FOGO QUE ARDE SEM SE VER Quem brinca com o fogo queima-se, costuma-se dizer. 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