{"id":8397,"date":"2020-10-02T08:58:53","date_gmt":"2020-10-02T15:58:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=8397"},"modified":"2020-10-02T08:58:53","modified_gmt":"2020-10-02T15:58:53","slug":"alfredo-marceneiro-no-fado-e-no-oficio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2020\/10\/02\/alfredo-marceneiro-no-fado-e-no-oficio\/","title":{"rendered":"Alfredo Marceneiro &#8211; &#8220;No Fado E No Of\u00edcio&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Pop Rock >> Quarta-Feira, 19.08.1992<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>Alfredo Marceneiro<br \/>\nNO FADO E NO OF\u00cdCIO<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n<strong>O melhor de Alfredo Marceneiro \u00e9 tudo: a voz, as hist\u00f3rias, a mestria do fado e da vida. O disco, j\u00e1 h\u00e1 algum tempo lan\u00e7ado no mercado, \u00e9 mais uma homenagem a esta figura que revolucionou o fado. De bon\u00e9, len\u00e7o em volta do pesco\u00e7o e cigarro ao canto da boca, compunha a imagem do ging\u00e3o, das tascas e das cegadas. Da voz sempre a puxar ao sentimento.<\/strong><\/p>\n<p><center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=8398\" rel=\"attachment wp-att-8398\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/am.jpg\" alt=\"\" width=\"561\" height=\"736\" class=\"aligncenter size-full wp-image-8398\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/am.jpg 561w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/am-229x300.jpg 229w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/am-76x100.jpg 76w\" sizes=\"auto, (max-width: 561px) 100vw, 561px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m a cantar o fado como o meu pai e a senhora Am\u00e1lia.\u201d Para Alfredo Duarte J\u00fanior, o seu pai, Alfredo Marceneiro, \u201cfoi o maior\u201d. Foi, de facto. \u201cEle modificou o fado. Era um mestre. A maneira dele dizer, falar (o fado), n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que possa fazer aquilo.\u201d Aquilo era o sentimento. O que vem de dentro e n\u00e3o se aprende. \u201cDe resto, toda a gente canta bem\u2026\u201d Novos fadistas para quem o fado afinal nem \u00e9 uma forma de vida assim t\u00e3o estranha. \u201cEles aprenderam a cantar. O meu pai n\u00e3o. O cora\u00e7\u00e3o \u00e9 que manda.\u201d<br \/>\nAlfredo Duarte J\u00fanior seguiu as pisadas do pai e tamb\u00e9m ele canta o fado. Todas as noites, na Adega Machado, lend\u00e1ria casa de fados do Bairro Alto onde, entre outros, cantaram o pai e Am\u00e1lia Rodrigues. Numa das paredes l\u00e1 est\u00e1 a l\u00e1pide com o retrato de Marceneiro, a recordar a data de inaugura\u00e7\u00e3o, em que esteve presente, h\u00e1 52 anos.<br \/>\nHoje, Alfredo Duarte J\u00fanior continua a tradi\u00e7\u00e3o. Come\u00e7ou a cantar o fado em festas de benefic\u00eancia. Na Adega Machado est\u00e1 h\u00e1 18 anos consecutivos. Tem 68, 50 de fado. \u201cEsta vida \u00e9 muito chata e eu c\u00e1 tenho que gramar isto h\u00e1 50 anos\u201d, desabafa meio a s\u00e9rio meio a brincar. O pai n\u00e3o queria que ele cantasse, mas \u00e9 a tal coisa: \u201co cora\u00e7\u00e3o \u00e9 que manda.\u201d \u201cO meu pai fez m\u00fasicas, eu fa\u00e7o m\u00fasicas. Isto \u00e9 da gente.\u201d<br \/>\nM\u00fasicas que Alfredo Marceneiro interpretou como nenhum outro fadista da sua gera\u00e7\u00e3o. Nas vielas e nas tascas de Campo de Ourique, com os rivais, \u201ca disputar uma medalha de ouro, para ver quem era o melhor do bairro\u201d ou, mais tarde, no seu pr\u00f3prio restaurante, o Nova Sintra ou Solar do Marceneiro, como era costume chamarem-lhe, na Cal\u00e7ada do Carriche. Mas sempre em Portugal. \u201cA casa da Mariquinhas\u201d, \u201cO b\u00eabedo pintor\u201d, \u201cTricana\u201d, \u201cO amor \u00e9 \u00e1gua que corre\u201d, \u201cA senhora do monte\u201d e tantos outros fados que Marceneiro cantou com aquela sua voz inconfund\u00edvel que a idade foi tornando mais casti\u00e7a. At\u00e9 aos 90 anos, quando parou de cantar, antes de falecer, dois anos mais tarde, em 1983.<\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 200;\ngoogle_ad_height = 200;\ngoogle_ad_format = \"200x200_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><strong>A Cama De D. Maria<\/strong><\/p>\n<p>Tinha fama de ter um car\u00e1cter dif\u00edcil. \u201cNa vida art\u00edstica nunca me ajudou\u201d, recorda Alfredo J\u00fanior. \u201cAt\u00e9 dizia mal de mim e tudo.\u201d \u00c9 mais um desabafo do que uma acusa\u00e7\u00e3o \u2013 \u201co homem dizia aquilo, mas at\u00e9 nem era m\u00e1 pessoa\u201d \u2013 da parte de quem sente o peso de ser filho de um mito. \u201cO meu pai era o meu pai, eu sou eu.\u201d Alfredo J\u00fanior vai mais longe, na \u00e2nsia de se distanciar da presen\u00e7a tutelar do pia, recusando-se a cantar os mesmos fados que este cantava. Uma \u00fanica concess\u00e3o, quando \u00e0s vezes inclui no report\u00f3rio uma raps\u00f3dia de sete temas do autor da \u201cTricana\u201d \u2013 \u201csete fados num s\u00f3\u201d, como ele diz -, embora tenha um ponto de honra: \u201cN\u00e3o imito o meu pai, nem tenho prazer em faz\u00ea-lo.\u201d<br \/>\nAlfredo J\u00fanior relembra com saudade o dia em que foi aceite pelos mestres. \u201cO meu pai, uma vez no Porto, disse-me: \u2018P\u00e1, j\u00e1 \u00e9s do primeiro \u2018team\u2019. O Carlos Ramos dizia-me: \u2018Olha o puto, est\u00e1 porreiro, j\u00e1 \u00e9 do primeiro \u2018team\u2019. Foi no Clube dos Foli\u00f5es, um clube de ilusionistas, tinham ido l\u00e1 cantar o meu pai, o Carlos Ramos, o Max, a Maria da Concei\u00e7\u00e3o\u2026 J\u00e1 se foram todos\u2026\u201d<br \/>\nH\u00e1 outras, muitas hist\u00f3rias que Alfredo J\u00fanior recorda, relacionadas com o fado ou com a profiss\u00e3o de marceneiro que o pai manteve durante toda a vida. Por exemplo, quando era \u201cmestre de oficina, na CUF\u201d, e veio ter com ele um tal \u201csenhor Perestrelo, que mandava no Museu de Arte Antiga, nas Janelas Verdes\u201d, pedir-lhe os seus servi\u00e7os. \u201cHavia l\u00e1 uma cama de D. Maria n\u00e3o-sei-quantas. Disseram-lhe que quem era bom a arranjar m\u00f3veis antigos sera fulano de tal \u2018\u00c9 p\u00e1, \u00f3 Alfredo\u2026 O meu pai foi l\u00e1 ver a cama e disseram-lhe: \u201c\u00d3 meu amigo, para arranjar isto h\u00e1 a\u00ed um quinta.\u2019 Havia l\u00e1 madeira velha para fazer a restaura\u00e7\u00e3o da cabeceira da cama\u2026 Nessa \u00e9poca punha-se uma fogueira, o grude\u2026 Agora j\u00e1 h\u00e1 colas para a\u00ed, Robialac, at\u00e9 cola os dedos\u2026 O meu pai utilizou grude, arranjou uns bocados de madeira velha\u2026 Ainda l\u00e1 est\u00e1 a cama arranjada, nas Janelas Verdes!&#8230;\u201d<\/p>\n<p><strong>Do \u201cAi Ai\u201d Ao Martelinho<\/strong><\/p>\n<p>Depois h\u00e1 aquele pormenor, que quase toda a gente conhece, mas que o filho de Alfredo Marceneiro sente prazer em referir, de ter sido o pai quem inventou o  costume de cantar o fado \u00e0m\u00e9dia luz. Foi o Marceneiro quem imp\u00f4s que se apagasse uma vela enfiada no gargalo de uma garrafa, sobre a mesa. \u201cEu tenho de cantar\u201d, pedia o fadista, \u201cn\u00e3o quero luzes acesas!\u201d Mas nem sempre Alfredo Marceneiro era t\u00e3o r\u00edgido. Purista em rela\u00e7\u00e3o ao fado, em certas ocasi\u00f5es l\u00e1 fazia as suas ced\u00eancias.<br \/>\nNo Nova Sintra constumava atrair os clientes que vinhma das \u2018boites\u2019 e iam para a Cal\u00e7ada do Carricvhe acabar a noite\u201d de forma pouco ortodoxa. \u201cEle via os carros entrarem para o estacionamento e procurava criar ambiente a cantar uma valsa: \u2018Ai ai ai ai, olha o cheiro que a rosa tem, ai ai ai ai, chega \u00e0 janela, donzela, vem c\u00e1\u2026\u201d\u2019 Foi ele o culpado dessa coisa do \u2018ai ai\u2019, por causa do restaurante.\u201d<br \/>\nNeste aspecto as coisas n\u00e3o mudaram muito. Alfredo Duarte J\u00fanior conta que uma das suas actua\u00e7\u00f5es na adega cantou por brincadeira uns versos mais picarescos: \u201cAtirei ao meu martelo \/  para dentro de um convento \/ o que far\u00e3o as freiras \/ \u2026\u201d A partir dessa noite as pessoas n\u00e3o pararam de os pedir: \u201cAs pessoas chateiam-me, eu n\u00e3o quero mas acabo por ter de cantar \u2018O martelinho\u2019. \u00c0s vezes estou com a ideia de cantar para o casti\u00e7o e aparece-me um sacana ou uma gaja qualquer a dizer: \u2018Vim c\u00e1 para ouvir \u2018O martelinho.\u2019 E tenho que lhes fazer a vontade, o que \u00e9 que eu hei-de fazer?\u201d<\/p>\n<p><strong>O Fado E Os \u201cFadistas\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Num ponto Alfredo J\u00fanior n\u00e3o cede: \u201cL\u00e1 marchinhas e isso n\u00e3o canto nada, nem tenho tempo para aprender. E sei-as todas\u2026 Fazer refr\u00f5es e essas coisas, n\u00e3o!\u201d Mas logo a seguir condescende: \u201c\u00c0s vezes brinco, tem que se brincar, isto n\u00e3o \u00e9 nenhuma igreja.\u201d A intransig\u00eancia volta no entanto e o fadista indigna-se, quando lhe apontam a nova gera\u00e7\u00e3o de cantadores: \u201cAgora apareceu uma gente que aprendeu a cantar pelos discos, \u00e9 tudo uma cambada de aldrab\u00f5es!\u201d Para ele n\u00e3o s\u00e3o dignos de serm chamados fadistas \u201cpessoas que andam a\u00ed a cantar \u2018Uma casa portugues\u2019, \u2018Coimbra do Choupal\u2019 ou o \u2018Cochicho\u2019. Vai mais longe quando se refere ao erotismo que, segundo ele, entrou nas casas de fado: \u201cAgora arranjam umas gajas com umas mamas (faz o gesto, a designar uma grande dimens\u00e3o) a cantar o n\u00e3o-sei-quantos, a \u2018casa portuguesa\u2019, \u2018Lisboa antiga\u2019\u2026\u201d E remata com um coment\u00e1rio digno de um M\u00e1rio Cortes: \u201cMas o que \u00e9 isto?\u201d<br \/>\nLembra, a prop\u00f3sito, os gostos do pai, em mat\u00e9ria do fado verdadeiro. \u201cO cantador que ele gostou mais, n\u00e3o sei se ainda est\u00e1 vivo, foi o Joaquim Campos. Tinha sentimento. O J\u00falio Proen\u00e7a era mais vozeir\u00e3o. Morreu em Mo\u00e7ambique. Ele e o Alberto Costa, o velho que cantava o fado de Coimbra, mas cuidado com ele, foram os dosi maiores amigos do meu pai.\u201d<br \/>\nOutros tempos, de um passado que, por alguns instantes m\u00e1gicos, teima em n\u00e3o desaparecer. Em locais como aquela tasca do Bairro Alto onde \u201cuma velha chamada Judite Pinto, com oitenta e tal anos, canta o fado e mais nada\u201d.<br \/>\nInimit\u00e1vel por natureza, o estilo de Alfredo Marceneiro atraiu muitos que o procuravam imitar \u2013 \u201cest\u00e3o a 500 km de dist\u00e2ncia. Eu estou perto, mas n\u00e3o quero imitar ningu\u00e9m.\u201d E Alfredo J\u00fanior conta que uma vez Fernando Pereira lhe pediu para reproduzir a voz do pai, proeza que ele consegue muito bem, para estudar uma imita\u00e7\u00e3o a incluir num quadro de revista. O filho de Marceneiro trocou as voltas ao imitador, cantando alternadamente com a voz do pai e a sua pr\u00f3pria. Fernando Pereira, confuso, foi obrigado a desistir da ideia.<br \/>\nUma coisa aborrece de facto Alfredo Duarte J\u00fanior e leva-o a afirmar que o \u201cpovo portugu\u00eas \u00e9 muito cahto\u201d, com desconhecidos constantemente a abord\u00e1-lo \u201cnos Restauradores, no Rossio, no Metro\u201d, a dizerem-lhe vacuidades do tipo: \u201cFui com o seu pai para o Ritz, fui para ali e para aqui com o seu pai.\u201d N\u00e3o me chateiem com o meu pai todos os dias\u201d, explode num desabafo. \u201cEle j\u00e1 morreu. Acha que est\u00e1 bem?\u201d<br \/>\n\u00c9 este o seu fado. Os outrso, toda a gente os canta. Alfredo Marceneiro canatav-os de maneira diferente. \u201cCom l\u00eddima express\u00e3o e voz sentida \/ hei-de cumprir o mundo \/ a minha sorte Afredo \/ Marceneiro para toda a vida \/ para cantar o fado.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pop Rock >> Quarta-Feira, 19.08.1992 Alfredo Marceneiro NO FADO E NO OF\u00cdCIO O melhor de Alfredo Marceneiro \u00e9 tudo: a voz, as hist\u00f3rias, a mestria do fado e da vida. O disco, j\u00e1 h\u00e1 algum tempo lan\u00e7ado no mercado, \u00e9 mais uma homenagem a esta figura que revolucionou o fado. 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