{"id":8379,"date":"2020-09-25T10:17:17","date_gmt":"2020-09-25T17:17:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=8379"},"modified":"2020-09-25T10:17:17","modified_gmt":"2020-09-25T17:17:17","slug":"genesis-a-companhia-dos-bobos-concerto-estadio-de-alvalade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2020\/09\/25\/genesis-a-companhia-dos-bobos-concerto-estadio-de-alvalade\/","title":{"rendered":"Genesis &#8211; &#8220;A Companhia Dos Bobos&#8221; (concerto \/ est\u00e1dio de alvalade)"},"content":{"rendered":"<p>Cultura >> Sexta-Feira, 24.07.1992<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>A Companhia Dos Bobos<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n<strong>Phil Collins recuperou em Alvalade a digna profiss\u00e3o de bobo. F\u00ea-lo de forma inteligente e, porque n\u00e3o diz\u00ea-lo, perversa. O cantor e baterista dos Genesis divertiu e divertiu-se, mostrando ser um manipulador de massas competente. As massas obedeceram ao mestre, e durante a maior parte do tempo n\u00e3o desviaram os olhos do ecr\u00e3. O teatro dos Genesis \u00e9 uma experi\u00eancia de laborat\u00f3rio.<\/strong><\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 336;\ngoogle_ad_height = 280;\ngoogle_ad_format = \"336x280_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=8380\" rel=\"attachment wp-att-8380\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/genesis.jpg\" alt=\"\" width=\"566\" height=\"754\" class=\"aligncenter size-full wp-image-8380\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/genesis.jpg 566w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/genesis-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/09\/genesis-75x100.jpg 75w\" sizes=\"auto, (max-width: 566px) 100vw, 566px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>Tudo funciona com am min\u00facia milim\u00e9trica de um instrumento de precis\u00e3o. Os Genesis s\u00e3o hoje um grupo de cientistas que transp\u00f5e a experi\u00eancia de Pavlov para o contexto de um ritual rock. As cerca de 50 mil pessoas presentes na noite de quarta-feira no est\u00e1dio de Alvalade uniram-se no corpo do c\u00e3o. Phil Collins vestiu a bata branca, pegou no bisturi e aplicou-lhe os choques el\u00e9ctricos, segundo a t\u00e9cnica de um \u201cinvisible touch\u201d indolor, s\u00f3 ao alcance dos magos negros. O c\u00e3o reagiu a cada est\u00edmulo e salivou com abund\u00e2ncia, com a inconsci\u00eancia satisfeita dos grandes organismos colectivos.<br \/>\nNada aparece por acaso no espect\u00e1culo que os Genesis trouxeram a Portugal. Da apresenta\u00e7\u00e3o de temas antigos como \u201cThe lamb lies down on Broadway\u201d ou \u201cI know what I like (in your wardrobe)\u201d que serviram para mostra que a banda se filia numa tradi\u00e7\u00e3o, sugerindo uma continuidade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma\u00e7\u00e3o original que de facto n\u00e3o existe, at\u00e9 \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o \u201ccient\u00edfica\u201d das imagens de computador e aos jogos interactivos entre Collins e a multid\u00e3o (entre o mestre e os disc\u00edpulos), h\u00e1 a inten\u00e7\u00e3o de subjugar, dominar e vencer. Por detr\u00e1s do bobo esconde-se o esgar de Nietzsche e a vontade de poder.<br \/>\nA simula\u00e7\u00e3o prevaleceu sempre sobre o real. Ou, dito de outro modo, passou-se para uma realidade diferente. Em \u201cJesus he knows me\u201d, as imagens do ecr\u00e3 gigante instalado sobre o palco mostravam um segundo ecr\u00e3 no interior do qual se movimentavam os Genesis \u201creais\u201d, em baixo, reproduzindo os gestos de evangelista louco de Phil Collins, na sua interpela\u00e7\u00e3o ao divino e ao dil\u00favio dos d\u00f3lares.<br \/>\nDo registo aned\u00f3tico e da simula\u00e7\u00e3o visual passou-se \u00e0 pr\u00e1tica. Momento m\u00e1gico, na verdadeira acep\u00e7\u00e3o do termo, aconteceu quando o vocalista provocou um \u201cvery special moment\u201d, pedindo a uni\u00e3o telep\u00e1tica da multid\u00e3o com o \u201coutro mundo\u201d. \u201cI can feel something happening\u201d, gritava e gesticulava Phil Collins, num transe, enquanto ia dando as instru\u00e7\u00f5es: \u201cWave your arms in the air\u201d e a multid\u00e3o levantou e agitou os bra\u00e7os em \u00eaxtase. Agora gritem em conjunto: \u201cuuh uuh uuh\u201d. E a multid\u00e3o gritou em conjunto \u201cuuh uuh uuh\u201d. Melhor que isto s\u00f3 Frank Zappa quando, num espect\u00e1culo, conseguiu p\u00f4r milhares de alem\u00e3es a fazer a sauda\u00e7\u00e3o nazi.<br \/>\nPhil Collins teve toda a gente na m\u00e3o. A cada \u201cobrigado\u201d pronunciado em portugu\u00eas os milhares de cabe\u00e7as responderam em un\u00edssono com um urro ensurdecedor. E muitos foram os coment\u00e1rios feitos por ele nesta l\u00edngua (um \u201cmore portuguese \u2013 you lucky people\u201d solto com cinismo foi muito aplaudido, com o recurso a uma c\u00e1bula que o ajudava na montagem dos \u201cgags\u201d. O gajo \u00e9 mesmo porreiro, mesmo se por momentos tivesse deixado cair a m\u00e1scara e, em voz r\u00edspida, amea\u00e7asse ir-se embora caso as pessoas n\u00e3o deixassem de atirar fogo de artif\u00edcio para o palco.<\/p>\n<p><strong>O Princ\u00edpio Do Domin\u00f3<\/strong><\/p>\n<p>Mas foi durante a interpreta\u00e7\u00e3o de \u201cDomino\u201d que se tornou clara a estrat\u00e9gia subjacente \u00e0 feitura do espect\u00e1culo. Phil Collins explicou o \u201cprinc\u00edpio do domin\u00f3\u201d e o modo como a menor ac\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m situado num dos extremos do est\u00e1dio afectava necessariamente todos os outros localizados no extremo oposto e assim por diante, numa ac\u00e7\u00e3o rec\u00edproca entre todos os indiv\u00edduos que compunham a multid\u00e3o. No ecr\u00e3 gigante passavam imagens coloridas e hipn\u00f3ticas ao estilo \u201c2001 \u2013 Odisseia No Espa\u00e7o\u201d (de resto, na maior parte do tempo, as pessoas proeferiram olhar para o ecr\u00e3, ignorando o que se passava em palco) e, a seguir, tr\u00eas pe\u00e7as de domin\u00f3, a preto e brnaco, piscando e alternando ritmadamente o positivo com o negativo \u2013 o trivial nos exerc\u00edcios de hipnose. A cada uma das pe\u00e7as de domin\u00f3 sobrep\u00f4s-se ent\u00e3o a imagem dos tr\u00eas m\u00fasicos, tombando na direc\u00e7\u00e3o da assist\u00eancia de modo a n\u00e3o ofercer d\u00favidas sobre quem originava a reac\u00e7\u00e3o de queda em cadeia.<br \/>\nLogo a seguir, um batuque poderoso sustentado pelo di\u00e1logo entre as baterias de Phil Collins e Chester Thompson contribuiu para aumentar o transe. \u201cWE can\u2019t dance\u201d mostrou Phil Collins completamente \u00e0 vontade no papel de bobo, percorrendo o palco com passos rid\u00edculos dignos de um John Cleese, enquanto, por cima, o ecr\u00e3 mostrava imagens do respectivo teledisco. Registaram-se durante este tema as imagens mais \u201chard\u201d, com o vocalista a meter a m\u00e3o por dentro das cal\u00e7as e agitar as partes pudendas. Os numerosos pais que levaram a Alvalade uma catrefa de filhos menores \u00e9 que n\u00e3o ter\u00e3o apreciado especialmente esta parte do espect\u00e1culo.<br \/>\nOs tr\u00eas encores, \u201cTonight, tonight, tonight\u201d, \u201cInvisible touch\u201d e \u201cTurn it on again\u201d, serviram para a explos\u00e3o final dos \u201cvari-lites\u201d, numa curiosa evoca\u00e7\u00e3o psicad\u00e9lica, e para acalmar uma multid\u00e3o finalmente saciada.<br \/>\nProvoca\u00e7\u00e3o, humor e manipula\u00e7\u00e3o foram, em suma, as palavras de ordem desta segunda passagem dos Genesis por Portugal que, pelo menos, n\u00e3o ter\u00e1 deixado ningu\u00e9m indiferente. Se bem que hoje o teatro seja outro, bem diferente da poesia encenada pelo dissidente Peter Gabriel. A antiga met\u00e1fora e jogo de ilus\u00f5es \u00e0 escala humana que em 1975 serviram de suporte ao monumental \u201cThe Lamb Lies Down On Broadway\u201d, foram substitu\u00eddos pela t\u00e9cnica e pela psicologia de massas. A alucina\u00e7\u00e3o, essa, permanece.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cultura >> Sexta-Feira, 24.07.1992 A Companhia Dos Bobos Phil Collins recuperou em Alvalade a digna profiss\u00e3o de bobo. F\u00ea-lo de forma inteligente e, porque n\u00e3o diz\u00ea-lo, perversa. O cantor e baterista dos Genesis divertiu e divertiu-se, mostrando ser um manipulador de massas competente. 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