{"id":8277,"date":"2020-07-30T07:04:01","date_gmt":"2020-07-30T14:04:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=8277"},"modified":"2020-07-30T07:04:01","modified_gmt":"2020-07-30T14:04:01","slug":"mari-boine-persen-pela-terra-e-pela-gente-em-belem-mari-boine-persen-toca-no-molhado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2020\/07\/30\/mari-boine-persen-pela-terra-e-pela-gente-em-belem-mari-boine-persen-toca-no-molhado\/","title":{"rendered":"Mari Boine Persen &#8211; \u201c&#8217;Pela Terra E Pela Gente&#8217; Em Bel\u00e9m &#8211; Mari Boine Persen Toca No Molhado&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Cultura >> Ter\u00e7a-Feira, 16.06.1992<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>\u201cPela Terra E Pela Gente\u201d Em Bel\u00e9m<br \/>\nMari Boine Persen Toca No Molhado<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n<strong>Podia ter sido uma noite em cheio. Foi quase um desastre. A chuva que caiu durante a tarde estragou tudo. S. Pedro n\u00e3o gosta de m\u00fasica tradicional.<\/strong><\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 234;\ngoogle_ad_height = 60;\ngoogle_ad_format = \"234x60_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>N\u00e3o h\u00e1 m\u00fasica que resista ao que aconteceu domingo \u00e0 noite no relvado em Bel\u00e9m, Lisboa. Nem m\u00fasica, nem paci\u00eancia. Foi antes do concerto \u201cPela Terra e pela Gente\u201d, uma organiza\u00e7\u00e3o conjunta da Etnia e da Oikos, que a calamidade aconteceu. Estava previsto come\u00e7ar \u00e0s 21h00 mas a chuva que caiu durante a tarde encarregou-se de destruir as ilus\u00f5es. No Porto, na v\u00e9spera, pela mesma raz\u00e3o, nem chegou a haver concerto. M\u00e1rio Alves, da Etnia, visivelmente nervoso, levava as m\u00e3os \u00e0 cabe\u00e7a e queixava-se das condi\u00e7\u00f5es atmosf\u00e9ricas: \u201cParece que nos rogaram uma praga\u201d. Cabos encharcados, microfones avariados, n\u00e3o havia aparelh\u00f3metro el\u00e9ctrico que n\u00e3o desse de si.<br \/>\nEra a vingan\u00e7a da natureza contra a t\u00e9cnica, num concerto marcado desde o in\u00edcio pelas contrariedades. Cerca das 22h30, hora e meia depois da hora prevista, a apresentadora de servi\u00e7o anunciava, numa voz estridente de trompete, suficiente para romper mais um bocadinho da camada de ozono, o primeiro grupo da noite, os portuenses Toque de Caixa, aproveitando para proferir inanidades do tipo \u201ca m\u00fasica pode ter o sabor e o paladar da festa\u201d. Antes acontecera uma largada de bal\u00f5es e, de tarde, uma marcha e uma caravana ecol\u00f3gica. \u00c9 bom fazerem-se estas marchas e caravanas. Fizessem-se outras por esse mundo fora a ver se o problema ambiental n\u00e3o se resolvia num instante.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o H\u00e1 Terra Que Resista<\/strong><\/p>\n<p>A m\u00fasica come\u00e7ou mal, sem \u201csabor nem paladar a festa\u201d. Com os Toque de Caixa, vers\u00e3o \u201cVai de Roda\u201d dos pequeninos (alguns m\u00fasicos dividem-se pelas duas bandas) que, mal servidos por condi\u00e7\u00f5es sonoras deplor\u00e1veis conseguiram mesmo assim ser ainda piores que o som. Tocaram tradicionais portugueses e assassinaram outro, irland\u00eas \u2013 com muito cuidado para n\u00e3o se enganarem \u2013 e explicaram algunstemas. De forma sucinta mas bastante clara: \u201cum bolero \u00e9 um bolero\u201d; \u201c\u2019Lama grande\u2019 \u00e9 inspirado num lugar ali pr\u00f3s lados\u2026\u201d. A organiza\u00e7\u00e3o, numa atitude de louvar, fez-lhes sinal para se apressarem, at\u00e9 porque a hora j\u00e1 ia adiantada e a paci\u00eancia amea\u00e7ava esgotar-se. Eles, embora contrafeitos \u2013 \u201cfic\u00e1vamos a tocar aqui toda a noite\u201d \u2013 l\u00e1 se retiraram, a toque de caixa. Com m\u00fasica desta n\u00e3o h\u00e1 Terra nem gente que resista. A partir daqui foi sempre a despachar. 20 minutos para cada grupo, numa tentativa contra-rel\u00f3gio de conseguir que a estrela da noite e da Lap\u00f3nia, Mari Boine Persen, tocasse antes das cinco da manh\u00e3.<br \/>\nVieram a seguir os Caliche, do Chile. N\u00e3o adiantaram (at\u00e9 atrasaram) nada aos \u201cclich\u00e9s\u201d conhecidos da m\u00fasica dos Andes. Flautas de P\u00e3, aquele tema de que ningu\u00e9m recorda o nome (assim: \u201cturiruriru tu turiruru\u201d) mas que n\u00e3o sai da cabe\u00e7a, tudo junto, mais o adiantado da hora, irritaram enormemente quem era suposto ter de levantar-se na manh\u00e3 seguinte para trabalhar e n\u00e3o desistia de ver a lapona (\u00e9 assim que se diz?). R\u00e1pido, os seguintes!<\/p>\n<p><strong>Est\u00f3icos<\/strong><\/p>\n<p>Os seguintes fizeram esquecer todas as infelicidades da noite. Diely Seckou e a mulher, Ramata Kouyat\u00e9, acompanhados de dois fabulosos percussionistas, Lansine Kouyat\u00e9 (tocou com Salif Keita) e Djeli Moussa Cissoko (faz parte do grupo de Mory Kant\u00e9, integrou os Toure Kunda) trouxeram a \u00c1frica a Bel\u00e9m. M\u00fasica hipn\u00f3tica, calorosa, elemental. As vozes de vento entrela\u00e7ando-se nas madeiras em vibra\u00e7\u00e3o do balaf\u00e3o (xilofone africano), no ritmo riqu\u00edssimo de pormenores contrapont\u00edsticos, de fazer corar o conceptualismo dos minimais repetitivos. Seckou e Ramata fizeram mais pela terra do que quaisquer palavras. N\u00e3o \u00e9 a gram\u00e1tica, \u00e9 a sintonia, a simpatia, a conson\u00e2ncia.<br \/>\nFaltavam quinze minutos para a uma da manh\u00e3, quando Mari Boine Persen arribou ao palco e era j\u00e1 muito o cansa\u00e7o das escassas dezenas de resistentes que, a p\u00e9 firme ou sentados na relva, aguentaram, est\u00f3icos, a mensagem vinda da Lap\u00f3nia. Acompanhada por um baixo el\u00e9ctrico, um guitarrista que a dada altura resolveu ser Jimi Hendrix, uma flauta e percuss\u00f5es variadas, Mari Boine procurou, com relativo sucesso, recriar os ambientes carregados de mist\u00e9rio do \u00e1lbum \u201cGula Gula\u201d. Mas tamb\u00e9m nela o cansa\u00e7o era not\u00f3rio. E a desmotiva\u00e7\u00e3o de actuar para uma plateia t\u00e3o reduzida. A voz esteve mais apagada que no disco, as tonalidades sombrias da maior parte dos temas tamb\u00e9m n\u00e3o ajudaram a levantar os \u00e2nimos. Todos queriam voltar para casa o mais depressa poss\u00edvel. Mari Boine despediu-se, agradeceu a quantos permaneceram at\u00e9 ao fim e deste modo se esfumou o que poderia ter sido uma noite em cheio. N\u00e3o o quis S. Pedro, sab-se l\u00e1 porque carga de \u00e1gua.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cultura >> Ter\u00e7a-Feira, 16.06.1992 \u201cPela Terra E Pela Gente\u201d Em Bel\u00e9m Mari Boine Persen Toca No Molhado Podia ter sido uma noite em cheio. Foi quase um desastre. A chuva que caiu durante a tarde estragou tudo. S. Pedro n\u00e3o gosta de m\u00fasica tradicional. 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