{"id":8249,"date":"2020-07-16T04:25:53","date_gmt":"2020-07-16T11:25:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=8249"},"modified":"2020-07-16T04:25:53","modified_gmt":"2020-07-16T11:25:53","slug":"jose-duarte-frank-sinatra-acordar-para-a-realidade-entrevista-a-jose-duarte-sobre-frank-sinatra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2020\/07\/16\/jose-duarte-frank-sinatra-acordar-para-a-realidade-entrevista-a-jose-duarte-sobre-frank-sinatra\/","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Duarte, Frank Sinatra &#8211; &#8220;Acordar Para A Realidade&#8221; (entrevista a Jos\u00e9 Duarte sobre Frank Sinatra)"},"content":{"rendered":"<p>Pop Rock >> Quarta-Feira, 03.06.1992<\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 234;\ngoogle_ad_height = 60;\ngoogle_ad_format = \"234x60_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><strong>ACORDAR PARA A REALIDADE<\/strong><\/p>\n<p><strong>Em Frank Sinatra, encontrou Jos\u00e9 Duarte um professor. De ingl\u00eas e da arte de ser o lobo e o capuchinho vermelho. At\u00e9 de jazz. Considera-o \u201co maior cantor deste s\u00e9culo\u201d, \u201cum tipo cheio de \u2018charme\u2019\u201d e \u201cStranger in the night\u201d uma can\u00e7\u00e3o fraca. No Est\u00e1dio da Antas, o autor de Outras M\u00fasicas vai estar \u00e0 frente, na zona do \u201ccaviar e dos morangos\u201d. Para Sinatra o ver bem.<\/strong><\/p>\n<p><center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=8250\" rel=\"attachment wp-att-8250\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/fs.jpg\" alt=\"\" width=\"629\" height=\"457\" class=\"aligncenter size-full wp-image-8250\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/fs.jpg 629w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/fs-300x218.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/fs-624x453.jpg 624w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/fs-100x73.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 629px) 100vw, 629px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 duas maneiras de ouvir a m\u00fasica de Frank Sinatra\u201d \u2013 diz Jos\u00e9 Duarte -, uma \u201cpopular\u201d, outra mais \u201crequintada\u201d, s\u00f3 ao alcance dos \u201cgajos da m\u00fasica\u201d. O autor de Cinco Minutos de Jazz e do actual e aclamado Outras M\u00fasicas falou ao P\u00daBLICO das duas e provou \u201ccientificamente\u201d que Sinatra \u00e9 \u201cum cantor fabuloso\u201d.<br \/>\n<strong>P\u00daBLICO \u2013 Quando e em que condi\u00e7\u00f5es conheceu a m\u00fasica de Frank Sinatra?<\/strong><br \/>\nJOS\u00c9 DUARTE \u2013 Tinha para a\u00ed 15 anos, atrav\u00e9s de discos.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Que opini\u00e3o tinha dele nessa altura?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Tenho um padr\u00e3o para me orientar nesta confus\u00e3o toda que \u00e9 o jazz.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Aos 15 anos j\u00e1 tinha esse padr\u00e3o?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 N\u00e3o, mas estava quase a ter. Vejo tudo em fun\u00e7\u00e3o do jazz. O Sinatra (por acaso descobri-o primeiro que ao jazz, mas foi um trampolim para chegar l\u00e1) ensinou-me o ingl\u00eas. Um ingl\u00eas que n\u00e3o era o do liceu nem o americano. Ele tem uma dic\u00e7\u00e3o fabulosa. \u00c9 dos raros cantores em que se percebe cada palavra e cada s\u00edlaba. Depois conta hist\u00f3rias. E a maneira de ele as recitar\u2026 Nunca canta uma can\u00e7\u00e3o da mesma maneira, modifica-a, aproximando-se de um conceito de jazz, seguindo as pisadas de dois dos seus influenciadores: Tommy Dorsey, de quem reteve o som \u201ccool\u201d, liso, e Bing Crosby, pai de todos. Sem esquecer a fraseologia de Billie Holliday.<br \/>\nAos 15 anos conhecia-o sobretudo dos filmes. Depois fui avan\u00e7ando e verifiquei cientificamente que \u00e9 um cantor fabuloso.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Pelo que um jornalista do \u201cNew York Times\u201d afirmou recentemente, parece que hoje em dia Sinatra mal consegue alinhar dois versos seguidos e n\u00e3o sair do tom.<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Esse jornalista \u00e9 capaz de n\u00e3o se da Mafia\u2026<br \/>\n<strong>P. \u2013 Sinatra vai encher o Est\u00e1dio das Antas?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 De certeza absoluta que n\u00e3o vai esgotar e ainda bem. Se esgotasse, eu come\u00e7ava a repensar Sinatra. \u00c9 capaz de ir mais gente por causa das cr\u00edticas, por ser uma figura pol\u00e9mica.<br \/>\n<strong>P. \u2013 As pessoas v\u00e3o ver apenas o mito?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Portugal levou uma vida inteira a juntar dinheiro para o ouvir cantar. Disso e n\u00e3o tenho culpa. Fui ver Sinatra a Nova Iorque, em 1975. E mesmo assim j\u00e1 era tarde. Um concerto em que teve como parceiros a orquestra de Count Basie e Ella Fitzgerald. Em pleno PREC, comigo em grandes d\u00favidas ideol\u00f3gicas. O Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco berrava-me aos ouvidos: \u201cO Sinatra n\u00e3o pode cantar bem. Um americano n\u00e3o pode cantar bem. \u201cEu pr\u00f3prio comecei a ter algumas d\u00favidas\u201d.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Como definiria o cantor?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 A carreira de Sinatra \u00e9 sinusoidal, de \u201cups and downs\u201d. H\u00e1 quatro grandes fases que, por acaso, coincidem com as quatro grandes marcas para onde gravou. A RCA, onde grava com Tommy Dorsey, correspondente aos anos 40 \u2013 ele estreou-se com o Harry James no fim dos anos 30 -, em que atinge o primeiro pique quando \u00e9 ainda um cantor jovem, com 20, 30 anos; depois h\u00e1 a fase Columbia, em que amadurece, se torna adolescente (a divis\u00e3o pode ser feita em termos et\u00e1rios), um tipo cheio de \u201ccharme\u201d. Depois passa para a Capital e torna-se adulto. \u00c9 a fase dourada, com a ajuda dos arranjadores de que se rodeou, com destaque para Nelson Riddle. Finalmente, a fase da Reprise, da idade madura, a mais pr\u00f3xima do jazz. A partir da\u00ed \u00e9 um gajo que se defende gra\u00e7as ao historial e a um grande magnetismo pessoal.<br \/>\nDurante todo o tempo safou-se sempre bem. Por raz\u00f5es diversas, nem todas relacionadas com o canto. No canto tem envelhecido, mas n\u00e3o no sentido ocidental da velhice. Digamos que agora canta de maneira diferente. Saiu de uma fase por pol\u00edtica, de outra por causa do cinema (e ganhou um \u00d3scar), de outra ainda porque se aliou aos mais fortes\u2026<br \/>\n<strong>P. \u2013 Quem s\u00e3o os mais fortes?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Nessa altura n\u00e3o interessava. Ele esteve ao lado dos republicanos e dos democratas. Depois houve os esc\u00e2ndalos, dizia-se que era \u00edntimo da Mafia.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Que explica\u00e7\u00e3o encontra para a longevidade de Frank Sinatra?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 \u00c9 o maior cantor deste s\u00e9culo, na sua \u00e1rea. Um mestre. Qualquer can\u00e7\u00e3o, no sentido mais lato de \u201csong\u201d, que tenha sido cantada por Sinatra fica marcada. Fazia com as can\u00e7\u00f5es uma coisa fabulosa: metia palavras novas, repetia, truncava, tirava, subvertia-lhes o sentido. Uma riqueza que s\u00f3 \u201couvisto\u201d.<br \/>\n<strong>P. \u2013 A Mafia teve alguma influ\u00eancia no sucesso de Sinatra?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Olhe, outra das coisas que o Sinatra me ensinou foi saber ser igualmente o capuchinho vermelho e o lobo. Depois h\u00e1 o conceito de cl\u00e3, que para mim tem muito significado: o grupo de amigos, a uni\u00e3o, a entreajuda. Partilhar as mesmas verdades e os mesmos conceitos.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Diz constantemente que o Sinatra \u201co ensinou\u201d. Alguma vez falou com ele?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Nunca falei com ele. E mesmo que falasse n\u00e3o o ficaria a conhecer.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Quer contar alguma hist\u00f3ria sobre Sinatra?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 H\u00e1 uma muito bonita. O Sinatra tem por h\u00e1bito fazer digress\u00f5es com fins benem\u00e9ritos. Pega no avi\u00e3o, p\u00f5e o piano e os m\u00fasicos a bordo e l\u00e1 vai, normalmente a It\u00e1lia. Os pais eram da Sic\u00edlia e conv\u00e9m referir que costuma chamar \u201cGiaccomo Danielli\u201d \u00e0 sua bebida preferida [\u201cwhisky\u201d Jack Daniels]. Nos anos 70, meteu-se no avi\u00e3o e foi at\u00e9 It\u00e1lia dar um espect\u00e1culo de ajuda \u00e0s crian\u00e7as cegas. E deu tudo. Noutro spect\u00e1culo \u2013 esta hist\u00f3ria impressiona-me \u2013 recebeu algumas crian\u00e7as no camarim, falou com elas, uma grande bagun\u00e7a \u00e0 italiana, e houve uma que perguntou: \u201cSinatra, de que cor \u00e9 o vento?\u201d, que \u00e9 uma pergunta do cara\u00e7as.<br \/>\nNoutra ocasi\u00e3o, no primeiro concerto de Sammy Davis Jr. Em Nova Iorque, que foi um \u00eaxito, estava uma data de gente a pedir aut\u00f3grafos e Sammy n\u00e3o sabia escrever. Chegou ao p\u00e9 de Sinatra e perguntou-lhe: \u201cAgora o que \u00e9 que eu fa\u00e7o?\u201d A resposta foi: \u201cFaz um rascunho.\u201d<br \/>\n<strong>P. \u2013 Vai ao Porto assistir ao concerto?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Claro. Vou para o hotel dele e tudo. E no est\u00e1dio, para a zona do caviar e dos morangos, a que fica mais pr\u00f3xima do palco. \u00c9 para ele me ver. (Risos). Fiz uma s\u00e9rie de 30 programas sobre o Sinatra para a R\u00e1dio Comercial, na promo\u00e7\u00e3o do concerto, e n\u00e3o me pagaram nada. Ent\u00e3o disse-lhes: \u201cQuero ter um lugar onde ele me veja bem. Olha o Jos\u00e9 Duarte ali, e tal\u2026\u201d<br \/>\n<strong>P. \u2013 N\u00e3o p\u00f5e sequer a hip\u00f3tese de n\u00e3o gostar?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Pode desiludir, mas n\u00e3o sou suposto depois confess\u00e1-lo.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Pode criticar-se, \u00e0 partida, o facto de o concerto se realizar num est\u00e1dio.<\/strong><br \/>\nR. \u2013 \u00c9 a mania das grandezas. Penso que a organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 espera de encher o est\u00e1dio. N\u00e3o vai ser nada parecido com os Dire Straits ou os Guns\u2019n Roses.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Os mais novos s\u00e3o sens\u00edveis \u00e0 m\u00fasica de Sinatra?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Dizem-me que h\u00e1 raparigas novas e bonitas a quem o Sinatra repugna, o que \u00e9 positivo, porque repugnar \u00e9 uma maneira de agradar.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Ser\u00e1 que a m\u00fasica de Sinatra lhes interessa de facto, ou ir\u00e3o ao est\u00e1dio por outras raz\u00f5es?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Isso \u00e9 a filosofia recente dos anos 80. Num concerto do Sinatra n\u00e3o h\u00e1 fumo no palco, nem \u201clasers\u201d. \u00c9 um foco em cima dele e a banda a tocar.<br \/>\n<strong>P. \u2013 \u00c9 o passado, o mito?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Sim, mas tamb\u00e9m a m\u00fasica.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Se calhar, para um n\u00famero restrito de pessoas\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Se calhar sim, s\u00f3 uns 20 ou 30 eleitos. Mas repare que em Londres, capital de um pa\u00eds com profundas ra\u00edzes musicais, cinco salas encheram-se com sete mil espectadores para o ouvirem, pessoas que n\u00e3o brincam com a m\u00fasica.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Em Portugal \u00e9 diferente\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Portugal \u00e9 completamente diferente. A um concerto de est\u00e1dio vai-se pela confraterniza\u00e7\u00e3o, pelo espect\u00e1culo. Hoje o conceito de m\u00fasica \u00e9 extramusical. O que interessa \u00e9 estar com os amigos, numa grande excita\u00e7\u00e3o, gozar \u00e0 brava em conjunto, com a drenalina toda a sair. O concerto de Maddona em Barcelona \u00e9 neste aspecto memor\u00e1vel. Aquilo demonstra uma prepara\u00e7\u00e3o f\u00edsica do cara\u00e7as\u2026 Sinatra \u00e9 o oposto. Os arranjos musicais s\u00e3o os mesmos dos anos 50 e ele canta exactamente com as mesmas acentua\u00e7\u00f5es. Considera-se o \u00faltimo dos \u201csaloon singers\u201d, em que o importante \u00e9 a intimidade.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Precisamente. Essa intimidade \u00e9 imposs\u00edvel num est\u00e1dio.<\/strong><br \/>\nR. \u2013 A\u00ed \u00e9 o anti-\u201csaloon singer\u201d. Mas o que ele gosta \u00e9 de segredar coisas \u00e0s pessoas, confessar-se, meio grosso, \u00e0s tr\u00eas da manh\u00e3. Estar com o \u201cbarman\u201d a cantar um solil\u00f3quio, uma balada, e depois bater com a porta e ir-se embora como num daqueles \u201cwesterns\u201d, mas sem mulher. Sozinho. Para sofrer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pop Rock >> Quarta-Feira, 03.06.1992 ACORDAR PARA A REALIDADE Em Frank Sinatra, encontrou Jos\u00e9 Duarte um professor. De ingl\u00eas e da arte de ser o lobo e o capuchinho vermelho. At\u00e9 de jazz. 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