{"id":8202,"date":"2020-06-23T05:26:34","date_gmt":"2020-06-23T12:26:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=8202"},"modified":"2020-06-23T05:26:34","modified_gmt":"2020-06-23T12:26:34","slug":"buffy-st-marie-buffy-st-marie-que-esteve-em-portugal-a-promover-o-seu-album-mais-recente-ao-publico-que-havemos-de-fazer-com-a-verdade-entrevista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2020\/06\/23\/buffy-st-marie-buffy-st-marie-que-esteve-em-portugal-a-promover-o-seu-album-mais-recente-ao-publico-que-havemos-de-fazer-com-a-verdade-entrevista\/","title":{"rendered":"Buffy St.-Marie &#8211; &#8220;Buffy St.-Marie, Que Esteve Em Portugal A Promover O Seu \u00c1lbum Mais Recente, Ao P\u00daBLICO &#8211; &#8216;Que Havemos De Fazer Com A Verdade?'&#8221; (entrevista)"},"content":{"rendered":"<p>Cultura >> Quarta-Feira, 06.05.1992<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>Buffy St.-Marie, Que Esteve Em Portugal A Promover O Seu \u00c1lbum Mais Recente, Ao P\u00daBLICO<br \/>\n\u201cQue Havemos De Fazer Com A Verdade?\u201d<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n<strong>Nos anos 60 lutava-se por ideais e defendiam-se as minorias. Buffy St.-Marie, 51 anos de idade, \u00edndia de nascimento, da tribo dos Cree, esteve sempre nas fileiras da frente. Hoje, como nos tempos de \u201cSoldier Blue\u201d e \u201cUniversal Soldier\u201d continua a lutar por solu\u00e7\u00f5es concretas para problemas actuais. Os \u00edndios, diz, s\u00e3o a consci\u00eancia viva do planeta. E os \u201chippies\u201d uma gera\u00e7\u00e3o nutrida a caf\u00e9. Durante 15 anos n\u00e3o gravou qualquer disco, para se dedicar \u00e0 educa\u00e7\u00e3o de um filho. \u201cCoincidence and Other Likely Stories\u201d assinala o seu regresso.<\/strong><\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 468;\ngoogle_ad_height = 60;\ngoogle_ad_format = \"468x60_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=8203\" rel=\"attachment wp-att-8203\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/buffy.jpg\" alt=\"\" width=\"477\" height=\"729\" class=\"aligncenter size-full wp-image-8203\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/buffy.jpg 477w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/buffy-196x300.jpg 196w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/buffy-65x100.jpg 65w\" sizes=\"auto, (max-width: 477px) 100vw, 477px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>Sente-se no discurso e na obra de Buffy St.-Marie o orgulho das origens \u00edndias e a vontade de p\u00f4r o dedo nas feridas da sociedade. De forma subtil, n\u00e3o-violenta, no \u00e1lbum recente \u201cCoincidence and Other Likely Stories\u201d, ou n\u00e3o tivesse ela feito parte do movimento \u201cflower-power\u201d dos anos 60. \u00c9 coerente no que diz e no que faz. Sofreu os efeitos da censura, por se ter recusado a alinhar nos esquemas da ind\u00fastria musical. Hoje vive como quer, no Hawai, viaja pelo mundo e continua a defender a causa \u00edndia. De mini-saia justa e flor amarela no cabelo, parece ter vencido a derradeira batalha \u2013 contra o tempo.<br \/>\n<strong>P\u00daBLICO \u2013 \u201cSoldier Blue\u201d foi a can\u00e7\u00e3o que h\u00e1 21 anos lan\u00e7ou a sua carreira em Portugal\u2026<\/strong><br \/>\nBUFFY ST.-MARIE \u2013 A s\u00e9rio? \u00c9 a primeira pessoa em Portugal que menciona essa can\u00e7\u00e3o. Voltei a regrava-la h\u00e1 duias semanas.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Para inclus\u00e3o num novo \u00e1lbum?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 N\u00e3o sei. \u00c9 prov\u00e1vel que apare\u00e7a no lado B de um single.<br \/>\n<strong>P. \u2013 \u00c0 dist\u00e2ncia de todos estes anos \u201cSoldier Blue\u201d continua a ser pertinente?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 \u00c9 uma boa can\u00e7\u00e3o para os dias de hoje. Quando a escrevi, as pessoas n\u00e3o faziam ideia do que se tratava. N\u00e3o estavam conscientes dos problemas do meio ambiente. \u201cSoldier Blue\u201d dizia qualquer coisa como \u201ceste \u00e9 o meu pa\u00eds\u201d, n\u00e3o no sentido de \u201ceste \u00e9 o meu estado p\u00fablico&#8221; \u201das de \u201cesta \u00e9 a minha terra-m\u00e3e\u201d. Hoje, volvidos 25 anos, as pessoas compreendem o conceito e a maneira de ver \u00edndia.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Em que altura tomou consci\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o concreta dos \u00edndios na Am\u00e9rica do Norte?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Nasci no Canad\u00e1, no seio do povo Cree. Depois fui adoptada e cresci nos Estados Unidos. Na escola disseram-me que n\u00e3o havia \u00edndios, que tinham morrido todos e estavam em museus, ao lado dos dinossauros. A minha m\u00e3e, que era meia-\u00edndia explicou-me que n\u00e3o era assim e que o que se via nos filmes e lia nos livros n\u00e3o era verdadeiro. Nos \u00faltimos anos da minha adolesc\u00eancia voltei a juntar-me \u00e0 minha fam\u00edlia Cree no Canad\u00e1.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Quais s\u00e3o os resultados palp\u00e1veis, concretos da sua luta. Encontraram-se algumas solu\u00e7\u00f5es?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Houve coisas que melhoraram e outras que pioraram. Foi mau o facto de o movimento dos \u00edndios americanos ter sido \u201cassassinado\u201d. Mas houve coisas muito positivas. Por exemplo: o dinheiro ganho no in\u00edcio de carreira serviu para a cria\u00e7\u00e3o de funda\u00e7\u00f5es escolares que permitiram ao povo \u00edndio a frequ\u00eancia de estudos superiores. Hoje h\u00e1 na Am\u00e9rica advogados, m\u00e9dicos, professores \u00edndios que atingiram o topo das respectivas profiss\u00f5es e que s\u00e3o muito bons no que fazem. Antes era dif\u00edcil encontrar um \u00edndio com um curso superior, sa\u00eddo da reserva para a Universidade. H\u00e1 quem trabalhe em planos de ordenamento do territ\u00f3rio ou na Cadillac sem que isso implique perder o contacto com a reserva. S\u00e3o pessoas verdadeiramente biculturais.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Hoje fala-se dos curdos, dos palestinianos e dos croatas. Ningu\u00e9m fala dos \u00edndios\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 No Canad\u00e1 fala-se. Para mim \u00e9 mais importante resolver um problema do que dar-lhe apenas publicidade. O povo branco, que tem nas m\u00e3os o poder industrial, est\u00e1 a tomar consci\u00eancia da quest\u00e3o ambiental. Se os brancos n\u00e3o se consciencializarem deste problema o meio-ambiente morrer\u00e1. Aos \u00edndios n\u00e3o basta saber que o planeta est\u00e1 a morrer. Na Am\u00e9rica do Sul, se os brancos estiverem do nosso lado ainda h\u00e1 \u201cchances\u201d.<\/p>\n<p><strong>Protectores Da Terra<\/strong><\/p>\n<p><strong>P. \u2013 Em duas can\u00e7\u00f5es do seu \u00faltimo \u00e1lbum refere-se \u00e0 extrac\u00e7\u00e3o de ur\u00e2nio em territ\u00f3rio \u00edndio e aos seus efeitos nocivos. Pode pormenorizar?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 \u00c9 o mesmo problema que o de h\u00e1 cem anos, com a corrida ao ouro\u201d. S\u00f3 que desta vez \u00e9 o ur\u00e2nio. O problema est\u00e1 em que o ur\u00e2nio se encontra em terra \u00edndia \u2013 como ent\u00e3o o ouro \u2013 e as companhias de Energia instalam-se perto destas terras, transformam o min\u00e9rio e atiram as sobras para o solo e para os rios. Os pr\u00f3prios brancos que vivem junto \u00e0 foz desconhecem que as \u00e1guas est\u00e3o contaminadas. Mas n\u00f3s \u00edndios somos testemunhas e sentimos a responsabilidade de avisar. As companhias procuram manter as pessoas desinformadas mas n\u00f3s, n\u00f3s sabemos. Nos \u00faltimos dois, tr\u00eas anos, tem sido importante o trabalho de gente como Sting a alertar sobre as florestas de chuva na Amaz\u00f3nia, ou Peter Gabriel, capaz de alertar a opini\u00e3o p\u00fablica. \u00c9 necess\u00e1rio que se compreenda que os \u00edndios n\u00e3o s\u00e3o apenas personagens po\u00e9ticas, engra\u00e7adas. N\u00f3s estamos de facto a proteger a Terra. Nos anos 60 os turistas tiravam-nos fotografias, diziam \u201cn\u00e3o t\u00eam tanta gra\u00e7a?\u201d e faziam \u201cwuhwuhwuhwuh\u201d com a boca. \u00c9ramos uma atrac\u00e7\u00e3o tur\u00edstica.<br \/>\n<strong>P. \u2013 \u201cThe Priests of the Golden Bull\u201d \u00e9 quase um manifesto, composto de forma subtil, quase hipn\u00f3tica\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 H\u00e1 nele inoc\u00eancia. A can\u00e7\u00e3o poderia ter sido escrita de outra maneira, com raiva. Mas n\u00e3o era esse o meu estado de esp\u00edrito quando sussurrei as palavras ao microfone do computador, em casa \u2013 o disco foitodo gravado em minha casa. Nesse momento sentia-me quase como uma secret\u00e1ria que nunca tivesse ouvido falar antes de todos estes problemas. Uma pessoa totalmente \u201cnaif\u201d.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Considera-se uma cantora de protesto, como Dylan ou Joan Baez, nos anos 60?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Considero-me um escritora de can\u00e7\u00f5es. Joan Baez \u2013 que era uma cantora folk \u2013 e Dylan cantavam sobre condi\u00e7\u00f5es desumanas. Foram um bom exemplo para mim. Ensinaram-me a ter a coragem de cantar e dizer as coisas exactamente como eu as via. As can\u00e7\u00f5es folk s\u00e3o can\u00e7\u00f5es de amor sobre pessoas que se apartam ou que se encontram. Permanecem durante centenas de anos. Mas continuam a ser relevantes as can\u00e7\u00f5es de protesto pol\u00edtico, do estilo \u201cos senhores da guerra est\u00e3o a destruir as nossas vidas\u201d.<\/p>\n<p><strong>\u201cHippies\u201d De Cafe\u00edna<\/strong><\/p>\n<p><strong>P. \u2013 Toda a sua postura \u2013 vejo-a \u00e0 minha frente com uma flor no cabelo -, todo o seu discurso, recordam a gera\u00e7\u00e3o \u201chippy\u201d. Sente-se ainda parte dela?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 A flor \u00e9 do Hawai [risos]. Penso que foi uma gera\u00e7\u00e3o mal retratada\u2026<br \/>\n<strong>P. &#8211; \u2026 o sonho acabou em pesadelo, com o concerto dos Stones em Altamont, com viol\u00eancia\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Acabou antes. Isso \u00e9 a hist\u00f3ria popular. Eu vi o que aconteceu.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Conte-nos ent\u00e3o o que se passou\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Penso que n\u00e3o houve sequer uma gera\u00e7\u00e3o \u201chippy\u201d mas uma \u201cgera\u00e7\u00e3o dos caf\u00e9s\u201d. Tudo evoluiu a partir da diferen\u00e7a entre a cafe\u00edna, o \u00e1lcool e as drogas duras. Uma diferen\u00e7a de drogas determinou todo o processo. O in\u00edcio dos anos 60, quando a m\u00fasica era realmente criativa, foi um verdadeiro movimento estudantil centrado em volta dos caf\u00e9s. Com cafe\u00edna. De pessoas que falavam e sabiam ouvir as outras. Entretanto John e Robert Kennedy foram mortos, Malcolm X e Luther King foram mortos. Os caf\u00e9s passaram de s\u00fabito a ser sobrecarregados com taxas e a terem de fechar. Quando reabriram tiveram de obter licen\u00e7a de venda de \u00e1lcool se queriam sobreviver. A partir desse momento a cafe\u00edna foi substitu\u00edda pelo \u00e1lcool. O \u00e1lcool anestesiou o movimento estudantil.<br \/>\n<strong>P. \u2013 De quem \u00e9 a culpa, al\u00e9m do \u00e1lcool?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Da administra\u00e7\u00e3o de Lyndon Johnson, que tinha terror de n\u00e3o conseguir controlar a mente dos estudantes.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Durante o mandato do presidente Johnson chegou a ter problema com a censura.<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Os homens da r\u00e1dio disseram-me que sim. Receberam cartas da Casa Branca a encoraj\u00e1-los a suprimir a minha m\u00fasica nas suas esta\u00e7\u00f5es. Nessa \u00e9poca n\u00e3o cheguei a ter conhecimento do facto. Houve quem, na r\u00e1dio, me tivesse contado o epis\u00f3dio somente 10 anos depois\u2026<br \/>\n<strong>P. \u2013 Entretanto as coisas mudaram para si? Ou continua a considerar-se uma \u201coutsider\u201d do sistema?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Sim\u2026 mas n\u00e3o posso culpar Lyndon Johnson por isso [risos]. Fui ou era considerada uma \u201coutsider\u201d em primeiro lugar porque era mulher, em segundo porque n\u00e3o tinha um empres\u00e1rio influente e em terceiro porque n\u00e3o bebia. A maior parte dos contratos, nessa \u00e9poca, eram assinados nos bares, com um copo na m\u00e3o. Sempre levei um estilo de vida diferente. Nunca pensei que conseguiria integrar-me no \u201cshow business\u201d. Limitava-me a actuar em Nova Iorque e n\u00e3o passava semanas a vaguear pelas \u201cparties\u201d na casa de um e de outro. Preferi sempre gozar a vida \u00e0 minha maneira. Se estava na Austr\u00e1lia, actuava em Sidney e depois ia tocar para os abor\u00edgenes. Na Escandin\u00e1via, a mesma coisa. Ia a Oslo ou Estocolmo e depois desaparecia para Norte, entre os \u201csammi\u201d.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Mas vive da ind\u00fastria. \u00c9 ela que lhe d\u00e1 dinheiro\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Sim, mas n\u00e3o tenho propriamente o mesmo estilo de vida de Madonna ou de Debbie Harry\u2026 N\u00e3o quero com isto dizer que elas n\u00e3o s\u00e3o boas no que fazem, mas sim que n\u00e3o levam a mesma vida dupla que eu, que vivo no Hawai e no mundo do espect\u00e1culo ao mesmo tempo. Sou \u00edndia e nunca deixei de actuar nas reservas, mesmo durante os quinze anos que estive sem gravar, para me dedicar \u00e0 educa\u00e7\u00e3o do meu filho Paul, nascido em 76. Tamb\u00e9m nunca deixei de dar concertos em todo o mundo para a UNICEF, em T\u00f3quio, Amesterd\u00e3o, Paris, Roma, etc. Ao lado de pessoas como o Marlon Brando, o Peter Ustinov ou o Danny Kaye, e de \u201ctroupes\u201d de dan\u00e7arinos africanos, do Bali, de Burma\u2026 Estou entre o \u00e9tnico e a pop. \u00c9 assim que eu gosto.<\/p>\n<p><strong>Os Verdadeiros Culpados<\/strong><\/p>\n<p><strong>P. \u2013 Porque motivo ofereceu uma can\u00e7\u00e3o \u201cUp Where We Belong\u201d, de enormes potencialidades comerciais, a Joe Cocker e Jennifer Warnes em vez de a cantar?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Estou no \u201cshow business\u201d apenas porque sou uma escritora de can\u00e7\u00f5es. Quando comecei a cantar n\u00e3o o fazia muito bem. Ent\u00e3o s\u00f3 tinha as can\u00e7\u00f5es que achava que diziam alguma coisa e contentava-me que outros as cantassem. N\u00e3o vim de LA ou de Nova Iorque, n\u00e3o era como a Judy Collins cujo pai era m\u00fasico, ou a Joan Baez que era professora de liceu. O meu pai era mec\u00e2nico. Eu vim de lado nenhum, n\u00e3o conhecia ningu\u00e9m, nenhum m\u00fasico. N\u00e3o tinha quaisquer liga\u00e7\u00f5es com os col\u00e9gios ou com o mundo da m\u00fasica. Era uma virgem especada num sal\u00e3o de baile, a tocar guitarra, \u00e0 espera que algu\u00e9m quisesse cantar as minhas can\u00e7\u00f5es. Acabei por ter sucesso. Foi s\u00f3 por alturas do meu quinto ou sexto \u00e1lbum que comecei a cantar melhor e a ouvir-me a mim pr\u00f3pria.<br \/>\n<strong>P. \u2013 O que a mant\u00e9m acordada?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 O caf\u00e9 [risos]. E as can\u00e7\u00f5es. \u00c0s vezes, quando alguma coisa me intriga, acordo a meio da noite, acendo a luz, ligo o gravador e desato a cantar. Isso acorda-me. Encontrar solu\u00e7\u00f5es mant\u00e9m-me acordada.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Como definiria na generalidade \u201cCoincidence and Other Likely Stories\u201d?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 \u00c9 um disco com tr\u00eas tipos de can\u00e7\u00f5es: um primeiro grupo sobre estar-se apaixonado, como \u201cEmma Lee\u201d, um segundo grupo, de can\u00e7\u00f5es nativas, como \u201cStarwalker\u201d, triunfantes e jubilosas \u00e0 maneira da cultura que retratam, e um terceiro, de can\u00e7\u00f5es que trazem informa\u00e7\u00e3o nova, como \u201cThe Big Ones Get Away\u201d, \u201cFallen Angels\u201d ou \u201cDesinformation\u201d em que no fundo tento fazer o mesmo que nos anos 60 com \u201cSoldier Blue\u201d ou \u201cThe Universal Soldier\u201d \u2013 sintetizar aquilo que toda a gente sente quando caminha pelas ruas, seja em que lugar for, mas ningu\u00e9m se atreve a dizer. Em \u201cThe Universal Soldier\u201d perguntava: \u201cQuem \u00e9 o respons\u00e1vel pela guerra?\u201d. Vi no aeroporto soldados de uniforme regressarem feridos e as autoridades dizerem que n\u00e3o havia guerra nenhuma no Vietname. Dirigi-me aos soldados e fiz-lhes a mesma pergunta: \u201cQuem \u00e9 o respons\u00e1vel pela guerra\u201d? Os soldados s\u00e3o os culpados? De certo modo, sim. Os generais que os comandam? At\u00e9 certo ponto, sim. Mas quem \u00e9 o verdadeiro culpado que p\u00f5e algu\u00e9m atr\u00e1s ou \u00e0 frente de uma espingarda? S\u00e3o os pol\u00edticos. E quem \u00e9 que vota nos pol\u00edticos? Percebe o que quero dizer?&#8230; Tudo come\u00e7a com a responsabilidade individual de cada um. Vivemos de novo um tempo em que se discute e se fala dos problemas. E a pergunta principal \u00e9: \u201cQue havemos de fazer com a verdade, quando o sistema est\u00e1 corrupto\u201d?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cultura >> Quarta-Feira, 06.05.1992 Buffy St.-Marie, Que Esteve Em Portugal A Promover O Seu \u00c1lbum Mais Recente, Ao P\u00daBLICO \u201cQue Havemos De Fazer Com A Verdade?\u201d Nos anos 60 lutava-se por ideais e defendiam-se as minorias. Buffy St.-Marie, 51 anos de idade, \u00edndia de nascimento, da tribo dos Cree, esteve sempre nas fileiras da frente. 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