{"id":8129,"date":"2020-05-19T03:12:38","date_gmt":"2020-05-19T10:12:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=8129"},"modified":"2020-05-19T03:12:38","modified_gmt":"2020-05-19T10:12:38","slug":"gilberto-gil-gilberto-gil-que-promove-um-novo-disco-em-portugal-ao-publico-o-mundo-e-grande-porque-a-terra-e-pequena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2020\/05\/19\/gilberto-gil-gilberto-gil-que-promove-um-novo-disco-em-portugal-ao-publico-o-mundo-e-grande-porque-a-terra-e-pequena\/","title":{"rendered":"Gilberto Gil &#8211; &#8220;Gilberto Gil, Que Promove Um Novo Disco Em Portugal, Ao P\u00daBLICO &#8211; \u2018O Mundo \u00c9 Grande Porque a Terra \u00c9 Pequena'&#8221;"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 468;\ngoogle_ad_height = 60;\ngoogle_ad_format = \"468x60_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>Cultura >> Quinta-Feira, 26.03.1992<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>Gilberto Gil, Que Promove Um Novo Disco Em Portugal, Ao P\u00daBLICO<br \/>\n&#8220;O Mundo \u00c9 Grande Porque a Terra \u00c9 Pequena\u201d<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n<strong>O novo disco de Gilberto Gil, \u201cParabolic\u201d, assinala o regresso do compositor brasileiro \u00e0s origens. Como se o tropicalismo entrasse de cara lavada no novo mundo, um \u201cmundo grande porque a Terra se tornou pequena\u201d, filtrado pela tecnologia e com o Apocalipse no horizonte. Um mundo em que a mulata Madalena \u00e9 a antena que liga a terra a o c\u00e9u.<\/strong><\/p>\n<p><center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=8130\" rel=\"attachment wp-att-8130\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/gg.jpg\" alt=\"\" width=\"627\" height=\"431\" class=\"aligncenter size-full wp-image-8130\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/gg.jpg 627w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/gg-300x206.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/gg-624x429.jpg 624w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/gg-100x69.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 627px) 100vw, 627px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>Gil entusiasma-se e gesticula ao dissertar com igual facilidade sobre o fim da Hist\u00f3ria, os \u00edndios Xingu ou os novos artistas \u201ccyber\u201d, como lhes chama, produzidos pela m\u00e1quina industrial. N\u00e3o acredita muito no futuro do Brasil mas fez quest\u00e3o de lembrar aos mais jovens, num espect\u00e1culo gratuito em Copacabana, os bons velhos tempos de confraterniza\u00e7\u00e3o \u201chippie\u201d. Gilberto Gil \u00e9 um humanista, para quem a Hist\u00f3ria n\u00e3o pode ser um cap\u00edtulo encerrado. Esteve em Portugal para promover o seu mais recente \u00e1lbum, \u201cParabolic\u201d. O P\u00daBLICO falou com ele e aprendeu como fazer uma parab\u00f3lica de vime.<br \/>\n<strong>P\u00daBLICO \u2013 \u201cParabolic\u201d come\u00e7a por intrigar pela capa, um cesto transformado em antena parab\u00f3lica. A jun\u00e7\u00e3o do primitivo com a tecnologia\u2026<\/strong><br \/>\nGILBERTO GIL \u2013 A ideai \u00e9 manifestar um sentimento de compromisso com a realidade factual, a minha realidade num determinado momento. Quando as sociedades tradicionais que vigoraram at\u00e9 ao in\u00edcio da II Guerra Mundial, at\u00e9 \u00e0 descoberta da relatividade, da r\u00e1dio e da televis\u00e3o, transitaram para um mundo ainda pouco conhecido, pouco explorado, de novas situa\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Um conceito presente no tema \u201cSonho\u201d, que aborda pela ironia o lado demag\u00f3gico de certo discurso ecol\u00f3gico, t\u00e3o em voga nos tempos actuais\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 N\u00e3o defendo a ideia construtivista de apresentar idealiza\u00e7\u00f5es, modelos de sociedade, essas coisas todas. Antes o mundo em pequeno porque a Terra era grande. Hoje o mundo \u00e9 grande porque a Terra \u00e9 pequena, do tamanho de uma antena parab\u00f3lica. O cesto, exemplo artesanal da cultura tradicional da Ba\u00eda, ainda existe, mas j\u00e1 est\u00e1 sendo substitu\u00eddo pelos elementos e pela rapidez electr\u00f3nicos.<\/p>\n<p><strong>O Fim Da Hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p><strong>P. \u2013 Defende que a resposta ao problema ecol\u00f3gico se encontra no retorno ao \u201cbom selvagem\u201d, personificado pelo \u00edndio Xingu, referido no texto da can\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 A postura da sociedade para com os \u00edndios Xingu \u00e9 contradit\u00f3ria. Quando, na can\u00e7\u00e3o, abandono a sala, descubro que estou nu e sou identificado com um \u00edndio, na verdade tal identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 ao mesmo tempo saudada e ridicularizada. O grito dos estudantes e oper\u00e1rios de \u201cviva o \u00edndio Xingu\u201d, \u00e9 ao mesmo tempo de solidariedade e ridicularizador. H\u00e1 na figura do \u00edndio, ou das sociedades primitivas em geral, um sentido tr\u00e1gico, ao serem, em teoria, aceites pela antropologia e por certas medidas protecionistas, mas na pr\u00e1tica exterminadas, de forma sistem\u00e1tica e programada, pela sociedade moderna.<br \/>\n<strong>P. \u2013 H\u00e1 em toda essa quest\u00e3o um lado apocal\u00edptico, de extremos que se tocam, de situa\u00e7\u00f5es levadas ao limite\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Sim, vivemos uma \u00e9poca em que tudo se revela e tudo se confunde.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Relaciona directamente esse Apocalipse com o \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d que d\u00e1 t\u00edtulo a outra can\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Essa can\u00e7\u00e3o procura desmistificar uma certa concep\u00e7\u00e3o de \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d, segundo a qual esta teria acabado no sentido cl\u00e1ssico do termo. A ideia, com que n\u00e3o concordo, de que todas as experi\u00eancias relacionadas com a lei, a justi\u00e7a, o direito e a fraternidade, enfim todo um conjunto humanista que foi consagrado universalmente pela Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, e mais tarde o marxismo, a ideia de socialismo e o sentimento de colectivismo, tivessem desaparecido para sempre. Como se a humanidade n\u00e3o pensasse mais, no seu destino colectivo e tudo estivesse ligado ao indiv\u00edduo isolado, na pr\u00e1tica de uma poss\u00edvel democracia econ\u00f3mica, toda essa coisa hegem\u00f3nica com a queda do comunismo, etc. Por mim acredito em ciclos, em reciclagens, na possibilidade de retorno a momentos mais exigentes da humanidade.<br \/>\n<strong>P. \u2013 N\u00e3o se tratar\u00e1 afinal do fim das ideologias?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Sim, de esquerda e de direita. Se por um lado caiu o socialismo, enquanto caminhada hist\u00f3rica da humanidade, ca\u00edram tamb\u00e9m todos os sistemas que tentaram negar essa marcha, os sistemas individualistas, centrados na propriedade privada, o capitalismo, enfim.<br \/>\n<strong>P. \u2013 O \u00edndio e a cultura Xingus est\u00e3o para al\u00e9m da Hist\u00f3ria?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Exactamente. S\u00e3o o antes e o depois da Hist\u00f3ria.<br \/>\n<strong>P. \u2013 J\u00e1 que se fala em Apocalipse, o termo aplica-se com propriedade \u00e0 actual situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no Brasil\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 O Brasil \u00e9 hoje uma das na\u00e7\u00f5es mais exemplares, ao n\u00edvel de conv\u00edvio, diferen\u00e7as, confrontos e desn\u00edveis v\u00e1rios. \u00c9 um pa\u00eds extremamente rico na sua natureza, no seu povo, etc, mas extremamente exaurido nas suas possibilidades de conforto material e de educa\u00e7\u00e3o m\u00ednimos para a maioria da popula\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Que raz\u00f5es impedem o salto em frente?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Primeiro porque o Brasil, no plano da civiliza\u00e7\u00e3o mundial, \u00e9 um pa\u00eds que desde a sua descoberta e a sua forma\u00e7\u00e3o como na\u00e7\u00e3o, sempre viveu o papel da subordina\u00e7\u00e3o \u2013 primeiro aos interesses da coloniza\u00e7\u00e3o, e mais tarde aos americanos e ao capitalismo internacional. Um pa\u00eds que at\u00e9 hoje n\u00e3o conseguiu desenvolver um modelo de sociedade pr\u00f3prio. No momento em que o Brasil poderia dar o salto e desenvolver-se, \u00e0 semelhan\u00e7a dos Estados Unidos, do Jap\u00e3o ou da Alemanha, acontece que os modelos que regeram o desenvolvimento destas na\u00e7\u00f5es tornaram-se impratic\u00e1veis.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Que papel pol\u00edtico desempenha como vereador do Conselho Municipal de Salvador da Ba\u00eda?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Um papel muito minimizado na sua import\u00e2ncia, pelas dificuldades de compatibiliza\u00e7\u00e3o entre o exerc\u00edcio do poder e uma personalidade muito doce que \u00e9 a minha.<\/p>\n<p><strong>Madalena Parab\u00f3lica<\/strong><\/p>\n<p><strong>P. \u2013 \u201cParabolic\u201d assinala o seu regresso \u00e0s origens e a um certo tropicalismo de que andava arredado. A que se deve tal aproxima\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Foi um impulso do inconsciente, um chamamento irrecus\u00e1vel. Nos \u00faltimos dez anos, em discos como \u201cLuar\u201d, \u201cRealce\u201d, \u201cRa\u00e7a Humana\u201d ou \u201cExtra\u201d, os elementos brasileiros eram colocados ao servi\u00e7o da constru\u00e7\u00e3o de um modelo internacionalista, que poder\u00edamos enquadrar na \u201cworld music\u201d, com uma vertente caribanha, africana, etc. Neste disco \u00e9 o contr\u00e1rio. Toda essa acumula\u00e7\u00e3o de experi\u00eancia internacionalista ficou subordinada aos pr\u00f3prios g\u00e9neros brasileiros: o bai\u00e3o, o xaxado, o \u201ccoco do Norte\u201d, o samba, a \u201cmoda de viola\u201d.<br \/>\n<strong>P. \u2013 O tema de abertura, \u201cMadalena\u201d, e \u201cQuero ser teu Funk\u201d s\u00e3o bons exemplos dessas atitudes opostas\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Sim. \u201cQuero ser teu funk\u201d \u00e9 um tema dos que trabalham \u00e0 superf\u00edcie do profundo: o funky, os ingredientes da facilidade cosmopolita, imediata, o tempero do supermercado, o descart\u00e1vel. \u201cMadalena\u201d, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 um tema dos anos 50 que trata de um momento de transi\u00e7\u00e3o. Madalena \u00e9 uma personagem de um mundo tradicional que come\u00e7ou a desaparecer nessa altura, na Ba\u00eda, com a chegada da explora\u00e7\u00e3o petrol\u00edfera, da industrializa\u00e7\u00e3o e da invas\u00e3o p\u00f3s-guerra do mundo europeu. Ela confronta-se com a impossibilidade de continuar a viver numa comunidade agr\u00edcola verdadeira, dilacerada pelo caos provocado pela chegada da m\u00e1quina. A m\u00fasica, composta por um homem do povo de quem n\u00e3o se sabe sequer o nome verdadeiro, foi um \u201chit\u201d na Ba\u00eda durante a minha adolesc\u00eancia e antecipava coisas como a lambada, o movimento afro, artistas como Margareth de Menezes, tudo isso.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Ser\u00e1 esse ent\u00e3o um outro simbolismo para a imagem da baiana, com o cesto \/ parab\u00f3lica a servir de chap\u00e9u?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Exacto. \u00c9 um cesto primitivo que representa a for\u00e7a da antena parab\u00f3lica, mas em que a energia est\u00e1 subordinada \u00e0 cabe\u00e7a da mulher.<br \/>\n<strong>P. \u2013 O que significa \u201cParabolicamar\u00e1\u201d, t\u00edtulo de uma das can\u00e7\u00f5es?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 \u201cCamar\u00e1\u201d \u00e9 compress\u00e3o de capoeira. Significa \u201ccamarada\u201d, \u201ccolega\u201d, \u201camigo\u201d, o \u201cparceiro\u201d. \u00c9 o chamamento comunit\u00e1rio da roda de capoeira, s\u00edmbolo dessa comunidade primitiva, cl\u00e1ssica, brasileira. Aqui justaposta \u00e0 parab\u00f3lica, s\u00edmbolo da \u201ctechn\u00e9\u201d moderna.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Por falar em \u201ctechn\u00e9\u201d moderna. Como v\u00ea um fen\u00f3meno como o de Marisa Monte, que, sem tradi\u00e7\u00e3o na chamada MPB, conseguiu, no Brasil e n\u00e3o s\u00f3, um sucesso quase instant\u00e2neo?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 \u00c9 o significado da efic\u00e1cia da ind\u00fastria cultural. S\u00e3o artistas que nascem de um \u201cdesign\u201d. Artistas industriais, mesmo. Na minha gera\u00e7\u00e3o havia talentos que acabavam ou n\u00e3o por produzir para a ind\u00fastria cultural, no tempo em que esta ainda n\u00e3o estava totalmente desenvolvida. Agora n\u00e3o, essa ind\u00fastria j\u00e1 funciona em pleno, o que implica dinheiro, investimento, \u201cdesign\u201d. H\u00e1 estat\u00edsticas, linhas de controlo, de avalia\u00e7\u00e3o, etc, e portanto j\u00e1 se consegue construir, a partir do artificial, artistas bi\u00f3nicos, \u201ccyber\u201d. \u00c9 a pragmatiza\u00e7\u00e3o absoluta do talento. N\u00f3s \u00e9ramos a fase humanista.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Esse humanismo levou-o a abrir a digress\u00e3o mundial com um espect\u00e1culo gratuito em Copacabana?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Foi uma ideia da minha assessoria. Talvez ligado a esse sonho de reviver e dar testemunho a uma nova gera\u00e7\u00e3o, de um tempo de festa: a \u00e9poca \u201chippie\u201d \u00e0 qual pertencemos. Uma \u00e9poca de grandes \u2018shows\u2019 em que se juntava a Natureza, belas fazendas, belas praias, com m\u00fasica e cultura e em que havia um sentimento de confraterniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cultura >> Quinta-Feira, 26.03.1992 Gilberto Gil, Que Promove Um Novo Disco Em Portugal, Ao P\u00daBLICO &#8220;O Mundo \u00c9 Grande Porque a Terra \u00c9 Pequena\u201d O novo disco de Gilberto Gil, \u201cParabolic\u201d, assinala o regresso do compositor brasileiro \u00e0s origens. 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