{"id":7903,"date":"2020-02-06T09:20:49","date_gmt":"2020-02-06T16:20:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=7903"},"modified":"2020-02-06T09:20:49","modified_gmt":"2020-02-06T16:20:49","slug":"chico-buarque-chico-buarque-fala-de-estorvo-o-seu-primeiro-romance-talvez-eu-tenha-vivido-o-pesadelo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2020\/02\/06\/chico-buarque-chico-buarque-fala-de-estorvo-o-seu-primeiro-romance-talvez-eu-tenha-vivido-o-pesadelo\/","title":{"rendered":"Chico Buarque &#8211; &#8220;Chico Buarque Fala De &#8216;Estorvo&#8217;, O Seu Primeiro Romance &#8216;Talvez Eu Tenha Vivido O Pesadelo'&#8221;"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 200;\ngoogle_ad_height = 200;\ngoogle_ad_format = \"200x200_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>Sec\u00e7\u00e3o Cultura  Ter\u00e7a-Feira, 12.11.1991 (entrevista)<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>Chico Buarque Fala De \u201cEstorvo\u201d, O Seu Primeiro Romance<br \/>\n\u201cTalvez Eu Tenha Vivido O Pesadelo\u201d<br \/>\n<\/center><br \/>\n\u201cEstorvo\u201d representa a estreia \u201ca s\u00e9rio\u201d de Chico Buarque na literatura. No Brasil o aplauso foi un\u00e2nime. O romance, que obrigou o seu autor a abandonar a m\u00fasica por mais de um ano, conta-nos uma hist\u00f3ria intermin\u00e1vel de fuga e aliena\u00e7\u00e3o. O livro encontra-se \u00e0 venda em Portugal desde o final da semana passada.<br \/>\n <\/strong><\/p>\n<p><center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=7904\" rel=\"attachment wp-att-7904\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/chicobuarque.jpg\" alt=\"\" width=\"419\" height=\"630\" class=\"aligncenter size-full wp-image-7904\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/chicobuarque.jpg 419w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/chicobuarque-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/chicobuarque-67x100.jpg 67w\" sizes=\"auto, (max-width: 419px) 100vw, 419px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>Met\u00e1fora ou n\u00e3o, \u201cEstorvo\u201d incomoda pelo tom obsessivo da personagem principal, \u00e0 deriva num universo de viol\u00eancia que o autor n\u00e3o deixa de comparar ao Brasil. Ao longo de uma narrativa em que a musicalidade da escrita est\u00e1 sempre presente, \u00e9 todo um desfilar de fantasmas e desencontros que termina na morte. Mas o autor prefere falar da forma e das virtualidades da linguagem. O \u201cfilme-nefro\u201d confunde-se com o romance psicol\u00f3gico.<br \/>\n<strong>P\u00daBLICO \u2013 \u201cEstorvo\u201d \u00e9 um livro em que se nota um grande pessimismo, um tom desesperado, mesmo. Esse estado de esp\u00edrito corresponde a uma fase da sua vida?<\/strong><br \/>\nCHICO BUARQUE \u2013 Eu n\u00e3o me identifico a tal ponto com a personagem do livro. O tom geral \u00e9 certamente de pessimismo. Talvez eu seja um pouco pessimista, se n\u00e3o tiver a m\u00fasica por perto.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Mas houve alguma situa\u00e7\u00e3o concreta que o angustiasse nessa altura?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Talvez eu tenha vivido o pesadelo, durante a ecrita do livro, pelo pr\u00f3prio trabalho de o escrever. Foi um trabalho que mexeu bastante com alguns fantasmas. Mas digo isso hoje, porque j\u00e1 estou de fora. Na \u00e9poca n\u00e3o tinha muita consci\u00eancia disso. \u00c0s vezes tinha at\u00e9 a impress\u00e3o de me estar a divertir, de estar a escrever um livro cheio de humor. E quando o terminei, mesmo a partir da observa\u00e7\u00e3o de outras pessoas, comecei a notar que est\u00e1 muito carregado de ang\u00fastia.<br \/>\n<strong>P. \u2013 O livro come\u00e7a por surpreender pela forma: a escrita na primeira pessoa do singular traduz-se na vis\u00e3o subjectiva da realidade. Os personagens n\u00e3o t\u00eam nome. Nesse sentido, \u201cEstorvo\u201d pode considerar-se um romance psicol\u00f3gico?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Tem tudo a ver com o inconsciente. Cheguei a um certo ponto em que n\u00e3o vi qualquer necessidade de dar nome \u00e0s personagens. Pareceu-me artificial. De resto, tenho uma certa dificuldade de dizer porque fiz de uma maneira e n\u00e3o de outra. Acredito que o uso da primeira pessoa facilite uma certa ambiguidade \u2013 a da realidade filtrada por uma \u00fanica personagem. A sua imagina\u00e7\u00e3o e a minha acabam por se confundir.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Um pouco \u00e0 semelhan\u00e7a de \u201cBarton Fink\u201d, nunca sabemos se ac\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201creal\u201d ou se se passa apenas na cabe\u00e7a da personagem.<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Na minha cabe\u00e7a, tenho uma hist\u00f3ria real, com princ\u00edpio, meio e fim. A passagem da realidade para a imagina\u00e7\u00e3o da personagem, \u00e0s vezes \u00e9 marcada pelo tempo de um verbo. Mas para o leitor imagino que seja confuso. No fundo n\u00e3o pretendo esclarecer mais do que o necess\u00e1rio essa divis\u00f3ria entre o real e a fantasia.<br \/>\n<strong>P. \u2013 O romance come\u00e7a com o \u201cher\u00f3i\u201d num estado de \u201csemi-vig\u00edlia\u201d. N\u00e3o sabemos se est\u00e1 acordado ou a sonhar\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Come\u00e7a e termina nesse registo.<br \/>\n<strong>P. \u2013 A ambiguidade geral de \u201cEstorvo\u201d levou v\u00e1rios cr\u00edticos a consider\u00e1-lo uma met\u00e1fora sobre a actual realidade brasileira. Concorda?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 N\u00e3o tive a menor inten\u00e7\u00e3o nem preocupa\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica. Por exemplo, a geografia da cidade \u00e9 claramente a do Rio de Janeiro. H\u00e1 sem d\u00favida coisas que dizem respeito \u00e0 realidade concreta brasileira de hoje; elementos do seu dia-a-dia, se bem que romanceados.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Mas \u00e9 leg\u00edtimo estabelecer um paralelo entre a personagem sem destino do romance e o cidad\u00e3o brasileiro?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Nesse aspecto, o cidad\u00e3o brasileiro, hoje, est\u00e1 perdido, perplexo. E eu, como os outros brasileiros, tamb\u00e9m me sinto um pouco assim. Ent\u00e3o a\u00ed, sim, \u201cEstorvo\u201d retrata o momento.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Ao contr\u00e1rio do romance tradicional, em que o her\u00f3i age sempre em nome de um ideal ou de um valor, em \u201cEstorvo\u201d, n\u00e3o existe qualquer tipo de motiva\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 ac\u00e7\u00f5es; apenas gestos\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 H\u00e1 gestos, modifica\u00e7\u00f5es, mas s\u00e3o movimentos sem inten\u00e7\u00e3o. O her\u00f3i n\u00e3o tem inten\u00e7\u00e3o de interferir nos acontecimentos. Assiste a tudo, impotente.<br \/>\n<strong>P. \u2013 De onde vem essa sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Bem\u2026 As ac\u00e7\u00f5es foram surgindo como consequ\u00eancia da linguagem. E ela \u00e9 que determinou muitas vezes a maneira como as coisas se sucediam. Se as personagens tinham determinadas inten\u00e7\u00f5es, estas por vezes n\u00e3o se chegaram a concretizar porque na escrita soavam a falso. A linguagem n\u00e3o permitiu. Portanto, foi a pr\u00f3pria escrita que determinou a ac\u00e7\u00e3o, ou inac\u00e7\u00e3o, do livro. A quest\u00e3o da linguagem, para mim, \u00e9 mais importante do que qualquer outra coisa. Num livro pequeno como \u201cEstorvo\u201d, passei meses a fio a reescrev\u00ea-lo. S\u00f3 parava quando chegava a um resultado que me satisfizesse em termos de linguagem e n\u00e3o de enredo.<br \/>\n<strong>P. \u2013 N\u00e3o receia que, com tal processo, \u201cEstorvo\u201d possa ser visto como mero exerc\u00edcio de estilo?<\/strong><br \/>\nR.- Talvez tenha corrido esse risco, mas tenho a impress\u00e3o que a pr\u00f3pria linguagem criou uma tens\u00e3o pr\u00f3pria, um ritmo, que acaba por ser musical. Acho que o livro \u00e9 musical, apesar de n\u00e3o ter nada a ver com a minha m\u00fasica. Mas tudo isto, agora, s\u00e3o especula\u00e7\u00f5es posteriores \u00e0 cria\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<strong>P. \u2013 H\u00e1 quem se refira ao enredo de \u201cEstorvo\u201d como sendo a descri\u00e7\u00e3o de uma fuga. Fuga de qu\u00ea?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 N\u00e3o sei se o personagem foge, se \u00e9 escorra\u00e7ado ou se \u00e9 simplesmente um desajustado. \u00c9 algu\u00e9m que n\u00e3o se sente bem em lugar algum. Vai sempre para outro lugar, percorrendo um c\u00edrculo vicioso, sabendo de antem\u00e3o que n\u00e3o vai chegar a lado algum. N\u00e3o sei se isso \u00e9 uma fuga ou se \u00e9 uma procura.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Procura que no final cessa apenas com a cena do esfaqueamento como se o \u201cher\u00f3i\u201d pudesse apenas ser aceite e redimido pela dor.<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Essas s\u00e3o impress\u00f5es do livro. Penso nelas e \u00e9 como se estivesse a pensar no livro de uma outra pessoa\u2026<br \/>\n<strong>P. \u2013 Que impress\u00e3o tem do seu livro, na perspectiva do leitor?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 A dificuldade \u00e9 que eu ainda n\u00e3o consegui distanciar-me nem separar-me, do livro e da personagem. Ainda me sinto envolvido. Vivi essa saga. A facada no fim parece-me natural. Esse desejo de exibir o sangue vivo na camisa, para mostrar \u00e0 ex-mulher, na tentativa de comunicar com ela atrav\u00e9s dessa ferida, faz parte da linguagem natural da personagem. N\u00e3o foi numa perspectiva psicol\u00f3gica que fiz a leitura do que escrevi. Foi sobretudo ao n\u00edvel da linguagem.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Essa insist\u00eancia no aspecto formal n\u00e3o esconder\u00e1 o desejo inconsciente de afirmar perante a cr\u00edtica a sua faceta de escritor?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 O reescrever e a obsess\u00e3o formal s\u00e3o resultado de um grande prazer interior que tive em escrever. N\u00e3o de inventar uma \u201ccena\u201d nova. Isso implicaria um sofrimento muito grande. Houve, quando muito, o desejo de ser aceite como escritor e n\u00e3o como compositor. O receio que tinha em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica era o de ser lido justamente enquanto autor de can\u00e7\u00f5es. E isso ter-me-ia parecido uma injusti\u00e7a. Para ser assim, preferia ter feito um disco.<br \/>\n<strong>P. \u2013 O sucesso instant\u00e2neo de \u201cEstorvo\u201d, no Brasil, implica um redobrar de responsabilidade. Como pensa a partir de agora conciliar as facetas de escritor e compositor?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 J\u00e1 me come\u00e7aram a perguntar pelo pr\u00f3ximo livro. Por outro lado, tenho contratos com editoras discogr\u00e1ficas que est\u00e3o preocupadas com este meu \u201cdesvio\u201d para a literatura\u2026<br \/>\n<strong>P. \u2013 Poder\u00e1 haver um benef\u00edcio rec\u00edproco entre a m\u00fasica e a litera?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 \u00c9 um grande mist\u00e9rio que eu gostaria de desvendar. Julguei que, quando terminasse o livro, iria voltar para a m\u00fasica com muita sede. Mas fiquei exausto. E a m\u00fasica foi um bocado atingida. Como se todas as minhas energias tivessem sido sugadas pelo livro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sec\u00e7\u00e3o Cultura Ter\u00e7a-Feira, 12.11.1991 (entrevista) Chico Buarque Fala De \u201cEstorvo\u201d, O Seu Primeiro Romance \u201cTalvez Eu Tenha Vivido O Pesadelo\u201d \u201cEstorvo\u201d representa a estreia \u201ca s\u00e9rio\u201d de Chico Buarque na literatura. No Brasil o aplauso foi un\u00e2nime. 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