{"id":7866,"date":"2020-01-16T11:13:40","date_gmt":"2020-01-16T18:13:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=7866"},"modified":"2020-01-16T11:13:40","modified_gmt":"2020-01-16T18:13:40","slug":"harold-budd-bill-frisell-paco-de-lucia-universos-paralelos-artigo-de-opiniao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2020\/01\/16\/harold-budd-bill-frisell-paco-de-lucia-universos-paralelos-artigo-de-opiniao\/","title":{"rendered":"Harold Budd + Bill Frisell + Paco de Lucia &#8211; &#8220;Universos Paralelos&#8221; (artigo de opini\u00e3o)"},"content":{"rendered":"<p>Pop-Rock Quarta-Feira, 23.10.1991<\/p>\n<p><strong>UNIVERSOS PARALELOS<\/strong><\/p>\n<p><strong>Harold Budd, Bill Frisell e Paco de Lucia v\u00e3o estar entre n\u00f3s. Um piano e duas guitarras. O sil\u00eancio, a cidade e o fogo. Tr\u00eas sensibilidades diferentes que apenas se encontram no gosto pela perfei\u00e7\u00e3o. Frisell tra\u00e7a Nova Iorque em papel quadriculado. De Lucia \u00e9 a emo\u00e7\u00e3o \u00e0 flor dos dedos. Budd respira o infinito. Fruir a m\u00fasica \u00e9 tamb\u00e9m essa viagem entre a realidade e o sonho.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o fora Brian Eno e poucos saberiam hoje quem \u00e9 Harold Budd. Com efeito foi gra\u00e7as a um disco gravado e editado na s\u00e9rie \u201cObscure\u201d, de Eno, que o pianista fez chegar ao mundo as reverbera\u00e7\u00f5es do sil\u00eancio. \u201cThe Pavillion of Dreams\u201d, assim se chamava o disco. T\u00edtulo que diz tudo, ou quase. A imagem, esbo\u00e7ada pela fantasia, diz que h\u00e1 um pavilh\u00e3o de vidro no meio do jardim. Dentro do pavilh\u00e3o est\u00e1 um piano de cauda. Em cima do piano, ta\u00e7vez um ramo de violetas. Murchas. No exterior deve chover. E o sol, quando chegar, h\u00e1-de trespassar as gotas de \u00e1gua e iluminar o piano abandonado.<\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 300;\ngoogle_ad_height = 250;\ngoogle_ad_format = \"300x250_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><strong>Budd: Superf\u00edcies Polidas<\/strong><\/p>\n<p><center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=7869\" rel=\"attachment wp-att-7869\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/hb.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"343\" class=\"aligncenter size-full wp-image-7869\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/hb.jpg 500w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/hb-300x206.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/hb-100x69.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>Harold Budd come\u00e7ou por escrever poemas, \u201csem prop\u00f3sito algum\u201d. Tal como a sua m\u00fasica. O piano de Harold Budd n\u00e3o conta hist\u00f3ria nenhuma, como fariam os rom\u00e2nticos. A m\u00fasica est\u00e1 l\u00e1. Vale por si. N\u00e3o aponta nem diz coisa alguma. Ela \u00e9 essa coisa. O Zen ensina-nos que ser \u00e9 o mesmo que estar. Est\u00e1-se na m\u00fasica de Harold Budd, como num lugar. Seja qual for esse lugar: no cimo de um monte, no interior de um quarto ou num recanto da mem\u00f3ria. Uma vez o m\u00fasico deu com uma monografia do pintor italiano Sandro Chia, com a seguinte legenda: \u201cUma luz desceu sobre a minha cabe\u00e7a, como uma s\u00faibita madrugada.\u201d A frase serviu de mote para o seu disco mais recente, \u201cBy the Dawn\u2019s Early Light\u201d o \u00fanico na sua discografia em que s\u00e3o utilizados textos, neste caso declamados.<br \/>\nH\u00e1 quem fale de minimalismo ao referir-se \u00e0 obra deste pioneiro que fez parte da vanguarda californiana dos anos 60. De facto, \u00e9 dif\u00edcil chamar-lhe outra coisa se considerarmos obras como as que ent\u00e3o comp\u00f4s, como \u201cLirio\u201d, um solo de gongo com a dura\u00e7\u00e3o de 24 horas. Mais tarde, escreveu \u201cMadrigals of the rose angels\u201d, para harpa, percuss\u00e3o, violoncelo, luzes e um \u201ccoro feminino em \u2018topless\u2019\u201d (devem ser vocaliza\u00e7\u00f5es sem as oitavas superiores). Depois foi o encontro com Eno e a m\u00fasica que geralmente associamos ao seu nome: um \u201cperpetuum mobile\u201d harm\u00f3nico, feito de cintila\u00e7\u00f5es de piano. Em paralelo, um universo ext\u00e1tico, que ilumina as obsess\u00f5es ficcionais de Erik Satie.<br \/>\n\u201cThe Plateaux of Mirror\u201d e \u201cThe Pearl\u201d (ambos com Brian Eno) orquestram o sil\u00eancio, depurando-o de todas as impurezas. S\u00e3o, como os t\u00edtulos sugerem, espelho e p\u00e9rola. Superf\u00edcies polidas que reflectem interiores, o mar, o c\u00e9u. Repare-se, entretanto, na beleza dos t\u00edtulos, a que Budd d\u00e1 a maior import\u00e2ncia: \u201cThe Serpent in the quicksilver \/ Abandoned cities\u201d (composto para v\u00e1rias instala\u00e7\u00f5es multim\u00e9dia), \u201cThe moon and the melodies\u201d (com Robin Guthrie e Elizabeth Fraser, dos Cocteau Twins), \u201cLovely thunder\u201d, \u201cThe white \u00e1rcades\u201d. Escuta-se a m\u00fasica das palavras. As sugest\u00f5es que encerram. \u201cBy the dawn\u2019s early light\u201d \u00e9 mais sombrio, mas n\u00e3o menos belo. A beleza desta m\u00fasica est\u00e1 pr\u00f3xima do classicismo grego. No rigor e na exactid\u00e3o das formas. Perfei\u00e7\u00e3o fria. Por isso, \u00e0s vezes, assustadora. Harold Budd diz: \u201cDesde muito novo que adoro m\u00fasica que entre directamente pela veia jugular. E a arte que sabe ser extremista sem recorrer a truques.\u201d No concerto portugu\u00eas, tocar\u00e1 acompanhado do guitarrista Bill Nelson (dos Be Bop de Luxe \u00e0 companhia de David Syvian, a dist\u00e2ncia percorrida) e do percussionista John Spence.<\/p>\n<p><strong>Frisell: O Cora\u00e7\u00e3o Da Paran\u00f3ia<\/strong><\/p>\n<p><center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=7868\" rel=\"attachment wp-att-7868\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/frisell.jpg\" alt=\"\" width=\"451\" height=\"352\" class=\"aligncenter size-full wp-image-7868\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/frisell.jpg 451w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/frisell-300x234.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/frisell-100x78.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 451px) 100vw, 451px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>E, de s\u00fabito, o ru\u00eddo do tr\u00e1fego nova-iorquino, a vertigem da colmeia urbana, o movimento fraccionado e luciferino. Bill Frisell habita no cora\u00e7\u00e3o da paranoia mas sabe deitar \u00e1gua na fervura. Cresceu a ouvir B. B. King, Paul Butterfiled e Buddy Guy. Cedo encontrou o jazz (e que os puristas perdoem a heresia\u2026) na ECM, editora para a qual grava \u201cIn Line\u201d, \u201cRambler\u201d e \u201cLookout for Hope\u201d, este \u00faltimo, mais que os anteriores, evidenciando um enorme ecletismo, atrav\u00e9s de incurs\u00f5es em \u00e1reas como o reggae ou o rock. Depois, troca a ECM pela Elektra Nonesuch, especializada na edi\u00e7\u00e3o de \u201ccl\u00e1ssicos da vanguarda\u201d. \u201cBefore We Were Born\u201d e \u201cIs That You?\u201d s\u00e3o o resultado dessa mudan\u00e7a. Para muitos, este discos s\u00e3o geniais (a \u201cDown Beat\u201d considerou o segundo \u00c1lbum do Ano), para outros s\u00e3o simplesmente chatos. Talvez a designa\u00e7\u00e3o mais apropriada seja \u201cgenialmente chato\u201d. Bill Frisell foi \u201cgenialmente chato\u201d nas duas vezes em que tocou em Portugal, integrado nos Naked City. Agora, \u00e0 terceira, espera-se que n\u00e3o o seja de vez. Vem acompanhado de Joey Baron (outro Naked City, dos n\u00e3o chatos), na bateria, e de Kermit Driscoll (mais conhecido por \u201cCocas\u201d, integra actualmente os President, de Wayne Horvitz).<br \/>\nAo longe vibra uma guitarra flamejante. \u00c9 Paco de Lucia, um dos expoentes da guitarra de flamenco, daqueles que parecem ter sete dedos em cada m\u00e3o. O seu nome verdadeiro n\u00e3o \u00e9 Paco, mas Francisco. Francisco Gomes, mais concretamente. Nasceu em C\u00e1dis, filho de fam\u00edlia humilde. Pela folha de promo\u00e7\u00e3o fica-se a saber que \u201cser humilde em 1947, em Espanha e ainda por cima no Sul, significava que a vida n\u00e3o era f\u00e1cil\u201d. Hoje ser humilde implica uma vida mais f\u00e1cil, talvez mesmo um certo \u201cstatus\u201d. Aprendeu a tocar guitarra com o pai. Parece que foi \u201cduro\u201d, \u201cdoloroso\u201d e \u201cdif\u00edcil\u201d. Mas valeu a pena. Paco de Lucia tornou-se um verdadeiro virtuoso. Hoje, faz o que quer da guitarra, arrancando-lhe sons que sabem a sangue, a rosas, a vinho, a vento, a bocas carnudas, a sapateado, a poeira levantada na estrada por \u201croulottes\u201d ciganas, a castanholas, ao Sul, ao orgulho, \u00e0 vida que pulsa nas veias, a morte, ao sangrar da alma \u00e0 procura de altura, pelas cordas acima.<\/p>\n<p><strong>De Lucia: A Alma \u00c0 Procura Da Altura<\/strong><\/p>\n<p><center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=7867\" rel=\"attachment wp-att-7867\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/lucia.jpg\" alt=\"\" width=\"414\" height=\"622\" class=\"aligncenter size-full wp-image-7867\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/lucia.jpg 414w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/lucia-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2020\/01\/lucia-67x100.jpg 67w\" sizes=\"auto, (max-width: 414px) 100vw, 414px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>Paco De Lucia, tamb\u00e9m ele, cedeu ao jazz. Lado a lado com Chick Corea ou com John McLaughlin e Al di Meola, em \u201cSaturday Night in San Francisco\u201d e \u201cPassion, Grace and Fire\u201d, este um \u201cmust\u201d da guitarra ac\u00fastica. A solo assina obras como \u201cFantasia Flamenca\u201d, \u201cEl Duende Flamenco\u201d, \u201cFuente e Caldal\u201d e \u201cAlmoraine\u201d. E uma homenagem ao mestre e ao flamenco em \u201cManuel de Falla\u201d. Sem esquecer aquele que foi o seu maior \u00eaxito comercial, \u201cSolo Quiero Caminar\u201d. \u201cZyriab\u201d, recentemente editado entre n\u00f3s, \u00e9 um exerc\u00edcio brilhante de flamenco-jazz, et\u00e9reo, fluindo com a intensidade de lava que escorre por dentro. Acompanham o guitarrista nesta sua desloca\u00e7\u00e3o ao nosso pa\u00eds Ramon Sanchez Gomez, seu irm\u00e3o, tamb\u00e9m na guitarra, Jos\u00e9 Gomez, vocalista (irm\u00e3o de Ramon e, por consequ\u00eancia, irm\u00e3o de Francisco, ali\u00e1s, Paco), Ruben Dantas, percussionista brasileiro, Carlos Benavente, no baixo, Jorge Pardo, saxes e flauta, e Manuel Soler, dan\u00e7arino. Resta seguir a sua m\u00fasica, pela noite e pelo sol.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pop-Rock Quarta-Feira, 23.10.1991 UNIVERSOS PARALELOS Harold Budd, Bill Frisell e Paco de Lucia v\u00e3o estar entre n\u00f3s. Um piano e duas guitarras. O sil\u00eancio, a cidade e o fogo. Tr\u00eas sensibilidades diferentes que apenas se encontram no gosto pela perfei\u00e7\u00e3o. Frisell tra\u00e7a Nova Iorque em papel quadriculado. 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