{"id":7805,"date":"2019-12-18T08:25:24","date_gmt":"2019-12-18T15:25:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=7805"},"modified":"2019-12-18T08:25:24","modified_gmt":"2019-12-18T15:25:24","slug":"varios-ananana-sons-estranhos-numa-terra-estranha-editora-importadora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2019\/12\/18\/varios-ananana-sons-estranhos-numa-terra-estranha-editora-importadora\/","title":{"rendered":"V\u00e1rios &#8211; &#8220;Ananana: Sons Estranhos Numa Terra Estranha&#8221; (editora \/ importadora)"},"content":{"rendered":"<p>Pop-Rock Quarta-Feira, 09.10.1991<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>ANANANA: SONS ESTRANHOS NUMA TERRA ESTRANHA<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n<strong>A palavra, de resson\u00e2ncias esot\u00e9ricas, \u00e9 pouco esclarecedora: Ananana \u2013 designa\u00e7\u00e3o de uma importadora de discos formada por Fred e Paulo Somsen, dois irm\u00e3os apreciadores das m\u00fasicas mais esquisitas do universo, apostada em dar a conhecer, via postal, esses sons do outro mundo ao comum dos mortais. Nomes como Jorge Reyes, Erik Wollo e Vasilisk s\u00e3o por ora conhecidos apenas por um n\u00famero restrito de iniciados. Mas a situa\u00e7\u00e3o tende a mudar. \u00c0 disposi\u00e7\u00e3o de quem se mostrar disposto a aventurar-se est\u00e1 um lote de novidades discogr\u00e1ficas, t\u00e3o estranhas quanto excitantes. O futuro da m\u00fasica alternativa passa por aqui.<\/strong><\/p>\n<p><center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=7806\" rel=\"attachment wp-att-7806\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/oyc.jpg\" alt=\"\" width=\"580\" height=\"467\" class=\"aligncenter size-full wp-image-7806\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/oyc.jpg 580w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/oyc-300x242.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/oyc-100x81.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 580px) 100vw, 580px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 234;\ngoogle_ad_height = 60;\ngoogle_ad_format = \"234x60_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>A ideia de formar a Ananana surgiu h\u00e1 cerca de um ano, na sequ\u00eancia de um programa de r\u00e1dio realizado pelos irm\u00e3os Somsen, o DDD, na extinta R\u00e1dio Minuto. \u201cHavia muita gente a telefonar para l\u00e1, a perguntar onde \u00e9 que podia arranjar os discos que pass\u00e1vamos\u201d, explica Fred Somsen. \u201cResolvemos experimentar e importar pequenas quantidades de discos, a ver o que dava. Come\u00e7\u00e1mos com \u00e1lbuns de grupos mais radicais, como os Zoviet France. As pessoas responderam bem.\u201d<br \/>\n\u201cRadical\u201d \u00e9 de facto o adjectivo que melhor se aplica \u00e0 maior parte dos discos importados pela Ananana. Os estilos abarcados s\u00e3o muitos, privilegiando a \u00e1rea das m\u00fasicas electr\u00f3nicas, nas suas diversas vertentes: industrial, tecnoritual, electroac\u00fastica, ambiental, minimal, new age, sound collage e outras de imposs\u00edvel cataloga\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDe entre uma multiplicidade alucinante de nomes t\u00e3o ex\u00f3ticos como Ordo Equitum Solis, Nouvelles Lectures Cosmopolites ou Sigillum S, \u00e9 poss\u00edvel distinguir dois campos musicais extremados de caracter\u00edsticas opostas, ilustrativos de duas concep\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas, sen\u00e3o mesmo \u00e9ticas, por natureza inconcili\u00e1veis, as quais, em termos muito gen\u00e9ricos e recorrendo a uma linguagem simb\u00f3lica, podemos designar por \u201cm\u00fasica espiritual\u201d e \u201cm\u00fasica infernal\u201d.<\/p>\n<p><strong>O Ser Humano Cobaia<\/strong><\/p>\n<p>Nesta \u00faltima categoria, do agrado de uma certa camada de jovens que, segundo Fred Somsen, \u201cpretende fugir \u00e0 m\u00fasica vulgar, ao rock e \u00e0 pop\u201d, incluem-se grande parte dos itens dispon\u00edveis na Ananana: Anti-Group, Autopsia (cujo t\u00edtulo de um dos seus \u00e1lbuns n\u00e3o deixa d\u00favidas quanto ao conte\u00fado: \u201cDeath Is The Mother of Beauty\u201d), Coil, Cranioclast, Dreaming Together, Hafler Trio, Lustmord, Nocturnal Emissions, Organum, Sleep Chamber ou Zero Kama, entre outros.<br \/>\nTodos se servem dos ouvintes, e do ser humano em geral, como cobaias. T\u00eam em comum o gosto pela manipula\u00e7\u00e3o \u2013 dos sons e das mentes. Recorrem para tal \u00e0 ci\u00eancia psicoac\u00fastica, aos rituais m\u00e1gicos antigos (sobretudo negros) ou, na maior parte dos casos, \u00e0 mera sugest\u00e3o. Guardam do mundo uma vis\u00e3o negra, embora \u00e0s vezes pretendam fazer crer o contr\u00e1rio. Apelam ao masoquismo e ao orgulho intelectual, sempre \u00e1vido de novas conceptualiza\u00e7\u00f5es, venham elas de Deus ou do diabo. Neste caso, do diabo.<br \/>\nSe n\u00e3o, repare-se na linguagem e na iconografia: \u201cGreat Death\u201d (dos BDN, um dos grupos editados por uma editora que d\u00e1 pelo nome de \u201ccarne fria\u201d), \u201cMasturbatorium\u201d (Hafler Trio, ultra-sons \u00e0 mistura com pornografia), \u201cHeresy\u201d (Lustmord \u2013 experi\u00eancia com gamas de frequ\u00eancia inaud\u00edveis, gravadas em locais como criptas, grutas e outros lugares subterr\u00e2neos, onde a luz n\u00e3o abunda), \u201cAux Morts\u201d (Memorandum, tamb\u00e9m para as \u201ccarnes frias\u201d), Invocation of the Beast Gods\u201d (Nocturnal Emissions, besti\u00e1rio samplado em torno do n\u00famero da besta, \u201c666\u201d), \u201cMusic To Be Murdered By\u201d (colect\u00e2nea de v\u00e1rias bandas, cujo t\u00edtulo n\u00e3o conv\u00e9m seguir \u00e0 letra) ou o rebuscado \u201cHallucinated Moisture of synaptic Slaughterhouse\u201d (Sigillum S, peritos nas artes m\u00e1gicas e nas canhalices de Aleister Crowley), s\u00e3o alguns exemplos, entre outros de conota\u00e7\u00f5es menos evidentes, da filosofia do \u201cantes dar que apanhar\u201d.<br \/>\nFred Somsen reconhece ter tamb\u00e9m ele, \u201ch\u00e1 seis ou sete anos atr\u00e1s\u201d, apreciado este tipo de m\u00fasicas. Agora j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 tanto assim, mas mesmo aqui h\u00e1 que ter em conta os gostos de quem consome: \u201cGrupos como os Coil ou Current 93 s\u00e3o hoje, de certa forma, populares entre n\u00f3s. Nos cat\u00e1logos da Ananana procuramos determinadas associa\u00e7\u00f5es e alus\u00f5es a estes nomes, de maneira a que os f\u00e3s dos grupos citados procurem conhecer e experimentar ouvir os nomes menos conhecidos. Acontece comprarem, por exemplo, um disco de uma determinada editora e, se gostarem, acabam por comprar tamb\u00e9m as outras refer\u00eancias dessa editora.\u201d<\/p>\n<p><strong>Ala Luminosa<\/strong><\/p>\n<p>Independentemente dos efeitos que o consumo de tais experi\u00eancias possa provocar no ouvinte, importa em primeiro lugar dar a conhecer e, eventualmente, vender. \u201cSomos apenas intermedi\u00e1rios\u201d, explica Fred Somsen, para quem esta quest\u00e3o n\u00e3o se coloca em termos \u00e9ticos.<br \/>\nMas h\u00e1 outras maneiras de ver e de sentir menos sombrias.<br \/>\nErik Wollo, Hans-Joachim Roedelius, Jorge Reyes, Lights In A Fat City, O Yuki Conjugate, Pascal Comelade, Robert Rich e Tim Story s\u00e3o alguns dos leg\u00edtimos representantes da ala luminosa presente nas preocupa\u00e7\u00f5es e no cat\u00e1logo da Ananana. Longe das mezinhas e dos xaropes banha da cobra dos subprodutos new age, e recorrendo, em alguns casos, tamb\u00e9m eles \u00e0s sonoridades rituais (Erik Wollo, Lights In A Fat City, O Yuki Conjugate, Jorge Reyes), servem-se delas como ponto de partida para um trabalho de integra\u00e7\u00e3o e n\u00e3o de dispers\u00e3o. A diferen\u00e7a reside em ser-se apologista da harmonia (n\u00e3o se confunda o termo com estatismo, nem com concep\u00e7\u00f5es piegas, de todo ausentes nos casos apontados) ou, por oposi\u00e7\u00e3o e dana\u00e7\u00e3o, \u201cconstrutor\u201d do caos.<br \/>\nDispersos entre o contingente sat\u00e2nico e a ala celestial, revolvem-se outros m\u00fasicos e outros grupos, nas tintas para as preocupa\u00e7\u00f5es morais ou para os furores separatistas, preocupados t\u00e3o-s\u00f3 em criar mundos alternativos originais, sem descend\u00eancia directa poss\u00edvel, nem hip\u00f3tese de c\u00f3pia cred\u00edvel.<br \/>\nJakob Draminsky-Hojmark, Jeff Greinke, Mecanica Popular, Nurse With Wound, Peter Frohmader, PGR, Stefan Tiedje, Vasilisk (cujo CD \u201cLiberation &#038; Ecstasy\u201d \u00e9, at\u00e9 \u00e0 data, o disco mais vendido pela Ananana), Zoviet France, inventam territ\u00f3rios, estilha\u00e7am fronteiras, obrigam a escutar tudo de novo.<\/p>\n<p><strong>Rituais Do \u201cQuarto Mundo\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Imp\u00f5e-se uma men\u00e7\u00e3o muito especial a dois dos nomes de maior impacto no leque de escolhas da Ananana: o mexicano Jorge Reyes e os brit\u00e2nicos O Yuki Conjugate. O primeiro dedica-se \u00e0 tarefa fascinante de reinventar a tradi\u00e7\u00e3o musical pr\u00e9-hisp\u00e2nica, juntando, numa s\u00edntese magistral, a electr\u00f3nica mais sofisticada, o primitivismo de instrumentos rituais do M\u00e9xico anterior \u00c0s invas\u00f5es espanholas, sons naturais e mesmo a amplifica\u00e7\u00e3o de vibra\u00e7\u00f5es produzidas pelo corpo humano percutido.<br \/>\nGeniais e inovadores, \u00e1lbuns como \u201cNierika\u201d, \u201cMusica Mexicana Pre-hispanica\u201d ou o recente \u201cCronica de Castas\u201d (este em colabora\u00e7\u00e3o com o guitarrista espanhol Suso Saiz, dos Orquestra de las Nubes) merecem pelo menos uma audi\u00e7\u00e3o despreconceituada. Citem-se a prop\u00f3sito desta m\u00fasica estranha, e como meros vectores de orienta\u00e7\u00e3o, as fus\u00f5es tribalistas de Jon Hassell ou da dupla Roberto Musci \u2013 Giovanni Venosta.<br \/>\nOs O Yuki Conjugate inserem-se na mesma veia das m\u00fasicas \u00e9tnico-rituais do \u201cquarto mundo\u201d, embora enveredando por veredas bem mais obscuras. Depois de \u201cScenes from a Mirage\u201d e \u201cInto Dark Water\u201d, a banda brit\u00e2nica prossegue, neste seu novo trabalho, de gen\u00e9rico \u201cPeyote\u201d, gravado no selo sueco Multimood, as incurs\u00f5es num mundo de sombras e geografias paralelas onde pulsam os elementos naturais e os computadores se insinuam \u2013 organismos estranhos numa terra estranha \u2013 para intensificar o mist\u00e9rio.<br \/>\nOutras bizarrias recentemente chegadas \u00e0 Ananana incluem os \u00e1lbuns \u201cGreates Hits 81-91\u201d, colect\u00e2nea de pop industrial dos Psyclones, um dos m\u00faltiplos projectos de Phil Ladd e Julie Frith, \u201cIncandescent\u201d, de Julien Ash (dos Nouvelles Lectures Cosmopolites), \u201cApropos Cluster\u201d da lend\u00e1ria dupla germ\u00e2nica Moebius-Roedelius e \u201cVienna 1990\u201d, assinada pelos mestres da colagem, Zoviet France. Tempo de partir \u00e0 descoberta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pop-Rock Quarta-Feira, 09.10.1991 ANANANA: SONS ESTRANHOS NUMA TERRA ESTRANHA A palavra, de resson\u00e2ncias esot\u00e9ricas, \u00e9 pouco esclarecedora: Ananana \u2013 designa\u00e7\u00e3o de uma importadora de discos formada por Fred e Paulo Somsen, dois irm\u00e3os apreciadores das m\u00fasicas mais esquisitas do universo, apostada em dar a conhecer, via postal, esses sons do outro mundo ao comum dos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[231,40,868,369,370,81,2291,980,7,2330,14,1754,83,12,812,945,44,24,16,58,10,146],"tags":[2462,2471,2472,2473,2474,2465,2475,895,2463,2476,1125,2477,2478,2469,2468,2479,2464,2466,2470,2480,950,2481,2467],"class_list":["post-7805","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-alemaes","category-ambient","category-artigos-1991","category-avant-gard","category-avant-rock","category-contemporanea","category-dossiers-1991","category-editora","category-electronica","category-entrevistas-1991","category-experimental","category-improvisacao","category-industrial","category-jazz","category-minimal","category-noise","category-pop","category-portugueses","category-progressivo","category-rio","category-rock","category-rock-psicadelico","tag-ananana","tag-anti-group","tag-autopsia","tag-coil","tag-cranioclast","tag-ddd60m","tag-dreaming-together","tag-erik-wollo","tag-fred-somsen","tag-hafler-trio","tag-jorge-reyes","tag-lustmord","tag-nocturnal-emissions","tag-nouvelles-lectures-cosmopolites","tag-ordo-equitum-solis","tag-organum","tag-paulo-somsen","tag-radio-minuto","tag-sigillum-s","tag-sleep-chamber","tag-vasilisk","tag-zero-kama","tag-zoviet-france"],"views":1325,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7805","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7805"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7805\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7807,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7805\/revisions\/7807"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7805"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7805"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7805"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}