{"id":7790,"date":"2019-12-06T06:44:25","date_gmt":"2019-12-06T13:44:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=7790"},"modified":"2019-12-06T06:44:25","modified_gmt":"2019-12-06T13:44:25","slug":"andre-mingas-coisas-de-angola-entrevista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2019\/12\/06\/andre-mingas-coisas-de-angola-entrevista\/","title":{"rendered":"Andr\u00e9 Mingas &#8211; &#8220;Coisas de Angola&#8221; (entrevista)"},"content":{"rendered":"<p>Pop-Rock Quarta-Feira, 02.10.1991<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>COISAS DE ANGOLA<br \/>\n<\/center><br \/>\nAndr\u00e9 Mingas j\u00e1 tocou lado a lado com Mory Kant\u00e9 e Salif Keita. O casal Mandela prestou-lhe homenagem. \u201cCoisas da Vida\u201d, agora editado pela Emi-Valentim de Carvalho, promete levar mais longe a m\u00fasica angolana. Peter Gabriel ouviu e gostou. \u00c9 quase certo que v\u00e3o gravar em conjunto.<\/strong><\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 200;\ngoogle_ad_height = 200;\ngoogle_ad_format = \"200x200_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=7791\" rel=\"attachment wp-att-7791\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/am.jpg\" alt=\"\" width=\"381\" height=\"348\" class=\"aligncenter size-full wp-image-7791\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/am.jpg 381w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/am-300x274.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/12\/am-100x91.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 381px) 100vw, 381px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>Por toda a Europa, a m\u00fasica africana faz furor. Boni Bikaye, Mory Kant\u00e9, Manu Dibango, Fela Anikulapo Kuti, King Sunny Ade, Youssou N\u2019Dour, Ray Lema, Salif Keita s\u00e3o alguns dos ilustres embaixadores das sonoridades negras no velho continente. Da Nig\u00e9ria, do Senegal, do Mali ou dos Camar\u00f5es, o contingente negro deita fogo aos palcos e aos est\u00fadios, um pouco por todo o lado. A Fran\u00e7a, antiga pot\u00eancia colonial, foi a primeira a compreender o fen\u00f3meno e a dele retirar dividendos. Os est\u00fadios lana\u00e7aram-se numa correria louca atr\u00e1s das koras, cabasas, balafons e outros instrumentos ex\u00f3ticos. Percebia-se que a m\u00fasica tinha come\u00e7ado ali, entre os tr\u00f3picos. Que o cora\u00e7\u00e3o batia ainda ao mesmo compasso da m\u00e3e, tal como acontecia durante o limbo intra-uterino. O apelo ao ritmo, do ritual, do transe dos corpos, subitamente descobertos, revelava-se ainda por cima rent\u00e1vel. Inventou-se \u00e0 pressa o termo \u201cworld music\u201d para etiquetar sons provenientes do princ\u00edpio dos tempos, quando os costumes n\u00e3o se deixavam ultrapassar pelas modas. Claro que eram necess\u00e1rias concess\u00f5es. A penetra\u00e7\u00e3o nos mercados ocidentais exigia uma abertura de atitudes, de maneira a evitar a confronta\u00e7\u00e3o directa, violenta. Houve ced\u00eancias, \u00e9 certo. Um realinhar de for\u00e7as. O essencial, contudo, permaneceu.<br \/>\nDigamos que h\u00e1 interesse para ambas as partes. Para os pa\u00edses africanos \u00e9 a possibilidade de se fazerem ouvir, de levar a sua cultura a outras latitudes, de ajudar o mundo a crescer, lembrando-lhe a era do fogo, da terra, da floresta, exterior e interior, quando ainda era crian\u00e7a.<br \/>\nVem esta introdu\u00e7\u00e3o a prop\u00f3sito da edi\u00e7\u00e3o do novo \u00e1lbum do m\u00fasico angolano Andr\u00e9 Mingas, irm\u00e3o de Ruy Mingas, m\u00fasico bem mais conhecido entre n\u00f3s. O disco chama-se \u201cCoisas da Vida\u201d, quinto na carreira do cantor. Gravado no Brasil, pa\u00eds com o qual o artista desde h\u00e1 anos vem mantendo contactos, \u201cCoisas da Vida\u201d inclui, para al\u00e9m de originais de Andr\u00e9 Mingas, tradicionais africanos, recolhidos com a ajuda preciosa de Filipe Mukenga.<br \/>\nComo se v\u00ea, Andr\u00e9 Mingas est\u00e1 longe de ser um novato nestas andan\u00e7as. Tocou ao lado de nomes como Salif Keita, Mory Kant\u00e9 e os Toure Kunda, no festival do \u201cL\u2019Humanit\u00e9\u201d. Nelson e Winnie Mandela quiseram conhec\u00ea-lo para lhe prestar uma homenagem simb\u00f3lica. Uma cassete com a sua m\u00fasica chegou \u00e0s m\u00e3os de Peter Gabriel. O resultado prov\u00e1vel ser\u00e1 o convite para tocar no pr\u00f3ximo disco do antigo vocalista dos Genesis. Por tudo isto justificava-se a entrevista.<\/p>\n<p><strong>P\u00daBLICO \u2013 H\u00e1 alguma raz\u00e3o especial para \u201cCoisas da Vida\u201d ter sido gravado no Brasil?<\/strong><br \/>\nANDR\u00c9 MINGAS \u2013 A grava\u00e7\u00e3o no Brasil aconteceu, primeiro, por raz\u00f5es que se prendem com a aus\u00eancia de infra-estruturas em Angola. J\u00e1 tinha feito v\u00e1rias apresenta\u00e7\u00f5es neste pa\u00eds, tendo recebido um convite para gravar l\u00e1 o disco. Por outro lado, tem que ver com a tentativa de encontrar, atrav\u00e9s da troca de experi\u00eancias, uma linguagem que, sendo angolana, tivesse al\u00e9m disso a possibilidade de universaliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<strong>P. \u2013 \u00c9 not\u00f3ria, em certos temas, a influ\u00eancia da m\u00fasica brasileira\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 N\u00e3o se trata exactamente de uma influ\u00eancia do Brasil. H\u00e1 um tema, \u201cCoisas do amor\u201d, que \u00e9 um samba-can\u00e7\u00e3o, feito para criar um espa\u00e7o de abertura tamb\u00e9m no mercado brasileiro. Angola e Brasil t\u00eam afinidades do ponto de vista cultural. N\u00f3s somos um bocado a fonte, temos uma grande responsabilidade na forma\u00e7\u00e3o daquilo que \u00e9 hoje a cultura brasileira. Naturalmente que o que \u00e9 brasileiro tem sido mais divulgado, at\u00e9 como resultado de um maior desenvolvimento tecnol\u00f3gico.<br \/>\nAquilo que fazemos hoje, e partindo do princ\u00edpio de que o canto africano \u00e9 de uma maneira geral rico, \u00e9 a explora\u00e7\u00e3o harm\u00f3nica desse canto. No caso de Angola, o resultado aproxima-se da m\u00fasica brasileira porque h\u00e1, na base, uma afinidade cultural e a ess\u00eancia \u00e9 a mesma. Por vezes \u00e9 dif\u00edcil situar exactamente onde acaba o samba e come\u00e7a o \u201csemba\u201d ou vice-versa; a origem \u00e9 comum. Mas, \u00e0 excep\u00e7\u00e3o desse tema, que \u00e9 de facto intencional, o resto s\u00e3o andamentos t\u00edpicos de Angola.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Por que motivo n\u00e3o foram traduzidos para portugu\u00eas alguns dos temas?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Havia, por um lado, raz\u00f5es editoriais. Era minha inten\u00e7\u00e3o cantar em portugu\u00eas, naturalmente porque me estava a um espa\u00e7o onde se utiliza prioritariamente a l\u00edngua portuguesa [o disco vai ser lan\u00e7ado nos pa\u00edses de express\u00e3o portuguesa]. Por outro lado, tamb\u00e9m \u00e9 um disco para ser consumido no interior do meu pa\u00eds, onde se fala internamente as l\u00ednguas nacionais. \u00c9 muito dif\u00edcil fazer uma tradu\u00e7\u00e3o directa da l\u00edngua nacional para o portugu\u00eas, de estabelecer a correspond\u00eancia.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Quais os principais temas abordados em \u201cCoisas da Vida\u201d?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Por exemplo, um tema como \u201cN\u2019zambi\u201d \u00e9 um alerta para algumas consequ\u00eancias da guerra, como o caso concreto da fome. \u201cO que eu quero\u201d, cantado em portugu\u00eas, \u00e9 outro alerta, este sobre a situa\u00e7\u00e3o dos mutilados, na sua maioria jovens, aquelas pessoas que poderiam efectivamente dar uma contribui\u00e7\u00e3o excelenete \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o do meu pa\u00eds. O disco aborda temas como a guerra e o amor. Num pa\u00eds com 30 anos de guerra, o amor tem de ser cantado e muito.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Tocou ao lado de m\u00fasicos como Salif Keita ou Mory Kant\u00e9, que t\u00eam uma implanta\u00e7\u00e3o forte no mercado europeu. V\u00ea alguma hip\u00f3tese de acontecer algo semelhante com a m\u00fasica angolana?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 \u00c9 essa a inten\u00e7\u00e3o dos m\u00fasicos, hoje \u2013 poderem fazer uma m\u00fasica que possa penetrar no mercado internacional. N\u00e3o fechando-se na m\u00fasica tradicional, mas criando m\u00fasica que possa, por um lado, preservar uma certa identidade, que a afirme como caracter\u00edstica de um espa\u00e7o geogr\u00e1fico espec\u00edfico, mas que possua, por outro lado, uma linguagem universal, capaz de lhe facultar a entrada nesse mercado, tornando-a aud\u00edvel a outros espa\u00e7os geogr\u00e1ficos. As di\u00e1sporas resultantes da expans\u00e3o cultural africana no mundo s\u00e3o uma extens\u00e3o dessa cultura, e n\u00e3o a sua nega\u00e7\u00e3o. Nelas estabele\u00e7o a ponte e reencontro o meu pr\u00f3prio continente.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Como aconteceu a homenagem que lhe fizeram Nelson e Winnie Mandela?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Quando da primeira viagem de ambos a Angola, houve uma recep\u00e7\u00e3o oferecida pelo Presidente da Rep\u00fablica ao casal e para a qual fui convidado para actuar. No final do \u201cshow\u201d devido a algumas interven\u00e7\u00f5es que fiz sobre a situa\u00e7\u00e3o na \u00c1frica do Sul e, em particular, sobre Winnie Mandela, Nelson Mandela manifestou interesse em me conhecer e quis homenagear-me simbolicamente. Fui inclusivamente convidado para actuar na \u00c1frica do Sul, quando a situa\u00e7\u00e3o mudar. \u00c9 um motivo de orgulho para mim.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Como surgiu o convite para tocar com Peter Gabriel?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Essa informa\u00e7\u00e3o foi-me dada pelo meu agente em Londres, que deu a conhecer o meu trabalho ao Peter Gabriel. Ele gostou. N\u00e3o conhecia a m\u00fasica angolana e manifestou interesse em realizar algo em conjunto. Ele est\u00e1 numa fase de experi\u00eancias com m\u00fasicos africanos, na procura de uma m\u00fasica diferente, ali\u00e1s muito ao estilo de Paul Simon. \u00c9 prov\u00e1vel que essa procura de outras m\u00fasicas e de outras geografias o tenha motivado.<br \/>\n<strong>P. \u2013 A concretizar-se esse convite, seria para si a grande oportunidade de promo\u00e7\u00e3o internacional\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Exacto. Ali\u00e1s, estou a fazer tentativas no sentido que isso seja efectivamente materializado, at\u00e9 porque iria criar n\u00e3o s\u00f3 um espa\u00e7o onde eu pudesse projectar a minha m\u00fasica mas tamb\u00e9m um espa\u00e7o de interven\u00e7\u00e3o para outros m\u00fasicos angolanos poderem levar a nossa m\u00fasica mais longe.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Quais s\u00e3o os seus pr\u00f3ximos objectivos?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Estou a preparar j\u00e1 o pr\u00f3ximo \u00e1lbum, previsto para o pr\u00f3ximo ano, no qual irei provavelmente tocar com dois m\u00fasicos camaronenses, da banda de Salif Keita.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pop-Rock Quarta-Feira, 02.10.1991 COISAS DE ANGOLA Andr\u00e9 Mingas j\u00e1 tocou lado a lado com Mory Kant\u00e9 e Salif Keita. O casal Mandela prestou-lhe homenagem. \u201cCoisas da Vida\u201d, agora editado pela Emi-Valentim de Carvalho, promete levar mais longe a m\u00fasica angolana. 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