{"id":7767,"date":"2019-11-26T12:56:17","date_gmt":"2019-11-26T19:56:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=7767"},"modified":"2019-11-26T12:56:17","modified_gmt":"2019-11-26T19:56:17","slug":"kraftwerk-a-maquina-peca-a-peca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2019\/11\/26\/kraftwerk-a-maquina-peca-a-peca\/","title":{"rendered":"Kraftwerk &#8211; &#8220;A M\u00e1quina, Pe\u00e7a A Pe\u00e7a&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Pop-Rock Quarta-Feira, 14.08.1991<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>A M\u00c1QUINA, PE\u00c7A A PE\u00c7A<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n<strong>Ao Longo de quase duas d\u00e9cadas, com intervalos de produ\u00e7\u00e3o mais ou menos alargados, a discografia dos Kraftwerk representa a express\u00e3o m\u00e1xima da modernidade e a apologia ir\u00f3nica do \u201chomem.m\u00e1quina\u201d. Agora, na sequ\u00eancia do \u00eaxito de \u201cThe Mix\u201d, os \u00e1lbuns originais \u201cRadio Activity\u201d, \u201cTrans Europe Express\u201d e \u201cThe Man Machine\u201d v\u00e3o ser repostos em breve no nosso mercado, mas o que se imp\u00f5e \u00e9 a retrospectiva integral.<\/strong><\/p>\n<p><center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=7768\" rel=\"attachment wp-att-7768\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/kraftwerk-1.jpg\" alt=\"\" width=\"449\" height=\"671\" class=\"aligncenter size-full wp-image-7768\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/kraftwerk-1.jpg 449w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/kraftwerk-1-201x300.jpg 201w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/kraftwerk-1-67x100.jpg 67w\" sizes=\"auto, (max-width: 449px) 100vw, 449px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p><strong>KRAFTWERK \/ ORGANIZATION, 1972<\/strong><\/p>\n<p>Duplo \u00e1lbum raridade editado na Vertigo, no qual os Kraftwerk antecipam a apoteose met\u00e1lica que, anos mais tarde, os seus compatriotas Einstuerzende Neubauten ou os ingleses Test Dept. se encarregaram de celebrar. Numa Berlim sent\u00e3o seduzida pelo misticismo planante dos Tangerine Dream e de Klaus Schulze, os Kraftwerk moldavam com a argamassa de Cage, Stockhausen e os res\u00edduos estruturais do concretismo, esculturas de \u00e1gua e de metal, em reverbera\u00e7\u00f5es corrosivas que depois se haveriam de chamar \u201cm\u00fasica industrial\u201d. Outros agrupamentos germ\u00e2nicos da \u00e9poca, Harmonia, La Dusseldorf, Cluster (cujo \u00e1lbum \u201cCluster II\u201d consitui o primeiro grande manifesto do \u201csom industrial\u201d ou os Neu! Viriam, cada um a seu modo, explorar as vias abertas pelos Kraftwerk, formando um n\u00facleo vanguardista surgido precocemente nos anos em que quase todos se preocupavam mais com as imensid\u00f5es c\u00f3smicas do que com abeleza claustrof\u00f3bica das grandes f\u00e1bricas do Ruhr.<\/p>\n<p><strong>RALF AND FLORIAN, 1973<\/strong><\/p>\n<p>As grandes avalanchas s\u00f3nicas do primeiro \u00e1lbum s\u00e3o recicladas num carrossel minimalista que pela primeira vez provoca nos neur\u00f3nios \u00e3nsias de dan\u00e7ar. \u201cElektrisches roulette\u201d ou a rumba ciberpaquid\u00e9rmica \u201cTanzmusik\u201d (\u201cm\u00fasica de baile\u201d) demosntram at\u00e9 que ponto Terry Riley tinha raz\u00e3o quando defendia que o infinito era circular. \u201cKristallo\u201d e sobretudo a frescura de frutos e paisagens tropicais de \u201cAnanas symphonie\u201d acariciam o corpo el\u00e9ctrico de Bradbury e abrem caminho para as sedimenta\u00e7\u00e3o ambientalistas que Brian Eno transformaria em g\u00e9nero aut\u00f3nomo.<\/p>\n<p><strong>AUTOBAHN, 1974<\/strong><\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 468;\ngoogle_ad_height = 60;\ngoogle_ad_format = \"468x60_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>A auto-estrada e o fasc\u00ednio do universo linear, ideal para se chegar ao novo mundo, dirigido por controlo remoto. \u201cO autom\u00f3vel \u00e9 um instrumento de m\u00fasica\u201d, diziam ent\u00e3o Ralf H\u00fctter e Florian Schneider, pela primeira vez auxiliados nas percuss\u00f5es rob\u00f3ticas por Wolfgang Fl\u00fcr e Klaus Roeder. Conny Plank fornecia a garagem, mas, para os Kraftwerk, o est\u00fadio convencional come\u00e7ava a ser pequeno para a desmesura do projecto. A consola auto-suficiente da \u201cf\u00e1brica\u201d port\u00e1til Kling Klang seria a solu\u00e7\u00e3o e o ve\u00edculo privilegiado na constru\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio electr\u00f3nico. \u201cWahn wahn wahn, das ist autobahn\u201d \u2013 transmite o auto-r\u00e1dio \u00e0 sa\u00edda de uma curva, consumando a ultrapassagem definitiva da \u201cFun fun fun\u201d demasiado humana dos Beach Boys. A \u201cFolk\u201d industrial nascia em 22m30 de viagem atrav\u00e9s dos arqu\u00e9tipos do homem como eterno transeunte que foram \u201ctop\u201d nos Estados Unidos e deveriam servir de exemplo \u00e0 nossa Junta Aut\u00f3noma de Estradas. O segundo lado despede-se do c\u00e9u e das del\u00edcias da sonoridade anal\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>RADIO ACTIVITY, 1975<\/strong><\/p>\n<p>Considerado \u00e0 \u00e9poca uma desilus\u00e3o, \u201cRadio Activity\u201d permite aos Kraftwerk a descoberta das melopeias infantis e o abuso da melodia simplista. A r\u00e1dio deixa de passar m\u00fasica e torna-se amea\u00e7adora. \u201cEadio activity, discovered by madame Curie, is here to stay, for you and me\u201d \u2013 a mensagem, dita desta maneira, era dif\u00edcil de levar a s\u00e9rio, mas Chernobyl viria a endurecer o conceito, juntando-lhe a dimens\u00e3o da trag\u00e9dia (os Kraftwerk acrescentariam mesmo, por causa da cat\u00e1strofe, novos versos ao tema, em \u201cThe mix\u201d). \u201cAirwaves\u201d flutua no ar com a insustent\u00e1vel leveza do vazio p\u00f3s-nuclear. Mas como numa novela de Philip K. Dick, a realidade \u00e9 sempre outra coisa e a consci\u00eancia perde-se sem querer no labirinto das suas pr\u00f3prias muta\u00e7\u00f5es. A Europa dan\u00e7ava a valsa dos electr\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>TRANS EUROPE EXPRESS, 1977<\/strong><\/p>\n<p>Interrompida pelo \u00e1lbum anterior, a viagem prossegue agora de comboio, que substitui o autom\u00f3vel, como meio de transporte para o futuro. S\u00edntese magistral de uma tradi\u00e7\u00e3o europeia reinventada (Franz Schubert de martelo-pil\u00e3o, a destruir os alicerces rom\u00e2nticos), na miragem de uma prosperidade p\u00f3s-industrial ou na nostalgia totalit\u00e1ria de um continente sem fronteiras. Os Kraftwerk atingem o dom\u00ednio pleno das t\u00e9cnicas manipulat\u00f3rias do imagin\u00e1rio contempor\u00e2neo. O horror de uma viagem sem fim com destino ao inferno (McLuhan chama-lhe a \u201caldeia global\u201d) \u00e9 camuflado pelo polimento extremo do som e pela depura\u00e7\u00e3o da palavra, reduzida ao essencial e por isso com um m\u00e1ximo de efic\u00e1cia. Numa Europa \u201cEndless\u201d, at\u00e9 ao infinito, esmagada no clamor de \u201cmetal on metal\u201d, \u201cTrans Europe Express\u201d deu uma alma \u00e0 m\u00e1quina e ensinou David Bowie (de \u201cStation to Station\u201d) a ser moderno.<\/p>\n<p><strong>THE MAN MACHINE, 1978<\/strong><\/p>\n<p>T\u00edtulo \u00f3bvio para a continua\u00e7\u00e3o de um projecto \u00fanico na m\u00fasica ocidental do nosso s\u00e9culo \u2013 a simbiose harmoniosa entre o homem e a m\u00e1quina, simbolizada na colagem dos m\u00fasicos e enfatizada pelas refer\u00eancias est\u00e9ticas a Lissitsky e ao construtivismo russo. \u201cAs m\u00e1quinas respondem-nos directamente e n\u00f3s \u00e0s m\u00e1quinas\u201d \u2013 declarava Ralf H\u00fctter a prop\u00f3sito de \u201cWe are the robots\u201d, levando ao absurdo o termo comunista \u201crobotnik\u201d \u2013 o trabalhador perfeito, como pe\u00e7a da m\u00e1quina omnipotente que \u00e9 a sociedade materialista.<br \/>\nEmo\u00e7\u00e3o geom\u00e9trica. Para\u00edso matem\u00e1tico. Futuro a escurecer em metr\u00f3poles banhadas na cor gelada de \u201cn\u00e9on lights\u201d, tornadas substitutas das estrelas na arquitectura do cosmos.<br \/>\nO mundo deixa-se ofuscar pelo novo brilho \u2013 \u201cLooking for a perfect beat\u201d dos Afrika Bambaata deve a inspira\u00e7\u00e3o aos homens-m\u00e1quinas. \u201cThe model\u201d \u00e9 \u00eaxito nas Filipinas, cantado por uma int\u00e9rprete local. \u201cTrans Europe Express\u201d assume a paternidade da \u201cCold Wave\u201d ou da pop electr\u00f3nica dos Human League, Depeche Mode, Telex, Orchestral Manoeuvres in the Dark, John Foxx, New Musik, Fad Gadget, entre muitos outros.<\/p>\n<p><strong>COMPUTER WORLD, 1981<\/strong><\/p>\n<p>Bem instalados no cora\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina, os Kraftwerk inventam novos \u201cv\u00eddeo games\u201d para consumo do homem autom\u00e1tico. \u201cPocket Calculator\u201d \u00e9 tocado em calculadoras de bolso Casio e Texas, que, nos concertos ao vivo, s\u00e3o distribu\u00eddos \u00e0 assist\u00eancia, convidada a com eles improvisar. Data desta \u00e9poca a remodula\u00e7\u00e3o dos est\u00fadio Kling Klang, de maneira a permitir a sua utiliza\u00e7\u00e3o em palco, concedendo ao conceito duplo de \u201chardware \/ software\u201d a dimens\u00e3o do espect\u00e1culo. Anulada a tens\u00e3o dial\u00e9ctica entre racionalidade luciferina (\u201cNumbers\u201d) e a emo\u00e7\u00e3o, resta a derradeira muta\u00e7\u00e3o interior a capitula\u00e7\u00e3o do humano, demasiado humano, na pureza fria do amor computorizado.<\/p>\n<p><strong>ELECTRIC CAF\u00c9, 1982<\/strong><\/p>\n<p>\u201cBoing boom tschak\u201d, cad\u00eancia onomatopaica com que os Kraftwerk se servem para parodiar o Hadesteleol\u00f3gico, imitando com a voz o som dos sintetizadores e introduzindo uma nota de humanidade e humor \u00e0 implacabilidade do projecto, \u201cElectric Caf\u00e9\u201d \u00e9 o ponto de divers\u00e3oposs\u00edvel num pesadelo j\u00e1 consumado. Muito minimal para c\u00e9rebros normais \u2013 \u201cTechno pop\u201d, \u201cMusique non stop\u201d -, a vida, considerada abstrac\u00e7\u00e3o, s\u00f3 atrav\u00e9s da repeti\u00e7\u00e3o \u201cad infinitum\u201d da melodia como hipnose terap\u00eautica, consegue o suced\u00e2neo artificial capaz de manter a m\u00e1quina em funcionamento. \u201cSex object\u201d e \u201cThe telefone cal\u201d falam da solid\u00e3o. Gerado por um computador o homem ser\u00e1 ainda o animal que ri?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pop-Rock Quarta-Feira, 14.08.1991 A M\u00c1QUINA, PE\u00c7A A PE\u00c7A Ao Longo de quase duas d\u00e9cadas, com intervalos de produ\u00e7\u00e3o mais ou menos alargados, a discografia dos Kraftwerk representa a express\u00e3o m\u00e1xima da modernidade e a apologia ir\u00f3nica do \u201chomem.m\u00e1quina\u201d. 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