{"id":7763,"date":"2019-11-25T14:37:48","date_gmt":"2019-11-25T21:37:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=7763"},"modified":"2019-11-25T14:37:48","modified_gmt":"2019-11-25T21:37:48","slug":"kraftwerk-o-cantico-dos-androides-artigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2019\/11\/25\/kraftwerk-o-cantico-dos-androides-artigo\/","title":{"rendered":"Kraftwerk &#8211; &#8220;O C\u00e2ntico Dos Andr\u00f3ides&#8221; (artigo)"},"content":{"rendered":"<p>Pop-Rock Quarta-Feira, 14.08.1991<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>O C\u00c2NTICO DOS ANDR\u00d3IDES<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n<strong>Para os Kraftwerk, a realidade \u00e9 um filme de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, em que as m\u00e1quinas desempenham o papel principal. Ou pelo menos metade do papel. O conceito de \u201chomem-m\u00e1quina\u201d permite compreender a filosofia de Ralf Hutter e Florian Schneider, dois revolucion\u00e1rios que preferiam ter metal em vez de pele e um compuador de bolso no lugar do cora\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 300;\ngoogle_ad_height = 250;\ngoogle_ad_format = \"300x250_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=7764\" rel=\"attachment wp-att-7764\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/kraftwerk.jpg\" alt=\"\" width=\"429\" height=\"626\" class=\"aligncenter size-full wp-image-7764\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/kraftwerk.jpg 429w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/kraftwerk-206x300.jpg 206w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/kraftwerk-69x100.jpg 69w\" sizes=\"auto, (max-width: 429px) 100vw, 429px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>Como Ray Bradbury, os Kraftwerk \u201ccantam o corpo el\u00e9ctrico\u201d e, de acordo com as regras inerentes a um mecanismo perfeito, desprezam a emo\u00e7\u00e3o humana. Ou como gostam de dizer: \u201cO frio tamb\u00e9m \u00e9 uma emo\u00e7\u00e3o.\u201d Em veza das reac\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias desencadeadas pelo rock \u2018n\u2019 rol, preferem a \u201cemo\u00e7\u00e3o mental\u201d provocada pelos sintetizadores. Ao suor e \u00e0s descargas de adrenalina desencadeadas por uma guitarra el\u00e9ctrica, instrumento que consideram \u201cmedieval\u201d, contrap\u00f5em a linguagem implac\u00e1vel dos d\u00edgitos e a perfei\u00e7\u00e3o do computador.<br \/>\nBrian Eno, David Bowie (que inclusive dedicou um dos temas de \u201cHeroes\u201d, \u201cV 2 Schneider\u201d, a Florian Schneider), Arthur Baker e os Afrika Bambaata de \u201cPlanet Rock\u201d, a \u201cHoude\u201d de Chicago, ou os jovens ingleses electropops de cabelo rapado, s\u00e3o devedores das inova\u00e7\u00f5es \u201ctechno\u201d destes dois alem\u00e3es, para quem a m\u00fasica, mais do que uma arte segundo os preceitos tradicionais, \u00e9 uma t\u00e9cnica que n\u00e3o admite o erro humano.<br \/>\nParadoxalmente, os americanos renderam-se ao ritmo de \u201cAutobahn\u201d, \u201cThe Model\u201d e \u201cShowroom Dummies\u201d, dan\u00e7ados sem preconceitos nas discotecas. O paradoxo de uma m\u00fasica \u201cfria\u201d e \u201cmental\u201d que afinal consegue seduzir os sentidos. Talvez por os Kraftwerk, como Ralf e Florian farantem, terem conseguido introduzir o ritmo do corpo na m\u00fasica electr\u00f3nica.<\/p>\n<p><strong>Folk Industrial<\/strong><\/p>\n<p>Numa Alemanha devastada pela guerra, onde tudo se reconstru\u00eda, os Kraftwerk renegaram o passado hist\u00f3rico do rock para partirem \u00e0 descoberta de algo inteiramente novo, expresso, a partir de \u201cAutobahn\u201d, no conceito de uni\u00e3o entre o homem e a m\u00e1quina. Fechados no est\u00fadio Kling Klang (um laborat\u00f3rio onde \u201cfazem coisas cient\u00edficas\u201d) em Dusseldorf, Ralf Hutter e Florian Schneider buscam sem descanso a resolu\u00e7\u00e3o definitiva do conflito entre o humano e o maquinal.<br \/>\nSeja na descoberta de novos meiso electr\u00f3nicos de produ\u00e7\u00e3o musical (aos Kraftwerk se deve a inven\u00e7\u00e3o de um modelo original de sequenciador ou de uma c\u00e9lula fotoel\u00e9ctrica capaz de traduzir em impulsos sonoros os movimentos do corpo) ou em teoriza\u00e7\u00f5es mais ou menos fascizantes, o objectivo permanece o mesmo: criar uma \u201cm\u00fasica folk industrial em que as m\u00e1quinas sejam tratadas de igual para igual com o homem no processo criativo\u201d, uma \u201cm\u00fasica que destrua a oposi\u00e7\u00e3o entre o homem e a tecnologia\u201d.<br \/>\nImportante, no processo de cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, \u00e9 \u2013 segundo afirmam \u2013 a \u201ctroca de energia entre o humano e a fonte de energia\u201d, numa rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9ctica escravo-senhor (exemplarmente caracterizada em \u201cVoice of energy\u201d, do \u00e1lbum \u201cRadio Activity\u201d), em que o homem ora \u00e9 mestre da m\u00e1quina (por exemplo na programa\u00e7\u00e3o de um computador) ora se torna seu escravo (na medida em que essa programa\u00e7\u00e3o acabe por ser condicionada pela estrutura e pela l\u00f3gica intr\u00ednseca da m\u00e1quina).<br \/>\nSegundo os Kraftwerk, \u00e9 necess\u00e1rio que o homem se torne \u201camigo\u201d das m\u00e1quinas, se quiser impedir a sua revolta (a polui\u00e7\u00e3o seria assim um grito de protesto das m\u00e1quinas, fartas de ficar sempre com os trabalhos \u201cmais sujos\u201d). No fundo, trata-se de um jogo de poder que s\u00f3 terminar\u00e1 quando acabar a explora\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina pelo homem. N\u00e3o s\u00e3o as m\u00e1quinas que s\u00e3o demon\u00edacas mas os homens, que n\u00e3o sabem lidar com eleas \u2013 \u201cum carro\u201d, por exemplo, funciona melhor se for \u201cbem tratado\u201d \u2013 ironizam.<\/p>\n<p><strong>O Culto Da Despersonaliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Trilogia do \u201cadmir\u00e1vel mundo novo\u201d, \u201cThe man machine\u201d, \u201cComputer World\u201d e \u201cElectric Caf\u00e9\u201d traduzem na perfei\u00e7\u00e3o toda essa est\u00e9tica que Hutter e Schneider assumem como filosofia de vida: celibat\u00e1rios convictos, a maior parte do tempo \u00e9 dedicada \u00e0 pesquisa de est\u00fadio e \u00e0 procura de novas sonoridades electr\u00f3nicas. Compreende-se agora melhor por que raz\u00e3o ningu\u00e9m, neste campo, os consegue igualar.<br \/>\nN\u00e3o descuidam a imagem, no seu caso uma anti-imagem, composta pelo ar distante e pelo envergar sistem\u00e1tico de fato e gravata (como resposta ao facto de \u201choje em dia toda a gente usar \u201cjeans\u201d) ou na escolha de poses que alguns identificam como inspiradas na ideologia nazi. Os homens-m\u00e1quinas afirmam que apenas gostam da \u201cuniformidade\u201d e que nunca usaram su\u00e1sticas. O culto da despersonaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 levado ao extremo com o recurso em palco, nas capas de discos ou nas (raras) entrevistas, a manequins-r\u00e9plicas que procuram simbolizar a natureza androide dos originais.<br \/>\nPara Ralf Hutter e Florian Schneider \u00e9 t\u00e3o simples como isto: \u201cN\u00f3s tocamos as m\u00e1quinas e as m\u00e1quinas tocam-nos a n\u00f3s.\u201d Neste processo de simbiose gradual entre o organismo biol\u00f3gico e o organismo cibern\u00e9tico, a etapa final est\u00e1 em \u201cconverter directamente os impulsos cerebrais em sons aud\u00edveis\u201d e a t\u00e9cnica, capaz de materializa-la, ter\u00e1 que passar pela \u201cderradeira forma musical \u2013 a telepatia\u201d.<\/p>\n<p><strong>O Corpo Novo Remisturado<\/strong><\/p>\n<p>\u201cThe mix\u201d, novo disco de remisturas e novas grava\u00e7\u00f5es de temas antigos, funciona assim como uma recapitula\u00e7\u00e3o ou um comp\u00eandio documental onde se demonstra a eterna mutabilidade dos \u201cc\u00e2nticos androides\u201d kraftwerkianos, chamemos-lhes assim, suscept\u00edveis de infinitas varia\u00e7\u00f5es e m\u00faltiplas reinterpreta\u00e7\u00f5es.<br \/>\nSe em \u201cAutobahn\u201d \u00e9 a compress\u00e3o do tempo e em \u201cRadio activity\u201d a sua actualiza\u00e7\u00e3o (atrav\u00e9s da refer\u00eancia expl\u00edcita a Chernobyl) ou em \u201cTrans Europe Express\u201d, pelo contr\u00e1rio, a sua dilata\u00e7\u00e3o levada ao barroquismo, em qualquer dos casos, trata-se sempre de expor, nas suas m\u00faltiplas formas, a natureza e a \u201ccarne\u201d infinitamente pl\u00e1stica de um \u201ccorpo novo\u201d surgido das cinzas do velho mundo. Como se os Kraftwerk tivessem conseguido finalmente concretizar o sonho de Frankenstein e ultrapassado as monstruosidades de Cronenberg.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pop-Rock Quarta-Feira, 14.08.1991 O C\u00c2NTICO DOS ANDR\u00d3IDES Para os Kraftwerk, a realidade \u00e9 um filme de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, em que as m\u00e1quinas desempenham o papel principal. Ou pelo menos metade do papel. 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