{"id":7557,"date":"2019-07-25T04:04:43","date_gmt":"2019-07-25T11:04:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=7557"},"modified":"2019-07-25T04:04:43","modified_gmt":"2019-07-25T11:04:43","slug":"doors-the-o-som-das-portas-que-batem-artigo-de-fundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2019\/07\/25\/doors-the-o-som-das-portas-que-batem-artigo-de-fundo\/","title":{"rendered":"Doors (The) &#8211; &#8220;O Som Das Portas Que Batem&#8221; (artigo de fundo)"},"content":{"rendered":"<p>Sexta-Feira \/ Fim De Semana \u2013 NA CAPA, 05.04.1991<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>O Som Das Portas Que Batem<br \/>\n<\/center><\/p>\n<p><center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=7558\" rel=\"attachment wp-att-7558\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/1.jpg\" alt=\"\" width=\"479\" height=\"568\" class=\"aligncenter size-full wp-image-7558\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/1.jpg 479w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/1-253x300.jpg 253w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/1-84x100.jpg 84w\" sizes=\"auto, (max-width: 479px) 100vw, 479px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><br \/>\nOs Doors marcaram a ferro e fogo uma gera\u00e7\u00e3o distra\u00edda com os festejos de era de Aqu\u00e1rio. Jim Morrison p\u00f4s o dedo na ferida, dando a provar o sabor do sangue e da desmedida. Poeta maldito ou mistificador perigoso, com ele o Rock vestiu-se de negro, na celebra\u00e7\u00e3o fe\u00e9rica do Fim.<\/strong><\/p>\n<p>Os mitos tamb\u00e9m morrem. Parece at\u00e9 que mais facilmente que o comum dos mortais. Jim Morrison morreu s\u00f3, na banheira (o elemento aqu\u00e1tico est\u00e1 frequentemente associado ao pensamento dos rockers cognominados de \u201cmalditos\u201d, constituindo bom material para especula\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica), farto de nos aturar. Segundo alguns, o caso \u00e9 mais problem\u00e1tico. Assim, as causas da morte teriam a ver, n\u00e3o s\u00f3 com o ataque card\u00edaco oficial, mas ainda com \u201coverdoses\u201d de hero\u00edna e coca\u00edna, feiti\u00e7aria, arranque de olhos e conspira\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u2026). O excesso, sempre o excesso\u2026 O poeta escreveu um dia: \u201cCongregamo-nos aqui, neste teatro antigo e louco, para proclamar a nossa \u00e2nsia de viver\u201d. Bebeu o c\u00e1lice da vida, ou de outra bebida qualquer, at\u00e9 ao fim. A morte era a sua \u00fanica amiga, como diz na can\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=7559\" rel=\"attachment wp-att-7559\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/2.jpg\" alt=\"\" width=\"260\" height=\"260\" class=\"aligncenter size-full wp-image-7559\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/2.jpg 260w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/2-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/2-100x100.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 260px) 100vw, 260px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><br \/>\nA m\u00fasica dos Doors reflecte o percurso vivencial e demencial do seu l\u00edder \u2013 por vezes genial, noutras ocasi\u00f5es simplesmente desequilibrada, quase sempre suficientemente forte e inovadora para justificar revisita-la, sem excessos nem pressas suscept\u00edveis de dar maus resultados. Por exemplo, o disco com a banda sonora do filme de Oliver Stone, agora estreado entre n\u00f3s, foi feito \u00e0 pressa e com vistas curtas. Deixa passar o que n\u00e3o devia e recupera o que de menos interessante havia para recuperar. Ignora cl\u00e1ssicos que, fazendo parte da fita, se omitem no vinilo: \u201cFive to one\u201d, \u201cAlabama song (whisky bar)\u201d, \u201cStrange Days\u201d, \u201cPeople Are Strange\u201d, \u201cThe Soft Parade\u201d s\u00e3o apenas alguns exemplos. Por outro lado n\u00e3o se compreende muito bem a insist\u00eancia na montagem p\u00f3stuma \u201cNa American Prayer\u201d, da qual constam nada menos que cinco temas, querendo talvez acentuar o \u00f3bvio, ou seja, que Jim Morrison, antes de ser m\u00fasico era poeta.<\/p>\n<p><strong>L\u2019America<\/strong><\/p>\n<p>Assim, vale mais ir ter com os originais e analis\u00e1-los dentro do contacto em que foram gravados, num per\u00edodo compreendido entre 1967 e 1971. Quatro anos apenas, suficientes para registar sete (n\u00famero m\u00e1gico) \u00e1lbuns que puseram em estado de choque uma gera\u00e7\u00e3o hesitante na maneira de ultrapassar a d\u00e9cada. Costuma dizer-se que a vida e obra dos Doors ou, se quisermos, da sua l\u00edngua reptil\u00ednea e venenosa, Jim Morrison \u2013 o rei Lagarto \u2013 simbolizam integralmente o lado negro dos anos Sessenta.<br \/>\n<center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=7560\" rel=\"attachment wp-att-7560\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/3.jpg\" alt=\"\" width=\"295\" height=\"293\" class=\"aligncenter size-full wp-image-7560\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/3.jpg 295w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/3-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/3-100x100.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 295px) 100vw, 295px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><br \/>\nConv\u00e9m assentar no significado da express\u00e3o, para melhor orienta\u00e7\u00e3o no universo de \u00edcones e mem\u00f3rias dispersas que, no nosso imagin\u00e1rio, querem dizer o sonho que temos desses anos. Sonhos americanos, acrescente-se, que quase todos por c\u00e1 viveram como se de cinema se tratasse. De resto, a Am\u00e9rica \u00e9 isso mesmo \u2013 cinema em estado puro, organismo feito de imagens em movimento, tal qual uma plasticina de luz eternamente dispon\u00edvel e mold\u00e1vel aos nossos anseios de Dysneyl\u00e2ndia. Acaso ou n\u00e3o, Jim Morrison come\u00e7ou pelo cinema, estudante ainda mas j\u00e1 c\u00e9ptico quanto \u00e0 veracidade do mundo que fica do lado de c\u00e1 das portas. S\u00f3 que em vez de cowboys justiceiros, detectives impolutos e damas de olhar c\u00e2ndido e fatal, filmou o pesadelo. Pesadelo que Coppola nos obrigaria a enfrentar em \u201cApocalypse Now\u201d, ao som de \u201cThe End\u201d \u2013 ruir definitivo do sonho americano, nessa viagem sem regresso ao cora\u00e7\u00e3o das trevas em que os her\u00f3is n\u00e3o s\u00e3o rebeldes, lutando por causas perdidas at\u00e9 que o inferno do napalm lhes consuma a pr\u00f3pria alma.<\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 336;\ngoogle_ad_height = 280;\ngoogle_ad_format = \"336x280_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><strong>Teatro Da Crueldade<\/strong><\/p>\n<p>Anos Sessenta \u2013 San Francisco, paz e amor, \u201cacid parties\u201d, a descoberta interior e das possibilidades orgi\u00e1sticas do corpo, Leary, Kerouac, Ginsberg, Marilyn, Kennedy, Luther King, Armstrong na Lua, o soldado desconhecido no Vietname, a anula\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria, a experi\u00eancia da diversidade e da mistura de culturas no grande caldeir\u00e3o da na\u00e7\u00e3o da Coca-Cola e Mickey Mouse. Na m\u00fasica era a \u00e9poca dos Grateful Dead, Jefferson Airplane, Quicksilver Messenger Service, Country Joe &#038; The Fish, das grandes \u201cjams\u201d psicad\u00e9licas e \u201chappenings\u201d sobre a relva.<br \/>\n<center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=7561\" rel=\"attachment wp-att-7561\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/4.jpg\" alt=\"\" width=\"265\" height=\"269\" class=\"aligncenter size-full wp-image-7561\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><br \/>\nOs tr\u00eas primeiros \u00e1lbuns espelham o ambiente e o ritmo dessa era (\u201cThe Doors\u201d, \u201cStrange Days\u201d e \u201cWaiting For The Sun\u201d) que Jim Morrison personificava, num misto de teatro e del\u00edrio po\u00e9tico, encharcado em \u00e1lcool e com um rastilho atado. Acendido o rastilho bastava esperar pela explos\u00e3o. Uma quest\u00e3o de tempo.<br \/>\nOs Doors assumiam o psicadelismo para lhe acrescentarem a viol\u00eancia do \u201crhythm \u2018n\u2019 blues\u201d e a crueldade das palavras. Utilizavam os s\u00edmbolos da \u00e9poca para os subverter a partir de dentro, minando-lhes o car\u00e1cter pretensamente positivo e solar at\u00e9 revelar a chaga, o buraco negro aberto no seu cerne \u2013 \u201cWhen the music\u2019s over\u201d e, claro, \u201cThe End\u201d viajam desumanamente pelo interior da alma humana, sem contempla\u00e7\u00f5es, pisando pelo caminho os tab\u00fas mais enra\u00edzados. Jim Morrison foi t\u00e3o longe quanto lhe era poss\u00edvel e permitido ir, atravessando as portas da percep\u00e7\u00e3o. Para al\u00e9m delas descobriu o sil\u00eancio que ningu\u00e9m quis ouvir.<\/p>\n<p><strong>O Brilho Das Trevas, A Escurid\u00e3o Da Luz<\/strong><\/p>\n<p>O lado negro dos anos Sessenta confunde-se afinal com o seu contr\u00e1rio \u201cimaculado\u201d. Branco e negro s\u00e3o insepar\u00e1veis lados opostos e complementares de uma mesma realidade. No cora\u00e7\u00e3o da negritude cintila a pureza. No cerne da virtude agita-se o dem\u00f3nio da pervers\u00e3o. O lado negro n\u00e3o \u00e9 mais que o branco levado ao seu limite. Imagine-se (ou, como fez Morrison, viva-se) o sexo potenciado at\u00e9 aos extremos dolorosos do erotismo, a descoberta levada \u00e0 \u00faltimas consequ\u00eancias, \u00e0 vis\u00e3o do bem e mal absolutos, a excita\u00e7\u00e3o prolongada ao paroxismo, a paz continuada at\u00e9 \u00e0 mortal e derradeira quietude.<br \/>\n<center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=7562\" rel=\"attachment wp-att-7562\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/5.jpg\" alt=\"\" width=\"257\" height=\"247\" class=\"aligncenter size-full wp-image-7562\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/5.jpg 257w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/5-100x96.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 257px) 100vw, 257px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><br \/>\nN\u00e3o \u00e9 agrad\u00e1vel, pois n\u00e3o? Nas fronteiras da vida erguem-se os port\u00f5es da morte. O contr\u00e1rio tamb\u00e9m \u00e9 verdade e Morrison sabia-o. Experimentar a vida at\u00e9 ao seu limite implica morrer a cada instante, at\u00e9 que sobrevenha, no derradeiro orgasmo, o sil\u00eancio definitivo. Vida e Morte cruzam-se naquilo que os rom\u00e2nticos chamavam Paix\u00e3o. Jim Morrison viveu apaixonadamente e morreu como um rom\u00e2ntico, no excesso e na vol\u00fapia de tudo querer devorar e, ao mesmo tempo redimir. O poeta e vision\u00e1rio William Blake dizia que \u201ca estrada do excesso leva ao pal\u00e1cio da sabedoria\u201d. Seguir por essa estrada \u00e9 tarefa \u00e1rdua, tr\u00e1gica, a cumprir no destino dos deuses de carne e osso. Carne, por natureza sens\u00edvel \u00e0 dor e ao prazer dos infernos, na embriaguez dos sentidos. O Esp\u00edrito extasiado na contempla\u00e7\u00e3o das verdades eternas. N\u00e3o h\u00e1 homem que resista. Jim Morrison resistiu enquanto p\u00f4de.<\/p>\n<p><strong>Das Portas Que D\u00e3o Para Os Blues<\/strong><\/p>\n<p>Os outros Doors, Ray Manzarek, Robby Krieger e John Densmore, limitavam-se a tocar, assistindo \u00e0 ascens\u00e3o e queda do \u00eddolo. Os jovens ficavam-se por assistir aos espect\u00e1culos, comprar os discos e n\u00e3o compreender. Reproduziam da estrela o vestu\u00e1rio e a pose, assobiavam os refr\u00f5es mas, quando chamados a participar e a partir, ao grito de \u201cBreak on through\u201d, s\u00f3 se fosse para fumar umas passas, partir umas cadeiras ou fornicar fingindo ser Filosofia.<br \/>\n<center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=7563\" rel=\"attachment wp-att-7563\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/6.jpg\" alt=\"\" width=\"272\" height=\"272\" class=\"aligncenter size-full wp-image-7563\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/6.jpg 272w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/6-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/6-100x100.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 272px) 100vw, 272px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><br \/>\n\u201cThe Soft Parade\u201d anuncia a desist\u00eancia, ao som de violinos e metais. A Am\u00e9rica e a Humanidade n\u00e3o queriam ouvir a mensagem do xam\u00e3 quando n\u00e3o a confundiam com pouca-vergonha.<br \/>\nRestava um cansa\u00e7o infinito e o derradeiro apelo dos Blues, a voz das ra\u00edzes, o sofrimento e alegria originais. Depois de \u201cL. A. Woman\u201d os Doors sugerem a hip\u00f3tese de gravarem um disco inteiramente devotado \u00e0s lamenta\u00e7\u00f5es da Alma, rendida \u00e0 for\u00e7a primordial dos blues, afinal sempre presentes, de forma mais ou menos camuflada em toda a sua obra (\u201cFive to one\u201d, \u201cRoadhouse blues\u201d, \u201cShaman\u2019s blues\u201d, \u201cBeen down so long\u201d, \u201cMaggie M\u2019Gill\u201d, \u201cWild Child\u201d, \u201cCars Hiss by the window\u201d\u2026). Sobreviveram a ideia e a fantasia do que poderia ter sido. Jim Morrison abandonava o circo americano e partia para Paris, onde viria a frequentar o \u201cCircus\u201d, antro de mil pervers\u00f5es, como ele gostava. Escrever e descansar, os objectivos, na medida do poss\u00edvel. Somente conseguiria cumprir o segundo dos des\u00edgnios, afogada a dor no banho final purificador. M\u00e1goas desfeitas pelas \u00e1guas. Assim nasceu a lenda.<\/p>\n<p><strong>O Palco Da Vida<\/strong><\/p>\n<p>Ao vivo, a m\u00fasica dos Doors, em noite sim, era simplesmente irresist\u00edvel. Aut\u00eantico ritual de catarse f\u00edsica e emocional. Jim Morrison n\u00e3o descansava enquanto n\u00e3o punha a audi\u00eancia inteira t\u00e3o \u201calta\u201d como ele. Depois, a comunica\u00e7\u00e3o perfeita, a vertigem de um cerimonial pag\u00e3o, com os corpos ligados por uma corrente de que Jim era o condutor. Por vezes encarnava completamente o xam\u00e3, o feiticeiro. Ent\u00e3o dan\u00e7ava, alheio ao universo, tal qual um \u00edndio verdadeiro, diante do olhar extasiado do resto da tribo. Celebra\u00e7\u00e3o da vida na Terra. Apelo \u00e0s for\u00e7as tel\u00faricas, as mesmas que o dem\u00f3nio t\u00e3o bem sabe manobrar.<br \/>\nGostava de interromper as can\u00e7\u00f5es, para conversar com o p\u00fablico ou simplesmente criar um espa\u00e7o de sil\u00eancio, no interior de certas can\u00e7\u00f5es (imagine-se o efeito em \u201cThe End\u201d\u2026). Momentos de tens\u00e3o, por vezes intoler\u00e1veis, para uma audi\u00eancia em ponto de rebu\u00e7ado. Jim sabia controlar as puls\u00f5es emocionais das massas e isso divertia-o. Sobre esses sil\u00eancios provocados dizia que \u201cexcitavam e assustavam \u2013 as pessoas gostam de ficar com medo. Exactamente como o momento antes de se ter um orgasmo. Toda a gente quer isso. \u00c9 uma experi\u00eancia m\u00e1xima\u201d.<br \/>\n<center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=7564\" rel=\"attachment wp-att-7564\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/7.jpg\" alt=\"\" width=\"279\" height=\"265\" class=\"aligncenter size-full wp-image-7564\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/7.jpg 279w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/7-100x95.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 279px) 100vw, 279px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><br \/>\nRay Manzarek chamava a Jim Morrison o \u201cxam\u00e3 el\u00e9ctrico\u201d que, em certas ocasi\u00f5es, se tornava sens\u00edvel \u00e0s vibra\u00e7\u00f5es el\u00e9tricas ao ponto de Manzarek o fazer saltar ao simples toque de uma tecla do teclado electr\u00f3nico. Sobre o palco a comunh\u00e3o funcionava tamb\u00e9m entre os quatro \u201cDoors\u201d. Sem Ray, Robby e John, Jim n\u00e3o conseguia a for\u00e7a necess\u00e1ria para voar ou para mergulhar no abismo. Se o r\u00e9ptil humano representava a imagem, a alma, o sexo e a voz, os outros eram o resto do corpo, m\u00e1quina energ\u00e9tica, organismo ordenador capaz de equilibrar as puls\u00f5es dispersoras e destruidoras do seu centro nervoso. N\u00e3o devia ser f\u00e1cil trabalhar com algu\u00e9m interessado por \u201ctudo o que se relaciona com a revolta, a desordem e o caos\u201d. O rei Lagarto clamava: \u201cI am the king Lizard\u201d \u2013 I can do anything\u201d. N\u00e3o era bem assim.<\/p>\n<p><strong>Dias Estranhos, No Est\u00fadio<\/strong><\/p>\n<p>Durante as grava\u00e7\u00f5es era diferente, mas nem sempre. Em \u201cYou\u2019re lost little girl\u201d (de \u201cStrange days\u201d), Jim s\u00f3 conseguia cantar com a ajuda da sua \u201ccompanheira c\u00f3smica\u201d, Pamela Courson, que ali mesmo na cabine, se entreteve com actividades cujo teor e detalhes a censura e o pudor n\u00e3o deixam descrever. Outras vezes era mais po\u00e9tico. Para \u201cI can\u2019t see your face in my mind\u201d (tamb\u00e9m de \u201cStrange Days\u201d) recriou-se no est\u00fadio uma ambi\u00eancia oriental. De uma maneira ou de outra tinha que haver est\u00edmulos exteriores \u2013 \u00e1lcool, drogas, sexo, ou, \u00e0 falta de melhor, a simples fantasia.<br \/>\n<center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=7565\" rel=\"attachment wp-att-7565\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/8.jpg\" alt=\"\" width=\"291\" height=\"281\" class=\"aligncenter size-full wp-image-7565\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/8.jpg 291w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/8-100x97.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 291px) 100vw, 291px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><br \/>\n\u201cThe Doors\u201d, \u201cStrange Days\u201d e \u201cWaiting for the sun\u201d constituem a trilogia dourada da banda. O psicadelismo, os \u201cblues\u201d, o \u00f3dio mas tamb\u00e9m o amor (de novo os extremos que se tocam, em \u201cLove street\u201d, dedicado a Pamela, \u201cWintertime love\u201d, \u201cHello I love you\u201d), o \u00f3rg\u00e3o electr\u00f3nico de Manzarek, que, desde \u201cLight My Fire\u201d, cedo definiu o essencial do som dos Doors, aliados a experi\u00eancias estil\u00edsticas como a utiliza\u00e7\u00e3o de m\u00fasica concreta em \u201cHorse lattitudes\u201d, a cad\u00eancia Weilliana de \u201cAlabama song\u201d ou o flamenco da guitarra ac\u00fastica de Krieger, na introdu\u00e7\u00e3o instrumental de \u201cSpanish caravan\u201d e \u00e0 criatividade po\u00e9tica de Morrison, tornam, nesta \u00e9poca, a m\u00fasica dos Doors em algo de verdadeiramente inovador. Sobre ela dizia o cr\u00edtico Gene Youngblood: \u201cOs Beatles e os Stones existem para rebentar a mente. Os Doors existem para o que se segue quando a nossa mente tiver desaparecido\u201d.<br \/>\nNeste tr\u00eas \u00e1lbuns, gravados no curto espa\u00e7o de dois anos (67 e 68), encontra-se a maioria dos cl\u00e1ssicos: \u201cBreak on through\u201d, \u201cThe Crystal ship\u201d, \u201cAlabama song\u201d, \u201cLight My fire\u201d e \u201cThe End\u201d (\u201cThe Doors\u201d), \u201cLove me two times\u201d, \u201cPeople are strange\u201d, \u201cWhen the music\u2019s over\u201d (\u201cStrange days\u201d), \u201cHello I love you\u201d, \u201cThe ynknown soldier\u201d, \u201cFive to one\u201d (\u201cWaiting for the sun\u201d).<br \/>\n<center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=7566\" rel=\"attachment wp-att-7566\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/9.jpg\" alt=\"\" width=\"217\" height=\"211\" class=\"aligncenter size-full wp-image-7566\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/9.jpg 217w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/9-100x97.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 217px) 100vw, 217px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><br \/>\n\u201cThe soft parade\u201d (69) \u00e9 para muitos uma desilus\u00e3o, na maneira como a energia se dispersa entre arranjos orquestrais sofisticados e desnecess\u00e1rios. Para a posteridade ficou o t\u00edtulo-tema, c\u00ednica litania sobre as virtudes da sociedade e das luzes do espect\u00e1culo. \u201cMorrison hotel\u201d (70) recupera parte da for\u00e7a inicial. \u00c1lbum de rock forte e feio, em que Robby Krieger mostra aquilo que vale. \u201cRoadhouse blues\u201d, \u201cWaiting for the sum\u201d, \u201cShip of fools\u201d e \u201cMaggie M\u2019Gill\u201d demonstram-no \u00e0 exaust\u00e3o. Antes do fim, tempo ainda para o duplo \u201cAbsolutely Live\u201d, um dos melhores \u00e1lbuns ao vivo de todos os tempos, e para a serenidade (aparentemente) reencontrada em \u201cL. A. Woman\u201d (71), de \u201cLove her madly\u201d, \u201cL. A. Woman\u201d, \u201cL\u2019America\u201d, \u201cHyacinth house\u201d e \u201cRiders on the storm\u201d \u2013 testemunho derradeiro da vida e do destino das \u201cportas que abrem para o outro lado\u201d, ao ritmo encantat\u00f3rio do piano el\u00e9trico de Manzarek. O resto \u00e9 Hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sexta-Feira \/ Fim De Semana \u2013 NA CAPA, 05.04.1991 O Som Das Portas Que Batem Os Doors marcaram a ferro e fogo uma gera\u00e7\u00e3o distra\u00edda com os festejos de era de Aqu\u00e1rio. Jim Morrison p\u00f4s o dedo na ferida, dando a provar o sabor do sangue e da desmedida. Poeta maldito ou mistificador perigoso, com [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[868,55,879,44,10,146],"tags":[1872,657,1193,1873],"class_list":["post-7557","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos-1991","category-blues","category-criticas-1991","category-pop","category-rock","category-rock-psicadelico","tag-doors","tag-doors-the","tag-jim-morrison","tag-the-doors"],"views":1486,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7557","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7557"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7557\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7567,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7557\/revisions\/7567"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7557"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7557"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7557"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}