{"id":7180,"date":"2019-01-03T13:29:20","date_gmt":"2019-01-03T20:29:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=7180"},"modified":"2019-01-03T13:29:20","modified_gmt":"2019-01-03T20:29:20","slug":"randy-weston-ancient-futureblue-eric-watson-sketches-of-solitude-kenny-werner-beat-degeneration-gabor-winand-corners-of-my-mind-gabor-gado-quartet-orthodoxia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2019\/01\/03\/randy-weston-ancient-futureblue-eric-watson-sketches-of-solitude-kenny-werner-beat-degeneration-gabor-winand-corners-of-my-mind-gabor-gado-quartet-orthodoxia\/","title":{"rendered":"Randy Weston  &#8211; &#8220;Ancient Future\/Blue&#8221; + Eric Watson  &#8211; &#8220;Sketches of Solitude&#8221; + Kenny Werner  &#8211; &#8220;Beat Degeneration&#8221; + G\u00e1bor Winand  &#8211; &#8220;Corners of my Mind&#8221; + G\u00e1bor Gad\u00f3 Quartet  &#8211; &#8220;Orthodoxia&#8221; + Mih\u00e1ly Dresch Quartet &#038; Archie Shepp  &#8211; &#8220;Hungarian Bebop&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>(p\u00fablico >> mil-folhas >> jazz >> cr\u00edtica de discos)<br \/>\ns\u00e1bado, 8 Mar\u00e7o 2003<\/p>\n<p>Um piano de \u00c1frica. Outro de solid\u00e3o. Outro que n\u00e3o chega a viajar. J\u00e1 na Hungria o jazz diz-se de maneira diferente. Com can\u00e7\u00f5es folk e cimbalon. E Archie Shepp l\u00e1 metido, mestre de cerim\u00f3nias fascinantes.<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>Viagens ao piano com escala na Hungria<\/p>\n<p>Randy Weston<br \/>\nAncient Future\/Blue<br \/>\n2xCD Mutable Music<br \/>\n8 | 10<\/p>\n<p>Eric Watson<br \/>\nSketches of Solitude<br \/>\nNight Bird Music<br \/>\n8 | 10<\/p>\n<p>Kenny Werner<br \/>\nBeat Degeneration<br \/>\nNight Bird Music<br \/>\n6 | 10<\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 250;\ngoogle_ad_height = 250;\ngoogle_ad_format = \"250x250_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>G\u00e1bor Winand<br \/>\nCorners of my Mind<br \/>\nBudapest Music Centre<br \/>\n6 | 10<\/p>\n<p>G\u00e1bor Gad\u00f3 Quartet<br \/>\nOrthodoxia<br \/>\nBudapest Music Centre<br \/>\n7 | 10<\/p>\n<p>Mih\u00e1ly Dresch Quartet &#038; Archie Shepp<br \/>\nHungarian Bebop<br \/>\nBudapest Music Centre<br \/>\n8 | 10<\/p>\n<p>                                Todos distri. Multidisc<\/strong><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p><center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=7181\" rel=\"attachment wp-att-7181\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/1-1.jpg\" alt=\"\" width=\"148\" height=\"736\" class=\"aligncenter size-full wp-image-7181\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/1-1.jpg 148w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/1-1-20x100.jpg 20w\" sizes=\"auto, (max-width: 148px) 100vw, 148px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>Randy Weston \u00e9 um dos cl\u00e1ssicos pianistas da hist\u00f3ria do jazz cuja m\u00fasica se encontra mais pr\u00f3xima das ra\u00edzes africanas. Influenciado por Monk, menos regionalista que Abdullah Ibrahim, outro int\u00e9rprete deste instrumento com o cora\u00e7\u00e3o mergulhado no continente negro, fundador do projeto Ekaya, Weston toma em \u201cAncient Future\u201d (2001) como ponto de partida uma viagem ao Egito e o consequente contacto com a cultura n\u00fabia. Sobre esta premissa e inspirado pelo livro \u201cAncient Future: The Teachings and Prophetic Wisdom of the Seven Hermetic Laws of Ancient Egypt\u201d, de Wayne Chandler, Weston constr\u00f3i todo um edif\u00edcio em piano solo (no caso um dign\u00edssimo Bosendorfer) em redor dos mitos associados a Os\u00edris e \u00e0s transfigura\u00e7\u00f5es do tempo, corporizado no ser humano.<br \/>\n\tPassado, presente e futuro enovelam-se numa m\u00fasica de resson\u00e2ncias profundas (literalmente falando, Weston remete-se ami\u00fade \u00e0 explora\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dos registos mais graves do teclado, usando e abusando do pedal de reverbera\u00e7\u00e3o) que serve ainda de motivo a dedicat\u00f3rias v\u00e1rias, ou \u201cretratos\u201d, pr\u00e1tica ali\u00e1s recorrente na sua produ\u00e7\u00e3o a solo. No caso, a cantora eg\u00edpcia Oum Keltoum, Monk (de quem chega a decalcar algumas notas), Ellington, Count Basie e Melba Liston, trombonista e arranjadora de algumas das obras orquestrais do pianista. Como Monk, Weston \u00e9 homem de golpes fundos e curvaturas abruptas, de \u201cclusters\u201d abissais que de s\u00fabito se descobrem sil\u00eancio, grito ou ora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se procure em \u201cAncient Future\u201d rendilhados nem flores. Descubra-se antes o rio dos \u201cblues\u201d, os acordes maci\u00e7os, o telurismo, a procura de uma espiritualidade entranhada na terra.<br \/>\n\tUm segundo CD de piano solo, gravado em 1984, com o gen\u00e9rico \u201cBlue\u201d, foi inclu\u00eddo na presente edi\u00e7\u00e3o, completando-a com outra incurs\u00e3o, mais \u201cselvagem\u201d, no \u201cblues\u201d e no piano \u201chonky tonk\u201d, servida por nova dose de africanismo e dedicat\u00f3rias, desta feita a parentes mais chegados (a filha, o pai) e, de novo, Ellington e Melba Liston. Um dos temas, \u201cEarth birth\u201d, daria mesmo origem a um \u00e1lbum inteiro, bem mais enfezado, com este nome, com arranjos de Melba para orquestra de cordas. Comparando os dois, apetece dizer que \u201cBlue\u201d escava a parte menos funda do po\u00e7o, abrindo galerias a golpes de \u201criffing\u201d, ficando a cargo de \u201cAncient Blue\u201d a tarefa de libertar as criaturas e os esp\u00edritos que se escondem nas suas profundezas.<br \/>\n\tO piano de Eric Watson move-se noutras \u00e1guas. Se o de Weston \u00e9 \u00e9pico, o de Watson \u00e9 l\u00edrico. S\u00e3o j\u00e1 Bill Evans (\u201cRe: Person I knew\u201d \u00e9 uma leitura bastante literal do estilo do autor de \u201cAlone\u201d) e Mal Waldron a estender-lhe as m\u00e3os. Tamb\u00e9m em piano solo, \u201cSketches of Solitude\u201d \u00e9 o oposto de \u201cAncient Future\u201d. Se neste disco Weston convoca os esp\u00edritos da terra e a universalidade da sua m\u00fasica tem ber\u00e7o num continente, os \u201csketches\u201d de Watson s\u00e3o exerc\u00edcios de interioridade e suspens\u00e3o, de solid\u00e3o assumida. Onde Weston recusa a balada, Watson estende-se sobre ela, \u00e0 sombra, ainda, de Monk (ser\u00e1, de resto, poss\u00edvel escapar \u00e0 sua sombra?) mas pela flu\u00eancia \u2014 nunca linear \u2014 da narrativa. Com \u201cAncient Future\u201d sentimos a excita\u00e7\u00e3o de ca\u00e7ar a fera. \u201cSketches of Solitude\u201d faz descer uma n\u00e9voa e soltar a l\u00e1grima que teimamos em fazer nascer do amor. Dois \u00e1lbuns de piano carregados de sentimentos antag\u00f3nicos, para ouvir e usufruir em momentos distintos.<br \/>\n\tFeche-se o tampo do piano com \u201cBeat Degeneration\u201d, de Kenny Werner, gravado ao vivo no Sunside Club de Paris.). Jazz e um teclado mais voltados para os prazeres imediatos da intera\u00e7\u00e3o interpretativa em formato de trio (com o baixista e o baterista alem\u00e3es, Johannes Weidenmueller e Ari Hoenig, que j\u00e1 tinham tocado com Werner em \u201cBeauty Secrets\u201d, de 99) e para a introspe\u00e7\u00e3o do que para as conjeturas arquitet\u00f3nicas da composi\u00e7\u00e3o. Kerouak e Ginsberg podem continuar a descansar em paz. A alucina\u00e7\u00e3o e a viagem n\u00e3o passam por aqui.<br \/>\n\tPara desanuviar, sobretudo dos estados provocados por \u201cSketches of Solitude\u201d, nada melhor do que viajar (fugir?) para outras paragens. At\u00e9 \u00e0 Hungria, por exemplo, onde o jazz habita de outra maneira na cabe\u00e7a dos m\u00fasicos. Que o diga o cantor G\u00e1bor Winand que em \u201cCorners of my mind\u201d escolheu como motivo principal \u2014 senhoras e senhores, preparem-se para o choque \u2014 o&#8230; amor. G\u00e1bor canta mais como um cantor pop do que como um cantor jazz mas recebeu a b\u00ean\u00e7\u00e3o de Al Jarreau. Ora se veste com o fato confort\u00e1vel de um Chris Isaak disfar\u00e7ado de \u201ccrooner\u201d ora surpreende pela escolha de um \u201cscat\u201d folk, muito pouco virtuos\u00edstico mas indubitavelmente original, como em \u201cLovely Molly\u201d. Talvez pela especificidade da l\u00edngua este scat soa nalguns casos como um gago a tentar soletrar uma frase, por\u00e9m o exotismo compensa.<br \/>\n\tA n\u00edvel instrumental as coisas tamb\u00e9m batem de lado. H\u00e1 um trombone beberolas, uma guitarra distra\u00edda e saxofones redondos como os do jazzrock, mais jazz do que rock, ingl\u00eas dos anos 70 (apetece mastigar o soprano, em \u201cEvery morning\u201d). \u201cDiversion\u201d prop\u00f5e pistas interessantes para a instaura\u00e7\u00e3o de uma nova \u201cworld music\u201d europeia. No todo, \u201cCorners of my Mind\u201d confirma a ideia de que na Hungria a tradi\u00e7\u00e3o folk \u00e9 bastante mais forte que a do jazz. Podem ser a borracha um do outro e apagar-se mutuamente&#8230;<br \/>\n\tE, no entanto, \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o ceder ao fasc\u00ednio provocado pela m\u00fasica de outro G\u00e1bor, G\u00e1bor Gado, em \u201cOrthodoxia\u201d. G\u00e1bor \u00e9 um guitarrista bem letrado na tradi\u00e7\u00e3o (em Charlie Christian, por exemplo, ou Frisell) que neste disco se faz acompanhar por um quarteto (saxofone tenor, contrabaixo e bateria) de pendor contemplativo. Com t\u00edtulos como \u201cOrthodoxia\u201d, \u201cCathedral\u201d e \u201cSyberiada\u201d n\u00e3o custa imaginar estepes geladas e catedrais apontadas ao c\u00e9u. \u201cStalker\u201d inspira-se diretamente no filme de Tarkovsky e cabe ao contrabaixo limpar as armadilhas do caminho, da mesma forma que n\u00e3o poderia soar mais \u201climpo\u201d e elegante o tenor de Matthieu Donarier, neste tema a fazer lembrar curiosamente certas facetas t\u00edmbricas de Jimmy Giuffre. A Leste, portanto, nada de novo, mas \u201cOrthodoxia\u201d \u00e9 bem capaz de arrancar, com a sua ineg\u00e1vel religiosidade, alguns arrepios aos mais dependentes daquele \u201csom ECM\u201d que se conhece&#8230;<br \/>\n\tUm terceiro m\u00fasico h\u00fangaro, Mih\u00e1ly Dresch (saxofone soprano e tenor, flauta) foi mais longe do que qualquer dos seus outros dois compatriotas. \u201cHungarian Bebop\u201d distingue-se, logo \u00e0 partida, pela \u201cboutade\u201d do t\u00edtulo, numa m\u00fasica toda ela marcada por fasc\u00ednios e pontes de encontro. Aqui a m\u00fasica tradicional est\u00e1 presente como ponto de fuga mas tamb\u00e9m como alimento de sensibilidades arreigadamente jazz\u00edsticas, mesmo quando as notas s\u00e3o produzidas por um tambor \u00e9tnico ou pelo tradicional Cimbalon (salt\u00e9rio de grandes dimens\u00f5es). Depois, e este \u00e9 um enorme depois, o quarteto (com Ferenc Kov\u00e1cs, no violino, M\u00e1y\u00e1s Szandal, no contrabaixo, e Istv\u00e1n Bal\u00f3, na bateria) conta com um convidado de peso, Archie Shepp, um apaixonado pela m\u00fasica h\u00fangara. Shepp e Dresch funcionam como duplos um do outro, num jogo de m\u00faltiplos cambiantes e refra\u00e7\u00f5es. Shepp adapta-se facilmente \u00e0s modalidades tradicionais, incluindo a m\u00fasica cigana, da mesma forma que Dresch assimila sem problemas o fraseado e os tempos do americano. Exemplar desta fus\u00e3o em que nada se perde e tudo se transforma \u00e9 o modo como uma das composi\u00e7\u00f5es emblem\u00e1ticas de Shepp, \u201cSteam\u201d, se converte num corpo aut\u00f3nomo, organizado sobre as vozes do sax tenor do h\u00fangaro e do violino, remetendo-se o compositor ao acompanhamento no piano. Shepp que em \u201cSorrow, sorrow\u201d arranca um dos momentos m\u00e1gicos de \u201cHungarian Bebop\u201d. Escutamos vozes e sons (o cimbalon encharcado em nostalgia) de s\u00e9culos passados, castelos abandonados e amores esquecidos. Subitamente encontramo-nos num lugar imagin\u00e1rio, de solid\u00f5es partilhadas. De um lado um Oriente mal curado de feridas de s\u00e9culos. Do outro, a voz surpreendida e comovida de um continente novo e de uma m\u00fasica, o jazz negro, que a\u00ed descobre, numa humildade encantada, o reverso da sua exalta\u00e7\u00e3o. Encontram-se algures. E isso basta.<\/p>\n<p><center><br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kVs58ZMObkI\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\n<\/center><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(p\u00fablico >> mil-folhas >> jazz >> cr\u00edtica de discos) s\u00e1bado, 8 Mar\u00e7o 2003 Um piano de \u00c1frica. Outro de solid\u00e3o. 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