{"id":6998,"date":"2018-10-08T08:55:12","date_gmt":"2018-10-08T15:55:12","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=6998"},"modified":"2018-10-08T08:55:12","modified_gmt":"2018-10-08T15:55:12","slug":"robert-wyatt-voando-sobre-um-ninho-de-cucos-entrevista-artigo-de-opiniao-cuckooland-critica-de-discos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2018\/10\/08\/robert-wyatt-voando-sobre-um-ninho-de-cucos-entrevista-artigo-de-opiniao-cuckooland-critica-de-discos\/","title":{"rendered":"Robert Wyatt &#8211; &#8220;Voando Sobre Um Ninho De Cucos&#8221; (entrevista \/ artigo de opini\u00e3o) + &#8220;Cuckooland&#8221; (cr\u00edtica de discos)"},"content":{"rendered":"<p>(p\u00fablico >> y >> pop\/rock >> artigo de opini\u00e3o \/ cr\u00edtica de discos)<br \/>\n10 Outubro 2003<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>voando sobre um ninho de cucos<\/strong><em><br \/>\n<\/center><br \/>\nIr\u00f3nico, apaixonado, solit\u00e1rio e solid\u00e1rio, reconciliado com a vida. Assim \u00e9 Robert Wyatt, um dos resistentes dos anos 70 que insiste, a cada novo disco, em nos atirar \u00e0 cara uma obra-prima. A \u00faltima chama-se Cuckooland \u2013 met\u00e1fora de um mundo cada vez mais dominado pela solid\u00e3o.<\/p>\n<p><center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=6999\" rel=\"attachment wp-att-6999\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/rw.jpg\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"423\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6999\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/rw.jpg 639w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/rw-300x199.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/rw-624x413.jpg 624w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/rw-100x66.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 639px) 100vw, 639px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>Aos 58 anos, Robert Wyatt \u00e9 um dos mais respeitados m\u00fasicos da atualidade. O seu novo \u00e1lbum, \u201cCuckooland\u201d, junta mais um peda\u00e7o de genialidade a uma obra que come\u00e7ou no free jazz, prosseguiu com a aventura psicad\u00e9lica dos primeiros Soft Machine e nas desfocagens pop dos Matching Mole e, finalmente, cicatrizou as feridas do infort\u00fanio numa carreira a solo de que se n\u00e3o conhecem pontos fracos e da qual resultou uma das obras-primas deste s\u00e9culo, \u201cRock Bottom\u201d.<br \/>\n\tWyatt, o ide\u00f3logo e o esteta, o Che Guevara da m\u00fasica popular e o humanista terno, tra\u00e7a a rota de uma viagem solit\u00e1ria ao mesmo tempo capaz de sublimar a nostalgia do passado e de se projetar num futuro ao qual continuam a n\u00e3o faltar motiva\u00e7\u00f5es. Acima de tudo, em \u201cCuckooland\u201d ressalta a ideia de um homem e de um m\u00fasico que soube adaptar-se e transcender a mudan\u00e7a dos tempos, e desatar os n\u00f3s de si pr\u00f3prio, ao seguir as correntes de uma l\u00f3gica feita de humor, intelig\u00eancia e emo\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 jazz, nem pop, nem can\u00e7\u00e3o de autor \u2013 pelo menos das que estamos habituados. \u00c9 o fascinante mundo de Robert Wyatt, o ex-baterista que continua a marcar a cad\u00eancia dos cora\u00e7\u00f5es que lutam.<br \/>\n\tO Y conversou, via telefone, com ele, percorrendo de A a Z t\u00f3picos relacionados com o disco e com a sua personalidade.<\/p>\n<p>\t<strong>ARTE<\/strong><br \/>\n\tCirurgia pl\u00e1stica<\/p>\n<p>\t<strong>BENGE (Alfreda), sua mulher, autora da capa e das letras de \u201cCuckooland\u201d \u2013 a nova capa \u00e9 diferente das pinturas ilustrativas que a sua mulher desenhou para os \u00e1lbuns anteriores\u2026<\/strong><br \/>\n\tN\u00e3o sei como ela faz. Neste \u00e1lbum desenhou uma coisa mais hierogl\u00edfica.<\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 200;\ngoogle_ad_height = 200;\ngoogle_ad_format = \"200x200_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>\t<strong>CORNETA \u2013 tocou pela primeira vez este instrumento no novo disco, mas os teclados continuam a soar bastante \u201ccheap\u201d<\/strong><br \/>\n\t\u00c9 uma trompete que se pode tocar dentro de casa, uma trompete \u00edntima. Quanto aos teclados, usei material novo da Yamaha para fazer uma esp\u00e9cie de jacuzzi onde mergulhei as can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\t<strong>DEATH (morte)<\/strong><br \/>\nAh, isso\u2026 Est\u00e1 sempre a acontecer, n\u00e3o \u00e9? Mas n\u00e3o normalmente \u00e0s pessoas que gostar\u00edamos\u2026 (risos). N\u00e3o me preocupa, gra\u00e7as a Deus, \u00e9 algo que n\u00e3o se pode separar da vida, da mesma forma que n\u00e3o se pode separar a noite do dia. Alguns poetas falaram da quantidade de pequenas mortes que antecedem \u201cthe big one\u201d. De qualquer forma, depois de morrermos, a vida continua\u2026<\/p>\n<p>\t<strong>ENO (BRIAN) tem uma participa\u00e7\u00e3o neste disco simb\u00f3lica. Em \u201cTom Hay\u2019s fox\u201d deixou-o tocar apenas a \u201c\u00faltima nota\u201d\u2026<\/strong><br \/>\n\tO escrit\u00f3rio de Brian fica perto de minha casa e um dia passou por l\u00e1 de bicicleta. \u00c9 um tipo muito \u201clow tech\u201d. A presen\u00e7a dele no disco \u00e9 dif\u00edcil de definir&#8230; \u00c9 um entusiasta\u2026 Durante as grava\u00e7\u00f5es decidiu de repente que queria viajar at\u00e9 ao Brasil, a seguir fez um \u201ctour\u201d de bicicleta pelo Sul de Fran\u00e7a. De qualquer forma foi uma participa\u00e7\u00e3o valiosa. Quanto a essa \u201c\u00faltima nota\u201d, foram na verdade duas ou tr\u00eas, embora lhe tivesse dado inteira liberdade para tocar a \u00faltima (risos). \u00c9 uma nota linda!<\/p>\n<p>\t<strong>FOREST tema de \u201cCuckooland\u201d. Uma valsa enigm\u00e1tica<\/strong><br \/>\n\tInspirei-me numa melodia da Europa Central, na fronteira entre a Pol\u00f3nia e a Checoslov\u00e1quia, uma regi\u00e3o recheada de mem\u00f3ria de florestas. Escolhi um compasso de valsa por ser uma cad\u00eancia tipicamente europeia, introduzida no continente pelos ciganos, antes de se tornar uma dan\u00e7a respeit\u00e1vel para os m\u00fasicos cl\u00e1ssicos. A floresta tem duplo sentido: pode ser um local maravilhoso mas tamb\u00e9m onde se escondem as v\u00edtimas, pessoas perigosas\u2026 E lobos\u2026 Um local de magia. Branca e negra.<\/p>\n<p>\t<strong>GILMOUR (DAVID) guitarrista em \u201cForest\u201d<\/strong><br \/>\n\tConhe\u00e7o-o h\u00e1 anos, toc\u00e1mos juntos nos mesmos s\u00edtios [quando os Soft Machine e os Pink Floyd formavam o par de bandas mais importantes da pop psicad\u00e9lica em Inglaterra]. Voltei a encontr\u00e1-lo h\u00e1 dois anos, quando o convidei para tocar num festival que organizei em Londres. No final perguntou-me se estava interessado nos seus servi\u00e7os\u2026<\/p>\n<p>\t<strong>HIROSHIMA tema da faixa \u201cForeign accents\u201d<\/strong><br \/>\n\tO bombardeamento de Hiroshima constituiu o supremo ato de hipocrisia pelos poderes ocidentais, numa altura em que hoje tanto falam nos perigos das armas de destrui\u00e7\u00e3o maci\u00e7a. A ideia de que s\u00f3 os outros povos t\u00eam essa responsabilidade e as na\u00e7\u00f5es ocidentais n\u00e3o, \u00e9 de um racismo absoluto.<\/p>\n<p>\t<strong>IRAQUE em \u201cLullaby for Hamza\u201d<\/strong><br \/>\n\t\u2026 Que antes se chamava Mesopot\u00e2mia. Entre o Iraque e o Ir\u00e3o situa-se o ber\u00e7o da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental. As pessoas falam de Roma e na Gr\u00e9cia quando, na verdade, as primeiras civiliza\u00e7\u00f5es nasceram na Mesopot\u00e2mia, na P\u00e9rsia, etc. S\u00f3 este facto j\u00e1 \u00e9 sufi ciente para que o Ocidente tenha um pouco mais de respeito.<\/p>\n<p>\t<strong>JOBIM (ANT\u00d3NIO CARLOS) autor de \u201cInsensatez\u201d, adaptado por Wyatt \u00e0 l\u00edngua inglesa<\/strong><br \/>\n\tA bossa-nova \u00e9 um dos g\u00e9neros musicais com mais pontos em comum com o jazz. Uma das poucas m\u00fasicas exteriores aos EUA que fascinaram os m\u00fasicos americanos, em parte, devido ao facto da l\u00edngua portuguesa, falada nas antigas col\u00f3nias, por exemplo, ter desenvolvido musicalmente um leque harm\u00f3nico que se ajusta bem ao jazz. Adoro a sofistica\u00e7\u00e3o do portugu\u00eas da Am\u00e9rica Latina, bem como o espanhol de Cuba ou da Argentina. Mas essa riqueza \u00e9 \u00fanica no Brasil. Tentei enfatizar essa beleza harm\u00f3nica. Depois, achei sempre que a voz de Karen Mantler se parece um pouco com a de Astrud Gilberto e quis verificar se era verdade (risos). Infelizmente n\u00e3o consigo cantar em portugu\u00eas. \u00c9 dif\u00edcil. \u201cInsensatez\u201d \u00e9 a \u00fanica palavra nesta l\u00edngua que consegui usar at\u00e9 agora!<\/p>\n<p>\t<strong>KAREN (MANTLER) filha de Carla Bley, com quem Wyatt tocou numa s\u00e9rie de \u00e1lbuns. Adora mesmo esta fam\u00edlia, n\u00e3o \u00e9 verdade? E j\u00e1 agora, o que \u00e9 o \u201cKarenotron\u201d que vem mencionado na ficha t\u00e9cnica?<\/strong><br \/>\n\tAdoro esta fam\u00edlia, exatamente. Sempre me dei bem, com os pais dela [o trompetista Michael Mantler]. Carla escreveu can\u00e7\u00f5es maravilhosas, por vezes arrepiantes. E foi uma honra trabalhar com Michael Mantler e ver crescer a sua filha, nos \u00faltimos 30 anos, at\u00e9 se tornar numa m\u00fasica ador\u00e1vel. Penso que somos ambos influenciados pela sua m\u00e3e.<br \/>\n\tO Karenotron \u00e9 um Mellotron onde foram inseridas apenas cassetes com a voz de Karen. Pedi-lhe para cantar uma escala inteira, que depois alarguei, nos graves e nos agudos, para registos mais bizarros. Tudo tocado num teclado, como num Mellotron.<\/p>\n<p>\t<strong>MADAME \u201cCuckoo madame\u201d, tema central do \u00e1lbum<\/strong><br \/>\n\t\u00c9 realmente um cuco, as pessoas n\u00e3o acreditam! Alfie [Alfreda Benge] escreveu este poema ao ver um cuco f\u00eamea \u00e0 procura de um s\u00edtio para p\u00f4r os ovos e depois partir. Ap\u00f3s uma rea\u00e7\u00e3o normal de agressividade, por pensar nos cucos como v\u00edtimas, acabou por meditar em como, de facto, \u00e9 estranha a vida de um cuco \u2013 n\u00e3o conhece nem os pais nem os filhos e parte sozinho para \u00c1frica, todos os anos. Que vida solit\u00e1ria! Deve haver uma raz\u00e3o evolucionista para explicar este comportamento. Algumas teorias explicam que \u00e9 por n\u00e3o haver cucos machos sufi cientes para ficarem a tomar conta dos mais novos\u2026Toda a gente conhece algu\u00e9m parecido com um cuco\u2026<\/p>\n<p>\t<strong>NEITHER HERE\u2026\u201d + \u201c\u2026NOR THERE\u201d as duas partes distintas em que Wyatt dividiu o disco, separadas por uma faixa de sil\u00eancio.<\/strong><br \/>\n\tPorque existe uma banalidade nas identidades que nos s\u00e3o atribu\u00eddas, nacionalistas ou religiosas. O que \u00e9 que isso significa no mundo moderno? Um mundo em que tudo \u00e9 regido por uma economia global.<br \/>\n\tDepois, era para ter sa\u00eddo como um CD duplo, mas era muito caro, da\u00ed ter optado por essa separa\u00e7\u00e3o, com um intervalo de sil\u00eancio, e aproveitar o dinheiro para dispor de mais tempo no est\u00fadio.<\/p>\n<p>\t<strong>OLD EUROPE Paris, o romance entre Miles Davis e Juliette Gr\u00e9co\u2026<\/strong><br \/>\n\tAdoro a velha Europa, sou um velho europeu, sem que isto signifique qualquer atitude de patriotismo. \u00c9 mais um sonho rom\u00e2ntico sobre uma Europa cosmopolita, cheia de nostalgia e fantasmas simp\u00e1ticos (outros menos\u2026) mas ainda na dianteira, no que diz respeito \u00e0 \u201cavant-garde\u201d, a novas ideias e a recetividade, mesmo em compara\u00e7\u00e3o com a cultura americana. Acaba por n\u00e3o fazer sentido a divis\u00e3o entre uma Europa \u201cvelha\u201d e outra \u201cnova\u201d, divis\u00e3o s\u00f3 poss\u00edvel nas cabe\u00e7as de pol\u00edticos amn\u00e9sicos e de jornalistas condescendentes\u2026<br \/>\n\tTanto eu como Alfie estivemos em Paris durante a adolesc\u00eancia. \u00c9 uma cidade maravilhosa onde descobri uma quantidade de coisas. Tudo o que existe sobre esta cidade nos filmes, nos discos ou em poemas \u00e9 verdade. \u00c9 uma cidade viva, com o drama e os est\u00edmulos que descobri, por exemplo, nos livros que li sobre Picasso.<\/p>\n<p>\t<strong>PIANO que toca em solo absoluto no tema \u201cRaining in my heart\u201d<\/strong><br \/>\n\tPertence a Phil Manzanera, gravei-o no apartamento dele. \u00c9 um instrumento curioso, arcaico, dos anos 30, a imitar \u201cart nouveau\u201d. Pedi ao Phil para o gravar, limp\u00e1mos-lhe a poeira\u2026 Tem um som estranho que adorei\u2026<\/p>\n<p>\t<strong>RATLEDGE Mike, ex-companheiro nos Soft Machine. A quest\u00e3o que todos pretendem ver respondida: que \u00e9 feito de Mike Ratledge?<\/strong><br \/>\n\tTornou-se um empres\u00e1rio de sucesso. No ramo de an\u00fancios para TV. Aproveitou os lucros obtidos com os Soft Machine para entrar no neg\u00f3cio, com o seu s\u00f3cio, Karl Jenkins [outro antigo membro do grupo]. Foram eles que ficaram com todo o dinheiro dos Soft Machine. E quero dizer mesmo \u201ctodo\u201d!<\/p>\n<p>\t<strong>SETEMBRO, 11<\/strong><br \/>\n\tEssa data tornou-se famosa, como todos sabem, por ser o dia em que os americanos puseram no poder o general Pinochet, nos anos 70, e tamb\u00e9m o dia em que Salvador Allende foi assassinado pelo ex\u00e9rcito fascista a soldo dos EUA.<\/p>\n<p>\t<strong>TRICKLE DOWN a faixa mais jazzy do \u00e1lbum.<\/strong><br \/>\n\tSim, mas um jazz anacr\u00f3nico. O baixista disse que nunca tinha feito um disco com swing\u2026 \u00c9 not\u00f3rio que sinto uma nostalgia pelo jazz de h\u00e1 50 anos, adoro swingar mas ao mesmo tempo procurei voltar o conceito do avesso. Os c\u00edmbalos e a sec\u00e7\u00e3o r\u00edtmica s\u00e3o o acontecimento principal, enquanto os solos s\u00e3o como fragmentos espalhados, relegados para segundo plano. <\/p>\n<p>\t<strong>VIDA<\/strong><br \/>\n\tA vida?&#8230; Sssimmm\u2026 bem\u2026 nunca esperei saber alguma coisa sobre ela. Tenho tr\u00eas netas e a esperan\u00e7a de que as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es endireitem as coisas. Sinto-me impressionado ao ver como pessoas atacadas e pressionadas por todo o lado continuam a conseguir divertir-se e a ter uma vida boa, sejam vietnamitas, palestinianas ou ciganas. \u00c0s vezes pergunto-me porqu\u00ea, mas suponho que tudo tem a ver com uma for\u00e7a extraordin\u00e1ria. Seja qual for o local e as circunst\u00e2ncias, h\u00e1 sempre algo que consegue nascer e crescer. Mesmo num deserto. Mesmo num muro.<\/p>\n<p>\t<strong>WELLER (PAUL) guitarrista em \u201cLullaloop\u201d<\/strong><br \/>\n\tAlfie j\u00e1 tinha composto o tema, o \u00fanico feito todo no est\u00fadio e o primeiro inteiramente da sua autoria, quando Paul apareceu, s\u00f3 para cumprimentar (tamb\u00e9m vive ao nosso lado). \u00c9 uma das vantagens de ter um est\u00fadio no mesmo local onde vivem celebridades. As pessoas podem pensar que \u00e9 uma colabora\u00e7\u00e3o estranha mas temos um \u201cbackground\u201d semelhante. Ambos nos rotinamos a cantar a m\u00fasica negra dos anos 50 e 60.<\/p>\n<p>\t<strong>YOU (TU). Como se sente, agora que est\u00e1 a completar 40 anos de carreira?<\/strong><br \/>\n\tSatisfeito por ainda estar aqui, at\u00e9 porque n\u00e3o tenho tido muito cuidado (risos). Fico cansado mais facilmente mas, \u00e0 parte isso, as coisas est\u00e3o melhores do que alguma vez estiveram. Os m\u00fasicos com quem trabalho s\u00e3o bons, a Alfie ajuda-me e eu ajudo-a a ela, estou numa editora \u00f3tima\u2026 Tive sorte por ter chegado a uma situa\u00e7\u00e3o em que me sinto confort\u00e1vel.<\/p>\n<p>\t<strong>ZZZZZZZ (DE SONO)<\/strong><br \/>\n\t(risos) Sim, absolutamente, \u00e9 a minha atividade preferida. Muitas pessoas dizem que o sono n\u00e3o passa de uma prepara\u00e7\u00e3o para as atividades do dia. Para mim, \u00e9 o contr\u00e1rio. Atividades di\u00e1rias como comer, reproduzirmo-nos ou dizer \u2018ol\u00e1\u2019, s\u00e3o reparativos para o verdadeiro prop\u00f3sito da vida que \u00e9 cair ditosamente no sono.<\/p>\n<p><center><br \/>\n<strong>valsa para um homem s\u00f3<\/strong><\/p>\n<p><strong>ROBERT WYATT<br \/>\nCuckooland<br \/>\nHannibal, distri. Edel<br \/>\n10|10<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=7000\" rel=\"attachment wp-att-7000\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/rw2.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"225\" class=\"aligncenter size-full wp-image-7000\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/rw2.jpg 225w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/rw2-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/rw2-100x100.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/a><\/p>\n<p><\/center><\/p>\n<p>As primeiras notas de \u201cJust a bit\u201d poderiam pertencer a uma vers\u00e3o para funeral de \u201cM\u00fasica no Cora\u00e7\u00e3o\u201d. E \u00e9 disso que se trata. As palavras, aquelas palavras que noutras gargantas soariam a lamentos de um velho senil mas que caso de Wyatt irrompem como emana\u00e7\u00f5es de uma personalidade que sublimou a dor e a solid\u00e3o, fazendo delas seus amigos \u00edntimos, pulsam como os batimentos de um cora\u00e7\u00e3o ferido. \u201cI\u2019m as mad as any hatter, I feel safer touching wood\u201d canta, sobre o tal jacuzzi de sintetizadores que banham e afogam cada s\u00edlaba num dil\u00favio de melancolia. Como quase todos os discos do ex-Soft Machine desde \u201cRock Bottom\u201d, desprende-se da m\u00fasica uma tristeza feita em partes iguais de ternura, lucidez e resigna\u00e7\u00e3o. Acompanhado por m\u00fasicos como Annie Whitehead e Karen Mantler, Wyatt encarrega-se, como vem fazendo a partir de \u201cRuth is Stranger than Richard\u201d, a partir o jazz aos bocadinhos, cada um deles correspondente a um peda\u00e7o de espelho que apenas reflete uma parcela de uma verdade mais vasta. Naipes de sintetizadores girando no Ocaso, saxofones do princ\u00edpio do s\u00e9culo, valsas da Europa rom\u00e2ntica onde Miles Davis corteja Juliette Gr\u00e9co, uma inusitada intromiss\u00e3o guitarr\u00edstica de rock-vaudeville de Paul Weller, a par dos habituais disparos (sem o estampido de manifestos como \u201cNothing can Stop Us\u201d) contra o imperialismo e a injusti\u00e7a, tudo encaixa no lugar que este homem determina como sendo o certo, ou seja, o seu, por mais que diga estar \u201cNeither here..\u201d e \u201c\u2026Nor there\u201d.<br \/>\nOs cucos s\u00e3o aves solit\u00e1rias. Ao escutarmos de l\u00e1grimas nos olhos (porque a Beleza tem que ter este efeito nas almas dos que est\u00e3o vivos), esta voz que parece volatizar-se por tr\u00e1s das nuvens, este oceano de melodias que limpam e redimem de uma vez por todas as banalidades que infestam a pop, imaginamos a figura de um homem dobrado sobre os seus sonhos, medos e esperan\u00e7as, sentado \u00e0 mesa, sozinho, a beber ch\u00e1, no meio de um prado outonal. Mesmo na orla da floresta, como a de \u201cForest\u201d, onde se escondem estranhas maravilhas mas tamb\u00e9m as v\u00edtimas e os lobos \u2013 valsa definitiva dos g\u00e9nios e dos loucos, marcha dos anjos deca\u00eddos. Mas anjos, apesar de tudo.<br \/>\nUm dos discos do ano.<\/p>\n<p><center><br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/IaFRp494UVw\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\n<\/center><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(p\u00fablico >> y >> pop\/rock >> artigo de opini\u00e3o \/ cr\u00edtica de discos) 10 Outubro 2003 voando sobre um ninho de cucos Ir\u00f3nico, apaixonado, solit\u00e1rio e solid\u00e1rio, reconciliado com a vida. Assim \u00e9 Robert Wyatt, um dos resistentes dos anos 70 que insiste, a cada novo disco, em nos atirar \u00e0 cara uma obra-prima. A [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[724,138,405,725,1722,280,44,16,58,10,146,9],"tags":[388],"class_list":["post-6998","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos-2003","category-cantautor","category-canterbury","category-criticas-2003","category-entrevistas-2003","category-jazz-rock","category-pop","category-progressivo","category-rio","category-rock","category-rock-psicadelico","category-singer-songwriter","tag-robert-wyatt"],"views":1104,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6998","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6998"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6998\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7001,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6998\/revisions\/7001"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6998"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6998"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6998"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}