{"id":6966,"date":"2018-09-20T14:39:45","date_gmt":"2018-09-20T21:39:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=6966"},"modified":"2018-09-20T14:39:45","modified_gmt":"2018-09-20T21:39:45","slug":"crammed-discs-le-creme-de-la-crammed-artigo-de-opiniao-critica-de-discos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2018\/09\/20\/crammed-discs-le-creme-de-la-crammed-artigo-de-opiniao-critica-de-discos\/","title":{"rendered":"Crammed Discs &#8211; &#8220;Le Cr\u00e8me De La Crammed&#8221; (artigo de opini\u00e3o \/ cr\u00edtica de discos)"},"content":{"rendered":"<p>(p\u00fablico >> y >> pop\/rock >> artigo de opini\u00e3o \/ cr\u00edtica de discos)<br \/>\n25 Julho 2003<\/p>\n<p><em>Nos anos 80, a editora belga Crammed provou que a m\u00fasica popular podia voltar a ambicionar ser obra de arte. Ou, se n\u00e3o, a p\u00f4r um bigode no nariz do classicismo. Afinal de contas, Dada tamb\u00e9m se podia dar ao luxo da lux\u00faria.<\/em><br \/>\n<center><br \/>\n<strong>Le cr\u00e8me de la Crammed<\/strong><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p><center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=6967\" rel=\"attachment wp-att-6967\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/crammed.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"716\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6967\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/crammed.jpg 640w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/crammed-268x300.jpg 268w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/crammed-624x698.jpg 624w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/crammed-89x100.jpg 89w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>Os \u201ceighties\u201d foram mais do que o reservat\u00f3rio de \u00f3leos pesados, fa\u00edscas el\u00e9tricas e quinquilharia \u201cglamour\u201d que hoje, devidamente reciclados, tomaram a forma de \u201celectroclash\u201d, \u201ctecnocoisa\u201d e outras designa\u00e7\u00f5es estapaf\u00fardias que mais n\u00e3o servem do que para embalar produtos, na sua maioria, absolutamente destitu\u00eddos da menor mais-valia musical.<br \/>\n\tHavia, \u00e9 certo, os Human League, Orchestral Manoeuvres in the Dark, Tubeway Army ou Berlin Blondes para fazer a liga\u00e7\u00e3o entre a monstruosidade industrial dos Throbbing Gristle, Test Dept., SPK e os primeiros Cabaret Voltaire, e as afeta\u00e7\u00f5es dos chamados neo-rom\u00e2nticos (Spandau Ballet, Duran Duran, Classix Nouveaux, etc). Era a maneira de tornar inofensiva uma atitude que levava a rebeldia \u201cpunk\u201d aos extremos da ideologia, da tecnologia e da magia. A par destas manobras mais ou menos subversivas, a pop, claro, continuou a sua viagem de longo curso.<br \/>\n\tNo continente, por\u00e9m, uma terceira via emergiu, o lado \u201carty\u201d dos anos 80, ponto de cruzamento de mil e uma est\u00e9ticas, da pop \u00e0 m\u00fasica contempor\u00e2nea, da \u00e9tnica \u00e0 eletr\u00f3nica, da cl\u00e1ssica ao minimalismo, do jazz \u00e0s s\u00ednteses mais inveros\u00edmeis \u2013 repondo a quest\u00e3o, deixada em aberto com a irrup\u00e7\u00e3o explosiva do \u201cpunk\u201d, de como continuar as experi\u00eancias direcionadas para uma m\u00fasica, dita \u201cpretensiosa\u201d, encetadas na d\u00e9cada anterior pelo rock progressivo.<br \/>\n\tEm Inglaterra j\u00e1 havia quem tratasse do assunto, na cooperativa, editora e distribuidora Recommended que, a partir das sementes lan\u00e7adas pelos Henry Cow e pelo movimento RIO (\u201cRock In Opposition\u201d), criara o chamado \u201crock de c\u00e2mara\u201d, personificado por bandas como os Art Bears, News from Babel, Present, Conventum, Univers Zero e Art Zoyd.<br \/>\n\tNa B\u00e9lgica constituiu-se a sede do contrapoder, com a cria\u00e7\u00e3o, em 1981, por Marc Hollander, e V\u00e9ronique Vincent, da editora Crammed, rapidamente extensiva a uma sua subsidi\u00e1ria, a Made to Measure, vocacionada para a divulga\u00e7\u00e3o de propostas mais elitistas e totalmente desfasadas da \u201cnormalidade\u201d. A Cramworld, especialista em \u201cworld music\u201d surgiria alguns anos mais tarde. Tinha assim in\u00edcio uma aventura \u201ccom base em encontros, paix\u00f5es, ruturas e flirts musicais\u201d, mas tamb\u00e9m resultante de uma rede de cumplicidades que viria a envolver ainda Hann Gorjaczkowska, respons\u00e1vel pela dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica e gr\u00e1fica, Vincent Kenis e Samy Birnbach, dos Minimal Compact, hoje operativo nas pistas de dan\u00e7a com a designa\u00e7\u00e3o DJ Morpheus.<br \/>\n\tMarc Hollander e V\u00e9ronique Vincent eram, s\u00e3o, ambos m\u00fasicos. Marc fundou um dos grupos mais importantes dos anos 80, situado na charneira entre o polo Recommended e o europe\u00edsmo \u201cdandy\u201d da sua pr\u00f3pria editora, os Akasak Maboul. V\u00e9ronique era a cantora dos The Honeymoon Killers. Grupos que, curiosamente, permaneceram at\u00e9 \u00e0 data com dois dos seus trabalhos a n\u00e3o merecerem honras de reconvers\u00e3o para CD. O presente pacote de 12 reedi\u00e7\u00f5es, genericamente embalado com o r\u00f3tulo \u201cCrammed Global Soundclash, 1980-1989\u201d (mais duas colet\u00e2neas, uma centrada nas fus\u00f5es \u201cworld\u201d, outra na \u201celectrowave\u201d) disponibiliza-os, enfim: \u201cOnze Danses pour Combattre la Migraine\u201d, que tanto pode ser encarado uma proto-encarna\u00e7\u00e3o dos Aksak Maboul como um trabalho a solo de Hollander, e \u201cLes Tueurs de la Lune de Miel\u201d, \u00e1lbum \u00fanico dos The Honeymoon Killers.<\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 336;\ngoogle_ad_height = 280;\ngoogle_ad_format = \"336x280_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>\t<strong>feito \u00e0 medida.<\/strong> \u00c0 Made to Measure, subsidi\u00e1ria da Crammed, coube a tarefa de abrir os port\u00f5es de um novo mundo. De s\u00fabito, a Europa come\u00e7ou a reparar na exist\u00eancia de uma nova m\u00fasica, luxuosamente embalada e produzida, que escapava \u00e0s habituais cataloga\u00e7\u00f5es de estilo. \u00c1lbuns \u201cfeitos \u00e0 medida\u201d de uma conce\u00e7\u00e3o est\u00e9tica que poder\u00edamos designar por \u201cneocl\u00e1ssica\u201d de acordo com o prop\u00f3sito da cria\u00e7\u00e3o de uma cole\u00e7\u00e3o de objetos \u00fanicos \u2013 obras de arte na verdadeira ace\u00e7\u00e3o da palavra. Foi, al\u00e9m disso, uma das primeiras editoras, sen\u00e3o mesmo a primeira, a lan\u00e7ar o conceito de \u201cs\u00e9rie\u201d, englobando a diversidade em caixas com selo de marca num misto de obscurantismo quase esot\u00e9rico e apelo gr\u00e1fico irresist\u00edvel. Mais importante que tudo: as m\u00fasicas que ostentavam na capa a tira \u201cMade to Measure\u201d eram garantia de surpresa e de associa\u00e7\u00f5es musicais sem paralelo.<br \/>\n\tO cart\u00e3o de visita, com n\u00famero de s\u00e9rie MTM1, veio \u00e0 luz em forma de antologia, com a participa\u00e7\u00e3o dos Aksak Maboul, Tuxedomoon, Minimal Compact e Benjamin Lew em in\u00e9ditos compostos de prop\u00f3sito para ela. O destino estava tra\u00e7ado e os n\u00fameros da s\u00e9rie seguinte dariam a conhecer algumas obras marcantes da m\u00fasica alternativa dos anos 80. Os melhores: \u201cReivax au Bongo\u201d, de Hector Zazou (faz parte do atual pacote), \u201cColorado Suite\u201d, de Blaine L. Reininger e Mikel Rouse, \u201cwestern spaghetti\u201d em forma de \u201copus\u201d minimalista (\u201cPhilip Glass meets Bonanza\u201d, como escreveu algu\u00e9m), \u201cA Walk in the Woods\u201d, de The Mikel Rouse Broken Consort, minimalismo com eletr\u00f3nica e costela rom\u00e2ntica, \u201cSedimental Journey\u201d, de Peter Principle, fragmentos quebrados e incongruentes dos Tuxedomoon, misturados com poemas e interfer\u00eancias c\u00f3smicas. \u201cG\u00e9ographies\u201d, de novo Hector Zazou, Wagner, Raul Ruiz e ZNR em sinfonias de \u00f3pio, \u201cStranger than Paradise\u201d, de John Lurie, \u201cDesert Equations: Azax Attra\u201d, de Sussan Deyhim e Richard Horowitz (inclu\u00eddo no pacote), \u201cMusic for Commercials\u201d, de Yasuaki Shimizu, electroan\u00fancios para televis\u00e3o. \u201cIf Windows They Have\u201d, de Daniel Schell &#038; Karo, neo-tudo e obra-chave dos 80, \u201cDown by Law\u201d, de John Lurie, mais BSO em formato de jazz \u201cdowntown\u201d de c\u00e2mara, \u201cDouzi\u00e8me Journ\u00e9e: Le Verbe, la Parure, l\u2019Amour\u201d, segredos e romances eletr\u00f3nicos, outro cl\u00e1ssico, e a sua sequela, \u201cA Propos d\u2019un Paysage\u201d. \u201cTone Poems\u201d, de Peter Principle, o t\u00edtulo diz tudo e n\u00e3o diz nada, \u201cG\u00e9ologies\u201d, de Hector Zazou, na linha de \u201cG\u00e9ographies\u201d, \u201cPretty Ugly\u201d, de Peter Scherer e Arto Lindsay, \u201cnoise\u201d e \u201cno rock\u201d domesticados mas n\u00e3o menos sinistros para um \u201cballet\u201d de Amanda Miller, \u201cArrows\u201d, de Steve Shehan, \u201cworld music\u201d de uma gal\u00e1xia distante.<br \/>\n\tMais recentes: \u201cLe Secret de Bwlch\u201d, de Daniel Schell e Karo, refinamento da nova \u201cchamber music\u201d deste grupo su\u00ed\u00e7o, \u201cDomino One\u201d, de Ramuntcho Matta, \u201ckitsch\u201d, vudu, carnaval, sons de \u00e1gua e de galinhas. Mais convencionais, semi-fracassados ou \u201cexc\u00eantricos\u201d pelos motivos errados (exibicionismo sem nexo nem prop\u00f3sito), encontram-se discos de Benjamin Lew, Samy Birnbach e Benjamin Lew (\u201cNebka\u201d e \u201cLe Parfum du Raki\u201d n\u00e3o est\u00e3o ao n\u00edvel dos duetos com Steven Brown), Fred Frith (a BSO, pouco gratificante, \u201cThe Top of His Head\u201d), Steven Brown &#038; Delphine Seyrig, Zelwer, Gabor G. Kristof, Karl Biscuit, Seigen Ono, David Cunningham (fez bem melhor do que aqui, com \u201cWater\u201d), ainda Hector Zazou (o redundante \u201cSahara Blue\u201d e \u201cGlyph\u201d, com Harold Budd), Brion Gysin (neste caso, a conversa \u00e9 mais que m\u00fasica&#8230;) e John Lurie National Orchestra.<br \/>\n\tTudo somado, d\u00e1 para uma quantidade de horas de audi\u00e7\u00e3o, deslumbramento e, eventualmente, desorienta\u00e7\u00e3o. As medidas da Made to Measure variavam com a mesma facilidade que a arquitetura das cidades obscuras em BD de Schwitens e Peeters. Mas a Crammed reservou outras das suas preciosidades para o seu pr\u00f3prio cat\u00e1logo. O bolo teve mais do que uma cereja no topo.<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>doze dan\u00e7as para combater a enxaqueca<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n<strong>AKSAK MABOUL <\/strong><br \/>\nOnze Danses pour Combattre la Migraine (1977)<br \/>\n<strong>8|10<\/strong><\/p>\n<p>Fica finalmente dispon\u00edvel em CD o antecessor de \u201cUn Peu de l\u2019\u00c2me des Bandits\u201d. Marc Hollander assegura a quase totalidade da composi\u00e7\u00e3o e instrumenta\u00e7\u00e3o deste disco em que o rock de c\u00e2mara ganha as tonalidades de m\u00fasica de feira, com as suas caixas-de-ritmo de primeira gera\u00e7\u00e3o, minimalismo \u201ckitsch\u201d, divaga\u00e7\u00f5es de jazz e variedades impressas em cart\u00f5es de visita desbotados que evocam os \u201corgues de barberie\u201d de Pascal Comelade. Um \u00e1lbum que ditaria algumas das vias posteriormente seguidas por outros artistas do cat\u00e1logo.<\/p>\n<p><strong>TUXEDOMOON <\/strong><br \/>\nDesire (1981)<br \/>\n<strong>10|10<\/strong><\/p>\n<p>Exilados na Europa, os norte-americanos Tuxedomoon abandonaram o p\u00f3s-punk erudito que marcou o seu \u00e1lbum de estreia na Ralph, inevitavelmente influenciado pelo som dos Residents, para mergulharem no crep\u00fasculo de uma m\u00fasica que aliava a nostalgia ao futurismo. Ritmos autom\u00e1ticos, o violino \u201calien\u201d de Blaine L. Reininger, o arsenal de efeitos eletr\u00f3nicos desconjuntados de Peter Principle e os teclados e sopros de Steve Brown, capazes de se infiltrarem no sangue de um jazz doente como um antibi\u00f3tico, servem can\u00e7\u00f5es sobre a decad\u00eancia do amor e do Ocidente.<\/p>\n<p><strong>HONEYMOON KILLERS <\/strong><br \/>\nLes Tueurs de la Lune de Miel (1982)<br \/>\n<strong>8|10<\/strong><\/p>\n<p>Os assassinos da lua-de-mel, bizarra forma\u00e7\u00e3o franco-belga liderada pelo saxofonista, j\u00e1 falecido, Yvon Vromann, n\u00e3o s\u00e3o assim t\u00e3o violentos, embora se inspirassem no \u201cpunk\u201d e na \u201cnew wave\u201d, mas seguindo um figurino franc\u00eas. O lado \u201carty\u201d emerge, por\u00e9m, quando menos se espera, nas aproxima\u00e7\u00f5es jazz\/burlescas de uns Etron Fou Leloublan enquanto o sorriso pop chega a ser pateta numa faixa como \u201cHistoire \u00e0 suivre\u201d, com sabor a Jane Birkin. Tudo estaria bem se n\u00e3o houvesse um saxofone a gritar \u201cfree jazz\u201d. E h\u00e1 coisas como faziam os Kas Product (lembram-se?) e os Al\u00e9sia Cosmos (ningu\u00e9m se deve lembrar\u2026). Eletr\u00f3nica no batedor e ritmos Recommended integram igualmente este curioso objeto que agora surge aumentado por temas extra, entre os quais um \u201clive\u201d com os Aksak Maboul.<\/p>\n<p><strong>BENJAMIN LEW <\/strong><br \/>\nCompiled Electronic Landscapes (1982)<br \/>\n<strong>8|10<\/strong><\/p>\n<p>Antologia de fragmentos e paisagens eletr\u00f3nicas extra\u00eddos dos \u00e1lbuns a solo \u201cNebka\u201d e \u201cLe Parfum du Raki\u201d, bem como das anteriores e francamente superiores colabora\u00e7\u00f5es com Steven Brown. Os t\u00edtulos e ambientes dir-se-iam recortados de um filme de Marguerite Duras ou do \u201cMarienbad\u201d de Resnais. Portos do Mediterr\u00e2neo, ventos do deserto, as aventuras de Ad\u00e9le Blanc-Sec e de Ars\u00e8ne Lupin na Paris da Belle \u00c9poque em quadros eletr\u00f3nicos onde a influ\u00eancia de Eno se veste com o onirismo dos filmes do inconsciente.<\/p>\n<p><strong>ZAZOU, BIKAYE, CY1 <\/strong><br \/>\nNoir et Blanc (1983)<br \/>\n<strong>8|10<\/strong><\/p>\n<p>Desta colabora\u00e7\u00e3o entre Hector Zazou, previamente nos ZNR, o cantor congol\u00eas Boni Bikaye e o grupo de eletr\u00f3nica Cy1 resultaria um dos primeiros exemplares de etnotecno, antes da queda na variante etnoseca. As programa\u00e7\u00f5es, imbu\u00eddas do calor pr\u00f3prio dos sintetizadores e sequenciadores anal\u00f3gicos, seguram dan\u00e7as derv\u00edshicas enfeitadas pelos c\u00e2nticos afro de Bikaye. Absolutamente hipn\u00f3tico ou, como algu\u00e9m descreveu na altura esta fus\u00e3o de prototecno e arvoredos \u201cworld\u201d: \u201cFela Kuti meets Kraftwerk on the dance floor. Arrumar ao lado da variante kraut e, inevitavelmente, mais fria, \u201cZero Set\u201d, de Dieter Moebius, Conny Plank e Mani Neumeier.<\/p>\n<p><strong>MINIMAL COMPACT<\/strong><br \/>\nDeadly Weapons (1984)<br \/>\n<strong>6|10<\/strong><\/p>\n<p>Samy Birnbach e a israelita Malka Spiegel fizeram dos Minimal Compact uma das bandas da Crammed com maior proje\u00e7\u00e3o fora de portas. A mistura de elementos rock com melodias e sonoridades do Extremo Oriente, onde algu\u00e9m, mais excitado, viu o encontro de Ian Curtis com a cantora folk eg\u00edpcia Oum Kalsoum, n\u00e3o resistiu ao desgaste do tempo, ouvindo-se hoje como um t\u00edpico objeto dos anos 80 p\u00f3s-Joy Division, j\u00e1 impregnado pelo esp\u00edrito electro.<\/p>\n<p><strong>KARL BISCUIT <\/strong><br \/>\nSecret Love (1984)<br \/>\n<strong>5|10<\/strong><\/p>\n<p>Karl Biscuit era uma figura enigm\u00e1tica que aparece na capa de \u201cSecret Love\u201d a fazer o n\u00famero do manequim rom\u00e2ntico. Apesar das refer\u00eancias aos Depeche Mode e aos Human League e da gra\u00e7a de lhe terem chamado \u201cJulien Clerc em tr\u00eas dimens\u00f5es\u201d, a pop eletr\u00f3nica e as \u201ctorch songs\u201d de pacotilha servidas em bandeja de mambo e eletrobeats baratos \u00e9 pouco convincente enquanto testamento musical deste franc\u00eas hoje respons\u00e1vel pela companhia de dan\u00e7a Castafiore.<\/p>\n<p>HECTOR ZAZOU<br \/>\nReivax au Bongo (1986)<br \/>\n9|10<\/p>\n<p>Registado originalmente na Made to Measure, \u201cReivax au Bongo\u201d \u00e9 um daqueles discos que parecem sa\u00eddos do sonho de um louco. Composto como banda sonora para uma telenovela imagin\u00e1ria (!), o \u201cprimeiro lado\u201d experimenta, num contexto de desenhos animados, as vocaliza\u00e7\u00f5es \u00e9tnicas de Boni Bikaye, Kanda Bongo Man e Ray Lema. T\u00e3o delirante como ex\u00f3tico, este primeiro segmento n\u00e3o faz prever o que se segue: naipes grandiosos de m\u00fasica coral cantada por donzelas e querubins que se elevam nas alturas como um madrigal pr\u00e9-barroco de Gabrielli ou Heinrich Sch\u00fctz.<\/p>\n<p><strong>COLIN NEWMAN <\/strong><br \/>\nCommercial Suicide (1986)<br \/>\n<strong>6|10<\/strong><\/p>\n<p>Pop eletr\u00f3nica com dose de excentricidade q.b. pelo ex-vocalista dos Wire, em colabora\u00e7\u00e3o com John Bonnar, Malka Spiegel e o engenheiro de som\/produtor e alicerce do chamado \u201csom belga\u201d, Gilles Martin. A par de can\u00e7\u00f5es padronizadas na pop eletr\u00f3nica da \u00e9poca, a presente reedi\u00e7\u00e3o junta-lhes um in\u00e9dito com Newman a falar da sua m\u00fasica, sobre fundo sonoro. Os mais exagerados viram neste \u00e1lbum as mesmas qualidades de \u201cRock Bottom\u201d, de Robert Waytt, e de \u201cThe Madcap Laughs\u201d, de Syd Barrett, mas a verdade \u00e9 que a este \u201csuic\u00eddio comercial\u201d falta tanto a trag\u00e9dia como a loucura.<\/p>\n<p><strong>SONOKO <\/strong><br \/>\nLa D\u00e9butante (1988)<br \/>\n<strong>7|10<\/strong><\/p>\n<p>Disco de uma beleza fora do vulgar a deste baile de debutante de uma cantora japonesa com voz de boneca ca\u00edda no jardim de Virginia Astley. O som de dar corda a uma caixa-de-m\u00fasica d\u00e1 o mote a uma cole\u00e7\u00e3o de melodias fr\u00e1geis, por vezes arrebatadoras, que incluem uma muta\u00e7\u00e3o c\u00e2ndida de \u201cCheree\u201d, dos Suicide, modificada para \u201cCheri cheri\u201d, uma letra de Shakespeare, uma dedicat\u00f3ria a Brigitte Bardot, \u201cLa poup\u00e9e qui fait non\u201d, de Michel Polnareff, m\u00fasica de igreja, um requiem de Gabriel Faur\u00e9 (1888) e uma arrepiante, porque falsamente ing\u00e9nua, vers\u00e3o de \u201cIn heaven\u201d, da banda sonora de \u201cEraserhead\u201d, de David Lynch. No filme o tema \u00e9 cantado por uma bailarina que vive dentro de um radiador, ao mesmo tempo que pisa espermatozoides: \u201cIn heaven everything is fine\u201d.<\/p>\n<p><strong>SUSSAN DEYHIM &#038; RICHARD HOROWITZ <\/strong><br \/>\nDesert Equations: Azax Attara (1987)<br \/>\n<strong>8|10<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9tnica, t\u00e9cnica, tecno, c\u00e2nticos da P\u00e9rsia, programas de computador, \u201cdrones\u201d e dunas. Dan\u00e7as eletro em contraponto com uma voz planet\u00e1ria. O escritor Paul Bowles perguntou, a prop\u00f3sito, se esta m\u00fasica foi composta sob a influ\u00eancia de algum alucinog\u00e9nico, enquanto Jaron Lanier, cientista, compositor e inventor da realidade virtual fala de uma genu\u00edna viagem dos corpos atrav\u00e9s de uma paisagem hi-tech. \u201cAzax Attra\u201d percorre-se como se pis\u00e1ssemos o solo de uma ilus\u00e3o e subitamente sent\u00edssemos no rosto o choque da areia empurrada pelo vento.<\/p>\n<p><strong>BEL CANTO <\/strong><br \/>\nWhite-out Conditions (1988)<br \/>\n<strong>7|10<\/strong><\/p>\n<p>Muito antes dos icebergs im\u00f3veis dos Sigur R\u00f3s, os noruegueses Bel Canto, da cantora Annelli Marian Drecker, lan\u00e7avam ao mar o conceito de pop \u00e1rtica que viria a ramificar-se na atualidade por nomes como Biosphere, Chiluminati e R\u00f6yksopp. Apesar da r\u00edtmica ser de gelo, chovem melodias capazes de inflamar os cora\u00e7\u00f5es, como \u201cBlank sheets\u201d. Fizeram-se compara\u00e7\u00f5es com os Cocteau Twins, Sara MacLachlan, Dead Can Dance e Talk Talk, mas \u00e9 mais singelo do que isso.<\/p>\n<p><center><br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/mCItuQ71fek\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\n<\/center><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(p\u00fablico >> y >> pop\/rock >> artigo de opini\u00e3o \/ cr\u00edtica de discos) 25 Julho 2003 Nos anos 80, a editora belga Crammed provou que a m\u00fasica popular podia voltar a ambicionar ser obra de arte. Ou, se n\u00e3o, a p\u00f4r um bigode no nariz do classicismo. 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