{"id":6854,"date":"2018-06-18T12:17:10","date_gmt":"2018-06-18T19:17:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=6854"},"modified":"2018-06-18T12:17:10","modified_gmt":"2018-06-18T19:17:10","slug":"nick-cave-im-on-fire-artigo-de-opiniao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2018\/06\/18\/nick-cave-im-on-fire-artigo-de-opiniao\/","title":{"rendered":"Nick Cave &#8211; &#8220;I&#8217;m On Fire&#8221; (artigo de opini\u00e3o)"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 250;\ngoogle_ad_height = 250;\ngoogle_ad_format = \"250x250_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>(p\u00fablico >> y >> pop\/rock >> artigo de opini\u00e3o)<br \/>\n10 Janeiro 2003<br \/>\nneon<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>Nick Cave<br \/>\nI\u2019m on fire<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n<em>Baladas criminosas, ternura e rock&#8217;n&#8217;roll. A noite e o fogo, no regresso em for\u00e7a do melhor Nick Cave de h\u00e1 muitos anos. Respirem fundo e vistam fatos de amianto antes de ouvirem &#8220;Nocturama&#8221;. Sai no princ\u00edpio de Fevereiro.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=6855\" rel=\"attachment wp-att-6855\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/nc.jpg\" alt=\"\" width=\"639\" height=\"561\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6855\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/nc.jpg 639w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/nc-300x263.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/nc-624x548.jpg 624w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/nc-100x88.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 639px) 100vw, 639px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Foi um emocional, um gritador, um sofredor, um mal-encarado e um mal-amado do rock na \u00e9poca dos The Birthday Party. Depois, j\u00e1 com os Bad Seeds, Nick Cave virou-se aos poucos para &#8220;o outro lado&#8221;, descobrindo formas no sil\u00eancio onde antes se enredava no torvelinho do ru\u00eddo. H\u00e1 quem diga que se voltou (aparentemente) para cima, numa inquieta\u00e7\u00e3o surda onde alguns descobrem devo\u00e7\u00e3o. A verdade \u00e9 que a partir dos anos 90 e de &#8220;The Good Son&#8221;, gravado em S\u00e3o Paulo, Brasil, o &#8220;crooner&#8221; maldito estabeleceu um compromisso com uma religiosidade expressa em tipologias como o &#8220;gospel&#8221;, os espirituais, de acordo com uma forma dolorosa de dilacera\u00e7\u00e3o interior, queimada como caramelo venenoso nos &#8220;blues&#8221;.<br \/>\n\tCave tornou-se o asceta noturno, o pregador perdido nas caves (nunca um apelido ter\u00e1 soado t\u00e3o apropriado&#8230;) da perdi\u00e7\u00e3o que interroga a eternidade no fundo de um copo de &#8220;whisky&#8221; ou no mais profundo gemido de uma prostituta sagrada. \u00c1lbuns como &#8220;Henry&#8217;s Dream&#8221; (1992), &#8220;Let Love in&#8221; (1994), &#8220;The Boatman&#8217;s Call&#8221; (1997) e &#8220;No More Shall we Part&#8221; (2001), bem como o livro &#8220;And the Ass Saw the Angel&#8221; e o exerc\u00edcio sangrento &#8220;Murder Ballads&#8221; (esp\u00e9cie de &#8220;Do Assass\u00ednio como uma das Belas-Artes&#8221;, de Thomas de Quincey, em can\u00e7\u00f5es, que inclui &#8220;Death is not the end&#8221;, de Dylan) s\u00e3o interroga\u00e7\u00f5es dirigidas a uma for\u00e7a oculta que o m\u00fasico australiano localiza dentro de si: &#8220;Ao escrever tento, de algum modo, compreender-me a mim pr\u00f3prio. \u00c9 a \u00fanica maneira que tenho para compreender o que penso e o que sinto sobre as coisas.<br \/>\n\t<strong>fauna lunar. <\/strong>&#8220;Nocturama&#8221;, o novo \u00e1lbum, com data de edi\u00e7\u00e3o em Portugal marcada para 3 de Fevereiro, \u00e9 mais uma etapa no caminho da crucifica\u00e7\u00e3o. Que \u00e9 seguir por dentro em todas as dire\u00e7\u00f5es, ser-se simultaneamente santo e pecador, misturar a pureza com a esc\u00f3ria e saber distingui-los. Ou ent\u00e3o descobrir que n\u00e3o existe maior dilacera\u00e7\u00e3o que a do amor. &#8220;Nocturama&#8221; \u00e9, segundo o australiano, &#8220;um local onde vivem animais noturnos&#8221;. Precisamente &#8211; o amor. O seu lado escuro, selvagem e lunar.<br \/>\n\tFormalmente, os Bad Seeds alcan\u00e7am aqui maior protagonismo do que nos \u00e1lbuns anteriores. Cave explica as diferen\u00e7as de um m\u00e9todo em rela\u00e7\u00e3o ao qual foi determinante o trabalho do produtor Nick Launay &#8211; com quem j\u00e1 colaborara no single de 1981 dos The Birthday Party, &#8220;Release the bats&#8221; &#8211; ao permitir a grava\u00e7\u00e3o de todas as sess\u00f5es e deste modo criar em est\u00fadio uma atmosfera de empatia e descontra\u00e7\u00e3o entre os m\u00fasicos.<br \/>\n\tMas o semeador do mal tamb\u00e9m mudou: &#8220;A ideia foi anular alguns preciosismos e regressar a um tipo de disco mais parecido com os antigos, mais r\u00e1pido e espont\u00e2neo. Neste disco optei por estabelecer uma ideia musical, encontrar uma letra, p\u00f4-los de lado para gravar e come\u00e7ar logo outro tema. N\u00e3o procedi a qualquer tipo de reflex\u00e3o posterior ou voltei a tocar cada can\u00e7\u00e3o. Uma vez escritas, ficaram prontas, ao passo que em &#8216;No More Shall we Part&#8217; tinha arranjado tudo antes o que, provavelmente, ter\u00e1 inibido um pouco a banda. Se j\u00e1 est\u00e1 tudo completo e a \u00fanica coisa que eles t\u00eam que fazer \u00e9 reproduzir o que est\u00e1 feito, isso n\u00e3o lhes deixa muito espa\u00e7o para respirar. Neste novo disco, pelo contr\u00e1rio, ficaram com bastante mais liberdade.&#8221; O que faz de &#8220;Nocturama&#8221; um disco de rock &#8216;n&#8217;roll, soprado pelos fantasmas po\u00e9ticos de W. H. Auden, Thomas Hardy e Dylan, com insuspeitas liga\u00e7\u00f5es a rockers como John Cale e David Bowie. Ou tratar-se-\u00e1, ainda e sempre, de ilus\u00f5es?<br \/>\n\t<strong>santos e pecadores.<\/strong> &#8220;Nocturama&#8221; abre com &#8220;Wonderful life&#8221;, &#8220;pastiche&#8221; em tons de sarcasmo, do verso da can\u00e7\u00e3o com o mesmo t\u00edtulo, para amansar os cora\u00e7\u00f5es, de Black. &#8220;Sometimes our secrets are all we&#8217;ve got&#8221;. O resto do \u00e1lbum vai-os desvelando, um a um.<br \/>\n\t&#8220;He wants you&#8221; \u00e9 hino com ecos de John Cale. Sinistro. O pap\u00e3o que se esconde nas profundezas, pronto a atacar. &#8220;Under the bridge and into your dreams he soars\/While you lie alone in that idea-free sleep of yours\/That you&#8217;ve been sleeping now for years.<br \/>\n\t&#8220;Ainda mais parecida com o registo baladeiro de Cale (basta substituir o &#8220;L&#8221; por um &#8220;V&#8221;, apetece dizer&#8230;) e a doce indol\u00eancia de quem se abandona, &#8220;Right out of your hand&#8221; fala dos equ\u00edvocos do amor. &#8220;Please forgive me\/If I appear unkind\/But any fool can tell you\/It&#8217;s all in your mind.&#8221; Conv\u00e9m n\u00e3o esquecer.<br \/>\n\tUm violino e o andamento inicial de &#8220;reggae&#8221; introduzem &#8220;Bring it on&#8221;, parceria vocal com Chris Bailey, da pioneira banda punk australiana The Saints, que Cave considera &#8220;uns deuses&#8221;: &#8220;uma banda an\u00e1rquica e violenta mas com um cantor que sabia mesmo cantar!&#8221;. &#8220;Bring it on\/Every neglected dream\/Bring it on\/Every little scheme\/Bring it on\/Every little fear\/And I&#8217;ll make them disappear&#8221;. Sonhos tra\u00eddos. Na r\u00e1dio poderia resultar bastante bem.<br \/>\n\t&#8220;It&#8217;s only rock &#8216;n&#8217; roll, but I like it&#8221; seria legenda apropriada para &#8220;Dead man in my bed&#8221;, onde a guitarra de Mick Harvey explode em gloriosa e man\u00edaca cavalgada. &#8220;He used to be so good to me, now he smells so fucking bad\/There is a dead man in my bed.&#8221; Met\u00e1fora ou algo de mais frio, \u00e9 outra hist\u00f3ria sem final feliz.<br \/>\n\t&#8220;The cops are hanging around the house\/The cars outside look like they&#8217;ve got the blues [belo verso!]\/The moon don&#8217;t know if it&#8217;s day or night.&#8221; Crime! &#8211; Disse ela. Numa balada das mais tristes e mais belas de &#8220;Nocturama&#8221;. E um piano &#8211; de Cave &#8211; a chorar.<br \/>\n\t&#8220;There is a town&#8221; \u00e9 uma viagem &#8220;under a dark sky&#8221;, atrav\u00e9s dos sonhos, at\u00e9 aos lugares da inf\u00e2ncia que n\u00e3o existem sen\u00e3o no que com elas faz a imagina\u00e7\u00e3o. &#8220;That God lives only in our dreams&#8221; j\u00e1 \u00e9 outra quest\u00e3o, mas imposs\u00edvel deixar de notar que &#8220;God&#8221; vem escrito com mai\u00fascula. O violino de Warren Ellis parece, de facto, vir do c\u00e9u.<br \/>\n\tOutra declara\u00e7\u00e3o de amor, outra travessia da noite, mais uma viagem pelo mar: &#8220;Rock of Gibraltar&#8221;. \u00c9pica. &#8220;And together we&#8217;d be\/That great, steady Rock of Gibraltar&#8221;. Substitua-se a letra por &#8220;We&#8217;d be heroes&#8221;, ou\u00e7a-se o som e as notas &#8211; praticamente iguais &#8211; da guitarra por detr\u00e1s do refr\u00e3o e, n\u00e3o h\u00e1 que enganar, Cave travou-se de raz\u00f5es com os &#8220;Heroes&#8221; de David Bowie.<br \/>\n\tO violino retorna, cheio de ternura, a &#8220;She passed by my window&#8221;, outra das baladas de &#8220;Nocturama&#8221;. Cl\u00e1ssica, lenta, invernal. &#8220;You gotta sanctify my love.&#8221; \u00c9 preciso dizer mais?<br \/>\n\tA f\u00faria maior faz-se esperar mas quando chega \u00e9 para matar. Em &#8220;Babe, I&#8217;m on fire&#8221;, tamb\u00e9m dispon\u00edvel em v\u00eddeo, em vers\u00e3o ao vivo. Os Bad Seeds soltam neste tema, absolutamente espantoso, de 15 minutos, todo o rock e energia contidos antes, antes do dil\u00favio. Tocada apenas uma vez antes de ser gravada \u00e9, nas palavras de Cave, &#8220;o g\u00e9nero de can\u00e7\u00e3o que se escreve quando n\u00e3o se est\u00e1 a escrever uma can\u00e7\u00e3o&#8221;.<br \/>\n\tUm \u00f3rg\u00e3o Hammond em groove cont\u00ednuo de R&#038;B com as guitarras de Harvey e Blixa Bargeld a dan\u00e7ar em volta como &#8220;banshees&#8221; alucinadas suportam como possessos um extenso poema (houve, mesmo assim, versos que ficaram de fora&#8230;) que finalmente dispara as palavras sem as cobrir de sombras. O pai, a m\u00e3e, a irm\u00e3, o irm\u00e3o, o cavalo, o porco, o juiz, a freira, o Papa, o general, o soldado, o toxicodependente, o b\u00eabedo, o budista, o &#8220;rastafari&#8221;, o crist\u00e3o, o beatnik, o cego, o pol\u00edcia, o chulo, o estripador, o cantor country, o comentador desportivo, o viking, o cowboy no rodeo, o velho esquim\u00f3, o contorcionista chin\u00eas, o astronauta perdido, Picasso e o seu &#8220;Guernica&#8221;, Walt Whitman, Bill Gates, o Presidente dos EUA [a lista \u00e9 intermin\u00e1vel], todos, absolutamente todos, gritam: &#8220;Babe, I&#8217;m on fire!&#8221;<br \/>\n\t&#8220;And the decomposing lover says&#8221;: &#8220;Babe, I&#8217;m on fire.&#8221; A fogueira alastrou num inc\u00eandio. &#8220;Babe, I&#8217;m on fire&#8221; espanta todas as criaturas noturnas e evasivas que rondavam pela floresta \u00e0 espreita de um momento de fraqueza. N\u00e3o h\u00e1. E &#8220;Nocturama&#8221; ilumina-se num clar\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(p\u00fablico >> y >> pop\/rock >> artigo de opini\u00e3o) 10 Janeiro 2003 neon Nick Cave I\u2019m on fire Baladas criminosas, ternura e rock&#8217;n&#8217;roll. A noite e o fogo, no regresso em for\u00e7a do melhor Nick Cave de h\u00e1 muitos anos. Respirem fundo e vistam fatos de amianto antes de ouvirem &#8220;Nocturama&#8221;. 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