{"id":6792,"date":"2018-05-15T10:34:49","date_gmt":"2018-05-15T17:34:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=6792"},"modified":"2018-05-15T10:34:49","modified_gmt":"2018-05-15T17:34:49","slug":"carlos-do-carmo-carlos-do-carmo-celebra-40-anos-de-carreira-concertos-entrevista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2018\/05\/15\/carlos-do-carmo-carlos-do-carmo-celebra-40-anos-de-carreira-concertos-entrevista\/","title":{"rendered":"Carlos Do Carmo &#8211; &#8220;Carlos Do Carmo Celebra 40 Anos De Carreira&#8221; (concertos + entrevista)"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 200;\ngoogle_ad_height = 200;\ngoogle_ad_format = \"200x200_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>(p\u00fablico >> cultura >> portugueses >> concerto + entrevista)<br \/>\ns\u00e1bado, 11 Outubro 2003<br \/>\ndestaque<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>CONCERTOS NO COLISEU<\/p>\n<p>CARLOS DO CARMO CELEBRA 40 ANOS DE CARREIRA<br \/>\n<\/center><br \/>\nN\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os Rolling Stones que est\u00e3o a celebrar 40 anos de carreira. Carlos do Carmo tamb\u00e9m. Um espet\u00e1culo de gala, hoje e amanh\u00e3, no Coliseu dos Recreios, um disco de raridades, um DVD e uma exposi\u00e7\u00e3o juntam-se para comemorar a efem\u00e9ride. O \u201ccharme\u201d do fadista de Lisboa \u00e9 imperec\u00edvel. E as suas hist\u00f3rias tamb\u00e9m<\/strong><\/p>\n<p><center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=6793\" rel=\"attachment wp-att-6793\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/cc-1.jpg\" alt=\"\" width=\"545\" height=\"589\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6793\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/cc-1.jpg 545w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/cc-1-278x300.jpg 278w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/cc-1-300x324.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/cc-1-93x100.jpg 93w\" sizes=\"auto, (max-width: 545px) 100vw, 545px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center> <\/p>\n<p>Sente-se a adrenalina a fervilhar, o fado a engalanar-se, a expectativa a crescer, \u00e0 medida que o grande momento se aproxima. Esta noite, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, Carlos do Carmo, o mais importante fadista vivo, sopra as velas de 40 anos de uma carreira n\u00e3o isenta de percal\u00e7os mas, apesar de tudo, feliz. A lota\u00e7\u00e3o, esgotada, obrigou \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de um espet\u00e1culo extra, marcado para amanh\u00e3. Mais uma prova de que o p\u00fablico o continua a acarinhar. \u201cSim, tem-me tratado bem.\u201d<br \/>\n\tO autor de \u201cUm Homem na Cidade\u201d, \u201cUm Homem no Pa\u00eds\u201d e o mais recente \u201cNove Fados e Uma Can\u00e7\u00e3o de Amor\u201d \u00e9 um sobrevivente e um inovador. Do fado e de uma Lisboa que, provavelmente, apenas j\u00e1 s\u00f3 existe no queixume das guitarras. Esta noite n\u00e3o ser\u00e1 uma prova dos nove mas a prova real de que, sem ele, como sem Am\u00e1lia, o fado teria sido outro.<br \/>\n\t\u00c9 tamb\u00e9m uma prova de coragem. Depois de uma primeira parte em que ser\u00e1 acompanhado por Ricardo Rocha e Jos\u00e9 Manuel Neto (guitarra portuguesa), Jos\u00e9 Maria N\u00f3brega e Carlos Manuel Proen\u00e7a (guitarra) e Fernando Ara\u00fajo (baixo), Carlos do Carmo ter\u00e1 como convidados, na segunda parte, para fazer uma s\u00e9rie de duetos, Carlos Bica (em \u201cEu, nome Lisboa\u201d), J\u00falio Pereira (\u201cO homem das castanhas\u201d), Ricardo Dias, Ricardo Rocha e Walter Hidalgo. A orquestra Sinfonieta de Lisboa interpretar\u00e1 arranjos especialmente escritos para a ocasi\u00e3o pelo pianista Bernardo Sassetti, tamb\u00e9m presente como solista.<br \/>\n\tQuarta-feira, local do ensaio: a Sinfonieta de Lisboa ensaia com o fadista e o pianista um novo figurino para o fado que se adivinha grandioso. Afinam-se os instrumentos, o ambiente aquece. Ap\u00f3s algumas conversas<br \/>\nde descontra\u00e7\u00e3o, o maestro Vasco Pearce de Azevedo manda a orquestra \u201ctutti\u201d tocar a \u201cCanoa do Tejo\u201d, de Frederico de Brito. A seguir, um naipe instrumental de cada vez. Primeiro as cordas. Agora os sopros. A orquestra, de 40 elementos, \u00e9 composta na sua maioria por jovens, a maior parte mulheres. H\u00e1 quem levante d\u00favidas e d\u00ea sugest\u00f5es. No compasso tal, \u201c\u00e9 um l\u00e1 natural ou um bemol?\u201d. \u201cEsta frase n\u00e3o ficaria melhor assim?\u201d O maestro mostra-se satisfeito mas imp\u00f5e corre\u00e7\u00f5es. \u201cDois compassos, no novo arranjo, n\u00e3o s\u00e3o para ser tocados, saltem por cima!\u201d \u201c\u00c9 para correr para a frente e n\u00e3o para tr\u00e1s.\u201d \u201cEst\u00e1 bem assim!\u201d<br \/>\n\tBernardo Sassetti levanta-se e explica a partitura. \u201cSim, aqui \u00e9 mesmo um crescendo.\u201d \u201cN\u00e3o, esse bemol aplica-se somente ao compasso inicial.\u201d<br \/>\n\tSentado a seu lado, Carlos do Carmo espera pacientemente a altura para entrar. Quando o faz, a voz, sem amplifica\u00e7\u00e3o, mal se consegue ouvir entre o n\u00edvel sonoro da orquestra. Mas Sassetti est\u00e1 atento e sorri, mesmo quando um ou outro pormenor n\u00e3o corre ainda na perfei\u00e7\u00e3o. \u201cFaltam as guitarras\u2026\u201d, justifica-se o fadista. E recome\u00e7a-se de novo, ainda com mais entusiasmo. No final tudo bate certo e nasce uma nova \u201cCanoa do Tejo\u201d, pronta a navegar quando daqui a poucas horas as luzes do palco se acenderem.<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>\u201cCada espet\u00e1culo \u00e9 uma quest\u00e3o de vida ou de morte\u201d<\/p>\n<p>ENTREVISTA COM<br \/>\nCARLOS DO CARMO<\/strong><br \/>\n<\/center><br \/>\n<strong>Puseram-no, por engano, diante de uma plateia de \u201cheavy metal\u201d mas ama o seu p\u00fablico ao ponto de ter cantado apenas para um casal, na sua antiga casa de fados. Carlos do Carmo, o bairrista e o homem do mundo, entrou no fado pela porta grande e \u00e9 por ela que h\u00e1-de sair.<\/strong><\/p>\n<p>Um CD de compila\u00e7\u00e3o de fados gravados nos anos 70 e 80 dispersos por singles e EPs, intitulado \u201cNo Tempo do Vinil\u201d (ver cr\u00edtica no \u201cY\u201d de ontem). Um DVD, realizado por Rui Pinto de Almeida, ainda sem data de sa\u00edda, reunindo excertos do espet\u00e1culo desta noite, no Coliseu, e de outro em Frankfurt, mais a biografia e discografia escritas e uma entrevista com o artista. Uma exposi\u00e7\u00e3o, \u201cUm Homem no Mundo\u201d, na Casa do Fado e da Guitarra Portuguesa, em Lisboa, de 15 deste m\u00eas a 15 de Fevereiro. Um outro disco, de homenagem ao fadista, com edi\u00e7\u00e3o prevista para 2004. Tudo com o objetivo de celebrar uma carreira longa de 40 anos.<br \/>\n\tCarlos do Carmo garante que a retirada est\u00e1 para breve, como confessa nesta entrevista. Talvez. O seu fado, por\u00e9m, ficar\u00e1 para sempre.<br \/>\n\t<strong>P\u00daBLICO \u2013 Escolheu como local desta celebra\u00e7\u00e3o o Coliseu dos Recreios por algum motivo especial?<\/strong><br \/>\n\tCARLOS DO CARMO \u2013 J\u00e1 l\u00e1 cantei muitas vezes. Voltei a escolh\u00ea-lo por uma raz\u00e3o afetiva. 40 anos \u00e9 muito ano e, embora n\u00e3o esteja seguro de coisa nenhuma, posso dizer, com 99,9 por cento de probabilidade, que n\u00e3o vou celebrar os 50 anos. Este concerto vai ser mesmo um marco. J\u00e1 n\u00e3o tenho m\u00e3e nem pai e esta \u00e9 a sala onde os meus pais me levavam quando era crian\u00e7a, para ver o circo. Depois, quem o remodelou, para o Lisboa 94, foi um amigo meu, o arquiteto Maur\u00edcio de Vasconcelos. E o grande oper\u00e1rio desta casa foi das pessoas mais curiosas que conheci no mundo do espet\u00e1culo, daquelas que s\u00f3 os artistas conhecem, o mestre Constantino, o homem que manteve o Coliseu durante anos e anos.<br \/>\n\t<strong>No concerto vai fazer um apanhado de carreira? Seria tarefa dif\u00edcil\u2026<\/strong><br \/>\n\tNem eu tenho essa pretens\u00e3o. Centra-se tudo na gratid\u00e3o aos m\u00fasicos e aos autores. Os convidados s\u00e3o todos m\u00fasicos.<br \/>\n\t<strong>Ser\u00e1 curioso verificar se mant\u00e9m o mesmo estado de esp\u00edrito, mais solto, que tem marcado as suas conversas com o p\u00fablico, em ocasi\u00f5es recentes\u2026 Foi-se, em definitivo, o \u201cpoliticamente correto\u201d?<\/strong><br \/>\n\tEntendo\u2026 Com a idade ganhei outro respeito por mim pr\u00f3prio a par de um grande respeito pelas pessoas. Prefiro que me conhe\u00e7am tal qual sou. Talvez essa fase do \u201cmenino certinho\u201d tenha desaparecido. Mas \u00e9 algo que passa sempre por um afeto acumulado, embora desta vez n\u00e3o tenha muito a inten\u00e7\u00e3o de falar, vou deixar antes falar os meus autores. Mas \u00e9 verdade que as pessoas me tratam muito bem.<br \/>\n\t<strong>Todas?<\/strong><br \/>\n\tN\u00e3o pretendo consensos nem unanimidade, contra os quais sou completamente contra. Quando ou\u00e7o dizer, \u201cfulano \u00e9 uma pessoa impec\u00e1vel\u201d, tenho certas suspeitas. Faz-se amigos como se faz inimigos, faz parte do processo. Mas as pessoas t\u00eam-me dado muito. Agora, por\u00e9m, cada espet\u00e1culo \u00e9 uma quest\u00e3o de vida ou de morte.<br \/>\n\t<strong>Como assim?<\/strong><br \/>\n\tPor instru\u00e7\u00f5es do meu m\u00e9dico, n\u00e3o posso fazer mais do que 20 espet\u00e1culos por ano, no m\u00e1ximo. Est\u00e1 a falar com um homem que fazia 100, 150, calmamente, e que continua a ter pedidos para o fazer. Mas j\u00e1 n\u00e3o tenho sa\u00fade para isso. Ent\u00e3o este ato isolado de cantar, cada vez mais isolado, torna-se um grande desafio. Fa\u00e7o-o com grande intensidade. E h\u00e1 outra coisa: esta acumula\u00e7\u00e3o de liga\u00e7\u00e3o com as pessoas, num processo de 40 anos, permite fazer como que gr\u00e1ficos da euforia e da depress\u00e3o das pessoas.<br \/>\n\tNeste momento estamos numa fase de depress\u00e3o coletiva. E eu estou a tentar fazer uma festa num per\u00edodo de depress\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 fazer a festa dentro da festa, como j\u00e1 aconteceu nos per\u00edodos de euforia, neste caso \u00e9 um bocado contra a corrente, no sentido do bem-estar das pessoas e em rela\u00e7\u00e3o ao que as cerca, a sua intranquilidade, as injusti\u00e7as, mesmo a quest\u00e3o econ\u00f3mica.<br \/>\n\tSei que a sala est\u00e1 quase esgotada mas estou convencido que podia esgotar duas ou tr\u00eas se as pessoas que gostam de me ouvir tivessem meios para isso [na altura em que esta entrevista foi feita, n\u00e3o se encarava ainda a hip\u00f3tese de um segundo espet\u00e1culo, o que acabou por acontecer]. Sei de muita gente que me pergunta se vai passar na televis\u00e3o, por n\u00e3o poder ir. Isso d\u00f3i-me. Neste momento estou em paz comigo. Sou um tipo com defeitos e virtudes\u2026<br \/>\n\t<strong>Continua a sentir a necessidade, ou vontade, de experimentar novas f\u00f3rmulas para o fado?<\/strong><br \/>\n\tClaro. \u00c9 um desafio tocar com os jovens m\u00fasicos, como o Ricardo Rocha ou o Carlos Manuel. \u00c9 a minha necessidade de ouvirmos, de trocarmos ideias. \u00c9 bom para ambas as partes. Eles gostam de aprender alguma coisa comigo mas tamb\u00e9m sabem que gosto de aprender com eles. \u00c9 saud\u00e1vel e provoca em mim uma necessidade de proceder a ruturas.<br \/>\n\tHoje, como calcula, j\u00e1 n\u00e3o tenho a m\u00ednima preocupa\u00e7\u00e3o com os puristas. H\u00e1 uns anos ainda me incomodava, quando eles me chamavam a aten\u00e7\u00e3o de que aquilo n\u00e3o era fado, n\u00e3o era nada. Desde \u201cUm Homem na Cidade\u201d perdi o respeito pelos puristas. Na altura agrediram-me tanto&#8230; Hoje j\u00e1 dizem que \u00e9 um dos grandes discos da hist\u00f3ria do fado, o melhor dos \u00faltimos 30 anos\u2026 Mas conheci puristas de outro timbre, que ouviam a minha m\u00e3e [Luc\u00edlia do Carmo] e e foi com eles que tamb\u00e9m aprendi a ouvir fado. Mas eram pessoas com um radicalismo culto. Quando me come\u00e7am a dizer \u201cassim j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 fado\u201d, s\u00f3 por ret\u00f3rica, apetece-me logo cantar outra.<br \/>\n\t<strong>Hoje fala-se muito na distin\u00e7\u00e3o entre fadistas e cantores de fado. Faz sentido para si?<\/strong><br \/>\n\tN\u00e3o obrigatoriamente. S\u00e3o ciclos. Olhe\u2026 perdoai-lhes Senhor! (risos)<br \/>\n\t<strong>O disco agora editado, \u201cNo Tempo do Vinil\u201d, \u00e9 um sinal de nostalgia?<\/strong><br \/>\n\tPeguei em fados que apenas existiam em pequenos discos em vinil, nunca tinham sa\u00eddo sequer em LP. Chegou a altura de fazer uma arruma\u00e7\u00e3o da minha discografia. Pertencia ao meu grupo de sonhos, gravar no selo Philips. Em 1968 entrei na casa que \u00e9 hoje a minha gravadora, embora o nome tenha mudado para Phonogram, Polygram, hoje Universal\u2026 \u00c9 a casa onde considero que tenho a base da minha discografia. \u00c9 aqui que estou a arrum\u00e1-la, enquanto estou vivo.<br \/>\n\t<strong>Essa arruma\u00e7\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o importante para si?<\/strong><br \/>\n\tPenso n\u00e3o cantar muito mais tempo\u2026 Tem que haver um equil\u00edbrio\u2026 Agora que me sinto feliz por estarem a chegar pessoas mais novas, tamb\u00e9m gostaria de sair pela mesma porta por onde entrei; n\u00e3o gostava que me empurrassem. N\u00e3o sejamos hip\u00f3critas. Nunca ningu\u00e9m neste pa\u00eds foi t\u00e3o homenageado como a Am\u00e1lia. \u00c9 consensual. Mas as pessoas tamb\u00e9m se lembram de que nos \u00faltimos anos iam assistir aos espet\u00e1culos dela e vinham de l\u00e1 profundamente tristes, dececionadas e assustadas. E comentavam. Confesso que n\u00e3o gostava de que isso me acontecesse. Prefiro que guardem de mim uma imagem de for\u00e7a. Como n\u00e3o sei quando estas coisas acontecem\u2026 Mas h\u00e1 avisos. Ainda n\u00e3o senti nenhum, mas prefiro antecipar. At\u00e9 porque tamb\u00e9m tenho uma vida familiar. E posso ser \u00fatil, ajudar a nova gera\u00e7\u00e3o a produzir discos, espet\u00e1culos, fazer col\u00f3quios nas universidades, em escolas, para falarmos de fado.<br \/>\n\t<strong>N\u00e3o vai sentir falta das palmas?<\/strong><br \/>\n\tN\u00e3o\u2026 De h\u00e1 uns anos a esta parte, do que gosto mais \u00e9 dos sil\u00eancios. Quando o p\u00fablico est\u00e1 em sil\u00eancio \u00e9 fant\u00e1stico. Um exemplo: num concerto em Sobral de Monte Agra\u00e7o, de repente tive a sensa\u00e7\u00e3o de estar fechado numa casa de fados, a cantar para umas 50 pessoas\u2026<br \/>\n\tRecentemente, quando me deram o Pr\u00e9mio Jos\u00e9 Afonso, na Amadora, foi outra beleza de p\u00fablico. O sil\u00eancio. O sil\u00eancio do respeito que devemos uns aos outros.<br \/>\n\t<strong>Tem saudades de cantar nas casas de fado?<\/strong><br \/>\n\tJ\u00e1 tenho a minha dose! Foram 20 anos, todas as noites! Mas j\u00e1 cantei tanto para 50 mil pessoas, na Festa do Avante! como s\u00f3 para duas. Aconteceu h\u00e1 muitos anos, na minha casa de fados. Eram para a\u00ed duas da manh\u00e3, est\u00e1vamos sem ningu\u00e9m, \u00edamos fechar e entra um casal, agitad\u00edssimo, tinham-se atrasado, vindos de Tr\u00e1s-os-Montes (imagine o que era uma viagem de carro nessa altura\u2026). Se n\u00e3o fosse naquela noite n\u00e3o tinham qualquer outra hip\u00f3tese. Foram extremamente convincentes, n\u00e3o havia r\u00e1bula nenhuma, e cantei s\u00f3 para eles com todo o prazer.<br \/>\n\t<strong>J\u00e1 foi vaiado?<\/strong><br \/>\n\tJ\u00e1. Tenho duas vaias. Uma no 2\u00ba concerto de Vilar de Mouros, porque se enganaram na programa\u00e7\u00e3o e puseram-me a cantar na noite do \u201cheavy metal\u201d (risos). Noutra, n\u00e3o estava sequer a cantar, foi uma coisa nitidamente pol\u00edtica. Estava a assistir a um espet\u00e1culo do B\u00e9caud (a Am\u00e1lia tamb\u00e9m), de quem fui amigo, aqui no Coliseu. Ele faz-me uma chamada e parte do p\u00fablico desata a vaiar. O B\u00e9caud ficou muito ofendido com os portugueses. Fui dar-lhe um abra\u00e7o ao camarim e ou\u00e7o-lhe este coment\u00e1rio: \u201cN\u00e3o me digas que os portugueses ainda n\u00e3o beberam ch\u00e1!?\u201d<br \/>\n\t<strong>Por falar em m\u00fasicos franc\u00f3fonos, \u201cNo Tempo do Vinil\u201d faz pensar em Jacques Brel\u2026<\/strong><br \/>\n\tVoc\u00ea est\u00e1-me a lisonjear. Isso honra-me. Mas ser\u00e1 porque essa foi uma \u00e9poca em que ouvia muito Brel. Haver\u00e1 uma assimila\u00e7\u00e3o de inten\u00e7\u00e3o. O Brel n\u00e3o brincava com as palavras. Ali\u00e1s, o Brel n\u00e3o brincava com a vida.<br \/>\n\t<strong>Ao ouvir este disco fica-se a pensar que bem poderia cantar um disco de standards de jazz. J\u00e1 pensou nisso?<\/strong><br \/>\n\tMas eu canto! Canto imensas coisas do Sinatra. Aconteceu-me uma vez uma hist\u00f3ria engra\u00e7ada. No Porto cantei a meias com o meu filho Gil [Gil do Carmo] o \u201cI\u2019ve got you under my skin\u201d. Quando acabei, o Rui Veloso, que tamb\u00e9m participava no espet\u00e1culo, entra-me pelo camarim aos gritos: \u201c\u00c9 p\u00e1, tu tens que gravar um disco de \u2018standards\u2019 e eu quero produzir esse disco!\u201d Mas o que \u00e9 que se passara, que o tinha tocado assim tanto? \u201cTu cantas isto de uma forma especial\u00edssima\u2026\u201d Mas \u00e9 natural, respondi-lhe, sou um fadista!<br \/>\n\t<strong>Ainda tem sonhos?<\/strong><br \/>\n\tTenho tanta coisa maluca na minha cabe\u00e7a! Quando gravei o \u201cMargens\u201d (1996), com m\u00fasica do Jos\u00e9 Lu\u00eds Tinoco \u2013 o disco foi muito mal-amado, a r\u00e1dio n\u00e3o tocou, coisas que acontecem, embora tenha atingido, nas vendas, os m\u00ednimos ol\u00edmpicos \u2013, veio ter comigo uma amiga minha, judia, que sobreviveu ao Holocausto e nessa altura se encontrava em Lisboa, que resolveu fazer uma vers\u00e3o italiana dos fados desse \u00e1lbum. N\u00e3o uma tradu\u00e7\u00e3o literal mas uma adapta\u00e7\u00e3o ao italiano. Aquilo est\u00e1 uma coisa t\u00e3o linda, t\u00e3o linda, que um dia destes passa-me uma coisa pela cabe\u00e7a e sou capaz de cantar um fado em italiano!<\/p>\n<p><strong>\u201cFui um menino burgu\u00eas\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Carlos do Carmo fala da sua inf\u00e2ncia e da nova gera\u00e7\u00e3o de fadistas<br \/>\n\t<strong>Sente-se um homem solit\u00e1rio, como um dos \u00faltimos representantes de uma gera\u00e7\u00e3o de charneira?<\/strong><br \/>\n\tDesapareceram figuras, n\u00e3o muito medi\u00e1ticas, \u00e9 verdade, como o Fernando Maur\u00edcio, o Francisco Martinho, o Ant\u00f3nio Rocha, o Zel, mas ainda cantam o Jo\u00e3o Braga, o Rodrigo\u2026 Somos uma gera\u00e7\u00e3o que fez a ponte entre a chamada gera\u00e7\u00e3o de ouro, os nossos mestres, ainda aproveit\u00e1mos a tradi\u00e7\u00e3o oral, hoje tentamos passar o testemunho aos mais novos, num tempo dominado pela tecnologia e a mediatiza\u00e7\u00e3o. Como o fen\u00f3meno Mariza que, no curto espa\u00e7o de dois anos, fez uma carreira internacional. No meu tempo era impens\u00e1vel.<br \/>\n\t<strong>Quer dizer que se fazem hoje fadistas \u00e0 press\u00e3o?<\/strong><br \/>\n\tN\u00e3o, embora o marketing, claro\u2026 mas n\u00e3o quer dizer que as pessoas n\u00e3o cantem bem.<br \/>\n\t<strong>Cantar bem, chega, para se ser fadista?<\/strong><br \/>\n\tO resto vai-se acumulando\u2026 A Mariza vem de uma fam\u00edlia que vive na Mouraria e por isso desfruta daquela vida de bairro, o que \u00e9 de uma enorme import\u00e2ncia. Torna as coisas genu\u00ednas.<br \/>\n\t<strong>E no seu caso?<\/strong><br \/>\n\tEmbora tenha sido, por prote\u00e7\u00e3o dos meus pais, um menino burgu\u00eas, completamente protegido: escola, liceu, col\u00e9gio na Su\u00ed\u00e7a\u2026 Mas vivi, at\u00e9 me casar, no bairro da Bica. E trabalhei at\u00e9 aos 40 anos no Bairro Alto. Essa vida de bairro, taco a taco com as pessoas, \u00e9 fundamental. Hoje, quando passeio a p\u00e9 pelo meu bairro, as pessoas ainda me tratam por \u201cmenino\u201d. Um encanto. A vida de bairro ajuda a perceber a pulsa\u00e7\u00e3o de Lisboa.<br \/>\n\t<strong>Encontra uma explica\u00e7\u00e3o para o facto de aparecerem hoje mais mulheres do que homens a cantar o fado?<\/strong><br \/>\n\tS\u00e3o ciclos. H\u00e1 momentos em que aparecem sobretudo homens e outros em que praticamente surgem s\u00f3 mulheres.<br \/>\n\t<strong>N\u00e3o ser\u00e1 tamb\u00e9m porque a imagem da fadista fotog\u00e9nica ajuda a vender?<\/strong><br \/>\n\tClaro que pode ter import\u00e2ncia. Mas ser\u00e1 que uma Piaf existiria hoje com aquela imagem? Era uma mulher t\u00e3o feia&#8230;! Mas quando cantava\u2026 Percebia-se a beleza que emanava dela.<br \/>\n\t<strong>Que rela\u00e7\u00e3o mant\u00e9m com a nova gera\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\n\tH\u00e1 apenas cinco anos, nas entrevistas, perguntavam-me se o fado n\u00e3o ia acabar. Tenho os recortes. Costumava responder que n\u00e3o desaparecer\u00e1 enquanto aparecerem cultores, quem toque, quem cante, quem escreva.<br \/>\n\tFoi preciso esperar algum tempo, de vez em quando h\u00e1 estas travessias do deserto. Mas eles a\u00ed est\u00e3o! Tamb\u00e9m aqui encontro uma justifica\u00e7\u00e3o para o que andei c\u00e1 a fazer. E continuo a fazer, uma vez que n\u00e3o fui demitido.<\/p>\n<p><center><br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/V66wB4aomvI\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\n<\/center><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(p\u00fablico >> cultura >> portugueses >> concerto + entrevista) s\u00e1bado, 11 Outubro 2003 destaque CONCERTOS NO COLISEU CARLOS DO CARMO CELEBRA 40 ANOS DE CARREIRA N\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os Rolling Stones que est\u00e3o a celebrar 40 anos de carreira. Carlos do Carmo tamb\u00e9m. Um espet\u00e1culo de gala, hoje e amanh\u00e3, no Coliseu dos Recreios, um [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[187,724,138,841,1722,179,25,24,68],"tags":[729],"class_list":["post-6792","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ao-vivo","category-artigos-2003","category-cantautor","category-concertos","category-entrevistas-2003","category-etno","category-fado","category-portugueses","category-world","tag-carlos-do-carmo"],"views":1150,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6792","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6792"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6792\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6794,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6792\/revisions\/6794"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6792"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6792"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6792"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}