{"id":6654,"date":"2018-03-19T10:53:40","date_gmt":"2018-03-19T17:53:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=6654"},"modified":"2018-03-19T10:53:40","modified_gmt":"2018-03-19T17:53:40","slug":"adiafa-pop-alentejana-artigo-de-opiniao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2018\/03\/19\/adiafa-pop-alentejana-artigo-de-opiniao\/","title":{"rendered":"Adiafa &#8211; &#8220;Pop Alentejana&#8221; (artigo de opini\u00e3o)"},"content":{"rendered":"<p>(p\u00fablico >> cultura >> portugueses >> artigo de opini\u00e3o)<br \/>\ndomingo, 26 Janeiro 2003<br \/>\n<center><br \/>\n<strong>POP ALENTEJANA<\/p>\n<p>Beja assiste a um fen\u00f3meno in\u00e9dito. Nas suas discotecas dan\u00e7a-se m\u00fasica alentejana. \u201cAs meninas da Ribeira do Sado\u201d, dos Adiafa, \u00e9 o tema que est\u00e1 a fazer furor.<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=6655\" rel=\"attachment wp-att-6655\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/ad1.gif\" alt=\"\" width=\"294\" height=\"457\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6655\" \/><\/a><\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 200;\ngoogle_ad_height = 200;\ngoogle_ad_format = \"200x200_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=6656\" rel=\"attachment wp-att-6656\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/ad2.gif\" alt=\"\" width=\"442\" height=\"367\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6656\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>Nunca se viu nada assim. A m\u00fasica alentejana saiu do monte, desceu \u00e0 cidade e introduziu-se nas discotecas. O \u201cesc\u00e2ndalo\u201d rebentou quando um dos temas do \u00e1lbum de estreia do grupo Adiafa, de Beja, \u201cAs meninas da Ribeira do Sado\u201d, come\u00e7ou a passar nas discotecas da cidade.<br \/>\n\tPassou e pegou. Hoje torna-se dif\u00edcil encontar na cidade quem n\u00e3o conhe\u00e7a o tema de cor. Dos estudantes universit\u00e1rios, que nos \u00faltimos anos fizeram crescer a popula\u00e7\u00e3o da  cidade, \u00e0 crian\u00e7ada da escola que, para g\u00e1udio dos pais, tem na ponta da l\u00edngua os versos e a melodia n\u00e3o s\u00f3 da vers\u00e3o electrificada mas tamb\u00e9m da ortodoxa, em toda a pureza do \u201ccante\u201d, de \u201cAs meninas da Ribeira do Sado\u201d, que tamb\u00e9m faz parte do \u00e1lbum.<br \/>\n\tFomos conhecer de perto a loucura do que se poder\u00e1 chamar \u201cpop \u00e0 alentejana\u201d, r\u00f3tulo, de resto, tamb\u00e9m aplic\u00e1vel ao \u00e1lbum de estreia de outro filho da cidade, Paulo Ribeiro, antigo elemento do grupo Anonimato. H\u00e1 algo de excitante no ar. Correm rumores de que \u201cAs meninas da Ribeira do Sado\u201d avan\u00e7aram j\u00e1 para Norte e est\u00e3o a agitar algumas pistas de dan\u00e7a de Lisboa. Rui Veloso e Vitorino expressaram j\u00e1 publicamente a sua admira\u00e7\u00e3o pelos Adiafa.<br \/>\n\tCuriosamente ningu\u00e9m na cidade se refere a \u201cAs meninas da Ribeira do Sado\u201d por este nome mas por \u201cEstrala a bomba\u201d, aproveitando o in\u00edcio da letra: \u201cEstrala a bomba e o foguete vai no ar\u201d. Os m\u00fasicos do grupo s\u00e3o reconhecidos na rua e apanham com o mesmo ep\u00edteto. \u201cOlha os \u2018Estrala a bomba\u2019!\u201d exclamam, apontando, velhos e novos. Os Estrala a Bomba, perd\u00e3o, Adiafa, n\u00e3o escondem o seu contentamento, ainda algo incr\u00e9dulos com o sucesso alcan\u00e7ado pela sua m\u00fasica. \u201cSentimo-nos felizes por, gra\u00e7as a n\u00f3s, as pessoas darem mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00fasica alenteja.\u201d<br \/>\n\tAo almo\u00e7o (afinal \u201cadiafa\u201d \u00e9 sin\u00f3nimo de \u201cbanquete\u201d), no restaurante Os Infantes, edif\u00edcio com cerca de 600 anos, antiga discoteca e antes disso sede do extinto partido pol\u00edtico MES (Movimento da Esquerda Socialista), na lamban\u00e7a sem pecado proporcionada por divinais feijoada de lebre, migas com carne de porco e perdiz estufada, bem regados por um Vidigueira tinto monocasta \u201caragon\u00eas\u201d, a conversa fluiu com a mesma facilidade com que \u00e0 noite se dan\u00e7a nas discotecas \u201cAs meninas da Ribeira do Sado\u201d.<br \/>\n\tCada um dos sete elementos do grupo, com idades entre os 26 e os 52 anos, acrescenta a sua parte a uma hist\u00f3ria que parece ser de fadas.<br \/>\n\tAnt\u00f3nio Santos, \u201cToy\u201d, o idealista anarquista, admirador de Bakunine, para quem a liberdade dos homens \u00e9 poss\u00edvel; Em\u00eddio Zarcos, aspeto \u201chippie\u201d mas respeit\u00e1vel professor de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica; Jo\u00e3o Santos, \u201co encarnado\u201d, s\u00f3cia de Mick Hucknall, dos Simply Red; Jos\u00e9 Em\u00eddio, apaixonado pelos \u201cblues\u201d e outras m\u00fasicas (\u201csempre que posso, canto \u2018blues\u2019, mas por que raio \u00e9 que n\u00e3o consigo cantar flamenco?\u201d); Lu\u00eds Espinho, incondicional do jazzrock (\u201cum dia hei-de ouvir o Joe Zawinul ao vivo!\u201d); Paulo Cola\u00e7o, o homem da \u201chouse\u201d e do \u201cdrum\u2018n\u2019bass\u201d que usou o programa Cubas\u201d para fabricar em casa os beats da vers\u00e3o remisturada de \u201cAs meninas da Ribeira do Sado\u201d; e Joaquim Sim\u00f5es, executante de fagote que passou uma noite em claro subjugado por uma partitura de Beethoven. Todos diferentes mas unidos por um sonho: levar a m\u00fasica alentejana cada vez mais longe e a mais pessoas.<br \/>\n\tA discoteca UFO\u2019s, antigo bar \u201cunderground\u201d onde os m\u00fasicos do grupo Revis\u00e3o se juntavam para fazer \u201cjam sessions\u201d (\u201cbom rock e bom \u2018blues\u2019\u201d, que ainda hoje continuam a ser tocados num recanto do recinto que Carlos Lopes, gerente da casa, considera \u201ccarism\u00e1tico\u201d), faz parte dos locais de divers\u00e3o de Beja onde \u201cAs meninas da Ribeira do Sado\u201d \u00e9 tocada todas as noites, inclusive na vers\u00e3o tradicional. \u201cA primeira vez que me pediram para tocar a m\u00fasica dos Adiafa achei um bocado esquisito, mas toda a gente aderiu. At\u00e9 j\u00e1 estamos a pensar em fazer uma sess\u00e3o de karaoke&#8230; as  pessoas cantam por cima\u201d, diz Carlos Lopes.<br \/>\n\tNingu\u00e9m se recorda muito bem da origem do nome UFO\u2019s, embora Carlos Lopes se lembre de ouvir ent\u00e3o falar em discos voadores. J\u00e1 Em\u00eddio Zarcos acha que tem a ver com \u201co estado da cabe\u00e7a de algumas pessoas\u201d que frequentavam o estabelecimento. O que j\u00e1 bate mais certo com a semelhan\u00e7a entre este nome e o do m\u00edtico clube ingl\u00eas UFO onde, em 1967, os Pink Floyd e os Soft Machine inventaram a pop psicad\u00e9lica.<br \/>\n\t\u00c9 quinta-feira e faltam poucas horas para o UFO\u2019s se encher de jovens universit\u00e1rios com a cabe\u00e7a mais ou menos fora do lugar, desejosos de divertimento. Quinta \u00e9 a noite de loucura de Beja. \u201c3000 mulheres para cada homem\u201d, segundo avalia\u00e7\u00e3o, pouco cient\u00edfica, dos Adiafa. \u201cEstrala a bomba\u201d tornou-se parte integrante dessa divers\u00e3o.<br \/>\n\tA Biblioteca Municipal Jos\u00e9 Saramago, considerada modelar e uma das melhores do pa\u00eds, entrou nos h\u00e1bitos da popula\u00e7\u00e3o mais jovem da cidade. Aberta at\u00e9 \u00e0s onze da noite, com um espa\u00e7o infantil, caf\u00e9 e ambiente informal, al\u00e9m de revistas e livros, permite levar CD para casa. O dos Adiafa \u201cest\u00e1 sempre fora\u201d.<br \/>\n\tSentados \u00e0s mesas do caf\u00e9, os jovens voltam as cabe\u00e7as para os sete Adiafa enquanto estes antecipam a folia que da\u00ed a poucas horas se instalar\u00e1 um pouco por todos os locais noturnos da cidade. Cristina tem 25 anos e estuda na Universidade Moderna. Investiga\u00e7\u00e3o Social Aplicada. Vem todos os dias assistir \u00e0s aulas. As discotecas Caras e Lanterna Azul contam-se entre as suas eleitas. Para dan\u00e7ar \u201cAs meninas da Ribeira do Sado\u201d. \u201cJ\u00e1 o fiz muitas vezes, aqui e noutros locais do Sul\u201d. L\u00eddia, 22 anos, a estudar no mesmo curso, j\u00e1 dan\u00e7ou a \u201cremix\u201d em Reguengos de Monsaraz, de onde \u00e9 natural. Com a mesma idade, \u00c2ngela veio do Montijo para estudar \u201cAnima\u00e7\u00e3o S\u00f3cio-Cultural\u201d. O tema dos Adiafa \u00e9 dos que mais a animam. \u201cVi-os no outro dia num programa da televis\u00e3o e achei curioso ter como base uma recolha do cancioneiro popular, uma coisa que estava esquecida.\u201d<br \/>\n\tA partir de agora deixou de haver raz\u00f5es para que a m\u00fasica alentejana continue esquecida. Os Adiafa tiraram-na do beco do \u201ccante\u201d e da viola campani\u00e7a, criando a partir da tradi\u00e7\u00e3o novos modelos. Est\u00e1 em curso a invas\u00e3o da pop alentejana.<\/p>\n<p><strong>Vitorino e companhia<\/strong><\/p>\n<p>A m\u00fasica do Alentejo, em parte pelas suas especificidades, pr\u00f3prias de uma tradi\u00e7\u00e3o que tem mais a ver com o Mediterr\u00e2neo (o canto corso, por exemplo) e o esp\u00f3lio polif\u00f3nico medieval do que com as heran\u00e7as etnogr\u00e1ficas de todo o territ\u00f3rio situado a Norte do Tejo, em parte pelo ostracismo pol\u00edtico a que durante d\u00e9cadas foi votado, conservou durante largos anos o estatuto de bolsa marginal. A sua liga\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00fasica urbana, processo agora encetado pelos Adiafa ou por Paulo Ribeiro, tem, no entanto, antecedentes. Deixando de lado o esp\u00f3lio discogr\u00e1fico tradicional fixado nas recolhas de Giacometti, na \u201cViola Campani\u00e7a\u201d, organizado por Jos\u00e9 Alberto Sardinha ou grupos corais como os das Camponesas de Castro Verde, Camponeses de Pias ou os Ganh\u00f5es, tamb\u00e9m de Castro Verde, o selo alentejano est\u00e1 bem marcado na fam\u00edlia Salom\u00e9, de Vitorino e Janita, ainda que num registo que come\u00e7ou por estar conotado com uma atitude revolucion\u00e1ria que era timbre da primeira gera\u00e7\u00e3o de m\u00fasicos da chamada M\u00fasica Popular Portuguesa. \u00c1lbuns de Vitorino como \u201cSemear Salsa ao Reguinho\u201d (1975), \u201cOs Malteses\u201d (1977), \u201cN\u00e3o h\u00e1 Terra&#8230;\u201d (1979), \u201cRomances\u201d (1980) e \u201cFlor de la Mar\u201d (1983), s\u00e3o exemplares dessa conjun\u00e7\u00e3o entre folclore, dignidade e ideologia. Ap\u00f3s um per\u00edodo mais liter\u00e1rio e \u201clisboeta\u201d encetado com \u201cLeitaria Garrett\u201d (1984), real\u00e7a-se o recente \u201cAlentejanas e Amorosas\u201d, de 2001, que o autor define como recupera\u00e7\u00e3o de um \u201cromantismo mediterr\u00e2nico e peninsular\u201d. Janita Salom\u00e9, numa perspetiva mais \u201cworld music\u201d e assumidamente arabizante, assinou trabalhos como \u201cMelro\u201d (1980), o cl\u00e1ssico \u201cA Cantar ao Sol\u201d (1983), \u201cLavrar em teu Peito\u201d (1985) e, numa perspetiva mais abrangente e fusionista, \u201cRaiano\u201d (1994) e o excelente e recentemente premiado \u201cVozes do Sul\u201d (2001). Ele e Vitorino, mais o irm\u00e3o Carlos e Filipa Pais (autora de \u201cL\u2019Amar\u201d, 1994, com o delicioso e alentejano \u201cVox omnes\u201d), encetaram a aventura, t\u00e3o curta como cintilante, dos Lua Extravagante.<\/p>\n<p><center><br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/OvYcdOJ-nrQ\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\n<\/center><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(p\u00fablico >> cultura >> portugueses >> artigo de opini\u00e3o) domingo, 26 Janeiro 2003 POP ALENTEJANA Beja assiste a um fen\u00f3meno in\u00e9dito. Nas suas discotecas dan\u00e7a-se m\u00fasica alentejana. \u201cAs meninas da Ribeira do Sado\u201d, dos Adiafa, \u00e9 o tema que est\u00e1 a fazer furor. Nunca se viu nada assim. 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