{"id":5241,"date":"2016-11-21T11:38:15","date_gmt":"2016-11-21T18:38:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=5241"},"modified":"2016-11-21T11:38:15","modified_gmt":"2016-11-21T18:38:15","slug":"ne-ladeiras-entrevista-invocacao-dos-mestres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2016\/11\/21\/ne-ladeiras-entrevista-invocacao-dos-mestres\/","title":{"rendered":"N\u00e9 Ladeiras &#8211; Entrevista &#8211; &#8220;Invoca\u00e7\u00e3o Dos Mestres&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Pop Rock<\/p>\n<p>2 Abril 1997<\/p>\n<p><strong>N\u00e9 Ladeiras canta Fausto com dedicat\u00f3ria ao lobo<\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 336;\ngoogle_ad_height = 280;\ngoogle_ad_format = \"336x280_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>INVOCA\u00c7\u00c3O DOS MESTRES<\/strong><\/p>\n<p><strong>Fausto. N\u00e9 Ladeiras. Dois representantes de uma esp\u00e9cie em vias de extin\u00e7\u00e3o, a dos criadores solit\u00e1rios que invocam os g\u00e9nios \u00e0 luz da lua. Em \u201cTodo Este C\u00e9u\u201d, a cantora de \u201cTraz-os-Montes\u201d escolheu preencher a totalidade da voz com as can\u00e7\u00f5es do navegante de \u201cPor Este Rio Acima\u201d, a quem chama \u201cmestre\u201d. Sob a \u00e9gide do lobo, \u201cum animal com c\u00f3digos muito especiais\u201d \u2013 \u201cponte entre a terra e o c\u00e9u\u201d.<\/strong><\/p>\n<p><center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=5242\" rel=\"attachment wp-att-5242\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/nl-199x300.jpg\" alt=\"nl\" width=\"199\" height=\"300\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-5242\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/nl-199x300.jpg 199w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/nl-300x453.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/nl-66x100.jpg 66w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2016\/11\/nl.jpg 530w\" sizes=\"auto, (max-width: 199px) 100vw, 199px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>N\u00e9 Ladeiras cresceu e aprendeu a ouvir a m\u00fasica de Fausto. Os anos passaram. Os astros actuaram. Ultrapassada a cordilheira da m\u00fasica tradicional de Tr\u00e1s-os-Montes, a cantora p\u00f4s, finalmente, em pr\u00e1tica, um projecto h\u00e1 muito acalentado: um \u00e1lbum de can\u00e7\u00f5es de Fausto. D\u00edvida \u2013 ou d\u00e1diva \u2013 interior, da disc\u00edpula ao mestre. Segue-se a cr\u00f3nica de uma rela\u00e7\u00e3o ardente. Entre lobos.<br \/>\nP\u00daBLICO \u2013 O lobo \u00e9 o tema central de \u201cTodo Este C\u00e9u\u201d. Por que raz\u00e3o o escolheu?<br \/>\nN\u00e9 Ladeiras \u2013 O lobo \u00e9 a ponte entre a terra e o c\u00e9u, entre o microcosmos e o macrocosmos, pela forma como invoca, atrav\u00e9s do uvio\u2026<br \/>\nP. \u2013 Al\u00e9m dessa conota\u00e7\u00e3o m\u00edstica, h\u00e1 tamb\u00e9m uma componente ecol\u00f3gica?<br \/>\nR. \u2013 Sim. Quis igualmente chamar a aten\u00e7\u00e3o para a exist\u00eancia do grupo \u201cLobo\u201d e para o Centro de Recupera\u00e7\u00e3o do Lobo Ib\u00e9rico. Quem pertencer ao primeiro pode, se quiser, adoptar lobos. N\u00e3o se trata de levar lobos para casa, claro, mas de dar uma contribui\u00e7\u00e3o para a manuten\u00e7\u00e3o deles naquele centro que \u00e9 o \u00fanico em Portugal e luta para que a esp\u00e9cie n\u00e3o se extinga de vez. Presentemente, pensa-se que existam apenas cerca de 200 lobos no nosso territ\u00f3rio.<br \/>\nP. \u2013 \u00c0 primeira vista, n\u00e3o se percebe muito bem qual a liga\u00e7\u00e3o entre o lobo e a obra de Fausto\u2026<br \/>\nR. \u2013 O lobo \u00e9 um animal com c\u00f3digos muito especiais, c\u00f3digos de honra, uma forma de vida em alcateia, faz as coisas sozinho. Penso que o trabalho do Fausto tem sido um trabalho bem solit\u00e1rio.<br \/>\nP. \u2013 Quando \u00e9 que decidiu fazer este \u00e1lbum?<br \/>\nR. \u2013 H\u00e1 muito tempo que andava na minha cabe\u00e7a. Mas achava que n\u00e3o tinha crescido o suficiente para interiorizar as m\u00fasicas do Fausto. Ouvi-o pela primeira vez em 1969, na r\u00e1dio, num tema chamado \u201cOh pastor porque choras\u201d. A letra falava de um pastor com cerejas nas orelhas, uma linguagem que, para uma crian\u00e7a, representava a abertura de todo um imagin\u00e1rio. E a m\u00fasica acompanhava esse imagin\u00e1rio. Comprei logo o \u201csingle\u201d, pedi \u00e0 minha m\u00e3e dinheiro. Mais tarde conheci Fausto, pessoalmente, na altura do filme \u201cAs Guerras do Mirandum\u201d, do Fernando Matos Silva, e em que eu fazia parte dos Trovante. Grav\u00e1mos dois temas juntos, \u201cOs mandamentos do vinho\u201d e \u201cEu casei com a bonita\u201d. A partir da\u00ed fui acompanhando sempre os concertos dele.<br \/>\nP. \u2013 Em \u201cTodo Este C\u00e9u\u201d pediu conselhos ao compositor? Ele fez-lhe sugest\u00f5es?<br \/>\nR. \u2013 Opini\u00f5es e conselhos. N\u00f3s, os disc\u00edpulos, pedimos sempre conselhos aos mestres. Durante dois anos encontr\u00e1mo-nos muitas vezes, sempre que eu vinha a Lisboa, para falar \u00fanica e exclusivamente deste trabalho. A primeira vez aconteceu no est\u00fadio, quando ele gravou comigo \u201cA linda pastorica\u201d. Nessa altura disse-lhe que estava cheia de vontade de fazer este trabalho. Ele olhou para mim, sem dizer nada. Passados uns tempos, voltei ao assunto e ele, a\u00ed, percebeu que eu estava a falar a s\u00e9rio. A obra do Fausto \u00e9 imensa e eu achava que podia fazer um CD duplo. Tinha trinta e tal temas. N\u00e3o queria deixar nada de fora. O Fausto fez-me ver que tinha que ser mais realista e que este meu entusiasmo pela obra dele teria que ser bem planeado. Acabei por fazer uma selec\u00e7\u00e3o, explicando-lhe as raz\u00f5es da escolha de cada tema. Descobri e revelei-lhe que a incid\u00eancia recaiu nos temas em que ele era mais m\u00edstico.<br \/>\nP. \u2013 Como definiria esse lado m\u00edstico de Fausto?<br \/>\nR. \u2013 Est\u00e1 presente em temas como \u201cDilu\u00eddos numa luz\u201d ou \u201cO despertar dos alquimistas\u201d, que por acaso n\u00e3o aparece neste \u00e1lbum, mas que passar\u00e1 a fazer parte do espect\u00e1culo. \u00c9 uma espiritualidade que entendo \u00e0 minha maneira. N\u00e3o sei como \u00e9 que ele comp\u00f5e, que fontes de inspira\u00e7\u00e3o \u00e9 que tem\u2026 Agora, aquilo que ele transmite aos outros, aquilo que ele me deu a mim, durante este anos todos, foi um encontro com o transcendente, com o que est\u00e1 \u201cpara al\u00e9m das cordilheiras\u201d, o que est\u00e1 \u201cPor Este Rio Acima\u201d. Apercebi-me de que n\u00e3o falava s\u00f3 da mat\u00e9ria. Comparando com outros grandes compositores, como o Zeca Afonso, o Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco ou o S\u00e9rgio Godinho, o Fausto foi o \u00fanico a falar de coisas das quais mais ningu\u00e9m falava. Coisas menos \u00f3bvias.<br \/>\nP. \u2013 \u00c9 dif\u00edcil dissociar, em Fausto, a composi\u00e7\u00e3o da interpreta\u00e7\u00e3o. Procurou imprimir um cunho pessoal \u00e0s can\u00e7\u00f5es ou, pelo contr\u00e1rio, seguir certas regras codificadas pelo compositor?<br \/>\nR. \u2013 O que me preocupou mesmo foi interiorizar cada palavra. Claro que \u00e9 a minha forma de cantar, mas talvez se note mais neste trabalho a minha proximidade de Fausto, sempre s\u00e3o 20 anos a ouvi-lo, \u00e9 \u00f3bvio que se apanha sempre coisas das pessoas de quem gostamos muito. \u00c0s vezes at\u00e9 se diz que as pessoas que se amam ficam parecidas. \u00c9 natural que tenha alguns requebros e acentua\u00e7\u00f5es semelhantes aos dele.<br \/>\nP. \u2013 De toda a discografia de Fausto, h\u00e1 algum disco com particular significado para si?<br \/>\nR. \u2013 Amo-os a todos. Toda a gente fala do \u201cPor Este Rio Acima\u201d como a sua obra m\u00e1xima, mas depois, e antes, h\u00e1 outros discos magistrais. A \u201cMadrugada dos Trapeiros\u201d, \u201cHist\u00f3ria de Viajeiros\u201d, mesmo o pr\u00f3prio \u201cBeco com Sa\u00edda\u201d e o primeiro, simplesmente \u201cFausto\u201d, de 1969. E \u201cPara Al\u00e9m das Cordilheiras\u201d, outro trabalho magistral, e \u201cA Preto e Branco\u201d, que foi recebido e tratado de forma um bocado injusta, onde ele apresenta duas coisas importantes, a forma de compor quando tinha 18 anos e os grandes poetas africanos. Da\u00ed eu ter escolhido \u201cFlagelados do vento Leste\u201d, de Ov\u00eddio Martins, para o meu disco. Estou ligada misticamente a \u00c1frica, pela minha pr\u00f3pria corrente de canbombl\u00e9. Mas a maior percentagem vem das \u201cCr\u00f3nicas da Terra Ardente\u201d. Vi-me l\u00e1 dentro, dentro daquela viagem. Senti-me como a ama que tinha o menino nos bra\u00e7os e via o barco a afundar-se. Entrei dentro daquele filme.<br \/>\nP. \u2013 No seu caso, como no de Fausto, a espiritualidade co-habita com uma postura de esquerda, a qual, por ess\u00eancia, \u00e9 materialista\u2026<br \/>\nR. \u2013 \u00c9 uma pergunta que tenho feito a mim mesma nos \u00faltimos 20 anos! Sou, de facto, uma pessoa de esquerda\u2026 As pessoas torcem o nariz e atiram-me com aquilo a que chamam \u201cas minhas crendices\u201d\u2026 A espiritualidade est\u00e1 intimamente ligada a uma vis\u00e3o de esquerda do mundo, porque tem a ver com a justi\u00e7a feita aqui. Para al\u00e9m de tudo o que possa acontecer do lado de l\u00e1, as coisas t\u00eam que acontecer aqui. Esta desigualdade social, esta viol\u00eancia, estas injusti\u00e7as cometidas pelos homens, ainda estou para ver uma atitude da direita em rela\u00e7\u00e3o a estes problemas. No plano espiritual, trabalhamos para isso. Preocupamo-nos em termos ecol\u00f3gicos, com as pessoas, com as desigualdades, n\u00e3o temos \u00e9, de facto, um discurso materialista. Apelamos \u00e0queles que reagem, que nos ajudam de v\u00e1rios pontos do Cosmos.<br \/>\nP. \u2013 Um partido pol\u00edtico fundado por si, seria fant\u00e1stico!<br \/>\nR. \u2013 N\u00e3o sei se teria jeito para isso. S\u00f3 tenho jeito mesmo \u00e9 para colaborar nos meus rituais, que s\u00e3o os Na\u00e7\u00e3o Nag\u00f4, o candombl\u00e9 origin\u00e1rio do Congo e de Angola. \u00c9 a\u00ed que apelo aos meus orix\u00e1s, que nos ajudem. O mundo est\u00e1 a escurecer.<br \/>\nP. \u2013 No meio dessa escurid\u00e3o crescente, ainda \u00e9 poss\u00edvel ver \u201cTodo Este C\u00e9u\u201d?<br \/>\nR. \u2013 Tem que haver olhos para atingir esses c\u00e9us e esses c\u00e9us s\u00f3 podem existir, s\u00f3 t\u00eam raz\u00e3o de existir, se os olhos estiverem abertos. Os olhos e o cora\u00e7\u00e3o. \u201cTodo Este C\u00e9u\u201d \u00e9 o t\u00edtulo de um tema das \u201cCr\u00f3nicas da Terra Ardente\u201d, do Fausto, e o meu firmamento. Foi como se ele me tivesse aberto uma janela e eu, pela primeira vez, tivesse visto um c\u00e9u.<br \/>\nP. \u2013 Este disco \u00e9 tamb\u00e9m um acto de gratid\u00e3o?<br \/>\nR. \u2013 Era uma coisa que tinha de acontecer neste tempo. N\u00e3o podia adiar mais nem poderia ser antecipado. O meu pr\u00f3ximo passo \u00e9 um disco sobre o paganismo e a religiosidade \u2013 onde existe um existe a outra \u2013 de tr\u00eas regi\u00f5es portuguesas: Beira Baixa, Beira Alta e Tr\u00e1s-os-Montes. Vou andar pelo menos um ano e meio no campo, a percorrer esses lugares. \u00c9 preciso viver, para se transportar e transmitir o que s\u00e3o a religiosidade e o paganismo, ir ao congresso de Vilar de Perdizes, \u00e0s prociss\u00f5es, falar com a mulher das ervas que faz as mezinhas, ouvir cantar\u2026<br \/>\nP. \u2013 Essa deambula\u00e7\u00e3o remete-nos de novo para o tema do in\u00edcio da conversa. A N\u00e9 \u00e9 uma loba solit\u00e1ria?<br \/>\nR. \u2013 Sou. Estou sempre a magicar. Sou uma pessoa de projectos. Gosto muito de trabalhar com outras pessoas, com outros m\u00fasicos, de ter gente \u00e0 minha volta, mas talvez seja o meu feitio, ter ideias que num grupo eram capazes de chocar ou de n\u00e3o ser bem entendidas.<\/p>\n<p><center><br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/BekAhyYnQ_A\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\n<\/center><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pop Rock 2 Abril 1997 N\u00e9 Ladeiras canta Fausto com dedicat\u00f3ria ao lobo INVOCA\u00c7\u00c3O DOS MESTRES Fausto. N\u00e9 Ladeiras. Dois representantes de uma esp\u00e9cie em vias de extin\u00e7\u00e3o, a dos criadores solit\u00e1rios que invocam os g\u00e9nios \u00e0 luz da lua. 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