{"id":4798,"date":"2016-06-18T08:43:22","date_gmt":"2016-06-18T15:43:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=4798"},"modified":"2016-06-18T08:43:22","modified_gmt":"2016-06-18T15:43:22","slug":"entrevista-carlos-do-carmo-carlos-zel-falar-fado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2016\/06\/18\/entrevista-carlos-do-carmo-carlos-zel-falar-fado\/","title":{"rendered":"Entrevista: Carlos Do Carmo + Carlos Zel &#8211; &#8220;Falar Fado&#8221;"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 234;\ngoogle_ad_height = 60;\ngoogle_ad_format = \"234x60_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>Pop Rock<\/p>\n<p>27 de Novembro de 1996<\/p>\n<p><strong>Falar Fado<\/p>\n<p>Carlos Zel e Carlos do Carmo regressam com novos disco de fado. Zel com \u201cFado\u201d, onde os antigos vendavais da voz d\u00e3o lugar ao intimismo, numa mudan\u00e7a de estilo algo inesperada. Quanto ao autor de \u201cUm Homem na Cidade\u201d, \u201cMargens\u201d interrompe um per\u00edodo de seis anos de paragem discogr\u00e1fica, trazendo de volta a alian\u00e7a de Carlos do Carmo com Lisboa e a l\u00edngua portuguesa. Nas entrevistas que ambos concederam ao P\u00daBLICO, para al\u00e9m do que os separa, mostraram ter algumas opini\u00f5es e facetas em comum. Garantem que o cora\u00e7\u00e3o \u00e9 a fonte onde lhes nasce o fado. Demonstram o m\u00e1ximo desvelo no modo como lidam com a palavra dos poetas. Franzem o nariz ao estado actual das casas de fado em Portugal. Amam o fado \u00e0 maneira antiga. \u00c0 sua maneira. Sofrendo-o para melhor o cantar.<\/p>\n<p>\u201cAs casas de fado est\u00e3o subvertidas\u201d<\/strong><\/p>\n<p><center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=4799\" rel=\"attachment wp-att-4799\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/cc.jpg\" alt=\"cc\" width=\"260\" height=\"209\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4799\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/cc.jpg 260w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/cc-100x80.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 260px) 100vw, 260px\" \/><\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=4800\" rel=\"attachment wp-att-4800\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/cz-217x300.jpg\" alt=\"cz\" width=\"217\" height=\"300\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-4800\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/cz-217x300.jpg 217w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/cz-72x100.jpg 72w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/cz.jpg 285w\" sizes=\"auto, (max-width: 217px) 100vw, 217px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>H\u00e1 quem cante o fado com a cabe\u00e7a, com a garganta, com o diafragma\u2026 Carlos Zel canta com o cora\u00e7\u00e3o. Um cora\u00e7\u00e3o que no seu novo \u00e1lbum, intitulado simplesmente \u201cFado\u201d, aprendeu a moldar-se a uma voz mais atenta a si pr\u00f3pria, com outro espa\u00e7o para a escuta e o sentimento. Mas \u201c\u00e9 preciso sofrer-se muito\u201d para l\u00e1 chegar. Onde at\u00e9 uma tempestade pode ser fado.<\/p>\n<p>P\u00daBLICO \u2013 Em \u201cFado\u201d mudou a sua forma de cantar, dando outra forma \u00e0 emo\u00e7\u00e3o, um tom mais intimista. A que se deve esta diferen\u00e7a?<br \/>\nCARLOS ZEL \u2013 \u00c9 uma mudan\u00e7a que se deve, em grande parte, ao produtor, M\u00e1rio Martins. Ele esteve durante os \u00faltimos 30 anos atento \u00e0 minha maneira de cantar, gostava, mas achava-a um bocado agreste. Neste disco aconselhou-me a ser mais melodioso e menos incisivo.<br \/>\nP. \u2013 Sentiu isso como um sacrif\u00edcio?<br \/>\nR. \u2013 N\u00e3o, como um desafio. Confesso que no princ\u00edpio tive uma certa relut\u00e2ncia, mas, depois de gravar o primeiro tema, de ver o efeito, fiquei convencido, e fiz todos os outros temas seguindo a mesma t\u00e9cnica.<br \/>\nP. \u2013 Porqu\u00ea relut\u00e2ncia?<br \/>\nR. \u2013 Porque canto com o cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o canto com a garganta. H\u00e1 v\u00e1rias maneiras de se cantar o fado: h\u00e1 quem cante com a cabe\u00e7a, com a garganta ou com o diafragma. Eu canto com o cora\u00e7\u00e3o, ou seja, dou muita import\u00e2ncia \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o dos poemas, ponho muita \u00eanfase neles. E tenho o m\u00e1ximo cuidado com a divis\u00e3o das ora\u00e7\u00f5es, com as t\u00f3nicas, tudo isso\u2026 Depois, no produto final, transforma-se numa coisa com muita for\u00e7a. \u00c9 \u00f3bvio, se eu cantar uma frase do estilo \u201cvou-te matar!\u201d, se calhar se o fizer de uma maneira leve, sem \u00eanfase, n\u00e3o tem peso. Mas, por outro lado, se estiver a cantar uma frase de amor, se a disser com essa \u00eanfase, estou a tirar-lhe beleza, o que n\u00e3o acontecer\u00e1 se lhe der mais carinho.<br \/>\nP. \u2013 Quer dizer que, ao vivo e em est\u00fadio, canta de duas maneiras diferentes?<br \/>\nR. \u2013 Curiosamente, ao vivo tamb\u00e9m j\u00e1 estou a tentar imprimir a mesma mudan\u00e7a. Justamente para n\u00e3o haver essa diferen\u00e7a.<br \/>\nP. \u2013 Essa mudan\u00e7a ter\u00e1 a ver com uma tend\u00eancia geral para tornar o fado mais sofisticado, mais dirigido a um tipo de p\u00fablico que n\u00e3o tinha antes?<br \/>\nR. N\u00e3o\u2026 isso, em parte, \u00e9 verdade, mas repare numa coisa: eu canto h\u00e1 30 anos e, j\u00e1 na altura em que comecei, havia grandes discuss\u00f5es sobre as novas incurs\u00f5es no fado, novos estilos. E mais, no tempo da sra. dona Am\u00e1lia, quando ela come\u00e7ou a cantar, sobretudo os temas do Val\u00e9rio, foi muito atacada porque aquilo foi visto como uma grande machadada no fado, um esc\u00e2ndalo. E, hoje em dia, fados como \u201cAi Mouraria\u201d ou \u201cFoi Deus\u201d s\u00e3o considerados cl\u00e1ssicos\u2026 Vai acontecer o mesmo daqui a alguns anos com alguns fados que est\u00e3o a ser cantados agora de uma nova maneira.<br \/>\nTamb\u00e9m \u00e9 preciso notar que agora existe outro tipo de condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas. Lembro-me de que, no primeiro disco que gravei, espetara, comigo dentro de um est\u00fadio em Pa\u00e7o de Arcos, com quatro m\u00fasicos, e fiz um EP com quatro temas em tr\u00eas horas! Isto, hoje em dia, \u00e9 imposs\u00edvel, h\u00e1 muito mais cuidado, at\u00e9 porque o p\u00fablico \u00e9 menos ignorante, menos inculto.<br \/>\nP. \u2013 As casas de fado ainda desempenham alguma fun\u00e7\u00e3o no sentido de levar as pessoas a ouvir o fado?<br \/>\nR. \u2013 As casas de fado est\u00e3o hoje subvertidas. Voc\u00ea vai a uma e v\u00ea que os grandes nomes do fado n\u00e3o est\u00e3o l\u00e1. Exactamente como no teatro de revista, em que as figuras de cartaz actuais n\u00e3o t\u00eam nada a ver com as de dez anos atr\u00e1s. As de agora est\u00e3o na televis\u00e3o a fazer concursos ou a apresentar programas. No fado, hoje em dia ganha-se dez, 15 contos, por dia, numa casa de fado. A televis\u00e3o paga obviamente mais. Antigamente, havia colegas meus que eram fadistas das nove e meia \u00e0s tr\u00eas da manh\u00e3 e depois, entre as dez da manh\u00e3 e as seis da tarde, eram vendedores ou empregados de escrit\u00f3rio\u2026 Era dif\u00edcil. Hoje em dia, o elenco das casas de fado \u00e9, regra geral, composto por pessoas j\u00e1 com os seus 50 anos, que se acomodaram \u00e0quele estilo de vida ou porque n\u00e3o tiveram outras oportunidades.<br \/>\nTemos ainda os donos de algumas casas de fado que tamb\u00e9m s\u00e3o fadistas, como a sra. dona Argentina Santos ou a sra. dona Fernanda Maria. J\u00e1 estive com a sra. dona Argentina no estrangeiro, a ouvi-la telefonar para a sua Parreirinha de Alfama a perguntar se os bifes est\u00e3o a sair bem ou se o cabrito foi bem assado.<br \/>\nP. \u2013 No seu novo disco, um fado como \u201cAnda o fado noutras bocas\u201d, de Artur Ribeiro, ganha uma estranha actualidade. Quis dar algum recado?<br \/>\nR. \u2013 \u00c9 um fado dos anos 50. Mas \u00e9 assim, n\u00e3o tenho nada contra os novos, tamb\u00e9m j\u00e1 fui novo, e quando se \u00e9 novo quer-se, acima de tudo, singrar, seja qual for a profiss\u00e3o. Mas uma coisa \u00e9 as pessoas serem arrojadas e outra \u00e9 desvirtuarem o fado. Entendo que h\u00e1 por a\u00ed grandes valores, estou a referir-me, por exemplo, ao Miguel Capucho, \u00e0 Mafalda Arnauth, \u00e0 Maria Ana Bobone, ao Rodrigo Costa F\u00e9lix, miudagem nova com vozes espantosas\u2026 E, em termos instrumentais, guitarristas como o Ricardo Rocha, o Paulo Ferreira, o Carlos Manuel, o Paulo Jorge, que anda a acompanhar a Dulce Pontes, isto s\u00f3 para citar alguns. Depois h\u00e1 o campo do Paulo Bragan\u00e7a e da M\u00edsia\u2026 os desvios\u2026<br \/>\nNo caso do Paulo Bragan\u00e7a, tenho um bocado de pena de que ele se valha de alguns subterf\u00fagios para fazer valer a voz fabulosa que tem\u2026 \u00c9 que, para se cantar, n\u00e3o \u00e9 preciso os homens usarem xaile, barretes ou andarem descal\u00e7os\u2026 Quanto \u00e0 M\u00edsia, n\u00e3o \u00e9 o que se pode chamar propriamente uma fadista, mas sim uma boa cantora de fado\u2026<br \/>\nP. \u2013 Al\u00e9m da voz, para se cantar bem o fado, n\u00e3o \u00e9 preciso uma viv\u00eancia interior que s\u00f3 a idade e a experi\u00eancia conferem?<br \/>\nR. \u2013 Claro que sim. Lembro-me de uma ocasi\u00e3o em que a sra. dona Am\u00e1lia foi entrevistada, em directo, pela RDP e lhe perguntaram se ela gostava de me ouvir cantar. Ela saiu-se airosamente respondendo que agora gostava, mas quando eu era mi\u00fado n\u00e3o. \u00c9 preciso sofrer-se muito. Sendo-se novo pode ter-se jeito, uma boa voz e cantar de uma maneira airosa\u2026 Agora, cantar com o peso do pr\u00f3prio fado, \u00e9 preciso uma certa tarimba\u2026 A dona Am\u00e1lia come\u00e7ou a cantar j\u00e1 com 20 e poucos anos.<br \/>\nP. \u2013 Um dos fados do novo disco chama-se \u201c29 de Novembro de 1995\u201d. Que teve de especial esta data?<br \/>\nR. \u2013 Nesse dia 29 de Novembro, estava em casa, chovia muito, uma tempestade desgra\u00e7ada, as coisas n\u00e3o me estavam a correr como queria. Agarrei num papel e sa\u00edram os versos desse fado; mostrei-os ao M\u00e1rio Martins, que os achou bonitos. Ficou a data como t\u00edtulo, em vez de lhe chamar as coisas do costume, tipo \u201cNostalgia\u201d\u2026<br \/>\nP. \u2013 O fado anterior \u00e9 de Manuel de Almeida, \u201cGera\u00e7\u00e3o anos 60\u201d, a sua\u2026<br \/>\nR. \u2013 \u00c9 um fado que me \u00e9 particularmente querido porque me foi dado pelo pr\u00f3prio Manuel de Almeida, pouco tempo antes de ele ter morrido \u2013 julgo que foi das \u00faltimas coisas que ele escreveu. \u00c9 um fado que fala dessa d\u00e9cada, de um dia que ele passou em Vila Franca, onde era frequente ir, \u00e0s esperas de gado.<br \/>\nP. \u2013 \u201cFado dos sonhos\u201d, de Frederico de Brito, \u00e9 o meu fado preferido deste disco. O que tem a dizer sobre ele?<br \/>\nR. \u2013 Considero-o tamb\u00e9m, em termos estruturais, o mais bonito de todos. Tive a preocupa\u00e7\u00e3o de ir buscar a primeira letra que se fez para esse fado, como a cantava penso que o Jos\u00e9 Viana, n\u00e3o tenho a certeza. Quando o gravei, emocionei-me bastante.<br \/>\nP. \u2013 \u00c9 f\u00e1cil emocionar-se num est\u00fadio?<br \/>\nR. \u2013 \u00c9&#8230; no caso deste disco, pelo menos, foi. O M\u00e1rio Martins tem uma maneira de trabalhar diferente da habitual. Deixa-nos cantar at\u00e9 a fim, mesmo que nos enganemos, para n\u00e3o nos sentirmos frustrados; s\u00f3 no fim \u00e9 que ele nos chama \u00e0 \u201cr\u00e9gie\u201d e diz onde \u00e9 que nos engan\u00e1mos. Se ali desafin\u00e1mos um bocadinho\u2026 para depois corrigirmos. Assim, a grava\u00e7\u00e3o n\u00e3o se torna ma\u00e7ante nem frustrante. Ainda se torna mais f\u00e1cil para mim porque canto sempre de olhos fechados. Assim que as guitarras come\u00e7am a tocar, a \u00fanica coisa que pe\u00e7o no est\u00fadio \u00e9 para apagarem as luzes o mais poss\u00edvel, de maneira a dar um ambiente mais \u00edntimo. Depois, fecho os olhos e esque\u00e7o-me de que estou no est\u00fadio. \u00c0s vezes imagino que estou noutro s\u00edtio, com imensas pessoas e amigos.<\/p>\n<p>\u201cOlhar para a minha cidade, a beber tudo\u201d<\/p>\n<p>\u201cMargens\u201d \u00e9 o t\u00edtulo do novo \u00e1lbum de Carlos do Carmo. Sete anos depois de \u201cQue se Fez Homem de Cantar\u201d e da grave queda de palco que o obrigou a parar, o fadista regressa com a m\u00fasica de Jos\u00e9 Lu\u00eds Tinoco e as palavras de Ant\u00f3nio Lobo Antunes. Para cantar Lisboa, o Tejo e a noite, margens an\u00edmicas da voz mais clara do fado nacional. Agora com uma serenidade conquistada.<\/p>\n<p>P\u00daBLICO \u2013 N\u00e3o procurou que \u201cMargens\u201d funcionasse, um pouco, como catarse para o acidente que o vitimou?<br \/>\nCARLOS DO CARMO \u2013 Sinceramente, n\u00e3o. Se reparar, tanto os textos como a ambi\u00eancia espelham antes uma maturidade, uma vida vivida, mas, simultaneamente, uma grande paz interior. Da pessoa que sabe que esteve a morrer, que conversou com a morte e que sabe que nada ser\u00e1 como dantes. Mas n\u00e3o fiquei de mal com a vida.<br \/>\nP. \u2013 Nada mudou, ent\u00e3o?<br \/>\nR. \u2013 Era muito radical, em v\u00e1rios aspectos. Por exemplo, um dos defeitos que tinha era ser irasc\u00edvel, e isso modificou-se. E passei a prestar mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0s pequenas coisas que d\u00e3o a pequena felicidade. Distraio-me menos. Ainda h\u00e1 pouco fui fazer uma sess\u00e3o de fotografias para uma revista. De repente, o rapaz teve necessidade de ir ao carro buscar um \u201cflash\u201d para a m\u00e1quina e eu fiquei pacificamente, no mais profundo sil\u00eancio interior, a olhar para a minha cidade, a beber tudo.<br \/>\nP. \u2013 Essa observa\u00e7\u00e3o ou essa rela\u00e7\u00e3o com Lisboa \u00e9 marcante ao longo da tem\u00e1tica do \u00e1lbum. Como tem acompanhado as transforma\u00e7\u00f5es da cidade nos \u00faltimos anos?<br \/>\nR. \u2013 H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o c\u00famplice. E uma vis\u00e3o rom\u00e2ntica. Procuro acompanhar e perceber o tempo, as transforma\u00e7\u00f5es, em si, n\u00e3o me perturbam. Mas \u00e9 \u00f3bvio que Lisboa, como outras cidades, se descaracterizou com a transfer\u00eancia de popula\u00e7\u00e3o do campo para os centros urbanos. Isto aconteceu porque, uma vez mais, nada foi previsto nem planificado com seriedade e rigor. A carro\u00e7a foi mais uma vez posta \u00e0 frente dos bois. Foi mais um erro pol\u00edtico.<br \/>\nMas o bairro onde vivi at\u00e9 me casar, o Bairro da Bica, est\u00e1 intacto \u2013 \u00e9 um bairro que pulsa ao ritmo do elevador. H\u00e1 ainda o esp\u00edrito do raminho de salsa, do guardar a crian\u00e7a porque os pais chegam tarde. \u00c9 uma certa resist\u00eancia do lado humano. E trabalhei no Bairro Alto at\u00e9 aos 40 anos de idade. N\u00e3o estou a dizer que o Bairro Alto est\u00e1 intacto, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o Bairro Alto das casas de fado, dos jornais e das casas de prostitui\u00e7\u00e3o. \u00c9 outro Bairro Alto, com a sua \u201cmovida\u201d, embora a sua alma permane\u00e7a. A minha Lisboa \u00e9 a Lisboa do Tejo, das gaivotas, da luz\u2026<br \/>\nP. \u2013 Esse apelo da luz \u00e9 tamb\u00e9m o apelo da lua. Contabilizei cinco temas em que a lua est\u00e1 presente. E a noite\u2026<br \/>\nR. \u2013 Sou um bo\u00e9mio, completamente! N\u00e3o quer dizer que me v\u00e3o ver numa discoteca, com todos aqueles decib\u00e9is!&#8230; mas prezo muito o esp\u00edrito de tert\u00falia e os velhos amigos. Encontramo-nos em pequenos bares, silenciosos ou com uma pequena m\u00fasica de fundo, para desenvolver o esp\u00edrito de solidariedade. Mas tamb\u00e9m gosto de ficar em casa, quando tudo acalma, no meu escrit\u00f3rio, a ouvir m\u00fasica na r\u00e1dio e a ver se aparece algum tipo inteligente a dizer coisas interessantes. Sou um homem que n\u00e3o existe at\u00e9 ao meio-dia, s\u00f3 uma emerg\u00eancia me faz levantar de manh\u00e3. No outro dia fiquei todo contente porque me disseram que o Caetano Veloso se levanta \u00e0s sete da tarde; e o meu velho e querido Alfredo Marceneiro levantava-se \u00e0s oito da noite!<br \/>\nP. \u2013 Essa aten\u00e7\u00e3o ao pormenor, \u00e0 luz e ao som, nunca o empurrou para tentar compor?<br \/>\nR. Devo dizer que gosto muito de assobiar. Este acto de assobiar tem muito a ver com Lisboa, com uma tradi\u00e7\u00e3o de bairro lisboeta, de se assobiar. Eu raramente canto fora do palco, mas assobio muito. A minha mulher costuma estar atenta e, de vez em quando, \u00e9 como se estivesse a compor um fado. \u201cEu isso nunca ouvi, Carlos!\u201d, diz-me ela \u00e0s vezes, \u201cdevias gravar isso!\u201d Mas gravar o qu\u00ea, se quando voltar a gravar j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa porque n\u00e3o fixei?<br \/>\nP. \u2013 Voltando a Lisboa, ela est\u00e1 presente por inteiro nos poemas de Lobo Antunes. Deu-lhe algumas indica\u00e7\u00f5es, como \u00e9 que trabalharam juntos?<br \/>\nR. \u2013 A\u00ed, n\u00e3o gostaria de me sobrepor ao Ant\u00f3nio. Bom, como se sabe, ele \u00e9 psiquiatra: n\u00e3o \u00e9 uma pessoa que fale muito, \u00e9 uma pessoa que pensa muito. Ele gosta muito de me ouvir cantar, ele e a fam\u00edlia, quando canto nalgum lado, vai a fam\u00edlia em bloco para me ouvir. Isto sei, da boca dele.<br \/>\nP. \u2013 \u00c9 como se ele tivesse entrado na sua pele?<br \/>\nEu n\u00e3o lhe fiz essa pergunta\u2026 mas j\u00e1 nos conhecemos h\u00e1 muitos anos, ainda o Ant\u00f3nio n\u00e3o era o escritor famoso que \u00e9 agora. At\u00e9 agora, s\u00f3 tinha sido cantado pelo Vitorino, mas s\u00e3o casos diferentes: o Vitorino, que tamb\u00e9m \u00e9 amigo dele, pediu-lhe poemas para musicar; no meu caso foi ao contr\u00e1rio, o Ant\u00f3nio teve que fazer o m ais dif\u00edcil, vir at\u00e9 \u00e0 m\u00fasica do Jos\u00e9 Lu\u00eds Tinoco, que j\u00e1 estava composta. Foram ser\u00f5es comoventes. Voltei a ver uma coisa que j\u00e1 n\u00e3o via h\u00e1 muitos anos, como o Ary fazia, que era contar as s\u00edlabas pelos n\u00f3s dos dedos. Ver algu\u00e9m encaixar as palavras na m\u00fasica. O acto de criar, ou de tentar criar, pressup\u00f5e uma grande cumplicidade entre as pessoas que t\u00eam algo para dar entre si.<br \/>\nP. \u2013 \u201cMargens\u201d \u00e9 um disco de fados, mas tamb\u00e9m de can\u00e7\u00e3o. Que rela\u00e7\u00e3o tem actualmente com o fado?<br \/>\nR. \u2013 Excelente. Nos \u00faltimos cinco anos, nos recitais que tenho feito, n\u00e3o exagero se disser que canto acima de 50 por cento de fado cl\u00e1ssico.<br \/>\nP. \u2013 Mas deixou de cantar nas casas de fado\u2026<br \/>\nR. \u2013 Isso \u00e9 f\u00e1cil de explicar: os meus pais fundaram uma casa de fado em 1947, o meu pai morreu em 62 e eu tomei o lugar dele e, at\u00e9 1980, at\u00e9 aos 40 anos de idade, trabalhei quase 20 anos, dia e noite, numa casa de fados. Uma rela\u00e7\u00e3o com esta dura\u00e7\u00e3o pode tornar-se um pouco traum\u00e1tica, \u00e9 preciso n\u00e3o nos saturarmos do belo. Mas ainda continuo a ir, uma ou duas vezes por ano, s\u00f3 para ouvir a Argentina Santos \u00e0 Parrerinha de Alfama. Como quem vai beber a \u00e1gua da fonte. Mas n\u00e3o consigo estar sentado numa casa de fados e ficar neutro; pela for\u00e7a do antigo h\u00e1bito, estou atento a todos os pormenores, aos erros que s\u00e3o cometidos\u2026<br \/>\nP. \u2013 \u00c9 considerado um inovador no fado, pelo estilo de cantar que criou. Continua a preocupar-se com a renova\u00e7\u00e3o desse seu estilo? Ou, pondo a quest\u00e3o noutros termos, h\u00e1 inova\u00e7\u00e3o em \u201cMargens\u201d, para al\u00e9m da tal diferen\u00e7a de registo interior?<br \/>\nR. \u2013 Um termo lind\u00edssimo, \u201cregisto interior\u201d\u2026 Sou uma pessoa que gosta de ouvir, sou capaz de ir ouvir um concerto de m\u00fasica de c\u00e2mara ou de me meter no Hot Clube com os meus filhos. Eu n\u00e3o vivo em \u201cghetto\u201d \u2013 \u00e9 que h\u00e1 esse perigo nos fadistas, n\u00e3o estarem abertos \u00e0 vida. Continuo, claro, a gostar muito de cantar a l\u00edngua portuguesa (voc\u00ea deve sentir isso neste disco), temos \u00e9 que nos defender nas zonas dif\u00edceis, nos sibilantes, nas vogais fechadas. Sem querer estar a auto-elogiar-me, n\u00e3o h\u00e1 uma \u00fanica palavra deste disco que n\u00e3o se entenda. O Saramago escreveu h\u00e1 uns anos, num disco meu, que para mim \u201ca m\u00fasica \u00e9 uma sonda das palavras\u201d. Ele percebeu.<br \/>\nOutro exemplo: sou um artista que n\u00e3o tem problemas nenhuns no Brasil. Canto no Brasil e \u00e9 costume as pessoas irem ter comigo ao camarim para venerar a l\u00edngua e os poetas portugueses, Bocage, Cam\u00f5es, Pessoa, Ary, Saramago. Quando falo com os meus companheiros de profiss\u00e3o que, muito entusiasmados, dizem que v\u00e3o ao Brasil e depois, na maioria dos casos, v\u00eam de l\u00e1 frustrados, eu aviso-os sempre: \u201cAten\u00e7\u00e3o \u00e0 dic\u00e7\u00e3o!\u201d N\u00e3o \u00e9 por acaso que se pede muitas vezes, no Brasil, para se legendar um filme portugu\u00eas.<br \/>\nP. \u2013 Pode dar um exemplo da maneira como trabalhou, em \u201cMargens\u201d, essa sua rela\u00e7\u00e3o com a palavra po\u00e9tica?<br \/>\nR. \u2013 H\u00e1 contrastes. Gravei o \u201cSoneto a Ces\u00e1rio\u201d \u00e0 primeira: j\u00e1 com a base musical gravada, enfiei os auscultadores e interiorizei uma situa\u00e7\u00e3o \u2013 \u201csentei-me\u201d num banco de jardim e pedi para desligarem as luzes do est\u00fadio. Servi de ponte, pus o Dinis Machado a falar com o Ces\u00e1rio Verde. Foi uma esp\u00e9cie de interioriza\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica da rela\u00e7\u00e3o de um escritor, o Dinis Machado, com o poeta. Como o Dinis Machado n\u00e3o canta, cantei eu por ele.<\/p>\n<p><center><br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"420\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-CgwpANBv-o\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\n<\/center><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pop Rock 27 de Novembro de 1996 Falar Fado Carlos Zel e Carlos do Carmo regressam com novos disco de fado. Zel com \u201cFado\u201d, onde os antigos vendavais da voz d\u00e3o lugar ao intimismo, numa mudan\u00e7a de estilo algo inesperada. 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