{"id":4338,"date":"2016-01-14T11:45:54","date_gmt":"2016-01-14T18:45:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=4338"},"modified":"2016-01-14T11:45:54","modified_gmt":"2016-01-14T18:45:54","slug":"um-debate-sobre-musica-portuguesa-o-futuro-ja-artigo-entrevista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2016\/01\/14\/um-debate-sobre-musica-portuguesa-o-futuro-ja-artigo-entrevista\/","title":{"rendered":"Um Debate Sobre M\u00fasica Portuguesa &#8211; &#8220;O Futuro, J\u00e1!&#8221; &#8211; Artigo + Entrevista"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 300;\ngoogle_ad_height = 250;\ngoogle_ad_format = \"300x250_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>Pop Rock<\/p>\n<p>8 de Novembro de 1995<\/p>\n<p><strong>Um debate sobre m\u00fasica portuguesa<\/p>\n<p>O FUTURO, J\u00c1!<\/strong><\/p>\n<p><center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=4339\" rel=\"attachment wp-att-4339\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/mpp-203x300.jpg\" alt=\"mpp\" width=\"203\" height=\"300\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-4339\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/mpp-203x300.jpg 203w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/mpp-768x1133.jpg 768w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/mpp-694x1024.jpg 694w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/mpp-300x442.jpg 300w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/mpp-68x100.jpg 68w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2016\/01\/mpp.jpg 1106w\" sizes=\"auto, (max-width: 203px) 100vw, 203px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>H\u00e1 20 anos havia uma bandeira e um exemplo a seguir, o de Giacometti, que recuperou para um pa\u00eds o rosto perdido da sua identidade. Hoje, h\u00e1 trabalho feito e um futuro que come\u00e7a a ser trilhado com seguran\u00e7a. Foi a obra pioneira do music\u00f3logo corso, nos anos 60, e dos grupos de recolha como o GAC, Almanaque, Brigada Victor Jara ou Ra\u00edzes, na d\u00e9cada seguinte, que permitiu avan\u00e7ar at\u00e9 aos resultados que hoje se conhecem, materializados em discos como \u201cTerreiro das Bruxas\u201d, dos Vai de Roda, \u201cTodos os Dias\u201d, de Am\u00e9lia Muge, \u201cTraz os Montes\u201d, de N\u00e9 Ladeiras, \u201cDan\u00e7as e Folias\u201d, da Brigada, e \u201cInvas\u00f5es B\u00e1rbaras\u201d dos Gaiteiros de Lisboa. Discos capazes de romper com o medo de avan\u00e7ar e de situar a \u201cfolk\u201d nacional ao lado dos melhores da Europa. Um presente risonho para a m\u00fasica portuguesa de raiz tradicional que promete prolongar-se pelos tempos mais pr\u00f3ximos, nos \u00e1lbuns, j\u00e1 anunciados, dos Realejo, Cramol, O \u00d3 que Som Tem, bem como nos novos dos Vai de Roda e de Am\u00e9lia Muge. O P\u00daBLICO decidiu convidar alguns dos protagonistas desta nova idade de ouro da MPP para fazerem o ponto da situa\u00e7\u00e3o. Acorreram \u00e0 chamada Am\u00e9lia Muge, Jos\u00e9 Martins (companheiro musical de Am\u00e9lia e O \u00d3 que Som Tem), Tent\u00fagal (Vai de Roda), Jos\u00e9 Manuel David (Almanaque e Gaiteiros de Lisboa) e Carlos Guerreiro (Gaiteiros de Lisboa). Disparou-se o tiro de partida com a mem\u00f3ria de Giacometti para se chegar \u00e0 conclus\u00e3o de que, se h\u00e1 j\u00e1 alguma obra feita, outra tanta est\u00e1 ainda por fazer. Pelo meio desfizeram-se algumas ilus\u00f5es e lan\u00e7aram-se alguns ataques. Melhor ainda: preconizaram-se solu\u00e7\u00f5es. Bom sinal: num cen\u00e1rio em que at\u00e9 h\u00e1 bem pouco a estagna\u00e7\u00e3o predominava, separaram-se as \u00e1guas, j\u00e1 h\u00e1 os bons e os maus. Sinal de que a tradi\u00e7\u00e3o est\u00e1 viva e de armas na m\u00e3o<\/p>\n<p>\u201cDIF\u00cdCIL CANTAR POR CIMA DE UMA DEBULHADORA MEC\u00c2NICA\u201d<\/p>\n<p>Escolhidos alguns t\u00f3picos, seleccion\u00e1mos, de uma longa conversa, as declara\u00e7\u00f5es que nos pareceram mais significativas de cada um dos cinco m\u00fasico presentes. A ideia \u00e9 relan\u00e7ar a discuss\u00e3o sobre o passado, o presente e o futuro da m\u00fasica tradicional, ou de raiz tradicional, portuguesa. Com a figura exemplar de Michel Giacometti a servir de inspira\u00e7\u00e3o e pano de fundo.<br \/>\n\tP. \u2013 O esp\u00f3lio de Giacometti. H\u00e1 ainda trabalho de arqueologia por fazer ou ser\u00e1 tempo de trabalhar esse mesmo esp\u00f3lio, revitaliz\u00e1-lo, manipul\u00e1-lo como ponto de partida para experimenta\u00e7\u00f5es sobre os materiais tradicionais?<br \/>\n\tCarlos Guerreiro \u2013 Quando chega a altura de trabalhar a m\u00fasica tradicional portuguesa \u00e9 ao Giacometti que as pessoas v\u00e3o. O seu trabalho n\u00e3o s\u00f3 e importante por aquilo que conseguiu gravar e recolher, como pelas pistas que forneceu. Houve muita gente, como o Jos\u00e9 Manuel David ou o Jos\u00e9 Alberto Sardinha, dos Almanaque, ou eu pr\u00f3prio, que agarrava num gravador manhoso e ia por a\u00ed fora s\u00f3 pelo prazer de ouvir as pessoas cantar. Descobrimos que havia outras vias, coisas que ainda estavam vivas, formas estranhas de cantar a m\u00fasica portuguesa, n\u00e3o polu\u00eddas.<br \/>\n\tJos\u00e9 Manuel David \u2013 Foi tamb\u00e9m um escape para os m\u00fasicos urbanos, que, de repente, descobriram que havia m\u00fasica portuguesa diferente nas diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds. Hoje em dia, como as coisas est\u00e3o, para fazer recolhas \u00e9 preciso ter alguma forma\u00e7\u00e3o, n\u00e3o basta ter um gravador, quando se sabe que h\u00e1 music\u00f3logos que trabalham em \u00c1frica e aprendem as l\u00ednguas nativas. N\u00f3s nunca fizemos bem isso, sab\u00edamos que o Giacometti tinha estado nos s\u00edtios e \u00edamos com a nossa boa vontade e ingenuidade ouvir o que as pessoas tinham para nos mostrar. Tudo isto implicou uma mudan\u00e7a, em termos sociais, em pessoas como n\u00f3s, que come\u00e7aram a ouvir m\u00fasica com os Beatles.<br \/>\n\tP. \u2013 Hoje o trabalho de recolha faz tanto sentido como duas d\u00e9cadas atr\u00e1s?<br \/>\n\tJos\u00e9 Manuel David \u2013 A m\u00fasica tradicional n\u00e3o \u00e9 um objecto est\u00e1tico. Como tal, evolui, embora dentro de determinados par\u00e2metros. Sociais e musicais. Por exemplo, um tocador de cavaquinho que toca um instrumento que, se calhar, nem afina bem, mas encontra um construtor que constr\u00f3i melhor, melhorando desta forma o som. O que Giacometti e outros como ele fizeram foi um corte sincr\u00f3nico na realidade, na tentativa de descobrir comos as coisas estavam num determinado momento. Hoje j\u00e1 n\u00e3o se canta nem toca da mesma forma que no tempo de Giacometti. Estou a lembra-me, por exemplo, da grava\u00e7\u00f5es da Ti Chitas, feitas pelo Giacometti, em que ela canta de uma maneira, nas mais antigas, enquanto em grava\u00e7\u00f5es mais modernas j\u00e1 canta de outra.<br \/>\n\tAm\u00e9lia Muge \u2013 Essa mudan\u00e7a tem que ver com a m\u00fasica, com as pessoas e connosco pr\u00f3prios. Aquilo que o Giacometti poder\u00e1 ter representado para n\u00f3s h\u00e1 dez anos se calhar j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que representa hoje. A minha primeira liga\u00e7\u00e3o foi com as m\u00fasicas em si, s\u00f3 muito mais tarde \u00e9 que consciencializei o facto de haver um senhor por tr\u00e1s que fizera as recolhas. Era a necessidade de perceber onde \u00e9 eu a nossa m\u00fasica se insere em rela\u00e7\u00e3o a um arco mediterr\u00e2nico, um arco c\u00e9ltico, ou mesmo um arco \u00cdndico.<br \/>\n\tTent\u00fagal \u2013 Como eu dizia h\u00e1 uns tempos, h\u00e1 que retirar as aspas ao folclore. Lembro-me do tempo do \u201cservi\u00e7o c\u00edvico\u201d no qual o trabalho de recolhas foi feito pelo Giacometti. Uma semente que foi deitada e hoje poderia ter alguma continua\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o esp\u00f3lio de Giacometti, falta deitar c\u00e1 para fora o esp\u00f3lio do Virg\u00edlio Pereira. E onde \u00e9 que est\u00e1 o esp\u00f3lio do Armando Le\u00e7a? N\u00e3o se sabe! Coisas do Artur Santos, porque \u00e9 que n\u00e3o se reeditam? E o material de Ernesto Veiga de Oliveira, fechado no Museu de Etnografia?<br \/>\n\tP. \u2013 As recolhas de Giacometti libertaram os m\u00fasicos de uma gera\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a vossa, da responsabilidade de fazerem eles pr\u00f3prio esse trabalho, de manter viva a mem\u00f3ria de um povo? H\u00e1 ainda o paradoxo dos grupos novos que fazem \u201crecolhas\u201d a partir das grava\u00e7\u00f5es dos grupos mais velhos\u2026<br \/>\n\tTent\u00fagal \u2013 Posso dar um exemplo bastante concreto. Houve um grupo, do qual n\u00e3o vou dizer o nome, que h\u00e1 alguns anos editou um trabalho em \u00e1lbum onde canta um malh\u00e3o exactamente igual ao que se encontra no primeiro disco do Vai de Roda. Chegaram ao c\u00famulo de dizer que era recolha, metendo a mesma selec\u00e7\u00e3o de quadras que eu fiz, o mesmo \u201cintermezzo\u201d que eu criara e n\u00e3o existia na recolha [Am\u00e9lia Muge, num aparte: \u201cEnganaste-os bem!\u201d], as mesmas pausas do bombo!&#8230; O problema est\u00e1 em que n\u00e3o existe o tal esp\u00f3lio arquivado, quer em partitura quer em \u00e1udio, ao qual qualquer pessoa possa ter acesso. S\u00f3 assim se poder\u00e1 distinguir entre o que \u00e9 tratamento ou adultera\u00e7\u00e3o e o que \u00e9 genu\u00edno.<br \/>\n\tCarlos Guerreiro \u2013 J\u00e1 experimentei mostrar as recolhas do Giacometti aos meus alunos e eles \u201cvomitam\u201d! Aquilo \u00e9 inaud\u00edvel para um mi\u00fado que liga o r\u00e1dio e ouve coisas cheias de som, rock e n\u00e3o sei qu\u00ea. N\u00f3s, no tempo em que come\u00e7\u00e1mos a pegar nas recolhas do Giacometti  a trabalh\u00e1-las, depar\u00e1mos com uma coisa de tal maneira nova que at\u00e9 para n\u00f3s era um mergulho no desconhecido. O nosso sentimento era de m\u00e1ximo respeito. Inclusive, nos nossos primeiros trabalhos, d\u00e1vamo-nos ao luxo de nos enganarmos nos mesmos s\u00edtios, de tocar mal muitas vezes aquelas coisas feitas em instrumentos imperfeitos, meio desafinados. Depois houve tentativas de tornar a coisa mais diger\u00edvel, mas sempre com grandes preocupa\u00e7\u00f5es de pureza.<br \/>\n\tP. \u2013 Existir\u00e1 um ponto de n\u00e3o retorno, nesse movimento de afastamento dos esp\u00e9cimes originais? Um ponto em que o termo \u201ctradicional\u201d se poder\u00e1 tornar abusivo? Estamos a lembrar-nos dos discos dos Gaiteiros, da N\u00e9 Ladeiras, mesmo do \u00d3 que Som Tem\u2026<br \/>\n\tAm\u00e9lia Muge \u2013 Eu pr\u00f3pria me interrogo muito sobre o que \u00e9 genu\u00edno ou n\u00e3o. Ponho em causa uma s\u00e9rie de coisas a esse n\u00edvel. Sinto-me a viver numa \u00e9poca onde, se \u00e9 verdade que h\u00e1 uma enorme preocupa\u00e7\u00e3o e descoberta disso que \u00e9 o \u201ctradicional\u201d, h\u00e1 tamb\u00e9m uma enorme abertura ao mundo. Porqu\u00ea recusar as novas tecnologias? Temos a liberdade de ser perten\u00e7a dos mundos onde queremos estar. E a responsabilidade.<br \/>\n\tJos\u00e9 Martins \u2013 Eu traria para aqui uma quest\u00e3o talvez mais t\u00e9cnica. Vou ouvir um tema recolhido pelo Giacometti. OK. O que \u00e9 que est\u00e1 ali, o que \u00e9 que eu posso fazer perante aquilo? Posso achar que \u00e9 um tema maravilhoso e apetecer-me toc\u00e1-lo, exactamente como ele \u00e9. Ou ent\u00e3o digo assim: espera l\u00e1, eu conhe\u00e7o m\u00fasica da Europa, ou de \u00c1frica, mas isto n\u00e3o conhe\u00e7o, \u00e9 diferente de tudo. O que \u00e9 que \u00e9 diferente? Ser\u00e1 pela combina\u00e7\u00e3o das harmonias, pelo tipo de linhas mel\u00f3dicas, pela interpreta\u00e7\u00e3o que \u00e9 dada ou pelos ornamentos? Esses aspectos que caracterizam a m\u00fasica portuguesa, da qual determinada recolha \u00e9 um exemplo, \u00e9 que me podem servir para fazer uma composi\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 n\u00e3o tem nada a ver com aquilo, mas onde se encontra o tipo de ritmos que l\u00e1 est\u00e1, a mesma forma de cantar, id\u00eantico esquema de rela\u00e7\u00e3o entre a melodia e a harmonia. A\u00ed pode dizer-se que \u00e9 m\u00fasica moderna, n\u00e3o tradicional, e, no entanto, m\u00fasica portuguesa de raiz tradicional, porque mant\u00e9m as mesmas caracter\u00edsticas musicais daquela coisinha ing\u00e9nua cantada intuitivamente pela velha que ouviu cantar o pai ou o av\u00f4. \u00c9 isto que faz a ponte entre poder-se continuar a evoluir, compondo, e dizer que \u00e9 m\u00fasica portuguesa, porque se est\u00e3o a desenvolver caracter\u00edsticas que s\u00f3 existem aqui e em mais parte nenhum do mundo.<br \/>\n\tAm\u00e9lia Muge \u2013 E h\u00e1 a liberdade para se poder fazer isso. A seguir ao 25 de Abril, havia um peso muito grande nos grupos. Diz\u00edamos: alto l\u00e1! H\u00e1 aqui coisas que as pessoas nunca ouviram, um lado da nossa cultura que \u00e9 fundamental e \u00e9 preciso dar a conhecer. Hoje estamos libertos de uma certa bandeira. N\u00e3o quero dizer que a postura deva ser menos pol\u00edtica, m\u00e3o os ingredientes j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o os mesmos, est\u00e3o despidos de circunstancialismos.<br \/>\n\tJos\u00e9 Martins \u2013 \u00c9 como um poeta que hoje em dia faz uma poesia que um estudioso reconhe\u00e7a como portuguesa. \u00c9 evidente que vai estudar e ler Cam\u00f5es, mas n\u00e3o vai copiar os poemas. Se calhar, vai \u00e9 apanhar a maneira como ele fala do amor, o tipo de rimas que usa, o aproveitamento do som da l\u00edngua\u2026<br \/>\n\tP. \u2013 Se o primeiro passo \u00e9 o da interioriza\u00e7\u00e3o do que \u00e9 especificamente portugu\u00eas, o segundo ser\u00e1 o de estabelecer elos e encontrar rela\u00e7\u00f5es com outras tradi\u00e7\u00f5es do mundo?<br \/>\n\tTent\u00fagal \u2013 Mas mesmo esse primeiro passo ainda n\u00e3o foi dado!<br \/>\n\tJos\u00e9 Martins \u2013 At\u00e9 porque a nossa m\u00fasica \u00e9, como se sabe, um mescla de \u201cn\u201d culturas. A gente sabe, na Qu\u00edmica, que a tabela de elementos \u00e9 finita. No entanto, h\u00e1 milhares de compostos qu\u00edmicos diferentes. O tipo de combina\u00e7\u00e3o de ingredientes, neste caso culturais, que deu origem ao que chamamos cultura portuguesa \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o particular, que, noutro pa\u00eds, resultou em algo completamente diferente. Aqui ao lado, em Espanha, tamb\u00e9m passaram os celtas, os v\u00e2ndalos ou os mouros, mas o resultado foi parar a outro s\u00edtio. Ningu\u00e9m confunde a m\u00fasica portuguesa com a m\u00fasica espanhola, a n\u00e3o ser um chin\u00eas, que ouve um fado e acha que \u00e9 parecido com uma sevilhana a chorar!&#8230;<br \/>\n\tTudo o que tem sido dito \u00e9 verdade, mas demora anos a p\u00f4r em pr\u00e1tica. Para um jovem m\u00fasico de hoje, menos paciente, que se interessa e quer tocar m\u00fasica portuguesa de raiz tradicional, essa aprendizagem poder\u00e1 parecer exasperante e desmotivadora. H\u00e1 outro lado por onde ele possa come\u00e7ar?<br \/>\n\t Tent\u00fagal \u2013 Um conselho pr\u00e1tico: varrer completamente os professores que t\u00eam! O problema, neste momento, \u00e9 de mentalidades. Assiste-se hoje ao fen\u00f3meno dos \u201cpimbas\u201d e do \u201cbicho\u201d. A educa\u00e7\u00e3o \u2013 como conjunto de escola, mais sociedade, mais pais \u2013 leva actualmente a uma situa\u00e7\u00e3o de amorfismo galopante.<br \/>\n\tCarlos Guerreiro \u2013 Antes havia a tal bandeira. Depois, socialmente, estava tudo receptivo. Fosse o que fosse que a gente fizesse, as pessoas absorviam. Ainda por cima havia a R\u00e1dio Renascen\u00e7a ao servi\u00e7o da classe oper\u00e1ria, dos camponeses e do povo trabalhador, que passava tudo o que a gente fazia\u2026 N\u00e3o tivemos de lutar muito para impor o nosso tipo de m\u00fasica ou uma determinada op\u00e7\u00e3o est\u00e9tica. Na altura era uma novidade para toda a gente. Sobretudo, n\u00f3s est\u00e1vamos imbu\u00eddos de uma grande miss\u00e3o. Deus tinha-nos imbu\u00eddo da miss\u00e3o de salvar a m\u00fasica portuguesa. Est\u00e1vamos mesmo convencidos disso! [Risos.] Era uma tarefa cicl\u00f3pica, universal! Claro que n\u00e3o salv\u00e1mos coisa nenhuma. At\u00e9 porque a m\u00fasica tradicional n\u00e3o existe como bem de consumo. Que eu saiba, para a\u00ed h\u00e1 50 anos, n\u00e3o havia ningu\u00e9m numa aldeia que se sentasse simplesmente a ver um gajo a tocar e depois batesse palmas. A m\u00fasica tinha sempre uma fun\u00e7\u00e3o, ou era m\u00fasica de trabalho, ou religiosa, ou de dan\u00e7a, sempre com uma participa\u00e7\u00e3o do colectivo. A partir do momento em que se introduz a maquinaria nos campos, torna-se dif\u00edcil cantar por cima de uma debulhadora mec\u00e2nica. No m\u00ednimo fica-se rouco. H\u00e1, portanto, coisas que come\u00e7am a morrer naturalmente. Indiv\u00edduos como o Giacometti, digamos que tiraram uma alga de dentro da \u00e1gua e puseram-na c\u00e1 fora a secar. Ela est\u00e1 liofilizada, para algu\u00e9m, em qualquer altura, poder pegar nela e p\u00f4-la de molho outra vez, para ver como funciona. Mas sabe-se que, terminada a fun\u00e7\u00e3o, o \u00f3rg\u00e3o tem tend\u00eancia para morrer. Resta-nos mat\u00e9ria-prima gravada. N\u00e3o precisamos de ser bot\u00e2nicos para fazer uma salada de fruta.<br \/>\n\tP. \u2013 N\u00e3o seria um trabalho interessante correr no sentido inverso? Procurar sensibilizar o jovem m\u00fasico do campo para perpetuar a tradi\u00e7\u00e3o?<br \/>\n\tCarlos Guerreiro \u2013 Tal acontecer\u00e1 naturalmente se, na sua comunidade, ele tiver condi\u00e7\u00f5es para isso. Por exemplo, parece que est\u00e1 a acontecer um ressurgimento da gaita mirandesa. Existem putos a construir gaitas, uns melhor outros pior, mas isso n\u00e3o vem da cidade, nem por decreto, nem dos discos que n\u00f3s editamos!<br \/>\n\tJos\u00e9 Manuel David \u2013 Vamos \u00e9 ver o que eles v\u00e3o fazer com elas, se n\u00e3o v\u00e3o aparecer para a\u00ed outros Delfins, s\u00f3 porque um dos gaiteiros se chama Delfim! [Risos.]<br \/>\n\tTent\u00fagal \u2013 A esse n\u00edvel, as melhores experi\u00eancias est\u00e3o a vir do interior. No caso da gaita, est\u00e1 a recuperar-se aquilo que se perdeu no s\u00e9culo XV, quando a gaita-de-foles era o principal instrumento portugu\u00eas e havia associa\u00e7\u00f5es de gaiteiros com um report\u00f3rio pr\u00f3prio. Onde \u00e9 que isso p\u00e1ra? Era um bom estudo para se perceber como Portugal perdeu isso e outras coisas.<br \/>\n\tJos\u00e9 Martins \u2013 O puto que vive na aldeia j\u00e1 tem acesso aos meios de comunica\u00e7\u00e3o [Am\u00e9lia Muge, noutro aparte: \u201cMeios de descomunica\u00e7\u00e3o!\u201d]. Se calhar tem o seu \u201cwalkman\u201d port\u00e1til. Ele ouve rock, pop jazz e cl\u00e1ssico que passam na r\u00e1dio e na televis\u00e3o. Se houver uma produ\u00e7\u00e3o de raiz portuguesa, mesmo afastada dos temas tradicionais, ele a\u00ed diz: \u201cOlha, uma m\u00fasica t\u00e3o porreira feita com este instrumento que eu tenho aqui ao lado!\u201d Pode funcionar como \u201cfeedback\u201d e fazer-lhe ver que, afinal, n\u00e3o se trata de uma velharia que o av\u00f4 tinha guardado na arca do s\u00f3t\u00e3o. Depois ele poder\u00e1 at\u00e9 tocar um tema dos Gaiteiros. Voltamos \u00e0 quest\u00e3o da n\u00e3o estaticidade. Se calhar, daqui por dez anos, algu\u00e9m que v\u00e1 a essa aldeia fazer recolha j\u00e1 encontra um tipo de 50 anos a tocar temas em gaita-de-foles que ele diz serem tradicionais, mas que provavelmente foram compostos por um grupo chamado Gaiteiros de Lisboa.<br \/>\n\tCarlos Guerreiro \u2013 A maior parte do report\u00f3rio de qualquer gaiteiro ou tocador de cavaquinho \u00e9 composto por coisas da r\u00e1dio. Ent\u00e3o a seguir ao 25 de Abril, chegavas ao p\u00e9 de um pastor que tocava a sua flauta e at\u00e9 ele deitar c\u00e1 para fora qualquer coisa interessante, pura, original ou aut\u00eantica, tinhas que levar com desde as \u201cPombinhas da Catrina\u201d at\u00e9 ao \u201cAvante camarada!\u201d e o \u201cCompanheiro Vasco\u201d. Com a mesma t\u00e9cnica e entusiasmo. Como se aquilo fosse mesmo deles. Era uma for\u00e7a cultural, que eles ainda tinham, de conseguir absorver, assimilar e devolver tudo como se fosse m\u00fasica sua.<\/p>\n<p><center><br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/4nsNRrcobXg\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\n<\/center><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pop Rock 8 de Novembro de 1995 Um debate sobre m\u00fasica portuguesa O FUTURO, J\u00c1! H\u00e1 20 anos havia uma bandeira e um exemplo a seguir, o de Giacometti, que recuperou para um pa\u00eds o rosto perdido da sua identidade. Hoje, h\u00e1 trabalho feito e um futuro que come\u00e7a a ser trilhado com seguran\u00e7a. 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