{"id":3904,"date":"2015-08-24T13:46:35","date_gmt":"2015-08-24T20:46:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=3904"},"modified":"2015-08-24T13:46:35","modified_gmt":"2015-08-24T20:46:35","slug":"noirin-ni-riain-entrevista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2015\/08\/24\/noirin-ni-riain-entrevista\/","title":{"rendered":"N\u00f3ir\u00edn N\u00ed Riain &#8211; Entrevista"},"content":{"rendered":"<p>Pop Rock<\/p>\n<p>24 NOVEMBRO 1993<\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 300;\ngoogle_ad_height = 250;\ngoogle_ad_format = \"300x250_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><strong>\u201cAQUELE QUE CANTA REZA DUAS VEZES\u201d<\/p>\n<p>N\u00f3ir\u00edn N\u00ed Riain, \u201cVox de Nube\u201d vem cantar a Portugal. Com uma voz que \u201cvem de Deus\u201d. A mesma que fez John Cage chorar e que um velho monge de Glenstal definiu como a \u201cerotiza\u00e7\u00e3o do canto\u201d.<\/strong><\/p>\n<p><center><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?attachment_id=3905\" rel=\"attachment wp-att-3905\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/ni.jpg\" alt=\"ni\" width=\"240\" height=\"180\" class=\"aligncenter size-full wp-image-3905\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/ni.jpg 240w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/ni-100x75.jpg 100w\" sizes=\"auto, (max-width: 240px) 100vw, 240px\" \/><\/a><br \/>\n<\/center><\/p>\n<p>A m\u00fasica tradicional religiosa \u00e9 o templo onde se comunica com o divino. Com os monges do mosteiro de Glenstal, numa pe\u00e7a de Hildegard von Bingen ou num campo de refugiados na Cro\u00e1cia, a irlandesa assume o canto como liturgia da Reden\u00e7\u00e3o. Mas tamb\u00e9m como algo de sensual e org\u00e1smico. Capaz de a levar da igreja para um grupo de jazz.<br \/>\n<strong>P\u00daBLICO \u2013 O que a levou a dedicar-se ao canto religioso, em detrimento das can\u00e7\u00f5es ga\u00e9licas tradicionais.<\/strong><br \/>\nN\u00f3ir\u00edn N\u00ed Riain \u2013 Aprendi o primeiro c\u00e2ntico religioso aos 18 anos de idade. Comecei por cantar can\u00e7\u00f5es \u201cseculares\u201d e n\u00e3o sagradas. Quando escutei pela primeira vez a can\u00e7\u00e3o \u201cThe seven sorrows of the Virgin Mary\u201d [inclu\u00edda no \u00e1lbum \u201cCaioneadh na Maighdine\u201d ou \u201cVox Clamantis in Deserto\u201d, de 1980, j\u00e1 dispon\u00edvel em importa\u00e7\u00e3o VGM] fiquei siderada. \u00c9 uma das can\u00e7\u00f5es mais antigas da tradi\u00e7\u00e3o irlandesa, trazida pelos franciscanos, que chegaram por volta de 1226. Depois surgiu a trilogia que gravei com os monges beneditinos do mosteiro de Glenstal, por sinal a \u00fanica ordem beneditina masculina existente na Irlanda.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Quais s\u00e3o as principais diferen\u00e7as entre esses tr\u00eas discos?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 O primeiro, \u201cVox Clamantis in Deserto\u201d foi feito em 1980, quando comecei a fazer interc\u00e2mbio de can\u00e7\u00f5es com os monges de Glenstal, dava-lhes e cantava can\u00e7\u00f5es tradicionais religiosas e eles retribu\u00edam com c\u00e2ntico gregoriano. Trata-se ent\u00e3o de um disco em que predomina aquele tipo de can\u00e7\u00f5es, algumas nunca gravadas anteriormente. Seguiu-se \u201cVox Populi \u2013 Good People All\u201d, em 1982, que se centrou noutro tipo de tradi\u00e7\u00e3o, dos \u201ccarols\u201d de Natal, mas n\u00e3o do tipo popular cantado nas congrega\u00e7\u00f5es religiosas. \u201cVox de Nube\u201d, de 1989, \u00e9 uma grava\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica por que nos interess\u00e1vamos na altura, uma mistura de estilos tradicionais na qual usei instrumentos e t\u00e9cnicas vocais indianos, experi\u00eancia que encetei por volta de 1987. Foi tamb\u00e9m o disco em que cant\u00e1mos pela primeira vez m\u00fasica de Hildegard von Bingen, a abadessa beneditina.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Tradi\u00e7\u00e3o e Religi\u00e3o. O que as une?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Uma das frases que mais me influenciou foi escrita cerca do s\u00e9culo IV e diz o seguinte: \u201caquele que canta reza duas vezes\u201d. Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que \u201ccantar \u00e9 amar\u201d. O canto e as can\u00e7\u00f5es centram-se na voz que \u00e9 algo de poderoso e espiritual. Certa vez cantei na Pol\u00f3nia com uma cantora russa. Dizia-me ela que na sua aldeia n\u00e3o lhe pagavam por cantar, embora fosse uma cantora profissional. Os outros m\u00fasicos eram pagos, ela n\u00e3o, porque, dizia, a \u201cvoz vem de Deus\u201d. N\u00e3o se recebe por algo que \u00e9 transcendente. Felizmente que n\u00e3o se passa o mesmo na Irlanda.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Que papel desempenhou a religi\u00e3o cat\u00f3lica quando da sua chegada \u00e0 Irlanda?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 N\u00e3o existe na Irlanda uma tradi\u00e7\u00e3o de hinos vernaculares, ao contr\u00e1rio do que acontece noutros pa\u00edses. Diria que a Igreja cat\u00f3lica teve sobre a Irlanda como que um efeito secund\u00e1rio. A maioria dos temas religiosos irlandeses aparece fora da institui\u00e7\u00e3o sendo em primeiro lugar uma express\u00e3o singela de F\u00e9. Falam de temas como a Virgem Maria a dar \u00e0 luz o seu Filho que expressam sentimentos e emo\u00e7\u00f5es mais do que conceitos como a Imaculada Concep\u00e7\u00e3o ou a Assun\u00e7\u00e3o. Quando as mulheres irlandesas rezavam n\u00e3o o faziam a um Deus ou a uma Nossa Senhora elevados e imponentes, mas a algu\u00e9m mais humano com que se pudessem identificar.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Tem consci\u00eancia da manifesta\u00e7\u00e3o do diabo na sociedade moderna?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Sobre isso existe um prov\u00e9rbio alem\u00e3o que diz: \u201conde h\u00e1 algu\u00e9m que canta n\u00e3o receies a maldade, porque as pessoas diab\u00f3licas n\u00e3o t\u00eam alma\u201d. O canto \u00e9 algo de ben\u00e9volo. A voz, como j\u00e1 se disse, vem de Deus. O diabo surge quando algu\u00e9m usa o canto para influenciar as pessoas de uma forma negativa.<br \/>\n<strong>P. \u2013 A m\u00fasica pode salvar?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Em Setembro um grupo de ingleses esteve na Cro\u00e1cia, num campo de refugiados. Quando perguntaram aos refugiados o que \u00e9 que queriam, responderam: \u201cm\u00fasica!\u201d. Estive l\u00e1 h\u00e1 pouco tempo e vi pessoas no meio da maior pobreza, no meio da neve, esfomeadas, abandonadas\u2026 se conseguisse atrav\u00e9s do meu canto faz\u00ea-los transcender tudo isso, nem que fosse por um minuto\u2026<br \/>\n<strong>P. \u2013 Como aconteceu e em que termos se processou o seu encontro com John Cage?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Encontrei John Cage na Calif\u00f3rnia em 1989, num concerto em que particip\u00e1vamos os dois. Perguntou-me se conhecia o cantor irland\u00eas Joe Heaney [Seosamh \u00d3 h\u00c9anay, em ga\u00e9lico\u2026] que foi precisamente com quem aprendi grande parte das minhas can\u00e7\u00f5es religiosas. Comecei a cantar-lhe uma delas e John Cage desatou a chorar. Falou-me de uma pe\u00e7a que pensava escrever para Joe Heaney cantar. Depois and\u00e1mos juntos numa digress\u00e3o de um festival de m\u00fasica moderna por Inglaterra. Fiquei a conhec\u00ea-lo bastante bem. Quando morreu organizou-se em Nova Iorque uma homenagem em que foram convidados os seus amigos para cantarem em sua mem\u00f3ria. Fui um dos convidados.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Fale-nos da sua experi\u00eancia musical fora do contexto religioso.<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Comecei a trabalhar com o trompetista Markkus Stockausen. Fiz um concerto com ele e a sua banda A Paris, na Irlanda, h\u00e1 duas semanas. Devo voltar a v\u00ea-lo na pr\u00f3xima Primavera, na Alemanha. Foi deste modo que cheguei \u00e0 arena da m\u00fasica moderna. Actualmente sou cantora num grupo local chamado Hiberno Jazz. A ideia de m\u00fasica contempor\u00e2nea fascina-me j\u00e1 que o que eu fa\u00e7o \u00e9 contempor\u00e2neo algo que \u00e9 muito antigo. Refiro-me \u00e0 improvisa\u00e7\u00e3o, ponto fulcral do meu trabalho.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Sente afinidades com Hildegard von Bingen, de quem j\u00e1 interpretou can\u00e7\u00f5es, em \u201cVox de Nube\u201d?<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Claro que sinto. Mas conv\u00e9m n\u00e3o esquecer que Hildegard foi n\u00e3o s\u00f3 compositora como tamb\u00e9m vision\u00e1ria, ecologista, cosm\u00f3loga, dramaturga, pregadora, professora e profetiza\u2026 O papel de \u201cAnima\u201d que desempenhei numa das suas pe\u00e7as foi bastante f\u00e1cil. Quase como se fizesse parte de mim. Acontece-me o mesmo com a sua m\u00fasica. Sou capaz de cantar as suas longas, longas sequ\u00eancias sem ter um \u00fanico lapso de mem\u00f3ria.<br \/>\n<strong>P. \u2013 Cantar \u00e9 pois para si uma experi\u00eancia religiosa\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 H\u00e1 uma parte de um \u201cKyrie eleison\u201d, em \u201cVox de Nube\u201d, que n\u00e3o reduzo ao canto. Em certas ocasi\u00f5es sou capaz de sentir cheiros e sabores. At\u00e9 de ver cores.<br \/>\n<strong>P. \u2013 H\u00e1 algo de er\u00f3tico nessa descri\u00e7\u00e3o\u2026<\/strong><br \/>\nR. \u2013 Absolutamente. Lembro-me de uma vez, no mosteiro de Glenstal, quando cantava a m\u00fasica de Hildegard, um dos monges mais idosos descrever o processo como uma \u201cerotiza\u00e7\u00e3o\u201d do canto. \u00c9 na verdade bastante sensual, de um ponto de vista feminino. Hildegard era mulher e escrevia para mulheres. Trata-se sem d\u00favida de uma experi\u00eancia org\u00e1smica.<\/p>\n<p><strong>CONVENTO DO BEATO, LISBOA<br \/>\nDia 27 de Novembro<\/strong><\/p>\n<p><center><br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"420\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/A9rKXjzm3_Y\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\n<\/center><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pop Rock 24 NOVEMBRO 1993 \u201cAQUELE QUE CANTA REZA DUAS VEZES\u201d N\u00f3ir\u00edn N\u00ed Riain, \u201cVox de Nube\u201d vem cantar a Portugal. Com uma voz que \u201cvem de Deus\u201d. A mesma que fez John Cage chorar e que um velho monge de Glenstal definiu como a \u201cerotiza\u00e7\u00e3o do canto\u201d. 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