{"id":3694,"date":"2015-06-01T08:14:01","date_gmt":"2015-06-01T15:14:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=3694"},"modified":"2015-06-01T08:14:01","modified_gmt":"2015-06-01T15:14:01","slug":"david-cunningham-voiceworks","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2015\/06\/01\/david-cunningham-voiceworks\/","title":{"rendered":"David Cunningham &#8211; &#8220;Voiceworks&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Pop Rock<\/p>\n<p>7 OUTUBRO 1992<\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 250;\ngoogle_ad_height = 250;\ngoogle_ad_format = \"250x250_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p><strong>A VOZ E AS M\u00c1SCARAS<\/p>\n<p>DAVID CUNNINGHAM<br \/>\nVoiceworks<\/strong><br \/>\nCD Eva, import. Contraverso<\/p>\n<p>Manipula\u00e7\u00e3o. Das formas, dos sentidos e, em \u00faltima an\u00e1lise, dos modos de escuta. Conceitos que, de forma inconfund\u00edvel, passam para o centro das opera\u00e7\u00f5es no teatro da m\u00fasica deste final de s\u00e9culo. Com o advento da computoriza\u00e7\u00e3o, das t\u00e9cnicas de colagem digital, da samplagem e de toda a pan\u00f3plia de efeitos e t\u00e9cnicas de grava\u00e7\u00e3o permitidos pela maquinaria de est\u00fadio, o processo criativo tornou-se numa opera\u00e7\u00e3o de laborat\u00f3rio. O artista, antes remetido \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de figura \u00e0 merc\u00ea dos favores da inspira\u00e7\u00e3o, viu-se for\u00e7ado a vestir a bata de cientista e a ser, ele pr\u00f3prio, o artes\u00e3o que controla todas as fases do trabalho, at\u00e9 se chegar ao produto final. Referimo-nos, \u00e9 claro, a um tipo determinado de m\u00fasico, para quem a \u201cobra\u201d se assume como um trabalho total, n\u00e3o confinado aos limites da escrita.<br \/>\nPor outro lado, como consequ\u00eancia do desenvolvimento impar\u00e1vel da tecnologia, os sons do universo deixaram de ser modelos que se procuravam imitar ou integrar num discurso musical pr\u00e9vio para se constitu\u00edrem como a pr\u00f3pria mat\u00e9ria musical, pl\u00e1stica, suscept\u00edvel de ser manipulada at\u00e9 ao infinito.<br \/>\nSe \u201cPossessed\u201d, dos Balanescu Quartet, criticado neste suplemento na semana passada, \u00e9 a subtil sabotagem deste enunciado \u2013 a manipula\u00e7\u00e3o surge como que \u201cinvertida\u201d, o instrumento ac\u00fastico \u201cmanipula\u201d a imagem sonora electr\u00f3nica \u2013 \u201cVoiceworks\u201d, de David Cunningham, vem recolocar o problema dentro dos par\u00e2metros \u201cnormais\u201d. Recorde-se ainda, a prop\u00f3sito, o trabalho deste autor, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 80, realizado nos Flying Lizards, que \u00e9 uma outra forma de manipula\u00e7\u00e3o, desta feita de cl\u00e1ssicos do rock\u2019n\u2019roll, efectuada pelo lado do humor e da conten\u00e7\u00e3o minimalista.<br \/>\nEm \u201cVoiceworks\u201d o material b\u00e1sico \u00e9, obviamente, a voz, singular ou no plural: de Susan Belling e, na maior parte dos temas, recolhida(s) de arquivo. O \u00e1lbum conta com quatro unidades tem\u00e1ticas, e respectivas subdivis\u00f5es: \u201cMasks and voices\u201d, \u201cCanta (parte de uma pe\u00e7a mais extensa para bailado encomendada por Ian Spink, com o apoio do Arts Council da Gr\u00e3-Bretanha), \u201cFour songs\u201d e \u201cTwo solos\u201d. Em todas elas a voz ou as vozes s\u00e3o alteradas por processos electr\u00f3nicos, nomeadamente por programas pr\u00e9vios de computador que determinam a estrutura composicional \u2013 \u201csystems music\u201d, como \u00e9 vulgarmente designado este tipo de composi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas se, como diz Cunningham, \u201ca voz \u00e9 o elemento [tomado em abstracto] que unifica os diversos tratamentos sonoros\u201d, ela \u00e9 tamb\u00e9m um pretexto, parte de um sistema mais vasto em que a electr\u00f3nica tem como fun\u00e7\u00e3o estruturar as \u201cvozes\u201d de \u201coutras m\u00fasicas\u201d (num sentido mais lato e de abstrac\u00e7\u00e3o total a voz at\u00e9 pode ser, como acontece num tema, a guitarra baixo de Peter Blegvad), visando em primeiro lugar a cria\u00e7\u00e3o de \u201ctexturas\u201d sonoras (aqu\u00e1ticas, em \u201cWater\u201d, \u00e1lbum anterior do autor, tamb\u00e9m editado este ano, com o selo Made to Measure) aut\u00f3nomas, existentes apenas enquanto \u201csom gravado\u201d, n\u00e3o pass\u00edveis de reprodu\u00e7\u00e3o ao vivo.<br \/>\nNuma primeira leitura, poderia pensar-se estarmos perante uma entre muitas obras de \u201csystems music\u201d, por\u00e9m David Cunningham apressa-se a acrescentar que n\u00e3o se trata de um \u201cprocesso cl\u00ednico\u201d. Existe uma impossibilidade de controlo total. Cunningham admite (e usa em seu proveito) os \u201cerros\u201d inerentes ao pr\u00f3prio sistema e a imprevisibilidade do mesmo. Por isso se refere a um \u201csoft system\u201d, por oposi\u00e7\u00e3o a m\u00fasica sistem\u00e1tica pura, e a um produto final identific\u00e1vel com uma \u201ccultura n\u00e3o tecnol\u00f3gica\u201d. Processos e discurso em tudo semelhantes aos que Brian Eno j\u00e1 utilizara, dirigidos embora noutra direc\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOs resultados s\u00e3o brilhantes, podendo \u201cVoiceworks\u201d considerar-se desde j\u00e1 um dos melhores \u00e1lbuns do ano. \u201cMasks and voice\u201d, uma pe\u00e7a coral, ostenta a grandiosidade de uma \u201cCarmina Burana\u201d, segundo a vers\u00e3o semioper\u00e1tica de Carl Orff. \u201cCanta\u201d submete a voz a uma progressiva desagrega\u00e7\u00e3o, segundo processos id\u00eanticos aos utilizados por um dos novos compositores americanos de m\u00fasica electr\u00f3nica, Paul de Marinis (procure-se urgentemente essa obra-prima que \u00e9 \u201cMusic as a Second Language\u201d, outro trabalho genial centrado na manipula\u00e7\u00e3o da voz humana, gravado para a Lovely Music). Momentos h\u00e1 em que \u201cVoiceworks\u201d navega nas mesmas \u00e1guas de \u201cShamrock\u201d, de Gabriel Yared. Noutras, uma espiritualidade que recorda certas orat\u00f3rias do compositor alem\u00e3o do s\u00e9c. XVII Heinrich Sch\u00fctz anela-se com madrigais da Renascen\u00e7a. Num dos temas assoma o espectro dos Faust e os recortes brutais da voz em \u201cI\u2019ve got a car and a TV\u201d (do \u00e1lbum \u201cSo Far\u201d). M\u00faltiplas direc\u00e7\u00f5es para um sentido \u00fanico, de eleva\u00e7\u00e3o. A linguagem, afinal, n\u00e3o \u00e9 um v\u00edrus. (9)<\/p>\n<p><center><br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"420\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/aAgMAWV3JeA\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\n<\/center><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pop Rock 7 OUTUBRO 1992 A VOZ E AS M\u00c1SCARAS DAVID CUNNINGHAM Voiceworks CD Eva, import. Contraverso Manipula\u00e7\u00e3o. Das formas, dos sentidos e, em \u00faltima an\u00e1lise, dos modos de escuta. 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