{"id":3308,"date":"2015-02-02T15:17:30","date_gmt":"2015-02-02T22:17:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/?p=3308"},"modified":"2015-02-02T15:20:02","modified_gmt":"2015-02-02T22:20:02","slug":"leonard-cohen-o-homem-a-banana-e-os-fas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/2015\/02\/02\/leonard-cohen-o-homem-a-banana-e-os-fas\/","title":{"rendered":"Leonard Cohen &#8211; O Homem, A Banana E Os F\u00e3s"},"content":{"rendered":"<p>Pop Rock<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>25 SETEMBRO 1991<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O HOMEM, A BANANA E OS F\u00c3S<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Em 1988, Leonard Cohen, ilustre representante da ala rom\u00e2ntico-depressiva da d\u00e9cada anterior, gravou um disco intitulado \u201cI\u2019m Your Man\u201d. Na capa aparece a segurar uma banana. Passados tr\u00eas anos, a Columbia, em colabora\u00e7\u00e3o com a revista francesa \u201cLes Inrockuptibles\u201d, re\u00fane 18 artistas, entre desconhecidos e consagrados, para homenagear em vida o autor de \u201cSongs from a Room\u201d, no projecto colectivo \u201cI\u2019m Your Fan\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/lc.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/lc-252x300.jpg\" alt=\"lc\" width=\"252\" height=\"300\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-3309\" srcset=\"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/lc-252x300.jpg 252w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/lc-84x100.jpg 84w, https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/lc.jpg 504w\" sizes=\"auto, (max-width: 252px) 100vw, 252px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A ideia de reunir v\u00e1rios nomes para interpretar a obra de um autor espec\u00edfico, tem precedentes. Recorde-se, entre outros, as produ\u00e7\u00f5es de Hal Winner sobre a m\u00fasica de Nino Rotta (\u201cAmarcord\u201d, com Carla Bley, o pianista Jaki Byard, Chris Stein e Deborrah Harry, etc.), ou de Kurt Weill (\u201cLost in the Stars\u201d, com Marianne Faithfull, Lou Reed, Kronos Quartet, John Zorn, Tom Waits, de novo Carla Bley, Richard Butler, etc.), ou de trabalhos dedicados \u00e0 recria\u00e7\u00e3o da m\u00fasica dos Beatles, Velvet Underground, Beach Boys e Neil Young.<\/p>\n<p>No caso do disco agora editado, trata-se, segundo a entidade promotora, de um tributo a Leonard Cohen visando \u201ccaptar a aten\u00e7\u00e3o da juventude para o poeta-compositor-cantor\u201d e ao mesmo tempo \u201canunciar a edi\u00e7\u00e3o, em Janeiro de 1992, do novo \u00e1lbum\u201d do artista canadiano.<\/p>\n<p>Artistas como John Cale, Nick Cave, Bill Pritchard, os Pixies ou os R. E. M., para al\u00e9m de assinar as respectivas vers\u00f5es, deixam-se fotografar com a banana. A partir de agora a juventude deixa de ter desculpas para ignorar a obra do mestre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O homem<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nasceu em Montreal, Canad\u00e1, a 21 de Setembro de 1934. Come\u00e7ou por integrar a banda \u201ccountry\u201d The Buckskin Boys, aos 20 anos de idade, enveredando depois por uma carreira a solo que lhe viria a granjear a reputa\u00e7\u00e3o de poeta e compositor deposit\u00e1rio dos despojos amorosos e dos sonhos africanos de toda uma gera\u00e7\u00e3o a quem custou a transi\u00e7\u00e3o entre duas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Gravou o primeiro \u00e1lbum em 1968, \u201cSongs of Leonard Cohen\u201d que inclu\u00eda o cl\u00e1ssico \u201cSuzanne\u201d. O Canad\u00e1 encontrava um bom equivalente para Dylan, na pele do vision\u00e1rio, m\u00edstico e incorrig\u00edvel apaixonado que, \u00e1lbum ap\u00f3s \u00e1lbum, viria a construir um dos pilares mais s\u00f3lidos da tradi\u00e7\u00e3o dos trovadores deste s\u00e9culo. Possuidor de uma veia po\u00e9tica quase sempre pessimista, disseminada por dez livros e outros tantos discos \u2013 escreveu um dia: \u201c\u00c0s vezes consigo experimentar a do\u00e7ura da morte.\u201d \u2013, construiu uma religi\u00e3o pessoal, baseada na reden\u00e7\u00e3o pela dor e pela solid\u00e3o, \u00e1s quais as sucessivas desilus\u00f5es amorosas acrescentam uma carga de maior negritude. \u201cAvalanche\u201d, \u201cThe partizan\u201d, \u201cJoan of Arc\u201d, \u201cSo long, Marianne\u201d s\u00e3o algumas das can\u00e7\u00f5es para sempre imortalizadas nas palavras e na voz enigm\u00e1ticas de um dos compositores-autores mais negligenciados de sempre. O disco de homenagem vem de algum modo repor a justi\u00e7a e relan\u00e7ar a carreira de algu\u00e9m contra quem o tempo nada pode, desde que haja uma princesa e um castelo a conquistar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>DISCOGRAFIA DE \u00c1LBUNS<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Songs of Leonard Cohen<\/strong> (1968) \u2013 faixas A2, A4, B1 e B2 de \u201cI\u2019m Your Fan\u201d<\/p>\n<p><strong>Songs from a Room<\/strong> (1968) \u2013 A5<\/p>\n<p><strong>Songs of Love and Hate<\/strong> (1970) \u2013 B3<\/p>\n<p><strong>Live Songs<\/strong> (1973)<\/p>\n<p><strong>New Skin for the Old Ceremony<\/strong> (1974) \u2013 A1, C2, C4 e D2<\/p>\n<p><strong>Death of a Ladies\u2019 Man<\/strong> (1978) \u2013 B4 e C5<\/p>\n<p><strong>Recent Songs<\/strong> (1979)<\/p>\n<p><strong>Various Positions<\/strong> (1984) \u2013 D4<\/p>\n<p><strong>I\u2019m Your Man <\/strong>(1988) \u2013 A3, C1, C3, D1 e D3<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A banana<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fruto tropical (do g\u00e9nero bac\u00e1ceo), muito nutritivo e apreciado, produzido pelas bananeiras (in \u201cDicion\u00e1rio da L\u00edngua Portuguesa\u201d, Porto Editora, 1989). Ainda segundo a mesma obra, pode significar uma \u201cficha el\u00e9ctrica individual\u201d ou uma \u201cpessoa sem energia, indolente, palerma\u201d. Observando as fotografias, fica-se com a ideia que o termo se aplica aqui na primeira acep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div style=\"text-align: center;margin: 12px;\"><script type=\"text\/javascript\"><!--\ngoogle_ad_client = \"pub-9853707030319137\";\ngoogle_alternate_color = \"FFFFFF\";\ngoogle_ad_width = 468;\ngoogle_ad_height = 60;\ngoogle_ad_format = \"468x60_as\";\ngoogle_ad_type = \"text_image\";\ngoogle_ad_channel =\"\";\ngoogle_color_border = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_link = \"\";\ngoogle_color_bg = \"#FFFFFF\";\ngoogle_color_text = \"\";\ngoogle_color_url = \"\";\ngoogle_ui_features = \"rc:0\";\n\/\/--><\/script>\n<script type=\"text\/javascript\"\n  src=\"http:\/\/pagead2.googlesyndication.com\/pagead\/show_ads.js\">\n<\/script><\/div><p>Em m\u00fasica, a banana tem sido v\u00e1rias vezes utilizada, em diferentes ocasi\u00f5es e contextos, acrescentando um sabor ex\u00f3tico e uma imagem geralmente picante \u00e0 arte dos sons. A sua forma peculiar presta-se, com alguma frequ\u00eancia, a piadas de car\u00e1cter er\u00f3tico ou a interpreta\u00e7\u00f5es mais ou menos d\u00fabias sobre as inten\u00e7\u00f5es dos seus utilizadores. Citando alguns casos, logo ocorre a figura inconfund\u00edvel de Carmen Miranda, que, entre outros frutos e legumes, recorria \u00e0 banana como enfeite ou como chap\u00e9u. Tamb\u00e9m Josephine Baker costumava usar um cinto com bananas, penduradas \u00e0 volta da cintura. \u00c9 c\u00e9lebre a obsess\u00e3o do exc\u00eantrico Kevin Ayers por este fruto: dois dos seus \u00e1lbuns t\u00eam como t\u00edtulo \u201cBananamour\u201d e \u201cYes, we Have Mananas, so get your Mananas Today\u201d; costumava al\u00e9m disso jogar xadrez com bananas em vez das pe\u00e7as habituais. Os Velvet Underground n\u00e3o hesitaram, por seu lado, em ilustrar a sua obra-prima \u201cVelvet Underground &amp; Nico\u201d com a famosa hiper-realista de Andy Warhol na capa. In\u00fameras letras mencionam a banana. Mencione-se ao acaso a enigm\u00e1tica asser\u00e7\u00e3o dos Faust, em \u201cSo Far\u201d: \u201cDaddy take a banana, tomorrow is sunday.\u201d O assunto n\u00e3o \u00e9 pac\u00edfico. Se a oportunidade surgir, trataremos dele de forma mais pormenorizada, se poss\u00edvel com fotografias detalhadas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os f\u00e3s, faixa a faixa<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>The House of Love<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cWho by fire\u201d<\/em><\/p>\n<p>Aproxima\u00e7\u00e3o convincente ao tom habitual de Cohen, recriando no acompanhamento da guitarra ac\u00fastica, o insustent\u00e1vel peso da dor e a quest\u00e3o metaf\u00edsica essencial de \u201csaber quem\u201d. A pr\u00f3pria voz de Guy Chadwick imita com bastante credibilidade a do canadiano. Como se a paisagem toda pudesse ser reproduzida num postal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ian McCulloch<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cHey, that\u2019s no way to say goodbye\u201d<\/em><\/p>\n<p>A mesma despedida angustiada (tema omnipresente na obra de Cohen). Suave e interiorizada na vers\u00e3o original. Electrificada e arranhada na do vocalista dos Echo and the Bunnymen, que optou pela t\u00e1ctica f\u00e1cil da transposi\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s do decalque nota a nota da melodia, com a t\u00f3nica no trio convencional guitarra-baixo-bateria. O efeito \u00e9 eficaz, mas pouco criativo. H\u00e1 porventura outras formas de dizer adeus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Pixies<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cI can\u2019t forget\u201d<\/em><\/p>\n<p>Reconcilia\u00e7\u00e3o bem sucedida entre os intimismos de outrora com a descoberta da tecnologia digital. Os sintetizadores tomam conta das opera\u00e7\u00f5es sem que a electricidade consiga destruir a magia de antanho. Curiosa a inflex\u00e3o dos Pixies que, ao inv\u00e9s, procuraram na acidez das guitarras o registo adequado para descrever as imagens de uma Am\u00e9rica m\u00edtica, sempre em fuga, a correr contra o Futuro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>That Petrol Emotion<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cStories of the street\u201d<\/em><\/p>\n<p>Um dos grandes temas de Leonard Cohen. Sobre a arte do equil\u00edbrio no fio da navalha. Entre o suic\u00eddio e o amor. Passagem da ponte entre duas \u00e9pocas, entre o c\u00e9u e o abismo. Passagem de n\u00edvel. Passagem de testemunho. O fim do sonho americano. A rosa esmagada na vertigem da auto-estrada. E um homem do tamanho de uma estrela, perdido no labirinto do \u201cmetro\u201d, \u00e0 procura de um olhar. Os That Petrol Emotion respeitam essa ang\u00fastia, como se seu fosse tamb\u00e9m o dia derradeiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>The Lilac Time<\/strong><\/p>\n<p><em>de \u201cSongs from a room\u201d<\/em><\/p>\n<p>Ainda uma can\u00e7\u00e3o sobre a dilacera\u00e7\u00e3o, dos temas preferidos do autor. Os Lilac Time acentuam o ambiente lit\u00fargico, substituindo a profundidade tr\u00e1gica do violoncelo, no original, por uma abertura espacial fabricada no est\u00fadio, que consegue trazer para o tema alguma claridade. A tortura interior tornada ve\u00edculo privilegiado ao servi\u00e7o da pop melanc\u00f3lica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Geoffrey Oryema<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cSuzanne\u201d<\/em><\/p>\n<p>Quem nunca trauteou, ao menos uma vez na vida, a melodia simples e linear de \u201cSuzanne\u201d? Ou com \u201cela\u201d aprendeu os primeiros acordes na guitarra? Can\u00e7\u00e3o de entrega, de corpos tocados pelo sopro do esp\u00edrito, de luzes doiradas reflectidas no espelho de rios infinitos, como eram todos os rios no sonho colectivo dos 60. Oryema acrescentou-lhe a materialidade de um baixo pneum\u00e1tico, desceu a altura da voz at\u00e9 quase ao gutural e fez, como um feiticeiro, que tudo soasse como se fosse a primeira vez. Sub-repticiamente, a \u00c1frica irrompe nos \u00faltimos segundos, subvertendo ainda mais as reverbera\u00e7\u00f5es et\u00e9reas do original.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>James<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cSo long, Marianne\u201d<\/em><\/p>\n<p>Das can\u00e7\u00f5es mais conhecidas e divulgadas do compositor, sobre o tema eterno do amor. No caso de Cohen, quase sempre infeliz. Mas, como em literatura, o amor feliz n\u00e3o tem hist\u00f3ria. Pessimista por natureza, l\u00e1 vai dizendo que por causa dela at\u00e9 se esqueceu de rezar aos anjos e que por isso (e por tantas outras incont\u00e1veis desditas) se sente frio \u201ccomo uma l\u00e2mina de barbear\u201d. O banjo, a percuss\u00e3o martelada e o violino marcam a cad\u00eancia da viagem. Intermin\u00e1vel. Tornada irris\u00f3ria pelos James que lhe subtraem a energia, descartando-se da tarefa com a solicitude competente de um funcion\u00e1rio p\u00fablico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Jean-Louis Murat<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cAvalanche IV\u201d<\/em><\/p>\n<p>O poema fala de qualquer coisa sentida como monstruosa. De ser humano, nos maus dias. Met\u00e1fora sobre a demanda do bem, da ideia plat\u00f3nica de \u201cbem\u201d, da luz oculta nas trevas, do amor incrustado na pedra do orgulho. Leonard Cohen canta o imposs\u00edvel super-homem que se ergue acima das leis dos outros homens, para finalmente tombar do pedestal, tamb\u00e9m ele sens\u00edvel ao fr\u00e9mito provocado pelo confronto com o arqu\u00e9tipo feminino. Enfim, mesmo os deuses n\u00e3o conseguem resistir a um rabo de saias, Jean-Louis Murat passa o mito para franc\u00eas (sempre d\u00e1 um ar mais intelectual), junta-lhe um ritmo de pavoroso mau gosto, do tipo banda de arraial e apresenta, orgulhoso, o resultado, ao j\u00fari da Eurovis\u00e3o. Cohen a metro, n\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>David McComb &amp; Adam Peters<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cDon\u2019t go home with your hard-on\u201d<\/em><\/p>\n<p>Uma fraqueza estimulante. Esp\u00e9cie de \u201cOb-la-di ob-la-da\u201d com cau\u00e7\u00e3o cultural, com direito a fanfarra e servi\u00e7o de bufete. O tema fala de coisas de superf\u00edcie, de \u201csal\u00f5es de beleza\u201d, de \u201ceye-lid\u201d, de m\u00e1scaras de baile que encobrem a carne. No disco em que Cohen troca os lamentos solu\u00e7ados pela varinha m\u00e1gica dos arranjos r\u00edtmicos de Phil Spector, sabe bem escutar a sua voz liberta do div\u00e3 do psiquiatra. Quanto aos disc\u00edpulos, trocam a fanfarra por sininhos de Natal e por acessos de acne electr\u00f3nico em que cabe o cat\u00e1logo inteiro de efeitos vocais. Como se aos meninos tivesse sido dado o est\u00fadio de presente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li><strong> E. M.<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><em>\u201cFirst we take Manhattan\u201d<\/em><\/p>\n<p>Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, Leonard Cohen soa aqui como os Yello. Escute-se a maneira como canta \u201cFirts we take Manhattan, than we take Berlin\u201d ou \u201cyou loved me as a loser\u201d. Repare-se como as caixas de ritmo fazem a festa, com a pista de dan\u00e7a no horizonte. Uma salada ex\u00f3tico-electr\u00f3nica, cheia de corantes. Para os incondicionais da primeira fase, \u00e9 uma trag\u00e9dia. Talvez uma trai\u00e7\u00e3o. Quem n\u00e3o tem culpa nenhuma s\u00e3o os R. E. M. que, como acontece em tudo o que tocam, alcan\u00e7am a perfei\u00e7\u00e3o. Michael Stipe e companheiros restituem ao tema a dignidade perdida. N\u00e3o se trata aqui tanto de uma vers\u00e3o, mas da apropria\u00e7\u00e3o total, e uma assimila\u00e7\u00e3o completa do essencial, reposto de forma gloriosa num outro universo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Lloyd Cole<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cChelsea hotel\u201d<\/em><\/p>\n<p>Vintage Lloyd Cole, demasiado aprisionado ao que dele se esperaria. As t\u00edpicas sinuosidades vocais n\u00e3o disfar\u00e7am a falta de imagina\u00e7\u00e3o. Entre a homenagem de Cohen a Janis Joplin e o \u201cpastiche\u201d de Dylan, resta a hist\u00f3ria que s\u00f3 alguns viveram mas muitos procuram contar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Robert Forster<\/strong> (ex-Go Betweens)<\/p>\n<p><em>\u201cTower of song\u201d<\/em><\/p>\n<p>Muito estranho, o original. Fantasmag\u00f3rico. A voz do trovador a 16 r.p.m. Uma pianola desafinada no quarto dos brinquedos. Um balan\u00e7o dolente com refer\u00eancias a Hank Williams e ao \u201cvoodoo\u201d. Magia a que Forster retira a negritude, prescindindo dos mist\u00e9rios e filtrando a melodia por um \u201ccountry blues\u201d escorreito e poderoso. A virtude reside neste caso na tradu\u00e7\u00e3o radical de um tema fechado sobre si mesmo. E na diferente valoriza\u00e7\u00e3o de um texto imperme\u00e1vel a leituras redutoras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Peter Astor (ex-Weather Prophets)<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cTake this longing\u201d<\/em><\/p>\n<p>Clonagem razo\u00e1vel da voz de Leonard Cohen. \u00c0 volta tudo \u00e9 mais gelado, com guitarras milim\u00e9tricas soltas na imensid\u00e3o reverberada do arcanjo, penetrada, ao longe, pelos acentos e acenos de Heidi Berry. Importante: o esp\u00edrito n\u00e3o \u00e9 atrai\u00e7oado. Mesmo que os ritmos autom\u00e1ticos desempenhem metade da tarefa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Dead Famous People<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cTrue love leave no traces\u201d<\/em><\/p>\n<p>Anos 50 revisitados. Mem\u00f3rias de um tempo de beijos roubados ao crep\u00fasculo. De brilhantina, tran\u00e7as atrevidas e saias de euforia. De autom\u00f3veis berrantes e pranchas de \u201csurf\u201d quando o rock\u2019n\u2019roll n\u00e3o se envergonhava de ser meloso. De namoros iguais a Hollywood. De dias mais felizes. Um Cohen optimista numa hist\u00f3ria cujo \u201chappy end\u201d os Dead Famous People confundem com lantejoulas de casino. O \u00f3rg\u00e3o de coro e as vozes femininas n\u00e3o escondem os seus amores pelas praias cinzentas de Isabel Antenna. Inofensivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Bill Pritchard<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cI\u2019m your man\u201d<\/em><\/p>\n<p>Parece Lou Reed mas n\u00e3o \u00e9. Bill Pritchard, ent\u00e3o, como de costume, exagera. Swing arrastado, com simula\u00e7\u00e3o de violino e trompete \u201cmariachi\u201d sintetizados. Em todo o caso, um arranjo brilhante. Como se Pritchard se tivesse infiltrado no organismo de Cohen para melhor lhe sugar a alma e o sangue. Elegia do \u201ccrooner\u201d imortal, requintado, inteligente e eternamente sedutor. Afinal a mesma, outra, hist\u00f3ria de amor sempre por reinventar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Fatima Mansions<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cA singer must die\u201d<\/em><\/p>\n<p>Inusitada a forma como os Fatima Mansions, fazendo jus \u00e0 designa\u00e7\u00e3o que ostentam, retiram todo o peso \u00e0 can\u00e7\u00e3o, atirada para o alto por um vibrafone em levita\u00e7\u00e3o, enquanto a manivela do realejo acompanha cada volta da noite. Umas das surpresas agrad\u00e1veis do disco que deixa antever as salas mais escuras das \u201cmans\u00f5es de F\u00e1tima\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Nick Cave and the Bad Seeds<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cTower song\u201d<\/em><\/p>\n<p>Peixe abissal habituado \u00e0 escurid\u00e3o das profundidades (recorde-se a anterior vers\u00e3o de um tema de Cohen, \u201cAvalanche\u201d), Nick Cave faz o que quer da can\u00e7\u00e3o, massacrando-a at\u00e9 ao limite do suport\u00e1vel e obrigando-a a respirar ao seu pr\u00f3prio ritmo. Entre o grotesco e o sublime. Para Nick Cave, a m\u00fasica \u00e9 sin\u00f3nimo de carnificina e a trag\u00e9dia carnaval. Rock\u2019n\u2019roll descarnado, em chaga. Tal como Foetus. Ou Jim Morrison, com quem Cave aqui por vezes parece confundir-se num perturbante fen\u00f3meno de mimetismo. Sobretudo nos interl\u00fadios declamados a fazerem lembrar a litania tr\u00e1gica de \u201cThe end\u201d. Regress\u00e3o luxuriante \u00e0 matriz do rock, deixando um rasto de destrui\u00e7\u00e3o pelo caminho (incluindo a do \u00edcone Presley, uma pouco \u00e0 maneira par\u00f3dica dos Dread Zeppelin). A harmonia da dem\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>John Cale<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cHallelujah\u201d<\/em><\/p>\n<p>Almas g\u00e9meas, Cohen e Cale partilham as regi\u00f5es do despojamento e da desola\u00e7\u00e3o. No fim, falam com Deus. O \u201cespiritual\u201d salm\u00f3dico do primeiro descarna-se ainda mais, at\u00e9 nada restar, no segundo, sen\u00e3o o piano, a voz e a f\u00e9, nas palavras e na devo\u00e7\u00e3o ao \u201cLord of song\u201d a que os versos aludem. Cale fez o mais simples e o dif\u00edcil. Como diz a letra: \u201cN\u00e3o podia sentir, por isso tentei tocar.\u201d Tocou no \u00e2mago. Onde floresce a rosa, no centro da cruz.<\/p>\n<p>songs from a room &#8211; <a href=\"https:\/\/mega.co.nz\/#!ZgM1BIaC!u1BkIrriCVsKh6ZlJnMTRxh2HvIv_VSiyueY9dwWFQs\">aqui<\/a><\/p>\n<p><center><br \/>\n<iframe loading=\"lazy\" width=\"560\" height=\"315\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/08b7FrZsfls\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><br \/>\n<\/center><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pop Rock &nbsp; 25 SETEMBRO 1991 &nbsp; O HOMEM, A BANANA E OS F\u00c3S &nbsp; Em 1988, Leonard Cohen, ilustre representante da ala rom\u00e2ntico-depressiva da d\u00e9cada anterior, gravou um disco intitulado \u201cI\u2019m Your Man\u201d. Na capa aparece a segurar uma banana. Passados tr\u00eas anos, a Columbia, em colabora\u00e7\u00e3o com a revista francesa \u201cLes Inrockuptibles\u201d, re\u00fane [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[868,138,44,10,9],"tags":[539],"class_list":["post-3308","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos-1991","category-cantautor","category-pop","category-rock","category-singer-songwriter","tag-leonard-cohen"],"views":1931,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3308","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3308"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3308\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3310,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3308\/revisions\/3310"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3308"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3308"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.profelectro.info\/fm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3308"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}